Até que ponto Costa quer envolver Portugal na guerra da Ucrânia?

Costa na entrevista ao Público de 20/02/23 centrada na Europa e na guerra na Ucrânia por certo escolheu a ocasião e o conteúdo, tendo em conta o que se discute naquelas instâncias, entre aviões, anfiteatros, hotéis e grandes salas cheias de jornalistas. Como se constata, em Portugal, pouco se fala e menos se discute sobre o atual funcionamento da U.E. e o seu destino.

 Costa assume um orgulho de ter sido Portugal e a Alemanha os únicos que se chegaram à frente para enviar para a Ucrânia os Leopard 2 modelo A6.

Portugal está hoje no quadro da NATO na Roménia e na Lituânia, junto das fronteiras da Rússia, sublinhou. Acha muito bem que os orçamentos da chamada Defesa subam para 2%. Esclarece que quando os portugueses chegam às caixas dos supermercados e sentem a inflação não se lembram de Putin, mas sim dele. Não esclareceu porque há tantos milhões para a indústria da morte e não há para pagar o tempo de desconto congelado dos professores e para aumentar os salários baixos da imensa maioria da população, incluindo da Função Pública.

Passa em revista o que se discute na U.E. sobre os alargamentos da Ucrânia e dos Balcãs e assumindo-se (com o que ainda não é) explica “…É mais fácil para mim tornar-se o campeão das adesões e depois daqui a sete anos alguém vai dizer a culpa é daquele irresponsável que tomou decisões sem ter isso em conta…” Aparentemente Costa chega-se à frente quanto a quem tem a capacidade de decidir e parece que não quer ser julgado como sendo o campeão das adesões, mas a verdade é que dá a sentença.

No seu entendimento Putin teve várias derrotas estratégicas: uniu a Ucrânia, reforçou a coesão da U.E e revitalizou a NATO. Com base nestes dados e na grosseira violação do direito internacional, a Rússia tem de ser derrotada militarmente, só essa derrota pode evitar o que chama a via eterna para um conflito; não deixando de fazer uma crítica implícita aos defensores de uma defesa autónoma da Europa apontando sem reservas à articulação com a NATO, o Reino Unido e os EUA.

Naturalmente que neste contexto atlantista/militarista teria de aparecer um rasgado elogio na Durão Barroso…”, o tal que ofereceu a George W.Bush, a Blair, e a Aznar os Açores para mentirem ao mundo e desencadearem uma invasão e uma guerra que causou centenas de milhares de mortos e nenhum deles até hoje foi levado a qualquer Tribunal Penal Internacional. Para enforcarem Hussein não hesitaram em lançar aqueles países e depois a pacifista NATO naquela louca aventura belicista. Na altura a Europa tinha gente com dignidade e nem Chirac, nem Schröder, nem Soares alinharem na aventura pintada com o monumental embuste das armas de destruição massiva, por acaso já utilizadas pelos EUA em Hiroshima, Nagasaki e no Vietnam com armas químicas. Percebe-se também o ditirambo a Barroso, se calhar vai precisar dos seus correligionários.

Há dois patamares nesta entrevista, um óbvio – Costa em termos da guerra na Ucrânia está perfeitamente sintonizado com toda a direita e com a política imperial dos EUA. Costa vai mais longe, a sintonia é feita ainda com a recalcitrante política externa do Reino Unido que só tem o militarismo para se apresentar em grande perante o mundo; aliás Macron segue as mesmas pisadas, apenas com mais savoir-faire, dado que a sensibilidade do psicadélico Johnson e do multibilionário Rishi Sunak é próxima da nulidade.

 O nosso António em bicos de pés não hesita criticar do alto da estatura de político com futuro atacar os hesitantes que mesmo timidamente se afastam do Great Uncle Sam e ousam pensar em autonomia europeia, renegando tais ideias perigosas para a tal derrota militar da Rússia.

O outro patamar está longe de Lisboa e Costa fala para os seus pares (já deve ter encarregado os seus assessores de ter enviado cópia da entrevista para Bruxelas e arredores) mostrando que podem contar a cem por cento para a tal derrota.

