A Mulher Adúletra no Evangelho Segundo João e a Relação do Porto

In illo tempore, nos Evangelhos segundo João, 8:11-11, quando os fariseus e os escribas lhe trouxeram uma mulher adúltera e se preparavam para a apedrejar, Cristo respondeu-lhes que o primeiro que estivesse sem pecar atirasse a primeira pedra à mulher.

Neste tempo, no terceiro milénio, na era dos direitos humanos e da igualdade do género, neste tempo de descobertas científicas que permitirão ao homem e à mulher viajar um dia até Marte, ainda há quem julgue através de critérios mais retrógrados que aqueles que imperavam nas sociedades patriarcais de há milhares de anos.

Neste tempo ainda há quem invoque para atenuar o crime de violência doméstica de espancamento com paus e pregos as punições que existem onde o Direito Democrático é substituído pela charia, tão cara ao Daesh.

O adultério não é em Portugal crime e tanto pode ser praticado por homem como por mulher.

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O Fogo e os Comentadores do terceiro e Quarto Mundos

Acabaram de se realizar eleições autárquicas que são normalmente favoráveis aos partidos da oposição, mas não foi o caso. Não foram eleições legislativas, mas não há ninguém que não saiba que a leitura seria outra, se o resultado fosse favorável à oposição.

A direita perdeu claramente, independentemente do resultado de Assunção Cristas, que vive e progride à custa do PSD e não dos outros partidos. Cristas quer continuar a cavalgar no terreno do centro que o PSD deixou ao abandono ao galgar para a direita.

Duas semanas depois das eleições com expressão clara de apoio à política de devolução de rendimentos aos portugueses, ocorreram incêndios nunca vistos, que no domingo, dia 15, atingiram a enormidade brutal de mais de 450. Tal tragédia provocou quatro dezenas de mortos e destruições devastadoras de bens. O país viveu um domingo de verdadeiro apocalipse; a convergência de problemas que existem na floresta há décadas com condições climáticas únicas. Certamente que houve, tal como se retira do relatório da Comissão Independente, erros de avaliação do que sucedia e omissões que poderiam evitar tantas mortes nos incêndios de Pedrógão e nestes últimos.

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Os Políticos São Todos Iguais?

Há um mal profundo na sociedade que corrói a vida democrática. Trata-se da ideia que os políticos são todos iguais. A aparente inocência deste pensamento contém em si um dos aspetos mais negativos no plano democrático, o de que sendo iguais, não vale a pena escolher. E, daí, as taxas de abstenção.

Claro que os políticos são mulheres e homens que choram e riem como todos os outros seres humanos. É certo que no exercício do poder local, parlamentar ou executivo enxameiam os lugares com gente da sua confiança, muitas vezes prevalecendo o “yes, sir” em vez do mínimo de competência. E aí pode haver igualdade.

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Mariana Pineda na Barraca

 A Barraca tem em cena a peça Mariana Pineda de Garcia Lorca, encenada por Maria de Céu Guerra.

Trata-se de um espetáculo muito bem conseguido representado por atores de grande versatilidade.

Dentro da encenação Céu Guerra utilizou de modo soberbo a guitarra e a voz do músico de nome Paco que conhece bem o lado trágico do flamengo andaluz.

Desde cedo se perceciona algo de dramático face ao que Mariana não vai dizendo, mas se vai intuindo.

Na verdade, logo aos primeiros minutos, o espectador perscruta nas palavras e nos gestos de Mariana que algo de terrível vai suceder.

Ficamos a saber que as ruas de Córdoba e de Granada estão desertas porque naquelas cidades há um medo avassalador, comandado por um tal Pedrosa, juiz do absolutismo.

Mariana adere aos liberais tendo-se apaixonado por Pedro, um dos chefes liberais, condenado à morte, que com ela urdiu um plano para fugir a essa à condenação à morte.

É tão forte o amor de Mariana por Pedro que ela pede a um jovem loucamente apaixonado por ela que vá levar a Pedro o passaporte para fugir. E o seu apaixonado, por amor a Mariana, salva Pedro.

A partir desse momento a pressão que se abate sobre o espectador é brutal, como se o oxigénio que se respira fosse denso e custasse a entrar nos pulmões.

Mariana borda a bandeira da liberdade para a entregar a Pedro no dia da revolta popular que não sucede porque os conjurados são presos e mortos.

