A Crise na Coreia

Os Estados Unidos da América foram até hoje o único país que utilizou a arma nuclear. Há setenta e dois anos. Muito perto da Coreia. Em Hiroshima e Nagasaki, no Japão. Os dirigentes daquele país com o pretexto de obrigar o Japão a render-se exibiram perante o mundo serem detentores de uma arma de destruição massiva que mais ninguém tinha. Eram os senhores do mundo. Durou pouco tempo esse monopólio. A URSS também foi capaz de a produzir. Seguiram-se a França, a Inglaterra, a China. À revelia deste clube 5 a India, o Paquistão, Israel, a África do Sul e o Brasil entraram no clube. Com o fim do apartheid e a democratização do Brasil, ambos os países desfizeram-se daquelas armas, enquanto outros tentavam produzi-las, designadamente Iraque e Líbia.

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Fraticídio

Não há muito pudemos ver uma mulher aproximar-se de um homem numa fila do aeroporto internacional de Kuala Lumpur e colocar-lhe na cara algo que o levou à morte.

O homem que morreu era meio irmão do Presidente da Coreia do Norte.

Os irmãos, mesmo quando apenas filhos do mesmo pai, protegem-se e auxiliam-se uns aos outros. É o que se sabe. Pode acontecer não serem grandes amigos. Há, todos conhecem, casos de irmãos não se darem. É da vida.

Um Presidente da República de um país pode ter um irmão ou meio irmão de quem não seja amigo ou com quem não se dê bem por motivos vários, sobretudo se desconfiar que pode ter apoios no país vizinho.

Mas em pleno século XXI um Presidente da República ordenar a morte do seu meio irmão num outro país afetando, para tanto, meios químicos, só ao alcance do Estado, é algo que ultrapassa de um modo violento a normalidade de um Estado se relacionar com outros Estados.

E que pensar de um homem de pouco mais de trinta anos se relacionar com o familiar meio irmão um pouco mais idoso perpetrando o seu homicídio…

Talvez se possa imaginar, que se para assassinar o seu meio irmão é capaz de criar um problema gigantesco com a Malásia, a sua capacidade de aterrorizar a população da Coreia do Norte, que sendo uma República é dirigida como se fosse uma monarquia de há cinco ou seis séculos retratadas nas obras de William Shakespear, não deve ter limites.

Pobre coreanos cujo país tem bombas atómicas e um presidente capaz de fratricídio. No entanto não têm alimento, nem sossego.

 

Kim Jong Un Acredita numa Vitória Nuclear sobre os EUA?

O último teste nuclear da Coreia do Norte (09/09/2016) confirma a persistência daquele país em atar os dirigentes norte-coreanos à corrida ao armamento nuclear.

Escrevemos aqui no Chocalho em 07/01/2016, a propósito do ensaio nuclear da altura, que há mais países que detêm a arma nuclear para além dos cinco do Conselho de Segurança. Israel, India, Paquistão detêm a arma nuclear e não lhes foi imposta qualquer sanção e até hoje também não assinaram o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

Este Tratado tem na sua filosofia original a ideia do desarmamento nuclear quer na vertente vertical, quer horizontal, ou seja, desarmar os que já possuíam as armas, e nunca aceitar que outros viessem a ter.

O que está a suceder vai em sentido contrário. Os detentores das armas nucleares aumentam os seus arsenais ou substituem os existentes por outros muito mais sofisticados podendo com menos armas aumentar a sua capacidade destruidora.

Por outro lado há países que à margem do Tratado se equiparam com essas armas. Repare-se que nem os EUA, nem a China, nem a Rússia, nem a França, nem a Grã- Bretanha ergueram um simples dedo para condenar Israel por possuir a arma nuclear.

O Paquistão e a India estão também eles ao abrigo de sanções e campanhas por terem estas armas.

A Coreia do Norte, que se encontra numa situação delicada do ponto de vista económico e que teme os quarenta mil militares dos EUA na Coreia do Sul, vem apostando na possibilidade de vir a ter ou já possuir a arma nuclear, argumentando que por essa via poder ser considerada um interlocutor de peso na Península.