O que Costa tem para oferecer aos portugueses em termos de propostas para a guerra da Ucrânia é tão só isto: tanques Leopard 2 que à exceção da Alemanha mais ninguém enviou, mais armas, soldados para a Roménia e Lituânia ao serviço da política militarista de cerco à Rússia. Imaginemos o que aconteceria ao mundo se a China ou a Rússia tivessem ao longo das fronteiras com os EUA países com armamento nuclear chinês ou russo.

E não passa disto, a guerra, segundo o Marechal Costa, durará enquanto a Rússia não for derrotada, o que vale por dizer que se a Rússia não for derrotada nos próximos anos a guerra e os seus horrores diretos e indiretos prosseguirá. Ou seja, a guerra é para continuar.

Quando ele afirma que este é o consenso dos portugueses fica o repto, querem os portugueses que o seu governo os envolva numa guerra pelos vistos sem fim, enviando armamento e homens para as fronteiras da guerra? Se é até à derrota da Rússia, tal cenário admite o cenário de tropas europeias e de Portugal entrar no conflito? Costa, agora Marechal da EU/NATO, tem o dever de esclarecer.

Costa, além de não se importar das consequências deste grau de envolvimento de Portugal na guerra, vira as costas aos dirigentes dos PALOP e fica bem amarrado ao eixo Washington/Bruxelas. Um socialista convertido ao militarismo. Tira-se-lhe o chapéu pela frontalidade. A sua alma já não está em Lisboa.

MALDITOS SEJAM OS DONOS DA GUERRA

A invasão da Ucrânia pela Rússia criou na Europa uma situação extremamente perigosa. Seguramente já foram mortos centenas de milhares de ucranianos e russos, sem falar nos refugiados e da destruição da Ucrânia. Por outro lado, a perceção da guerra entre o invasor e o invadido diluiu-se para emergir uma guerra entre a Rússia e os EUA/OTAN/U.E. Assim o quiseram os ocidentais com a Sra. Ursula à frente.

Zelenskii cumpre bem o seu papel reclamando mais armamento para obter a vitória ou responsabilizar o Ocidente pela sua eventual derrota.

De um outro ângulo, há quem clame contra a redefinição de fronteiras (o que em abstrato estaria certo) e esquece o recente desmembramento levado a cabo da Jugoslávia e a sua ulterior alteração das fronteiras agravada com a criação totalmente artificial do Kosovo.  Então, os EUA não pretendem impor a alteração das fronteiras da China? A ONU só reconhece a existência de uma China. Fala-se, por outro lado, de crimes de guerra (e bem) e por que se esquece os dois maiores crimes de guerra de todo o sempre, os bombardeamentos atómicos de Hiroshima e Nagasaki?

Soube-se recentemente, através das declarações de Merkl , Hollande, Poroshenko, ex-Presidente da Ucrânia, que os Acordos de Minsk serviram apenas para os EUA/OTAN ganharem tempo e rearmarem o exército ucraniano a fim de empurrarem para a Rússia os falantes de língua russa.

De seguida o pedido de adesão da Ucrânia à OTAN colocou em cima da mesa a segurança russa, como era de esperar. Claro que a Ucrânia é livre de pedir o que entender, mas toda a gente sabe que o mesmo se passou com Cuba. É bom ter presente que Reagan declarou que jamais aceitaria uma base militar soviética na Nicarágua.

Os dados são claros: a Rússia não aceita sair da Ucrânia sem os territórios ocupados onde se encontra a população de fala russa e o Ocidente repudia esse objetivo. Tal significa que a guerra vai continuar e provavelmente com maior intensidade.

Por que não negociar e apresentar de parte a parte cedências dignas e que impeçam este abismo dos donos da guerra? Quem se apresenta com uma única saída, a derrota da outra parte, sabe que tal não vai ser possível.  Quem defende que é preciso derrotar militarmente a Rússia e dado que a Ucrânia por si só não é capaz de o fazer tem de responder a esta questão: Os problemas entre a Ucrânia e a Rússia valem uma guerra mundial? Os ditos valores da Ucrânia são de um Presidente com milhões em offshores e perseguições aos adversários políticos de um regime de oligarcas. Isto vale uma guerra entre a OTAN e a Rússia? Os interesses de Zelenskii e a sua entourage de oligarcas encartados não pode determinar o destino do mundo. Krutchov retirou os mísseis de Cuba e, no entanto, aquele país não se importava de os ter.

