Por uma maioria de votos de esquerda plural


Em 2015, os entendimentos à esquerda permitiram reverter medidas socialmente
injustas e economicamente contraproducentes impostas pela troika e pelo governo de
direita. Mostraram também que foi possível fazer convergências à esquerda em torno
de objetivos concretos, mesmo no quadro de constrangimentos europeus que
continuam a limitar o alcance das mudanças. A longevidade da solução política então
encontrada superou todas as expectativas iniciais.
Os signatários desta carta, que apoiaram desde a primeira hora as convergências à
esquerda, entendem que a devolução do voto aos cidadãos, no atual contexto, não
tem de ser um drama. Pode e deve ser uma oportunidade de clarificação sobre o
projeto de desenvolvimento para o país.
Apesar de não termos militância partidária, entendemos que os progressos políticos
verificados desde 2015, mesmo quando insuficientes, não teriam sido possíveis sem o
empenho do BE, do PCP e do PEV, no quadro de uma maioria parlamentar de esquerda
com o PS. Sem prejuízo do balanço diferenciado que fazemos das razões que levaram à
interrupção da legislatura, sabemos que a concretização de uma agenda
socioeconómica mais ambiciosa é uma tarefa que o PS, sozinho, não poderá cumprir.
Defendemos um Serviço Nacional de Saúde público e universal, que valorize os seus
profissionais, travando assim a crise que a pandemia acelerou. Defendemos os direitos
do trabalho, revertendo as leis laborais do tempo da troika, recusando que a evolução
da economia nacional seja baseada nos baixos salários e na precariedade. Defendemos
uma política de habitação pública que responda à especulação que expulsa jovens,
pobres e a classe média dos centros das cidades e promove a segregação social e
racial. Defendemos a escola e a universidade públicas, assim como a produção cultural
e o respeito pelos seus profissionais. Defendemos a preservação do planeta,
recusando encarar a urgência climática como uma oportunidade de negócios.
Sabemos, porque quase meio século de democracia nos ensinou, que isto só é possível
se garantirmos e reforçarmos a diversidade e pluralidade do campo da esquerda.
Sabemos, porque 2015 nos ensinou, que todos os deputados que elegemos contam e
que o próximo governo será formado pela conjugação da vontade das diversas forças
parlamentares, independentemente de qual venha a ser o partido mais votado. E
sabemos que a reedição, formal ou informal, do bloco central só pode ser evitada se as
esquerdas parlamentares saírem reforçadas.
O nosso apelo é que o dia 30 de janeiro sirva para promover uma maioria plural de esquerda. A
mesma pluralidade que impediu o aprofundamento do retrocesso social que a troika e o governo
de direita quiseram impor. A mesma pluralidade que permitiu avançar com medidas para a
justiça social e económica neste país. Seja qual for o futuro, só essa pluralidade pode construir o
diálogo, a alternativa e a resistência. Sem ela, a esquerda derrota-se. Com pluralidade, a agenda
de esquerda para um desenvolvimento mais justo e sustentável de Portugal sairá reforçada.
3 de Janeiro de 2022.
Os 100 subscritores:
Abílio Hernandez (professor universitário); Alberto Melo (professor); Álvaro Siza Vieira (arquiteto); Américo
Monteiro Oliveira (membro da CE CGTP-IN); Ana Benavente (socióloga); Ana Cordeiro Santos (investigadora); Ana
