Cavaco e Marcelo cumprimentaram-se, que alívio.

O atual não gosta do Palácio e troca-o por qualquer coisa que dê nas vistas. Anda por aí à procura de afetos. Tem essa queda. Por afeto ia ao Brasil com o dono disto tudo e pela mesma razão foi à Volta a Portugal em bicicleta, pois se falássemos de voltas ao país, bem, o homem já fez umas dezenas delas, tal é o afeto pelos portugueses. Está sempre em pé e em movimento, desde a nascença. Não há nada a fazer. O que ele quer é ar e o Palácio não lhe chega para os pulmões. Tem de sair. E largar afetos.
Há dias, o anterior, que se fechava no Palácio, caladinho que nem um rato, a escrever as memórias para que os vindouros soubessem quem por ali passou e que se não ria, tal o elevado sentido de Estado, largou uma castanholada que logo incomodou o atual. Como ele tem vinte anos de calo de governo e presidência bem sabia que era o governo que nomeava a Procuradora-Geral, a outra sem Geral está na SIC, dado o seu imenso saber.
E achou que a gerigonça fez uma coisa que ele não faria, o que ninguém era capaz de imaginar dada as coisas que são como são. Carrancudo atacou a geringonça, a qual não lhe ligou a ponta de um cabelo.
Foi o atual que veio em tom solene, sim solene, dizer que há coisas que não se fazem, muito para além do que é admissível, como, por exemplo, um Presidente fazer comentários sobre outro, mesmo se o outro já foi.
Naturalmente que o ex comentador ao dizer o que disse não comentava, não senhor, florentino, lançava uma farpa ao outro que jamais larga aquele peso de ser providencial que só se preocupa com as coisas de Estado, tal a sua envergadura.
Uma figura assim da estirpe das luminárias e de inteligência rara logo que soube do convite para a inauguração da nova Universidade Nova em Carcavelos, telefonou a dizer que ia , mas saía às dezanove e trinta e um minutos para ir ao jantar do neto que sendo neto de quem é, não se sabe o que poderá vir a ser, e daí nem mais um minuto porque o aniversário do o do anterior não se compara com a bagatela de um discurso de um Presidente da República. E saiu direitinho ao neto, que não aceitava esperar pelo avô quinze ou vinte minutos porque naquela família os Presidentes não contam, só os ex.
Notável sentido de Estado, próprio de que andou vinte anos no topo das instituições e aprendeu a comportar-se com a elevação máxima.
Há quem diga que estava muito zangado com a não recondução de Joana M. Vidal e quis dizer ao país o que ninguém tinha tido a coragem de dizer, pois, como se sabe, desde o CDS ao PSD, todos amocharam e ele o velho rebelde quis mostrar a sua indignação. Diz-se que ele esperava que Joana Vidal levasse até às últimas consequências o caso do BPN e reabrisse o dos submarinos.
Só que o florentino resolveu voltar à sua arte de esgrimista e de cortesão para avançar com o elevado sentido de Estado e declarar solenemente que Cavaco e ele se cumprimentaram. Notável. Ninguém imaginava que seriam capazes de se cumprimentar por causa do sucedido. O país sossegou quando a mão direita de Cavaco encontrou a mão direita de Marcelo…
Há jornalistas que investigam o que as mãos disseram uma à outra, mas ao que parece não têm fontes na epiderme dos Presidentes. Nunca lhes passou pela cabeça este imbróglio. A Polícia científica da PJ nega-se a colaborar. Se se cumprimentaram e o anterior deixou o atual a falar sozinho, qual é o problema, dizem.
O país alarmado com tantos casos de justiça descansou: aqueles dois homens cumprimentaram-se. Uf, que descanso.
Publicado no Público em 01/10/2018