Acresce que ser a primeira vez que uma guerra desta dimensão não gera um estremecimento na opinião pública. Os europeus baixam a cabeça e seguem a enxurrada comunicacional; tudo parece não passar de uma espécie de jogos de guerra, o comunicacional vai substituindo a realidade crua da guerra. A morte de centenas de milhares de gente nova entrou na normalidade. Aqui ou na Palestina de que se não fala, apesar da ocupação militar israelita. Parece que de alienação em alienação segue o cortejo do entretenimento como se a Humanidade fosse um bando de carneiros a caminho do precipício, sem olhar para o seu semelhante. Refira-se que no Livro dos Mortos do Egito (1470 A.C.) era pecado/falta muito grave, que podia levar à desintegração da alma do morto, não ter sido solidário com os outros homens e já passaram quase quatro mil anos.

 O mundo não parece inquietar-se quando os generais dos EUA falam da guerra com a China em 2025 pelo simples facto da China ter ido a jogo, aderindo à Organização de Comércio Mundial, e estar a passar a perna aos EUA.

A financeirização da vida económica leva a uma competição infernal, uma guerra de todos contra todos, o regresso ao homo homini lupus. E aí está a guerra como normal.

O governo de Portugal decidiu mandar arranjar e entregar à Ucrânia três tanques Leopard 2 em vez de juntar a sua voz à dos países da CPLP, com o Brasil à frente (recusou tanques para a Alemanha enviar para a Ucrânia) que insistem com outros na busca da paz. Costa fez muito mal. Fazem falta as vozes dos pacifistas que não se deixam confundir com a política de Putin, nem se deixam intimidar por defender a paz contra a decisão militar. Vozes que amaldiçoem a guerra em defesa dos chamados interesses vitais dos EUA/OTAN/RÚSSIA/CHINA/ISRAEL etc.  Vozes livres. Vozes da paz. Malditos donos da guerra.

Fincado no silêncio da luz nascente oiço os sons da mãe Natureza. Fincado na luz que tudo desvela, nesta solidão contemplativa, à espera da mais antiga alegria, a do estremecimento diante da beleza. Então regresso para dentro de mim.

Fincado no silêncio da luz nascente oiço os sons da mãe Natureza. Fincado na luz que tudo desvela, nesta solidão contemplativa, à espera da mais antiga alegria, a do estremecimento diante da beleza. Então regresso para dentro de mim

Homo raris mentirosus, o sr. Boris Johnson

O cavalheiro já foi primeiro-ministro durante uns anitos. Ficou famoso por não ter consciência que em plena pandemia, apesar de ter imposto o confinamento aos cidadãos do Reino Unidos, e ter participado com o seu gabinete e afins em diversas festas nos jardins da Downing Street. Era tempo de festejos para o senhor Boris e de inconsciência, segundo as suas próprias palavras, pois pensava que podia festejar com dezenas de participantes enquanto por sua ordem ninguém podia sair de casa.

O senhor foi-se. Já não servia. Porém, admitimos sem grande problema, que de acordo com a sua natureza ele tem de dar nas vistas, nem que tenha de puxar pela memória e descobrir um míssil, ou “algo do género”, para o aniquilar, esquecendo que o senhor é ele próprio um especialista em hara-kiri, tão espampanante é o seu desassombro e a sua inconstância.

Convenhamos que esta coisa de Vladimir Putin, czar de todas as Rússias, durante uma longa conversação telefónica ter ameaçado o senhor Boris com um míssil ou” coisa do género”, é em termos de criatividade o superlativo absoluto; só ele, o senhor Boris.

O problema desta revelação extraordinária vem na senda dos serviços secretos ingleses terem descoberto que em março/abril de 2022 os russos não tinham combustível para os tanques e padeciam de falta de espingardas ou eram do tempo dos Romanov.

Uma alma normal, não daquelas almas mortas do russo imortal- Gogol- não tem este dom; só uma alminha faminta de aparecer depois da morte política se lembraria que o tal czar o mataria enviando um míssil…

Mas ele disse aquilo ou “coisa do género” a sério e os media papaguearam esta insanidade como se fora uma realidade, sem sequer pensar na execução do plano de com o tal míssil ou com a tal “coisa do género”.

Vivemos um tempo de menoridade mental. Pensam os de cima e os seus sacerdotes que lhes basta ter a possibilidade de dar curso a estes delírios para que esta ordem tresloucada siga a marcha.