Costa (professora universitária); Ana Drago (socióloga); Ana Ferreira (investigadora); Ana Luísa Amaral (poetisa); Ana
Petronilho (investigadora); André Carmo (professor universitário e sindicalista); António Pinho Vargas (compositor);
Artur Cristóvão (professor universitário); Bárbara Bulhosa (editora); Bernardino Aranda (livreiro); Boaventura Sousa
Santos (professor universitário); Carlos Seixas (programador); Carlos Vargas (jornalista); Carmo Afonso (advogada);
Constança Cunha e Sá (jornalista); Cláudio Torres (arqueólogo); Daniel Oliveira (jornalista); Diogo Martins
(economista); Domingos Lopes (advogado); Elisabete Moreira (professora); Fátima Sá (professora universitária);
Fernanda Rodrigues (assistente social); Fernando Nunes da Silva (professor universitário); Fernando Paulouro das
Neves (jornalista e escritor); Francisco Bethencourt (professor universitário); Gabriela Moita (psicóloga); Gonçalo
Leite Velho (professor ensino superior); Guadalupe Simões (enfermeira e sindicalista); Henrique Barros (médico de
saúde pública); Henrique Sousa (investigador social); Isabel do Carmo (médica); Isabel Lindim (jornalista); Ivan Dias
(produtor); Joana Craveiro (encenadora e dramaturga); João Fazenda (ilustrador); João Leal (professor universitário);
João Leal Amado (professor universitário); João M. Almeida (quadro superior); João Rodrigues (professor
universitário); José António Bandeirinha (professor universitário); José Aranda da Silva (ex-bastonário da Ordem dos
Farmacêuticos); José Carlos Martins (enfermeiro e membro da CE CGTP-IN); José Feliciano Costa (professor e
sindicalista); José Luís Peixoto (escritor); José Maria Silva (dirigente associativo); José Neves (professor universitário);
José Reis (professor universitário); José Vítor Malheiros (consultor); Lúcia Amante (professora universitária); Luís
Miguel Correia (realizador); Magda Henriques (programadora cultural e professora); Manuel Correia Fernandes
(arquiteto); Manuel João Ramos (professor universitário); Manuel Lisboa (sociólogo); Manuel Morais (agente
principal unidade especial de polícia e antropólogo); Manuel San-Payo (artista plástico); Manuela Barreto Nunes
(bibliotecária); Manuela Mendonça (professora e sindicalista); Manuela Ribeiro Sanches (professora universitária);
Manuela Silva (médica); Margarida Santos (investigadora social); Maria Augusta Sousa (enfermeira); Maria Irene
Ramalho (professora universitária); Maria José Espinheira (administrativa ); Mário de Carvalho (escritor); Mário
Laginha (músico); Marta Delgado Martins (advogada); Marta Lança (jornalista e tradutora); Miguel Gonçalves
Mendes (realizador); Miguel Real (escritor); Nuno Serra (geógrafo); Nuno Teles (professor universitário); Patrícia
Bastos (professora universitária); Paula Cabeçadas (ativista política); Paulo Pedroso (sociólogo); Pedro Abrunhosa
(músico); Pedro Estêvão (sindicalista e investigador); Pedro Messias (sindicalista e bancário); Pedro Vieira (escritor);
Pilar del Rio (jornalista); Ricardo Paes Mamede (professor universitário); Rogério Moreira (gestor); Rui Bebiano
(professor universitário); Rui Graça Feijó (investigador); Sérgio Antunes (arquiteto); Sérgio Tréfaut (realizador);
Tatiana Salem Levy (escritora); Teresa Beleza (professora universitária); Teresa Dias Coelho (artista plástica); Teresa
Villaverde (cineasta); Tiago Rodrigues (encenador); Ulisses Garrido (sindicalista); Victor Louro (engenheiro
silvicultor); Vitorino Salomé (músico)

