Doce submissão

A invenção do telemóvel constituiu uma das grandes vitórias da tecnologia que veio a revolucionar a vida dos humanos. “Impôs” o contacto permanente, até, por vezes, a guardar ovelhas ou na casa de banho.

O salto tecnológico do telemóvel para o smartphone estabeleceu um novo degrau na conectividade e na desmaterialização do mundo.

A relação com a nova tecnologia tornou-se numa espécie de entrada num túnel cuja itinerância conduz a um mundo onde tudo está mais à distância de um clique. É fascinante e viciante.

O visor prende o nosso olhar que se deixa submissamente apresar. Há o nosso olhar, mas do outro lado não há olhos.

Os humanos das cidades vivem em parte numa realidade paralela; quantos mexeram na terra que tudo cria? O pôr do sol está na galeria das fotos sem a densidade do real. Tudo está à mão do dedo.

O smartphone é, neste contexto, um dos instrumentos tecnológicos mais paradigmáticos do nosso tempo. A panóplia de finalidades é infindável. Lá está tudo – o livro, a televisão, a rede onde se trabalha, o jornal, o sistema de localização e de orientação; não é preciso perguntar a quem que que seja onde fica a tal ou tal rua ou onde fica o estabelecimento x ou y; os outros podem ser dispensados.

O smartphone tira fotografias como uma máquina fotográfica e armazena-as. A vida inteira lembrará onde foram tiradas e convidá-lo-á a opinar sobre o que representam.

A sua perenidade está para além do papel da fotografia a qual era exibida aos amigos após as viagens a sítios raros como as viagens no início dos anos 70 a certas cidades de culto, entre outras a inesquecível Fez.  Passavam de mão em mão e permitiam nesse gesto um nunca mais acabar de opiniões sobre o que se via e o que não se via.

 O smartphone reencaminha fotos e quem as recebe olha-as sem a festa de um encontro. Permite que se reaja com likes ou comentários, mas sem a presença de ninguém. Além do mais, sabe tudo. Diz-nos de ciência segura quem faz anos e até nos lembra eventos passados e que “ele” pensa terem sido importantes para quem os viveu, substituindo a nossa sempre problemática memória. Consegue responder antes de começarmos a pensar.

O poeta José Gomes Ferreira escreveu muitos poemas a partir do que via nos “elétricos”. Olhava e via –… Uma mulher de carne azul, semeadora de luas e transes atravessou o vidro e veio voadora sentar-se ao meu colo…Mas que bom! Ninguém suspeita que levo uma mulher nua nos meus joelhos… página 10, Num carro para Campolide, Dia sexual, in Poesia III.

Nos transportes públicos homens e mulheres estão literalmente curvados olhando os visores dos smartphones. Procuram fotos, vídeos, notícias que são intermináveis porque o algoritmo sabe o que cada um busca. A necessidade de responder a estes múltiplos estímulos faz-nos ser seres que perdem a amplitude dos 360 graus que a nossa cabeça, pescoço, tronco, pés e olhos nos permitem.

O olhar centrado no visor fecha o horizonte. O ecrã é demasiado pequeno e pobre comparado com a realidade. Ajuda a conduzir ao enclausuramento da mente num mundo paralelo ao real. Há uma submissão anestesiada que nos afasta do mundo real dos humanos e da Natureza.

Passou a existir uma relação quase indispensável entre o smartphone e o seu dono, tornou-se num prolongamento do corpo humano. É ver a ansiedade com que se ligam os smartphones a seguir à aterragem dos voos de avião para voltar ao mundo e deixar o limbo onde não se existe.

O smartphone não dorme nunca, está em permanente vigília e à espera que o seu portador atente no que tem para lhe exibir. É a antítese do silêncio. Projeta enxurradas comunicacionais para interpelar o possuidor.

O homo tecnologicus não é despertado pelas alegrias ou pelos problemas dos seus concidadãos, vive de estímulos e de assuntos que não o obrigam a pensar. O seu tempo é um tempo fora do tempo.

 Neste mundo cada vez mais narcisista e marcado por um alucinante individualismo, fruto de um neoliberalismo sem alma de que o smartphone é também expressão, a rebeldia está sendo substituída pela doce submissão ao mundo tecnológico. Ou a rebeldia é inerente aos humanos e o que é passageiro passa?

https://www.publico.pt/2023/01/18/opiniao/opiniao/doce-submissao-2035476

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2 pensamentos sobre “Doce submissão

  1. HilárioTeixeira

    A rebeldia é uma condição inerente aos humanos.
    A evolução tecnológica permite alargar o horizonte humano desde que os seus instrumentos sejam utilizados racionalmente. Mas também poderá constituir um instrumento alienante se a sua utilização for desmedida.
    Como em tudo na vida, não há bela sem senão.

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  2. Luciano Caetano da Rosa

    A nova definição -tecno-antropológica- do ser humano é: O homem é o seu próprio desconhecido, mas o algoritmo revela-lhe quem é na sua plenitude, do lado direito e do avesso, graças à inteligência artificial – IA-. É um resultado a posteriori, dado a conhecer passivamente, enquanto a Filosofia grega clássica, com Mestre Sócrates questionador, se guiava pelo ‘gnothi te auton’ ou, na sua expressão latina, ‘nosce te ipsum’ onde a priori se postulava um exercício activo de autoconhecimento. Avançámos ou recuamos? Responda cada um pondo-se reflectir…

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