O senhor Boris é um magnífico exemplar deste mundo. Quando o descobrirem daqui a uns milhares de anos vão guardá-lo ou “coisa do género” – Homo raris mentirosus, escreverão na placa.

Tempo dos homens e mulheres sapiens acordarem para acabar a guerra

Por mais voltas que o mundo dê a Rússia é um país europeu cujas fronteiras se estendem ao Extremo-Oriente. Não se pode falar de cultura europeia sem ter em conta o contributo que a Rússia deu para que ela seja o que é. Antes da revolução socialista de Outubro a Rússia era um império. Depois da implosão do socialismo soviético a Rússia, contra o que foi acordado com os EUA, viu-se cercada pela OTAN com a entrada para esta organização político-militar dos países do Pacto de Varsóvia quase todos com fronteira com a Rússia.

Os EUA é um país americano fundado nos finais do século XXVII por europeus imigrados ou fugidos da Europa. A sua grandeza também assentou na chacina dos autóctones. Criou um império que tenta impor ao mundo através da sua liderança.  

A invasão da Ucrânia, violação flagrante e grosseira do direito internacional, acontece no seguimento do anunciado pedido da Ucrânia para aderir à OTAN e depois da reorganização das suas Forças Armadas e da política de perseguição às minorias russas nos territórios da Crimeia, Dombass e Lugansk. Como se sabe e se parece ignorar a Crimeia é russa como prova a luta contra a tentativa de islamização turca no tempo da imperatriz Catarina.

Para se ter uma ideia mais precisa do que está em jogo para a Rússia, imaginemos no campo oposto o Canadá ou o México passarem a ter armas nucleares da Rússia; ninguém com sentido realista acha que isso é possível porque os EUA não o permitiriam como não permitiram a Cuba no início da década de 60, quando a URSS aí estacionou misseis nucleares e os que hoje acham que os ucranianos são livres de aderirem à OTAN na altura da crise dos misseis achavam que Cuba nunca poderia ter misseis soviéticos.

A guerra na Ucrânia é hoje um desafio à paz mundial, pois assumiu proporções de um enfrentamento da Rússia com todo o Ocidente através do chamado Grupo de contacto que reúne mais de cinquenta países.

A U.E. apagou-se e através de von Leyen (parece a Ministra dos Negócios Estrangeiros dos EUA) afirma-se como uma organização sem qualquer visão própria, independente e sem uma estratégia que dê aos europeus uma conceção que os impeça de sofrer uma nova guerra mundial no seu terreno. É decisivo que quem dirige a U.E. o faça no pressuposto da defesa da Europa, dado que este continente vai de Portugal aos Montes Urais.

Não creio ser possível que sem uma segurança para todos os Estados haja segurança efetiva no continente. Esta realidade implica uma persistente política negocial em que o conflito na Europa não seja uma espécie de arredar a própria Europa do seu peso próprio no  mundo e ainda um preâmbulo desejado para um conflito mais global com a China.

Uma guerra entre europeus, minando as suas bases de crescimento e desenvolvimento e destruindo os países envolvidos deixa os EUA mais líderes para ser great agaiand again , como é também o desígnio de Biden e não apenas de Trump. Os EUA não tratam bem os seus concorrentes sejam eles quem forem.

O embarque da U.E. no navio de guerra dos EUA é um grave erro estratégico que lançará a divisão na Europa, como aliás aconteceu na invasão do Iraque em que Bush e seus capangas falavam contra a velha Europa (França e Alemanha sobretudo) e a favor da nova Europa que incluía os bálticos e a Polónia e o sempre rastejantes Reino Unido, Portugal e a Espanha. Os EUA sempre tiveram os seus aliados preferenciais para dividir a Europa, sobressaindo entre todos eles o Reino Unido.

A invasão da Ucrânia só pode ser condenada, mas hoje o conflito já está para além da invasão da Ucrânia. É hoje um conflito entre a OTAN e a Rússia através dos ucranianos, sendo que neste papel Zelenskii está disponível a combater até ao último soldado e até ao último tanque seja ele qual for e de onde venha.