 Maiorias absolutas? Ponham os olhos nas maldades históricas e nos “frugais”

Os dirigentes políticos têm a tendência de considerarem o momento político como sendo decisivo e as eleições as mais importantes. As próximas são importantes pela simples razão de que delas sairá o parlamento que escolherá o governo.

Tendo em conta a anunciada gula de encher o pote com a maioria absoluta, importa ter presente alguns ensinamentos da nossa História recente.

Comecemos pelas maiorias absolutas de Cavaco Silva. O homem governou como o Rei D. Diniz – fez o que quis. Destruiu setores produtivos (marinha mercante, pesca, indústria e agricultura) em troca de uns subsídios do género de trocar um porco por três ou quatro chouriços.

 No seu reinado ocorreu uma caterva de crimes cometidos por desvio de subsídios e as conhecidas manigâncias do setor bancário e financeiro encostado a um poder quase absoluto. A marca de Cavaco ficou ligada aos tipos de jipes dos jovens agricultores dos passeios de Lisboa. Lisboa parecia o Paris/Dacar. Era a agricultura do capitalismo popular.

 E convém ter presente todos os ministros ligados ao BPN, o glamoroso banco da elite do PSD.

A maioria absoluta de José Sócrates deu autoestradas e mais autoestradas e um número bastante significativo de acusações da prática de crimes gravíssimos em apreço nos tribunais ou à espera de prescrição. O PS atolou-se de tanto poder ter abocanhado.

É preciso lembrara que o PS sozinho, à solta com uma maioria absoluta, é um perigo, até para si próprio. Não se trata de qualquer sectarismo.  A experiência portuguesa mostra que quanto maior é a maioria do PS mais débil é a governação do PS e os factos não desmentem desde o Acordo do queijo Limiano de Guterres, passando por Sócrates.

Imagine-se o que aconteceria à gestão dos fundos da bazuca com uma maioria absoluta do PS; Costa, mesmo sem a tal maioria, correu o país a criar a ideia de que a bazuca era do e para o PS. E o PSD não tem estaleca para dar lições.

Há depois algo de irracional no modo como Costa, um político inteligente e experiente, coloca de modo tão infantil o suposto dilema entre ele e Rio. E porquê? Porque Costa dentro desta lógica ilógica perdeu as eleições em 2015 e apesar disso foi nomeado Primeiro-Ministro; ganhou as Regionais dos Açores e perdeu o governo Regional, exatamente porque as maiorias se formam nos parlamentos. Porquê esta manipulação? Para justificar posteriores acordos à sua direita?

A maioria absoluta traz poder quase absoluto e dá a quem a tem a falsa ilusão de que pode fazer o que quiser, desprezando os diversos interesses representados no parlamento, dado ter uma espécie de fiéis que votarão o que a direção lhes encomendar; longe vão os tempos das rebeliões dos deputados.

A maioria absoluta despreza os restantes partidos, corrompe, fecha o partido em si próprio e na luta por distribuição de lugares e cargos. Encerra a política nos interesses do partido maioritário. Esta realidade não traz estabilidade, faz sangrar a seiva democrática pela sufocação do controlo da vida política pela maioria absoluta.

As maiorias que os partidos formam no parlamento dão força à política no seu sentido mais nobre, o de encontrar com outros os superiores interesses da população e do país. Impede a crescente descrença nas instituições porque um parlamento que se transforma numa caixa de eco do governo é pobre e deixa na população a ideia de que os deputados não servem para nada e, por outro lado, alimenta a extrema-direita que medra neste pântano de desesperança.

A política tem de ser entendida como atividade nobre e digna que exige compromissos e elevação no respeito pela defesa dos interesses populares, a partir das maiorias que se formarem no parlamento.

Além do mais, com tantos europeístas e admiradores da Alemanha, seria bom ter presente que naquele país foram precisos três meses para se formar uma coligação; ao lado, nos frugais Países Baixos (pouco frugal esta designação) foram precisos nove meses para formar um governo de coligação e nos países escandinavos governam coligações de vários partidos. Então? Ponham os olhos nos frugais. E nas maldades históricas das maiorias absolutas.

https://www.publico.pt/2021/12/30/opiniao/opiniao/maioria-absoluta-ponham-olhos-maldades-historicas-frugais-1990198

Gato escondido com Rio de fora

Rio ajudou a que o PR dissolvesse a AR por ter votado contra o orçamento, tal como o PCP, BE, CDS, IL, PEV e Chega. O governo caiu e haverá eleições a 30 de janeiro.

