De herois a vilões em tempo de klenex

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A vida tem destes desfechos. Quem ama desalmadamente pode perder-se perdidamente. É o amor em tempo de klenex.
Ser herói, servindo o glorioso. Tocar nos heróis por amor ao glorioso. Envergar a camiseta igual à dos heróis, à dos que recebem milhões e têm carros que espantam tudo e todos . E têm mulheres de instagran. E o mundo a seus pés.
Ser herói arriscando tudo, até as centenas de euros de vencimento. Tudo pelo glorioso. Mesmo tudo. Dar tudo para receber a recompensa de entrar na catedral e ser reconhecido como um dos “nossos”, dos que estão na primeira linha para o penta ou o hexa ou o que seja. Ser herói por uma fé incontida que se pode ajudar a ampliar, mesmo correndo riscos trágicos. Ser herói e ter alguém da família nos adjacentes da grande catedral vale tudo, incluindo trabalhar às escondidas para o braço direito do grande timoneiro. Só eles e os homens que não dormem para que o glorioso continue a ganhar.
Ser detido e na altura regressar como um herói. Continuar, apesar da detenção, no grande posto de onde “os” águias tudo veem.
Ser herói e furar como dizia o Zeca. Furar. Furar as vezes que fossem precisas. Sapadores no terreno ”inimigo”. Ser herói e esventrar o que devia permanecer intocável. Para se ser herói e estar onde estão os grandes chefes. Ao lado deles.
Como podiam dizer que não?
Amar perdidamente até se perderem…
Ambicionar desmedidamente até que agora, em tempos de klenex, é preciso que caia também o homem certo que percorreu milhas de futebol de Norte ao Sul para que se salve a grande instituição.
Ele, o homem certo, atrás do chefe certo vai ter que amargar o ostracismo, como no tempo dos gregos da Antiguidade.
Para que a águia voe alto é preciso encontrar uma explicação para aquilo que é mais que evidente.
O Direito e as suas regras exigem que alguém dentro da grande CASA seja sacrificado. Assim será feito para que no Olimpo da Luz a cegueira tape a justiça, sendo ela cega que importa quem manobrou e quem prevaricou? Apresentem a cabeça de Paulo que não a de João Batista e tudo se resolverá…
Os que quiseram ter estatuto de heróis e para tal foram incentivados ficarão ao rés da terra e a águia continuará a voar. Mesmo que os heróis que na clandestinidade trabalhavam para a grande CASA caiam nas malhas da justiça. Sempre houve santos e mártires… as camisetas continuarão a ser por si envergadas. O amor em tempo de klenex não tem limites; por um lugar na catedral tudo é possível, quando se ama perdidamente o glorioso. Outros que não o amam assim se safarão.

Quanto vale no Ocidente a cabeça Israa al-Ghomgham?

Neste nosso tempo coexistem realidades que se afirmam nas antípodas uma da outra.
Em quase todas as cidades europeias jovens, mulheres e homens podem livremente participar em manifestações a favor ou contra o governo; podendo até dar-se o caso de as manifestações pedirem a queda do governo.
O que poderia suceder era o governo cair, se, na verdade, a manifestação fosse suficientemente participada.
Israa al-Ghanghan tem vinte e nove anos, é uma mulher que nasceu na Arábia Saudita e participou em manifestações contra o governo, segundo as autoridades sauditas.
Pertence à minoria chiita e opõe-se à discriminação que a maioria sunita impõe no país.
Foi julgada e o Procurador pediu a pena de morte por decapitação. Presa há três anos, aguarda desde seis de agosto a sentença que será proferida no dia vinte e oito de outubro e assim ficar a saber se terá de enfrentará a guilhotina ou o sabre da decapitação ou outra condenação.
No século em que se confirma que nós somos uma mistura de diversas misturas, entre mulheres Neandertal e homens denisovano, por exemplo, vivendo na Eurásia; que se descobriu que a lua tem água congelada nos polos, pois bem, na Arábia Saudita decapita-se por participar em manifestações. Prende-se, tortura-se e executa-se. Em 2 de janeiro de 2015 foram quarenta e sete os decapitados.
Há tempos atrás um espião envenenado levou à expulsão de centenas de diplomatas russos; entretanto,legadamente pelo governo sírio ter usado gás sarin contra cidades com jiadistas entrincheirados na população, americanos e franceses bombardearam a Síria.
Porém, o sério risco de condenação fria à morte desta jovem não agita as chancelarias que estão viradas para outros lados.
Uma mortandade de palestinianos tornou-se um costume. Cortar cabeças na Arábia Saudita é um hábito, assim como bombardear o Iémen com bombas made in USA…
Este é mundo em que uma minoria de trilionários sauditas compram ao Ocidente as armas mais sofisticadas, fazendo como diz Trump (o pagador do silêncio de mulheres com quem teve sexo) big money através do seu silêncio sobre a ignomínia que é aquele regime.
Os grandes da Terra não têm os seus sentidos nos países que não lhe vão à mão, seja qual for a razão.
Os sauditas, que compram armas ao país de Trump, como as que mataram as mais de cinquenta crianças iemenitas porque um dia poderiam ser terroristas, segundo a sua justificação para o bombardeamento do autocarro, podem fazer o que quiserem. O que importa é levar uma caterva de Ministros e empresários àquele país do Golfo e trazer de lá grandes encomendas.
No Ocidente que diz prezar os direitos humanos o que conta na realidade é o vil metal. Que importa que as mulheres e os homens sauditas queiram ser como todos os outros cidadãos que se podem manifestar livremente?
Que importa que na Arábia Saudita rolem mais uma ou mais duas ou mais dezenas de cabeças. Eles, os sauditas, andam à procura de carrascos que saibam usar o sabre. A guilhotina não é bem coisa do deserto. Faz-lhes lembrar a revolução francesa…
O que vale é que o exemplo de Israa al-Ghomghan vai mostrar um caminho. Pena é que o mundo por vezes pareça adormecido.