É curioso sublinhar que o Reino Unido a braços com uma crise social, económica e político digna de respeito tente encobri-la com a loucura dos gastos armamentistas para onde não faltam recursos que inexistem para o SNS. O mesmo se passando na França onde a austeridade governa, mas prossegue a corrida às armas. Por cá não há dinheiro para os professores, os funcionários públicos, os enfermeiros e os médicos, mas há para enviar armamento para continuar a guerra.

A estratégia da U.E. é prosseguir a política de sanções mostrando ao mundo a sua total parcialidade comparada com outras brutais violações do direito internacional como foi o caso da invasão do Iraque e é a ocupação dos territórios palestinianos por Israel.

A grande questão que se coloca é esta: a Ucrânia com o apoio da OTAN pode derrotar a Rússia? A esmagadora maioria dos comentadores, lendo quase todos pela mesma cartilha acha que sim, mesmo com a evidente destruição da Ucrânia e as muitas dezenas de milhares de mortos ucranianos até agora.

Charles Michel, Borrel e Cª prometem o que sabem ser impossível. Os EUA apesar de todo o poderio já não conseguem arrebanhar o mundo e confundem o mundo com o soi disant Ocidente.

A Rússia continua a vender petróleo e os seus recursos. A Europa está a recomprar a terceiros a preços mais elevados.

O que parece ser o objetivo dos EUA porque Zelenskii conta pouco(a não ser para pedir tanques) é criar uma guerra de permanente confronto na Ucrânia, tal como existe na Coreia, e fazer exaurir os europeus neste beco sem saída.

Nesta lógica haveria um estado de guerra permanente neste continente a quem os EUA venderiam armas e poder-se-iam preparar para o tal confronto com o que chamam de verdadeiro inimigo, a China. E porquê? Porque a China está a crescer e a desenvolver-se e esse é o pânico dos EUA. Afinal a cantilena liberal do comércio livre só vale quando são os EUA e o Ocidente a ganhar porque se o engenho, a capacidade do povo chinês prevalecer aqui d´el rei que o mundo livre está ameaçado.

Com a guerra na Ucrânia rebentam com a Europa e depois logo verão com a China. Mas convém olhar para o mundo tal como ele é – o Brasil, o Paquistão, o Irão, a África do Sul, o México e todo o imenso Sul que não reconhece aos EUA autoridade nem legitimidade para impor o seu way of life.

Noutro enfoque é de referir o facto da invasão da Ucrânia pela Rússia não ter até agora mobilizado as opiniões públicas.

Enquanto a invasão e ocupação do Iraque por parte dos EUA, Reino Unido e Espanha fez milhões de seres humanos saírem à rua desde a Nova Zelândia à Europa para protestarem, a verdade é que esta guerra em solo europeu não tem mobilizado as opiniões públicas.

As pessoas são bombardeadas todos os dias com a derrota iminente da Rússia e já lá vão nove pacotes de sanções e vem mais o décimo e que atingem aquele país e também os europeus e mais os tanques que vão chegar e os Patriot e os Himmars.

A Rússia irá ser parte constituinte da Europa, como sempre, por muito que alguns dirigentes ucranianos neonazis proíbam nomes de escritores russos ou lancem no lixo estátuas de cientistas e músicos russos.

A guerra continuará o seu curso com a U.E. cada vez mais envolvida com a OTAN. Haverá sempre dinheiro para a industria da morte que faltará para melhorar a vida dos cidadãos brutalmente atingidos pela inflação não só provocada pela guerra como por puro oportunismo dos grandes grupos económicos.

A guerra continuará a matar sobretudo europeus e a alimentar o complexo industrial-militar dos EUA que não tem mãos a medir para encher os bolsos e os cemitérios. Na Rússia o povo enfrentará dificuldades acrescidas e muitos soldados morrerão.

É difícil aceitar que os povos europeus se resignem a esta mortandade e continuem impassíveis a seguir a vida dos seus jogadores de futebol preferidos e em vez de pensar muitos uivam nas redes sociais espalhando ódios que se criam arrumados no caixote de lixo da História.

Não se sente o menor estremecimento por tanta morte e por tanto perigo. Os povos entre as dificuldades e a alienação chutam para o lado mais fácil, vociferam, mas aferroam-se ao individualismo de uma sociedade em que os media moldam à sua maneira inundando as mentes com enxurradas comunicacionais desligadas de qualquer sentido que não seja a emoção primária. Eles pensam por nós. O mundo é um lugar perigoso. Não se pode confiar em ninguém. A guerra que se lixe. Vem aí os russos, fazendo tábua rasa que foi na Rússia que caíram os invasores muçulmanos, bonapartistas e nazis.