Depois de ter derrotado o assertivo Paulo Rangel veio cheio de nove horas propor ao PS o seguinte: se o PS for o mais votado, o PSD durante dois anos deixa passar o orçamento; se for o PSD, o PS fará o mesmo.

Ora se o PSD não se importa que o PS, caso tenha mais votos que o PSD, governe mais dois anos, por que não o fez aquando da votação do O.E.?

Se à partida está disponível, mesmo sem conhecer o conteúdo, a deixar passar o governo PS, durante dois anos por que votou contra por mais um ano apenas?

RIO E AS MINIS

A notícia reza que Rui Rio tem uma espécie de mini base para formar governo, o que é único e admirável.

Esgotam-se os adjetivos tal é a envergadura da dita. Aliás, mais ninguém tem. Só os hipermercados. E a mini, dado o caráter renovador, tem na base ex-ministros. Extraordinário. Somos todos mini, não somos?   

Viva o PSD e a mini base. E quem a apoiar. Coitadinho do Natal.

A liderança

Haverá quem pense que o futebol é só alienação e não seja capaz de compreender o enraizamento profundo na vida popular. A simplicidade do jogo é uma das principais razões da adesão popular. É a sua simplicidade contagiante que leva os miúdos a jogarem e os graúdos a regalem-se com as jogadas do fim do mundo. Naturalmente que a hiperindustrialização e os mais escuros negócios abalam a relação com a comunidade.

Mesmo sem essa nova variante já era há 60, 70, 80 anos o desporto rei, e era aquele que as crianças queriam praticar e virem a ser como os seus ídolos.

Vem isto a propósito do clássico disputado ontem entre o Porto e o Benfica. Já foram escritos comentários e análises teóricas sobre o apagamento da equipa da Luz.

Eu queria, pelo lado da liderança, referir outro ângulo, muito mais presente em quem jogou futebol e que é o seguinte.

Acontecia muitas vezes ainda as equipas estavam à espera do apito e sentia-se no outro uma disponibilidade que impunha respeito. Repito, ainda a bola não tinha começado a rolar, era apenas algo que sobressaía na disponibilidade física e mental. Sentia-se aquela galhardia, uma espécie de concentração/confiança.

Esse lado “oculto” em parte “condicionava ” o adversário. E mal o jogo começava se aquele primeiro felling correspondia à determinação de dar tudo, então esse lado subjetivo transformava-se numa imensa objetividade que realmente condicionava o outro.

Se viram o jogo entre o Porto e o Benfica saberão daquilo a que me quero referir – à disponibilidade mental e física para impedir o outro de ser o que é e passar a ser o que a outra equipa quer que seja. Questão de liderança.

Um Presidente que não comenta e um hierofante que acerta mal

Os portugueses estavam todinhos à espera que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, comentasse o caso da demissão do Sr. Dr. Cabrita.

Mas não comentou, ou seja, comentou a dizer que não comentava, não fosse o povo português ficar horas ou dias à espera, havendo quem temesse elevado abstencionismo nalguns locais de trabalho. Está a chegar o dia da ginjinha e deste modo entendeu e muito bem que fosse o hierofante Marques Mendes a botar comentário que botou.

Marques Mendes faz-me lembrar o Manel Pataco, um recatado homem de Amorim(a freguesia onde cresci até outras paragens e deixou de ser freguesia devido aos sátrapas da troica Merkeliana que estavam aterrorizados com os gastos das freguesias, na terra deles não gastam 1 € em freguesias) que nasceu a 29 de fevereiro há já uns largos anos, por altura do fim da guerra mais pico, menos freguesia.

O Manel ficou célebre porque tinha uma pergunta fatal que era esta – Diga lá que idade tenho eu Sr. João Lopes?

O meu pai respondeu-lhe, pela tua pinta deves ter uns trinta. Aguardou o resultado.

– Acertou mal.