Texto publicado no Público em 06/09/2018

Nem todas as árvores morrem de pé

chaparro deitado

As árvores, diz-se, morrem de pé. A verdade é que as há que preferem morrer deitadas. Veja-se o chaparral que vai morrer junto ao grande lago que é o Alqueva. Todas de pé, menos três. Duas deitadas a espreguiçarem-se para o lado do nascente, esperando da água e de Cheles sabe-se lá o quê.
A outra espreguiçando-se para o poente virando costas a Castela e estendendo-se para Montejuntos.
Todas as outras erguendo-se para o céu de onde vem um calor impiedoso a crestar o restolho de agosto, aguardando que os pombos torquazes nelas acarrem quando o sol se estiver a ir e um ventinho vier serenar a pele dos chaparros .
Só que ninguém sabe explicar, nem os grandes sábios, a razão das três azinheiras não quererem morrer de pé quando chegar a sua hora e deitarem-se à espera do dia final para aquecerem no seu brasido a alma dos de Capelins.
Virando as costas às irmãs estas três azinheiras estendem a sua personalidade horizontal, como que rastejando à procura do que só elas sabem, pois nunca o disseram a ninguém, nem aos que as cuidam.
Rastejar pode ser a afirmação no meio da altivez.
Delas um dia se poderá dizer morreram como os homens.
Alguns, raros, como estas azinheiras, morrem de pé. A natureza poderia explicar. Porém, o que ela sabe não o diz. Quem quiser saber o há de procurar e se tiver sorte a pé ou deitado o ficará a saber.

Os Monchiques do PSD e a falta de espuma do CDS

 

Após três anos de governo PS com apoio parlamentar das esquerdas, a direita quando governou estava tão convencida da inevitabilidade da austeridade que ainda não se encontrou consigo própria, nem com um programa que a possa guindar ao poder.

Rui Rio tem consciência do estado de alma do partido que se acomodou tanto a nível de direção como localmente. Está burocratizado e disponível para a lutas internas por postos que assegurem a vidinha aos seus membros. Mobilizam-se em torno dos líderes que alimentam as suas esperanças de não serem esquecidos na hora da vitória.

A aproximação de Rio ao PS, que conta com muita gente dentro do PS, constitui para os anteriores círculos dirigentes do PSD uma traição ao projeto neoliberal que defenderam à outrance, pois sabem que não tem, num eventual bloco central, a mesma intensidade. E é isso que os une, o galope neoliberal.

É a esta luz que Santana abandona a família para se arvorar em ser o único e legítimo filho do que alegadamente era o PPD de Sá Carneiro e que ninguém sabe. Os cismas são vários sobre o verdadeiro pensamento de Sá Carneiro.

Congeminou que pode ter um resultado eleitoral para lhe dar capacidade de contar na cena política, o que não sucederia com Rio.

A Santana não lhe basta um cargo proeminente em qualquer instituição pública. Quer mais; e esse mais o PSD não lho dá, nem provavelmente viria a dar.

Santana e Pedro Duarte, Montenegro e outros largaram o fogo no PSD e agora são muitos os Monchiques que Rio enfrenta e ao que parece sem ajuda de meios aéreos.

Tenta apagá-los fazendo da época dos incêndios devido às elevadas temperaturas a sua oposição ao governo.