Este é o clima atual que se apresenta difícil de mudar. Mas também é este o momento para levantar a voz contra a guerra lutando por uma solução que dê garantias de segurança à Rússia, à Ucrânia e a todos os Estados vizinhos. Convocar o passado é convocar o Diabo e para Inferno já basta o que se passa na Ucrânia.

Se a guerra terminar com a vitória de um dos lados tudo vai ser mais difícil no futuro porque os dias não acabam, salvo se a loucura tomar as rédeas dos dirigentes da Rússia e da OTAN. Então a esperança desaparecerá. Por isso é tempo de os que se prezam de serem sapiens se levantarem.

Os pintores de canos e o que o teatro é capaz de pintar na Barraca

O mundo tem lugares nada aconselháveis, muitas vezes invisíveis, outros para onde não queremos olhar para podermos continuar a fazer de conta, mas felizmente não só há luar, como também há o teatro que nos ilumina, que nos fustiga, que nos remete à nossa condição de humanos, sim, nem sempre parece, mas há dezenas de milhares de anos que o somos.

Tirésias, cego e adivinho, no Rei Édipo de Sófocles, diz a certa altura… Tudo o que tem de suceder sucederá… A verdade é que mal abre o pano de cena e assistimos ao primeiro diálogo do chefe daquele mundo infernal de canos e escuridão fica claro que algo iria suceder.

Uma perceção com que Adérito Lopes nos quis confrontar fazendo sentir que aquele mundo existe e que lá no topo, a milhares de degraus acima do reino da escuridão em que os pintores pintam, há o Conselho de Administração.

E quando chega o novo pintor, quase podia ser filho do operário que já lá trabalhava, mais evidente se torna o vaticínio do velho Tirésias.

O candidato a pintor acha que não nasceu para aquilo, mas é “aquilo” o que tem à mão. Cedo dá conta que aquele mundo é insuportável, o que não tem o apoio do mais velho que há dezenas de anos pinta de vermelho o que é vermelho, azul o que é azul e cinza o que é cinza. E que pintando e responsabilizando-se por aquele mundo de centenas de quilómetros de anos terá dinheiro para chegar a casa e pagar as despesas nem que seja à risca quando a renda da casa aumenta.

Entre eles surge um conflito cuja origem reside no sentido da responsabilidade do mais velho em respeitar as cores dos canos dado o facto do camarada ter pintado de cinza o vermelho, o que lhe estava vedado pelas suas instruções dos superiores.

 Entre o mundo da segurança do emprego cumprindo com todos os encargos dos chefes e a irreverência do mais novo explodem várias disputas, sendo que por detrás delas subjaz invisível algo que os une. Algo que não é nunca explícito, mas que paira no mundo daqueles dois operários.

O mais novo tem outros horizontes entre eles descobre o da fotografia. O mais velho não resiste e pede-lhe uma fotografia dos dois; só que o camarada ainda não tem a máquina fotográfica.

O mais velho tem três filhos, segundo ele todos bem colocados e o mais novo não quer casar, o que não é compreendido pelo mais velho que tenta explicar ao outro que chegar a casa e ter a mesa posta e uma televisão com acesso aos jogos de futebol. A alienação que ainda não penetrara no mais novo.

Quando ambos estão finalmente ligados pelos laços da classe de pintores de canos sucede o que desde o primeiro vislumbre da cena se perscruta. Naquele mundo de feroz exploração acontece uma fuga de gás com consequências terríveis.

O teatro tem isto: põe-nos pensar e o simples ato de pensar num mundo anestesiante de canos e mais canos por onde nos perdemos e também a nossa própria humanidade.

 Os dois pintores acabam partilhando o seu infortúnio, unidos nos sentimentos de amizade que o trabalho lhes transmite, ultrapassando as contingências pessoais.

Por Adérito Lopes ter dedicado a encenação da peça ao Helder Costa, aqui fica um abraço para o renitente pintor de um mundo melhor.

Doce submissão

A invenção do telemóvel constituiu uma das grandes vitórias da tecnologia que veio a revolucionar a vida dos humanos. “Impôs” o contacto permanente, até, por vezes, a guardar ovelhas ou na casa de banho.