Trata-se de uma argumentação falaciosa na medida em que o uso de armas nucleares está fora de hipótese, salvo num cenário que levasse ao desaparecimento da Coreia por inteiro.

A Coreia do Sul, na sequência do ensaio, prometeu destruir a parte Norte, deixando-a em ruínas. O Norte prometeu o mesmo em relação ao Sul. É um jogo perigosíssimo que por maus cálculos ou até por eventual erro entre os contendores poderá levar o mundo à beira da catástrofe.

Os dirigentes norte-coreanos melhor andariam em trabalhar para a reunificação do país, artificialmente dividido, melhorando as condições de vida do povo e levando propostas de paz que criassem condições para um diálogo que fizesse descer a tensão.

OS EUA têm armas nucleares no Sul e quatro dezenas de milhares de soldados no terreno. Acredita o líder coreano que o conflito com o Sul e os EUA se resolverá por via nuclear? Só um louco acredita…

A retórica militarista destina-se a consumo interno para justificar o estado de pobreza daquele país e simultaneamente conseguir por via negocial obter  concessões económicas que ajudem a melhorar a situação no terreno. A Coreia do Norte sabe que a Coreia do Sul tem um nível de vida muito mais elevado; tentando fazer eventualmente da arma nuclear uma base para aceder a outras vantagens económicas.

Por outro lado a mensagem intimida a elite do regime e amarra-a ao carro da corrida às armas por parte do dirigente máximo, Kim Jong Un.

Ele tem o partido e as forças armadas na mão. Os que se opuseram foram eliminados.

Melhor seria trilhar outro caminho – o da unidade nacional forjada nos cidadãos com direitos e não súbditos de uma monarquia.

Ensaio Nuclear na Coreia do Norte Contra Quem?

O ensaio nuclear (bomba de hidrogénio?) da Coreia do Norte é um novo passo do líder coreano, neto do “grande líder” e filho do “querido líder”, para aprisionar os militares ao regime envolvendo-os nesta corrida ao armamento nuclear num país onde as raízes matam a fome aos camponeses famintos.

Com mais este passo no caminho da loucura absolutista Kim Zong Un pretende apresentar-se como um grande senhor da guerra, bem sabendo que nunca será com bombas atómicas que logrará a reunificação daquele milenar país dividido artificialmente depois da guerra da Coreia.

Kim Zong Un sabe que quanto mais longe for nos seus gestos de separação da Coreia do sul mais se resguarda de qualquer alteração ao sistema de poder dinástico.

Um país que se diz socialista nunca em circunstância alguma alardearia como pergaminho a capacidade de iniciar uma guerra com os vizinhos. Pelo contrário faria das propostas de paz e reunificação o estandarte distintivo do país por comparação com o sul repleto de dezenas de milhares de soldados dos EUA. Foram estas as melhores tradições do Vietnam e de outros países cuja orientação reclamada era a do socialismo.

Um pequeno país cheio de enormes problemas agravados por catástrofes naturais que infernizam a vida da população precisa de concentrar os seus meios no melhoramento da vida do povo e no seu desenvolvimento, o que não é a marca do novo líder que parece acreditar que quantos mais ensaios nucleares fizer mais força julga que terá; vã ilusão…

Os ensaios não vão esconder nem a natureza do regime, nem o temor por todos quantos rodeiam o líder, incluindo os mais próximos.

Aprisionando os outros dirigentes ao carro da retórica belicista o líder da Coreia do norte acredita que resolve a imensidão das contradições internas. Engana-se. Está a aumentar a revolta. É da história.

Há no mundo atual outros senhores da guerra que se chocam com os ensaios nucleares da Coreia do norte, mas não os incomoda a política de Israel que ocupa contra Resoluções do próprio Conselho de Segurança da ONU territórios palestinianos e que detém a arma nuclear. Sinais do mundo onde os poderosos desenham a legalidade a seu jeito.