Pedro foge para Inglaterra. Todos aconselham Mariana a deixar cair a causa.

Ela resiste, apesar do tenebroso Pedrosa lhe declarar amor e pretender resgatá-la dos ideais liberais. Mas ela resiste.

Céu Guerra, apoiada nos dotes da atriz Rita Lello, dando mais luz ao texto de Lorca, leva ao limite a contradição entre o morrer por amor que se confunde com a causa da liberdade (o amor de Mariana por Pedro confunde-se com o próprio amor pela liberdade) e o viver por amor aos filhos, à família e aos amigos.

A simplificação dos cenários confere ao texto as múltiplas vibrações da palavra seja no plano lírico, apelativo/argumentativo, lúdico (as estórias para adormecer os dois filhos de Mariana).

Lorca configura uma Mariana inquebrantável por um amor e pelo amor à liberdade. Ela não irá trair os companheiros.

Mariana, mulher, vai enfrentar um mundo de homens. Pedro vai para Inglaterra. Foge. Ela acreditava que ele a viria salvar, tal como prometera. Tal conduta não mata o amor de Mariana à causa da liberdade. Fica em aberto se ela acredita ou deixa de acreditar no amor de Pedro, mas o amor à causa da liberdade vai com ela para a forca, mesmo sabendo que se renunciasse não seria enforcada.

E aí de novo o choque entre todas as coisas “pequenas” da vida e a de Mariana que se agiganta sacrificando, no altar da liberdade, a vida para que a Humanidade seja melhor.

Mariana preferiu morrer deixando dois filhos menores e uma casa de uma senhora de elevado estatuto, a ter de se vergar ao rei absolutista. Enforcada tornou-se imortal. Num mundo entalado entre futebóis, telenovelas e famosos esta viagem ao interior do mais nobre do ser humano, o da sua generosidade sem limites, vale como um grito extraordinário no coração da cidade de Lisboa, no 150º aniversário da Abolição da Pena de Morte.

Rita Lello é brilhante no seu desempenho. Com o andar das representações e do “choque” com o público a sua representação ainda vai tornar-se mais vibrante, emotiva e de certo modo, mais serena, apesar de saber que vai enfrentar os algozes que a conduzirão à morte. Não é que não seja já; a experiência no desempenho do papel de Mariana vai trazer maior refinamento.

Ao sair, frente ao largo de tantas árvores, uma brisa vinda do rio ajuda-nos a respirar e a compreender que o teatro nos ajuda a ser melhores. Nem todas as mulheres e nem todos os homens teriam aquela força, mas só de o sabermos que houve, há e haverá faz de nós seres melhores. De tal modo que a pena de morte foi abolida em dezenas e dezenas de países, sendo hoje a vergonha de alguns.

 A PESSIMISTA

No primeiro andar continua em cena a Pessimista, um monólogo de uma jovem atriz que nos faz pensar na mesquinhez humana que através do pessimismo estudado ajuda a fazer da vida uma vidinha bem cuidada.

Teresa Sampayo não deixa o espectador distrair-se a não ser com o humor e com a seriedade, porque tudo flui como se estivéssemos a dialogar com alguém que fala com ela própria. Muito interessante.

Teresa Sampayo, apesar de juventude tem um arsenal de capacidade que lhe permitem sentir-se como peixe na água e através das dezenas de representações sentir-se ainda mais segura no diálogo com o público a partir do seu monólogo consigo mesma. Teresa Sampayo pode estar otimista. Temos atriz. E a Humanidade menos pessimista, pois o texto é um libelo acusatório para os que se servem de todos os oportunismos para tratar da vidinha. O texto é do encenador da peça, Helder Costa.

Ainda as Eleições – Estrondosamente Real

Passos Coelho, à frente do PSD, guinou à direita e seguiu à bolina empurrado pelo vento neoliberal no rumo neoliberal .

O PSD assumiu a opção de tornar os ricos mais ricos para tornar o país mais competitivo por via do empobrecimento geral da população.

Como comandante da coligação com o CDS nem se apercebeu que, em certa medida, ultrapassou pela direita o CDS.

O CDS não precisava de assumir os temas mais caros à direita porque o PSD o fazia. Passos jogou tudo no falhanço da governação do PS e perdeu tudo; teve de ir falar com o diabo que se instalou no seio do seu partido.