– Acertei mal?

-Sim senhor, há anos que não faço anos.

Ora o nosso sempre prazenteiro Marques Mendes também acerta mal. Nos mapas acerta e nos livros que apresenta também; o resto é mais para o 29 de fevereiro do Manel Pataco.

RENDEIRO FALIDO E CHEIO DE DINHEIRO, O INDULTO, AS SAUDADES DAS CADELAS E A JUSTIÇA

Quando um(a) cidadão(ã) se senta no banco da sala de audiências, frente ao juiz, há, desde aquele simples momento, uma espécie de um mundo invisível que percorre o julgador, mesmo que seja no domínio do inconsciente. Não se vê, mas está lá, como a alma ou o espírito, presente na atmosfera da sala do julgamento, no modo como certos arguidos colocam as palavras e as adoçam.

Alguém bem vestido, de boas maneiras, cortês gera no tribunal uma atitude de perplexidade, mesmo que sem esse propósito. No fundo, é alguém que os juízes podiam ter conhecido nos bancos da Faculdade.

Quem, por outra banda, alguém se senta no mesmo banco mal vestido, de maneiras mais ou menos rudes, de acordo com as famosas regras da experiência comum, é algo que se aceita que possa acontecer.

Não é, em geral, uma atitude consciente e premeditada; é a condição humana a funcionar de acordo com o que apreendeu consciente ou inconscientemente desde o berço à universidade e à vida.

Um banqueiro é polido. Licenciado. Bem-falante, melhor vestido e engravatado e sapatos a condizer.

Este mundo não foi feito para os de cima se sentarem no banco dos tribunais, onde normalmente se sentam os de baixo.

Aliás, tenha-se em conta que, neste país de vivaços, os banqueiros aguardam anos e anos para serem julgados e antes de o serem ficam loucos ou morrem ou fogem.

Há quem defenda que o mal está nos recursos, como se o mal nos incêndios estivesse nas florestas e árvores. O mal está em empobrecer de tal modo a máquina judiciária que o longo tempo de decisão se torna uma marca inultrapassável e desprestigiante, mas nunca inevitável, bastava para tanto alocar meios. A justiça não dá votos, logo não é importante.

A justiça, pilar básico do Estado de direito democrático, está de rastos e não acontece nada. Todos, inclusive os magistrados, independentemente do brio profissional, já perceberam que este país aceita nesta matéria quase tudo. Esperar 10 anos por uma sentença. Pagar custas caríssimas. Aguardar anos e anos pelas decisões dos recursos. E nada acontece. Nem um tremelique, quanto mais um sobressalto. Num país de gente cordata, a cerviz tanto baixa como sobe, tudo depende de quem está à frente.

Há menos de dez anos os juízes mereciam a confiança dos portugueses. Hoje já não a merecem. Dá que pensar.

Na verdade, desacreditar a justiça é meio caminho andado para instaurar o clima de medo e de desconfiança nas instituições democráticas. É o objetivo da extrema-direita e dos criminosos. Uma justiça que se faz notar como sendo molinha com todos os Rendeiros inspira desconfiança. É um sintoma de uma peste que corrói a alma e a esperança de Portugal e não só.

Os Rendeiros de todas as espécies ao espezinharem a justiça gozando com tudo e com todos, a começar pelos próprios juízes, estão a matar a justiça que devia fazer parte do pão nosso de cada dia.

O banqueiro escarnece do país quando anunciou à CNN que iria processar o Estado português devido ao atraso da justiça. Ele, que jogou tudo com a sua equipa de advogados na lentidão da justiça, anuncia uma ação contra o Estado. É próprio de um criminoso recalcitrante, incapaz de se colocar na ordem jurídica vigente, um fora da lei.

Os gestos, as palavras adocicadas, a vestimenta e os modos na frente dos juízes são parte da máscara usada para conseguir enganar o tribunal e ficar com o passaporte e viajar quando e como quis.