O salto tecnológico do telemóvel para o smartphone estabeleceu um novo degrau na conectividade e na desmaterialização do mundo.

A relação com a nova tecnologia tornou-se numa espécie de entrada num túnel cuja itinerância conduz a um mundo onde tudo está mais à distância de um clique. É fascinante e viciante.

O visor prende o nosso olhar que se deixa submissamente apresar. Há o nosso olhar, mas do outro lado não há olhos.

Os humanos das cidades vivem em parte numa realidade paralela; quantos mexeram na terra que tudo cria? O pôr do sol está na galeria das fotos sem a densidade do real. Tudo está à mão do dedo.

O smartphone é, neste contexto, um dos instrumentos tecnológicos mais paradigmáticos do nosso tempo. A panóplia de finalidades é infindável. Lá está tudo – o livro, a televisão, a rede onde se trabalha, o jornal, o sistema de localização e de orientação; não é preciso perguntar a quem que que seja onde fica a tal ou tal rua ou onde fica o estabelecimento x ou y; os outros podem ser dispensados.

O smartphone tira fotografias como uma máquina fotográfica e armazena-as. A vida inteira lembrará onde foram tiradas e convidá-lo-á a opinar sobre o que representam.

A sua perenidade está para além do papel da fotografia a qual era exibida aos amigos após as viagens a sítios raros como as viagens no início dos anos 70 a certas cidades de culto, entre outras a inesquecível Fez.  Passavam de mão em mão e permitiam nesse gesto um nunca mais acabar de opiniões sobre o que se via e o que não se via.

 O smartphone reencaminha fotos e quem as recebe olha-as sem a festa de um encontro. Permite que se reaja com likes ou comentários, mas sem a presença de ninguém. Além do mais, sabe tudo. Diz-nos de ciência segura quem faz anos e até nos lembra eventos passados e que “ele” pensa terem sido importantes para quem os viveu, substituindo a nossa sempre problemática memória. Consegue responder antes de começarmos a pensar.

O poeta José Gomes Ferreira escreveu muitos poemas a partir do que via nos “elétricos”. Olhava e via –… Uma mulher de carne azul, semeadora de luas e transes atravessou o vidro e veio voadora sentar-se ao meu colo…Mas que bom! Ninguém suspeita que levo uma mulher nua nos meus joelhos… página 10, Num carro para Campolide, Dia sexual, in Poesia III.

Nos transportes públicos homens e mulheres estão literalmente curvados olhando os visores dos smartphones. Procuram fotos, vídeos, notícias que são intermináveis porque o algoritmo sabe o que cada um busca. A necessidade de responder a estes múltiplos estímulos faz-nos ser seres que perdem a amplitude dos 360 graus que a nossa cabeça, pescoço, tronco, pés e olhos nos permitem.

O olhar centrado no visor fecha o horizonte. O ecrã é demasiado pequeno e pobre comparado com a realidade. Ajuda a conduzir ao enclausuramento da mente num mundo paralelo ao real. Há uma submissão anestesiada que nos afasta do mundo real dos humanos e da Natureza.

Passou a existir uma relação quase indispensável entre o smartphone e o seu dono, tornou-se num prolongamento do corpo humano. É ver a ansiedade com que se ligam os smartphones a seguir à aterragem dos voos de avião para voltar ao mundo e deixar o limbo onde não se existe.

O smartphone não dorme nunca, está em permanente vigília e à espera que o seu portador atente no que tem para lhe exibir. É a antítese do silêncio. Projeta enxurradas comunicacionais para interpelar o possuidor.

O homo tecnologicus não é despertado pelas alegrias ou pelos problemas dos seus concidadãos, vive de estímulos e de assuntos que não o obrigam a pensar. O seu tempo é um tempo fora do tempo.