A votação do PSD em Lisboa é o resultado de aquele partido não ter tido quase nada a propor nem como programa, nem em termos de candidaturas. Foi uma trapalhada. O CDS só teve que colher no terreno do PSD devido à incapacidade até ao último suspiro de Passos Coelho de se adaptar à realidade.

É caso para dizer como faria o pio Cavaco que Passos bem piou mas esbarrou estrondosamente na realidade. Nunca foi capaz de ter rins para mudar. Cegueira? Autismo? Espírito aventureiro?

Esse esbarranço na realidade saída do acordo do PS com PCP e BE levou o PSD para a situação que se encontra.

O partido ainda não saiu do estado comatoso e perfila-se Rui Rio, um político com trabalho feito no Porto, que desde que saiu da câmara daquela cidade hesitou sempre entre o que afirmou ser os deveres profissionais e o combate político. Finalmente decidiu.

Só que a sua decisão veio trazer do passado do PPD o eterno jovem Pedro Santana Lopes. De novo na ribalta. A ver o que vale para um partido que se fechou nos corredores do poder e perdeu a sua ligação mais profunda às bases porque estas se ligaram ao conjunto de interesses que os poderes locais, legislativo e executivo conferem aos seus “donos”.

O PSD que segundo Teresa de Sousa tem futuro ( ela lá saberá porquê) está em maus lençóis a curto/médio prazo porque António Costa já reafirmou a sua rejeição do bloco central.

Só por mero suicídio o PS que cresceu encostando-se à esquerda e resolvendo problemas económicos e sociais, iria, nesta fase da vida política, retroceder e encostar-se à direita. Sublinha-se, só por suicídio.

Na Europa o único partido socialista/social-democrata em alta é o PS português, daí constituir uma verdadeira aberração política guinar para a direita, pretendendo fazer o que já fez e deu em crise no PS.

No que concerne ao CDS a sua máquina não é tão pesada como a do PSD e apresenta maior agilidade, como foi caso de Lisboa.

Assunção Cristas percebeu o erro estratégico de Passos e lançou-se para um combate municipal que podia ter dimensão nacional, enquanto o PSD ficou prisioneiro da sua estratégia nacional e desvalorizou a sua estratégia eleitoral em grandes cidades com dimensão nacional.

O PCP enfrentou o efeito mobilizador do eleitorado de esquerda que o PS alcança quando sai da sua ligação à política de direita.

É a velha discussão que se travou no interior do partido aquando da coligação com PS em Lisboa com Jorge Sampaio e João Soares.

Uma convergência ou coligação com o PS por parte do PCP para resolver problemas nacionais ou regionais ou municipais exige dos comunistas uma atitude totalmente diferente daquela que têm tido quando o PS é o adversário puro e duro.

Aí o partido está treinado e experimentado. O que o partido não está é capacitado de uma forma cabal e global é para se apresentar de uma forma a fazer a diferença com o PS quando este converge com o PCP.

Aqui é que reside o busílis. O problema não é a convergência. O problema é a capacidade de mostrar porque apesar dessa convergência é importante votar no PCP porque é nele que se encontra a resposta para resolver problemas tanto no plano local, como no plano nacional.

A velha discussão em torno do branqueamento do PS sempre que este se aproxima do PCP e este daquele é uma discussão sectária e estéril. A aproximação entre os dois partidos não é feita para resolver problemas partidários, mas para dar resposta a problemas que a direita não é capaz de resolver. Isto porque nem o PS, nem o PCP são capazes de resolver sozinhos, independentemente da expressão eleitoral de cada um. Claro que um PCP forte condiciona mais o PS que um PCP menos forte.

Portanto o PCP não se deve queixar dos outros, mas apenas de si próprio. Não há anticomunismo que pare à entrada de Loures, ou de Évora, ou de Vila Viçosa e que se infiltre em Almada, Beja ou Alandroal.

A coragem e a autocrítica são apanágio de partidos revolucionários. O atirar as culpas para os outros é próprio de quem pretende sobreviver.

Um Olhar Sobre as Eleições Autárquicas

Todos perceberam que estas eleições locais tinham um significado que ia muito para além do domínio local.

Há quatro anos, o PSD/CDS no governo perdeu as eleições para o PS de José Seguro. Agora, o PS no governo, em acordo com o PCP e o BE, viu reforçado de modo considerável as suas posições. O poder não o desgastou, antes pelo contrário.