O CDS, sacrificado pela estratégia de Rio, aproveita-se da falta da falta de espuma para apagar os Monchiques do PSD. Está, porém, tolhido. A visibilidade que Portas lhe deu no governo de Passos, incluindo a de Cristas, vira-se contra o próprio partido, mesmo que este hoje proclame o contrário de tudo o que aprovou no governo desde o congelamento dos salários na função pública e do salário mínimo nacional, os cortes nas pensões, os aumentos nas taxas moderadoras, o aumento da carga de horas de trabalho na função pública, os cortes nos guarda florestais, os cortes nas quotas do pescado, os despejos, a reforma dos tribunais afastando os cidadãos da justiça, as privatizações sem lei nem roque, até ao pavor que era viver sob o chicote destes mandarins impiedosos, pois todos os dias os bilionários tinham boas notícias e o resto da população más. Foi o período em que uma ínfima minoria ficou mais rica e a imensa maioria com menos rendimentos e se espalhou deliberadamente a pobreza.

Enquanto o PSD lambe as feridas, o CDS chega-se à frente nas críticas ao governo. Enquanto Rio ensaia o bloco central, o CDS preterido demarca-se, marcando o terreno.

O CDS cavalga a crise do parceiro de tantas ocasiões para ganhar estaleca. Não parece vir a ter sorte.

Surpreende que um partido como o PSD se encerre dentro de si próprio por falta de um programa que una quadros e dirigentes. Rio bem tenta fazer da aproximação ao PS um guião, mas sem sorte

É algo inesperada a incapacidade destes partidos terem um programa, um guião para apresentarem. Vivem de incêndios, roubos de armas e pouco mais. Como dizia o seu protetor Cavaco – chocam com a realidade…

Publicado no Público online com o título truncado

Centeno, a Grécia e o jogo das escondidas

 

A propósito da saída da troica da velha Grécia reacendeu-se na vida política uma discussão enviesada que visa esconder o que esteve na base das intervenções do Banco Central Europeu, FMI e União Europeia.

O que levou ao colapso de algumas economias periféricas foi a crise do sistema financeiro internacional. Para o salvar os Estados resolveram emprestar milhares de milhões de euros para assegurar que os bancos não faliam e assim salvar os congéneres franceses e alemães que iriam ser duramente atingidos com os incumprimentos dos bancos dos países da periferia.

O Estado português já fez chegar à banca mais de dezassete mil milhões de euros.

A crise do setor imobiliário alimentado por uma banca insaciável espoletaram a crise nas economias mais vulneráveis.

Independentemente da leviandade de muitos cidadãos e de certas empresas, no que se refere ao acesso ao crédito oferecido pelos bancos, a verdade é esta: os Estados pediram a intervenção da troica para salvar a banca.

No vídeo com que Mário Centeno brindou os gregos e a União Europeia não há uma palavra que refira sequer ao de leve as causas da crise. Tudo se passa como se os gregos fossem os únicos responsáveis pela crise, independentemente de graves e grosseiras distorções na economia grega da responsabilidade das autoridades gregas.

Na mensagem de Centeno o que se passou na Grécia foi um desvario grego e agora ou andam direitinhos de acordo com a troica ou voltam a ter de enfrentar o pelotão de domesticação dos países sem salvação.

As transferências de riquezas dos gregos para empresas estrangeiras, o desemprego a rondar os vinte e seis por cento, a pobreza extrema de mais de um quarto dos gregos, uma economia que compete a partir de salários baixos, um serviço de saúde em ruínas, eis o resultado da intervenção da troica.

A Grécia está hoje bem mais pobre do que estava. Vai continuar sob vigilância apertada de que Centeno se vangloria.

As economias da Europa central safaram-se afundando a economia dos países periféricos.

Com os chamados programas de assistência financeira os países sob assistência ficaram muito mais pobres e os países que a dirigiram mais ricos. Onde está a coesão da União Europeia? Será possível imaginar uma união em que uns empobrecem e outros enriquecem, devendo os que empobrecem seguir as regras que os levaram ao empobrecimento?

Pode aceitar-se, ou há quem julgue que será aceite, que a pobreza é um mal para os países pobres, mas um bem para quem investe e pode retirar lucros fabulosos? É esta a União?

Centeno é Ministro das Finanças de um governo que governa com o apoio parlamentar das esquerdas não pode ser o mandatário do rigor austeritário das troicas. É um caminho perigoso para o PS. Afinal o senhor holandês que Centeno substituiu continua a reinar…

 

Restolhos de Capelins

 

 

 

Mudos os campos de trigo ceifados

E pequenos olivais

No topo da colina suave

Nos restolhos caem para leste as sombras

das azinheiras

à hora crepuscular

Restam grãos pelo chão torrado

Réstias que os pássaros depenicam

Uma águia regressa ao seu altivo posto

Só falta chegar a noite

E tudo se desvanecer

 

 

restolhos

Restolhos de Capelins

 

Na planície e nas chapadas de costas ao Norte

mudos os campos de trigo ceifados

e olivais

Nos restolhos caem para leste as sombras

das azinheiras

à hora crepuscular

Restam grãos pelo chão torrado

réstias que os pássaros depenicam

Uma águia regressa ao seu altivo posto

Só falta chegar a noite

e tudo se desvanecer

 

 

 

 

Cemitério de Capelins

Diz-se que as almas voam após a morte. Umas para cima, outras para baixo, embora nunca ninguém tenha visto o céu ou o inferno e não saiba por isso a sua localização.