 Neste mundo cada vez mais narcisista e marcado por um alucinante individualismo, fruto de um neoliberalismo sem alma de que o smartphone é também expressão, a rebeldia está sendo substituída pela doce submissão ao mundo tecnológico. Ou a rebeldia é inerente aos humanos e o que é passageiro passa?

https://www.publico.pt/2023/01/18/opiniao/opiniao/doce-submissao-2035476

Ronaldo morreu no céu da Arábia. O Evangelho segundo Lucas 4.7

Então o diabo levou – o ao alto do monte e mostrou-lhe todos os reinos do mundo. Depois disse-lhe: “Todos estes magníficos reinos e sua glória serão teus porque eles me foram dados e posso dá-los a quem eu quiser, se tão somente … me adorares”. Lucas 4.7

Lá bem no alto do céu, no interior do luxuoso avião, enviado pelo superpoderoso dono do Al- Nassr, Ronaldo voou em requintada opulência entre prateados e dourados, a caminho do clube que lhe pagará até 2025 quinhentos milhões de euros para jogar futebol. O poder do dinheiro tinha convencido o homem que não queria jogar no United porque achava o clube pouco competitivo.

No estádio do novo clube disse que ia mudar a Arábia Saudita. Não se pode levar a mal que o tenha dito porque é muito provável que no mundo onde vive não faça grande ideia o tipo de vida que se “vive” no Reino da Casa Saud. Apesar de tudo, Ronaldo vive entre a garagem dos seus luxuosos carros e os relvados. O mundo é algo inimaginável para além dos Rool Royce e dos Bugatti e dos Martin e outros.

Vive num condomínio de luxo onde não entra a Polícia que zela pelos costumes (a mutaween), que previne o vício e promove a moralidade, isto é, e zela pela manutenção de um obscurantismo de tipo medieval e pela aplicação da sharia. Tem voluntários que vigiam as ruas do país para confirmar se são cumpridos os códigos ligados ao vestuário e se são rezadas as orações.

Tem poderes para prender quem não cumprir as regras sexuais do Reino e quem consuma álcool; a paranoia chega ao ponto de proibir a compra de prendas no Dia dos Namorados. No reino onde jogará Ronaldo namorar é pecado. Ali os progenitores escolhem os noivos que se casam.

 Provavelmente a namorada de Ronaldo dentro do condomínio não terá de usar o hijab e por ser mulher de quem talvez possa ir ao hospital e viajar sem a autorização de Ronaldo. E nem sequer terá de casar. Basta ser a namorada de quem é.

Porém, talvez aconteça que se ficar doente e tiver de ser sujeita a uma intervenção cirúrgica não seja Cristiano a decidir se é ou não operada.

Pode ser que Georgina possa conduzir, mas as mulheres podendo agora tirar carta de condução não encontram escolas que as recebam e sofrem pressões dos familiares para não conduzirem.

Acresce que as mulheres dos homens poderosos ou ricos não precisam de conduzir, pois têm inúmeros condutores, mas nunca conhecerão quanto pode ser agradável e excitante conduzir um veículo automóvel. Exatamente porque são consideradas seres inferiores, em tribunal o seu depoimento vale metade da de um homem, na sucessão recebem metade.

As mulheres doentes não podem ser examinadas por homens. Não se podem ausentar sem autorização do marido ou tutor que pode ser um rapaz bem mais novo. E na rua sempre acompanhadas por um homem que vai à frente.

Tanto quanto se sabe Cristiano é católico; se ele quiser ir a uma igreja será em vão, pois na Arábia Saudita só há mesquitas. A Arábia Saudita pode contribuir com fundos para construir mesquita, como é o caso da de Lisboa. No seu país não é permitido a prática de qualquer outra religião.

A Arábia Saudita de acordo com a chamada lei islâmica wahabaista aplica a pena de morte maioritariamente com a decapitação por sabre. Nem assim deixou de haver criminosos.

A Arábia Saudita sempre teve desígnios de integrar grande parte do milenar Iémen no seu território e leva a cabo uma guerra de pavor, destruição e morte naquele país que só não é notícia porque o Ocidente ficou com a visão turva e não consegue ver mais nenhuma outra guerra que não seja a da Ucrânia.

A Palestina e o Iémen não existem, nem tão pouco a Resolução do Conselho de Segurança da ONU sobre o Sahara Ocidental.

Cristiano Ronaldo tem à sua disposição três restaurantes privados e premiados onde ninguém entrará. Terá acesso a cinco carros, um supermercado privado e uma loja com acesso exclusivo, dois ginásios, dois campos de futebol e dois ginásios totalmente equipados.

Ronaldo já está no Céu; morreu, tudo porque lhe estava destinado adorar o seu Deus, conforme Lucas 4,7.