Ao virar à esquerda, o PS fortaleceu-se e o PSD, ao manter-se agarrado ao empobrecimento, sucumbiu e não foi preciso vir o diabo para o levar ao inferno.

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Afinal, a Alemanha Tem Pesadelos

A política levada a cabo pela chancelerina Merkel, ao contrário do que muitos queriam fazer crer, foi fortemente penalizada. Perdeu quase 10% dos votos (passou de 41,5% para 32,9%). Trata-se do pior resultado de sempre da CDU no período pós-guerra.

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A Divina Providência

Há na monumentalidade dos tempos religiosos algo que faz pensar a nossa condição humana e o eterno problema da razão de ser da vida que há de conduzir à morte.

A luta entre a vida e a morte com a vitória desta última encarada, em termos individuais, enche de perplexidade e frustração na medida em que raros são os que não desejariam viver mais tempo.

É difícil encarar o processo da eternidade da vida enquanto espécie baseada na morte de cada indivíduo.

E talvez, por isso, o instinto quase cego para a “salvação” extra morte de cada um.

Em todo o lado, onde se ergueram templos, há no seu interior essa angústia única que resulta do pensamento na inevitabilidade da morte.

Desde os raios de sol que entram pelos vitrais e tocam, vindos de cima nas  profundidades da sensibilidade humana, tornando o silêncio dos pilares, das colunas e do altar mais denso.

Há no vazio solene e imponente das paredes vazias das mesquitas a gravidade desse pensamento que bate nas paredes da alma.

Nos grandes templos hinduístas há um silêncio de frenesins de multidões em volta de deuses tão diferentes dos que no Ocidente vemos como representação de Cristo.

Nos budistas tudo se concentra em Buda, no seu olhar para o chão, na sua morfologia em que masculino e feminino quase se misturam na sua representação.

Na Basílica do Coração Sagrado de Paris,  já perto da porta de saída, está um placar que anuncia que na noite de 20 para 21 de abril de 1944 a aviação alemã lançou treze bombas sobre a zona da Basílica e arredores e não tendo atingido ninguém e se agradece à divina providência por tal feito.

Subliminarmente a mensagem passa a ideia que uma força divina tinha evitado ferimentos e mortes face à metralha da aviação nazi.

O silêncio quente de velas a arder à entrada do templo,  faz surgir a interrogação: se assim é por que motivo a divina providência não impediu que as balas nazis tenham causado tantas mortes em toda a Europa e no norte de África?

Se a divina providência olha todos os seres do mesmo modo, sendo omnipotente por natureza, por que não evitou a guerra? Por que não a impediu?

Fora da Basílica os polícias corriam atrás de senegaleses que vendiam pins da Basílica e da torre Eiffel. Fora das Basílicas do consumo.

Paris, 21/09/2017

 

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Que Deus Perdoe Trump!

Trump foi discursar à Assembleia Geral das Nações Unidas e aproveitou a ocasião para dizer o que pensa sobre o seu país e o mundo.

Os diplomatas dos EUA conhecem seguramente o preâmbulo e os artigos da Carta das Nações Unidas, nomeadamente o seu n.º 2, alíneas 3) e 4). Na verdade, o preâmbulo constitui uma exortação à defesa e manutenção da paz. Os povos do mundo inteiro consagraram, naquele diploma, a paz como valor primordial de toda a Humanidade. E apelam à interdição da guerra. A guerra, à luz da Carta, é ilegal, salvo em casos absolutamente excecionais.

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Esbarranço

Depois do colapso da URSS tornou-se dominante um pensamento único que se alicerça no que se chamou de fim da História e do triunfo do liberalismo na sua nova versão adaptada à globalização. A própria União Europeia deixou cair a coesão social e abraçou a austeridade como programa político.

Em Portugal, Cavaco foi um arauto na defesa da troika e da política de austeridade. Deu todo o seu apoio ao governo de Passos que envenenou o país com o empobrecimento. Nessa altura defendiam que aquela política não tinha alternativa, era a única que Portugal podia seguir.

O senhor Schäuble também os abençoou na sua missão magnânima de impor aos portugueses o que ele não queria para os alemães. Todos se lembrarão dos ataques de Cavaco, Passos, Portas, Maria Luís e tutti quanti a Tsipras por querer respeitar a opinião do povo grego manifestada em eleições e que passava por rejeitar as imposições da troika.

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