O PS que faz falta

Quando Marcelo comunicou tonitruante na legislatura anterior que se o orçamento não fosse aprovado convocaria eleições, abria a possibilidade de Costa vir pedir a tal estabilidade, clamando para tanto por uma maioria absoluta.

Acreditando, ou indo na maré, o povo português deu ao PS o que ele pediu, atirando para trás das costas as experiências falhadas e de más consequências de anteriores com maiorias absolutas, sendo de referir que deixaram de existir por toda a Europa, salvo nos regimes mais ou menos autoritários.

Com maioria absoluta o PS, livre de constrangimentos, deixou instalar no seu interior uma nova camada social, os que recebem hipersalários, um novo tipo de burguesia endinheirada, e que nada tem a ver com o ideário social-democrata.

São os novos sacerdotes e sacerdotisas do luxo obsceno e que auferem na medida inversamente proporcional às medidas que tomam para castigar os trabalhadores que se julgam detentores de direitos inscritos nas leis da República e que ali estão eles para os desenganar e  mostrar quem realmente manda.

Graduaram-se em mestrados e doutoramentos de musculação contra a “indolente” população assalariada, tendo obtido valores máximos de classificação e garantido desse modo o acesso aos mais apetecíveis lugares do Olimpo dos grandes salários.

Foi a esta gente que o PS franqueou portas, nomeadamente no setor público para que de dentro o possam arrasar para depois entregarem por dez réis de mel coado aos privados, como bem está documentado na economia nacional nos últimos quarenta e tal anos.

A força desta estirpe é enfrentar qualquer ideia de modernidade baseada numa vida ancorada na dignidade humana; nada é mais importante que o lucro, o ser humano está ao serviço das expectativas dos superbilionários e, em última instância, o que deve determinar a economia é essa vocação para que o super-rico se torne ainda mais rico e que dessa montanha de dinheiro escorra para as bases algo que alimente os que se encontram na base da pirâmide.

O PS concorre com o PSD no recrutamento deste tipo de quadros para na sua lógica serventuária aplacar a fúria do grande capital.

Choca que um partido que se reclama da social-democracia, num país com mais de um quarto da população em situação de pobreza, com uma juventude sem esperança de ter habitação e emprego de acordo coma as suas qualificações, tenha em muitos dos seus quadros dirigentes o olhar perdido na vida fácil, a vidinha dos arranjinhos e de amiguinhos tendo entrado na política exatamente para subirem na vida.

A sua mediocridade é tão licenciosa e vivem numa realidade paralela que não são capazes de compreenderem que ao alegarem desconhecerem assuntos que se passam nos ministérios que tutelam os tornam indigentes mentais. Uma estirpe orientada para funcionar como uma guilhotina da esperança humana. É a crise em que está mergulhada a social-democracia e aquilo a que se pode chamar o centro-direita institucional.

A pretendida estabilidade que António Costa pediu para gerir a bazuca esvaiu-se pela incapacidade dos dirigentes socialistas de colocarem o governo ao serviço da resolução dos problemas mais inadiáveis dos portugueses. Como já se sabia a maioria absoluta é um modo de governar a pensar nos interesses partidários e individuais em detrimento da comunidade.

Quase ninguém sabe quem são os ministros apesar de muitos deles se arrastrem pelos ministérios há anos e ninguém ser capaz de se lembrar de algo de positivo que tenham feito.

Parecem terem sido escolhidos pela sua incapacidade e de viverem de notícias por si fabricadas e que os media aproveitam para dar sinal de que existem notícias. Um mundo paralelo fechado em si próprio que vai cavando um fosso mais profundo com a realidade.   

O PR transformou-se em fator de perturbação institucional jogando ao sabor daquilo que considerou na sua célebre viagem de automóvel para Viseu, o seu sonho de ver o PSD no governo com toda a direita. Perdeu-se no meio de tanta jigajoga. O que ele diz é sobretudo pasto para os media se alimentarem.

Costa que viu a sua popularidade subir em flecha com os acordos celebrados com o PCP e BE, enfrenta agora a rejeição de quase metade da população de acordo com as últimas sondagens.

Perdeu fulgor. Como escrevia o padre António Vieira acerca daqueles que se perdiam enganados no canto das sereias deixando-se levar pela corrente e perdendo-se ou em Cila ou em Caríbdis, como já sucedera a Ulisses antes de chegar a Ítaca. Bruxelas não é o Estreito de Messina e Lisboa é a cidade onde de nunca se deve sair para supostamente governar o que não se governará, pois não se sabe o que acontecerá à Europa dilacerada por guerra e interesses alheios a si e que a conduzem para a tragédia.

O certo é que o PS é imprescindível para uma alternativa a esta maioria descabelada, mas seguramente que só será com outro rumo, o rumo de Lisboa capital de um país que se torna urgente renascer de esperança e para todos.   

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Um pensamento sobre “O PS que faz falta

  1. Luciano Caetano da Rosa

    Bom artigo, mas algo complacente com o PS ou a social-democracia de direita que sempre tivemos em Portugal desde o 25 de Abril. Envergaram ao povo português duas camisas de força: a UE e a OTAN. E agora, que fazer ? Como nos livrarmos dessas duas forças ? Para além da clientela interna, como enfrentar essas duas pseudo-alianças de vassalos? Perguntar não ofende, vox populi…

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