Seria possível acontecer com um desconhecido?  O nosso espantoso Presidente responderia a quem fora de tempo exigisse um indulto para regressar? O Presidente despacha sobre indultos inexistentes? E que diz ele das saudades das cadelas anunciadas à CNN por Rendeiro? Com os diabos, afinal é mesmo assim, um banqueiro é um banqueiro, um homem cheio de dinheiro, mesmo dizendo-se falido.

https://www.publico.pt/2021/12/02/opiniao/opiniao/rendeiro-falido-cheio-dinheiro-indulto-saudades-cadelas-justica-1987138

Homenagem a duas vidas vivas na casa do Alentejo

DOIS BRAVOS DO PELOTÃO

Dizer algumas palavras sobre o Paulo e o Fernando seria dizer apenas duas e estava tudo dito – dois bravos. Porém, em vez destas duas escrevi 939.

Nasceram no começo da segunda guerra mundial; quando entraram na escola terminara há dois anos, passados alguns começava a guerra colonial, tinham vinte anos.

O nazi/fascismo fora derrotado, mas, em Portugal e na Espanha, cada regime à sua maneira, mantinha-se à custa do medo e do terror.

Tempos brutais, próprios para incorrigiveis resistentes. Tempo fechado dentro do tempo. Envenenado.  Tempo de bravura, de ter nas mãos a força para ajudar a abrir o tempo de Abril.

E ambos pegando na candeia que alumiava o rumo assumiram a coragem de lutar.

No percurso do Fernando e do Paulo não há faltas às batalhas. Presente, disseram eles.

São da fornada de homens e de mulheres que fizeram de Portugal um palco de esperança acontecida. Derrubamos o fascismo. Acabamos com a guerra.

Trazem a alma e as mãos limpas no sentido de se terem colocado no fio da navalha e de não temer a fronteira entre a coragem e a desistência. Conhecemo-nos demasiado bem e, muitas vezes, esse facto faz-nos desvalorizar o empenho de décadas à causa da liberdade, da democracia e do socialismo de muitos que aqui estão e de outros que aqui podiam estar.

Evoco a coragem do Fernando que foi preso pelos esbirros da PIDE para sofrer 19 noites de tortura do sono. Tornou-se símbolo na resistência de então. Quando saiu de Caxias o mundo era pequeno para ele. 

Não se trata de parar o tempo ou de viver como se o passado fosse presente. É preciso que a memória seja memória para que seja sempre só memória.

 Sei que o tempo é de outro molde, mas sabemos todos os que estamos aqui que em política as sementeiras se colhem, mesmo que tardiamente.

O Paulo e o Fernando atravessaram metade do século passado, desde que tiveram consciência da sua cidadania e todos estes anos ao lado das lutas por um Portugal e um mundo melhores.

Militantes e dirigentes que foram do Partido Comunista Português levaram a sua força e a sua experiência e trouxeram a confiança que só aquele partido, naquele tempo histórico, podia dar.

Um, construtor da Festa do Avante desde o primeiro minuto, quando a Festa era magia, arte, e política no melhor sentido do termo; nesse tempo até os adversários gostariam de ser como nós.

Saíram do PCP para poderem continuar a ser o que sempre foram – comunistas. Não foram, tal como muitos de nós, folhas secas que o vento fez tombar. Há comunismo para além do PCP, do carreirismo, do verbalismo radicalista de uma orientação desprovida de futuro.

O Paulo na sua nobre profissão de professor, prestigiado dirigente sindical, tendo sido fundador do SPGL e da FENPROF e eleito Secretário-Geral desta última Federação e membro da Comissão Executiva da CGTP.

Mas foi mais, um homem de cultura, aliás dois homens de cultura. O Paulo poeta e ensaísta. Quantos livros apresentou o Paulo? Quando se cansará de escrever sobre livros? Quantos artigos sobre literatura escreveu? Com quantos escritores e cantores conviveu e ouviu dúvidas e complexidades acerca do refinado laboratório que é a escrita.