Sabe-se agora que afinal o purgatório só existe na vida terrena enquanto se aguarda a publicação das notas ou a resposta a um amor, ou a leitura de uma sentença, ou o polícia após o stop.

O que se diz é que elas,exatamente por serem almas, não ficam apodrecer com o corpo. Vão-se.

Reparem que para o arquiteto das almas de Capelins elas estão por ali, ao pé dos corpos. Imagino a alma do grande poeta de Capelins, o Ti Limpas, conhecido em todo o concelho do Alandroal, pelas sua décimas, a entreter o São Pedro com a beleza das sua imagética e não deixo de pensar se a alma está por cá ou realmente no céu, pois o céu não pode ser um cemitério que deverá ser a sala de embarque para a eternidade.

E não posso deixar de imaginar o Ti Zé Rocha, todo atiradiço, a perguntar ao São Pedro por alguma gaiatona, mesmo freira que ele não era de grandes exigências.

O campo seria santo se a santidade fosse a morte. Fica a dúvida acerca da santidade já que o respeito pelos que repousam em paz é intocável. Fica nas mãos do artista o que ele tinha em mente quando escreveu o que se pode ler abaixo.

 

 

cemiterio

Matam crianças para impedir homens iemenitas?

O nosso mundo perdeu a vergonha, se é que alguma vez a teve. Só o preocupa o que o pode sossegar. E só o desassossega as grandes notícias que absorve.
Na verdade, deixar que nos digam o que está certo ou errado é desde logo um modo de nos formatar no que se refere aos grandes acontecimentos que marcam a vida das pessoas e das comunidades. Seguindo o trilho evita que tenhamos de pensar. Pensar é trabalhoso. Olhar é mais fácil.
É a essa luz que de vez em quando somos abanados por notícias que vão diretamente para as paredes mais sensíveis das nossas almas.
As notícias frenéticas e brutais do envenenamento de um espião russo que passou a trabalhar para o Reino Unido, trocando de patrão, colocaram o mundo ocidental a expulsar, em catadupa, diplomatas russos, não sendo ainda hoje claro quem foi o autor do envenenamento. Em represália, Putin procedeu do mesmo modo.
Esta semana um autocarro cheio de crianças iemenitas foi atacado no Norte do Iemen por aviões sauditas causando a morte e ferimento a mais de setenta.
Tais mortes não mereceram sequer reparos por parte dos governantes que expulsaram os diplomatas russos. Até os media, em geral, se mantiveram indiferentes.
Os assassinos das crianças justificaram o ataque para prevenir que elas pudessem vir a ser usadas como escudos…Isto é os sauditas invadem o Iemen para matar crianças porque temem o futuro, sabem que ocupam terra que não é sua.
Trump, desmiolado, preocupado em mandar no mundo a partir de um exército espacial, como nos filmes, apoia ferverosamente a Arábia Saudita. Tem uma paixão desmedida pelo Príncipe herdeiro saudita e por Netanyahu; une-os o seu ódio aos palestinianos e iranianos. São homens que prezam armas e a morte.
Choca que os mortos que lutam pelos seus direitos nacionais sejam danos colaterais acidentais dos amigos ocidentais.
Por quanto tempo os mais poderosos vão poder continuara fazer deste mundo arenas de horror?
As crianças mortas pelos misseis sauditas vendidos pelos EUA constituem uma marca indelével da ferocidade do regime absolutista de Salman. Estas mortes são crimes contra todos os seres humanos justos e passiveis de humanismo. Violam o direito internacional de modo grosseiro e violento.
Bem andou António Guterres em ordenar na ONU um inquérito, embora se saiba que quando chegarem as conclusões as emoções andem por outras bandas.
Por cá, como não houve mortes no incêndio de Monchique, andam a descobrir as falhas do governo, servindo em doses cavalares reportagens pornográficas das desgraças dos desgraçados.
De tantos mundos é feitos o mundo em que vivemos. Se as crianças iemenitas assassinadas a sangue frio por misseis sauditas fossem ocidentais, já aviões destes países estavam a disparar misseis para vingar as criancinhas como gosta de alegar Trump para justificar os bombardeamentos da Síria. As da Síria alegadamente vítimas de bombardeamentos sírios fazem o mundo chorar; as do Iemen não devem ser humanas. Os mortos humanos não são iguais. Há os que não contam; eram empecilhos, podiam vir a ser terroristas.