Há quase trinta anos membro do Conselho Nacional da Educação, traz no rasto da sua vida uma ligação à vida associativa cultural e humanista, como foi a ligação aos Bombeiros de Águeda e ao Orfeão de Águeda como Presidente da AG de ambos. Um ativismo sindical, político, humanista, recreativo e artístico.

E o Fernando, o engenheiro, à frente de espaços livreiros onde artes diversas foram acarinhadas e impulsionadas e editando livros de enorme qualidade que o situacionismo financeiro não pegava?  E promovendo com o seu companheiro de armas, o Zé Tavares, não só a literatura, mas também promovendo exposições de pintura e fotografia. E abrindo o espaço a debates onde participaram dezenas de intelectuais e ativistas.

Um país cujos jornais não têm suplementos literários não é bem um país, é uma espécie de desgraça incapaz de assegurar para que os seus criadores sejam valorizados e promovidos. Em vez de promover a cultura, os media, em geral, optam pelo vulgarismo primário, convidativo a fazer dos cidadãos basbaques, meros consumidores de reallity shows.

O Fernando no seu labor de formiga, contra a corrente, foi acendendo luzes de cultura, remando contra a corrente, sem desfalecer, mesmo quando todos nós porventura nem sempre soubemos dar o devido valor.

O Paulo sempre, sempre disponível para ler e reler os trabalhos que vão pedindo e as opiniões chegam sempre a tempo. De tal modo que em termos jurídicos o costume ganhou consistência de lei.  Por isso, a espera pelos livros dele, Paulo, se nos impacienta.  

É difícil num tempo de basbaqueira criar cidadãos ativos comprometidos com projetos de cultura. Em volta reluz o vil metal. Vende-se o que dá na televisão. O que dá na televisão dá fama e esta é dinheiro em caixa e daí a luta pelas audiências a anestesiar os seres humanos cansados de tanta injustiça e incapazes momentaneamente de fazer do seu casulo o casulo da História e mudar o rumo da vida.

Esta geração que, no Paulo e no Fernando, saudamos aqui está para nos dizer que as coisas não são como parecem e há sempre um tempo para o tempo; o tempo da mudança virá. O nosso maior escritor, Luís de Camões, já o dizia, mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, todo o mundo é composto de mudanças.

Acresce que, para além de tudo o mais, são dois excelentes amigos. Dois bravos do pelotão. Bem hajam.  Esperemos pelos noventa.

Rangel, o durão, na versão de Andrea Bocelli Quizás, Quizás, Quizás

Paulo Rangel entrou a todo o gás na campanha para líder do PSD. NA sua linguagem contundente encostou Rui Rio ao PS. Advertiu que com ele manda o PSD ou o PS. Dando guarida aos críticos internos de Rio apontou as baterias ao PS e a Rio por ser complacente com o PS, o que ele não admite.

 Por estas ruas e veredas se vai espraiando Rangel naquela sua imagem dorida de quem carrega aos ombros um mundo de cargas pesadas.

Na entrevista ao Pública de sábado Rangel depois de todo o aranzel acerca das virtudes da sua candidatura e da moleza de Rio largou esta espantosa e duríssima ideia de combate ao PS: PSD e PS devem fixar para sempre o número de ministérios e até (valente) o nome de cada qual.

Há que concordar que é um achado. Imagina-se Miguel Poiares Maduro, seu trunfo eleitoral, à mesa com o mandatário do aggiornamento do PS, talvez o ex-líder da JS, o Sr. Sousa, a tratar do número de ministros e dos nomes dos ministérios e talvez com este ímpeto o próprio nome dos respetivos ministros. E surge a luminosa voz de Andrea Bocelli na sua interpretação de Quizás

Siemppre que te pregunto

Que cuándo, como y donde,

Tu sempre me respondes

Quizás, quizás, quizás