A uberização da vida

Vieram, cheios de submissão do fundo de um país submetido pelo medo, tentar a sua sorte em Lisboa e no Porto. Só tinham pobreza em volta.
Vinham em busca da sorte e ela podia estar num táxi, trabalhando sem descanso. Nesses anos os táxis não eram para toda a gente. Quando falavam os “ésses” eram trocados “ches” denunciando a origem. Estabeleceram-se nas adjacências de Lisboa, muitos em bairros de pobreza. Só iam a casa pelo Natal e com o carro de praça (autorizado pelo patrão) carregadinho de aparências.
Eram submissos. Tinham um desígnio, ganhar para os filhos poderem estudar ou para comprar a casa que na idade da reforma os receberia.
Com a chegada em 1974/5 dos retornados das colónias, alguns deles enveredaram pela profissão de taxista.
Outros vieram já dos subúrbios das grandes cidades.
Outros com os despedimentos transformaram-se em motoristas de táxi, até comprando o carro e o alvará com os dinheiros das indemnizações. Tinham, alguns deles, outras almas. Já não tinham a submissão antiga. Alguns tinham-na substituída pela má educação quer na condução, quer no trato.
Era o tempo da carranca quando alguém saía do aeroporto com as suas malas para ruas relativamente próximas; era o tempo em que muitos taxistas semearam em torno de muitos deles uma ideia de antipatia.
Chegaram os tempos em que aquilo que estava assente deixou de estar. As profissões no novo tempo são um empecilho. Todos podem fazer quase tudo. Num tempo de programação e formatação há quem diga o que se tem de fazer. É tão só isso que querem que se faça, o que mandarem fazer. O colega mais experiente não ensina, alguém diz, nem que seja a ferramenta tecnológica.
Num tempo de crise, de impossibilidade de aceder ao mercado de trabalho com o estatuto próprio da profissão de cada um, há quem dominando as novas tecnologias, ofereça novas oportunidades aos que estão de braços caídos, ou ainda têm tempo disponível para agarrar mais uns euros e compor a vida.
São os tempos em que as tecnologias nas mãos da ganância criam uma espécie de novos proletários. Sim uma espécie. Já não são uma prole de bocas para sustentar. Um filho já é de mais. Tanto que exige o biscate da Uber ou da Cabify ou de outras sociedades de verdadeiros paxás que põem a trabalhar para si, sem qualquer instrumento de trabalho, os que dispõem de viatura adequada para lhes sugar através de uma exploração invisível.
E oficiados por gente de saberes, sacerdotes deste novo tempo, chegaram de mansinho, preços baixos e com algum cuidado no recrutamento.
Os deputados, que foram eleitos para representar os interesses do povo, acham que há igualdade entre os que têm de comprar alvará, fazer formação, ter seguros contra tudo e mais alguma coisa, e aqueles que apenas recrutam a disponibilidade dos donos dos carros?
A ruína dos taxistas (patrões e condutores) deixará nas mãos de rostos invisíveis este tipo de transporte das grandes cidades, que não tendo rosto, nem alma, estabelecerão as condições que entenderem.
A caminhada da Humanidade é também um percurso para alcançar direitos, sim direitos, pois os deveres há muito que têm de ser cumpridos.
Se não houver uma vida profissional minimamente organizada e estruturada que crie entre si laços face aos que detêm o poder de admitir a fornecer o valor da sua força de trabalho, haverá um mercado cada vez mais desregulado, em que cada um tem de se safar custe o que custar, deixando cair o mais saliente da sociabilidade, a pertença a uma profissão, a um saber, a uma comunidade ligada entre si por interesses próprios, à própria comunidade nacional.
E se é assim desde já para os táxis, não será amanhã para todas as profissões? Se basta fazer o que as ferramentas tecnológicas indicam…
E se voltarmos a trabalhar à peça, regulados por máquinas inteligentes que nos indicam os caminhos?
É este o formidável mundo novo em que o que é humano é apenas a parte da produção que obedece ao comando tecnológico? Vamos cabisbaixos como gado a caminho da uberização.

Texto publicado no Público online

O que “passou-se” na TVI, Cristina, princesa da Malveira?

Claro. Claríssimo. Portugal não tem princesas das verdadeiras há mais de cem anos e toda a gente sabe bem a falta que elas fazem. O nosso reino conquistado à custa de varapaus contra Castela, Aragão e Muçulmanos ficou órfão dessas princesas reais.
Só que entretanto à custa de tanta basbaquice arranjou quem tivesse esse estatuto. E de repente novamente órfão. Insiste-se, de repente. Assim como não se espera que uma coisa vá acontecer e ela acontece.
A que vem isto a propósito? Dos factos maiores que marcam as nossas vidas para os dias de hoje e para sempre. É que temos alguém que se compara em termos genealógicos à duquesa que virou princesa casada com Carlos.
As árvores que distinguem os anónimos plebeus da grande nobreza já não vão buscar raízes à Casa de Bragança. Esqueçam.
Agora a grandeza ou a miséria dos lusitanos já nem sequer resulta da proximidade sanguínea de Dom Duarte Pio.
Um país de basbaques gosta de ficar a ver passar os comboios, sobretudo quando os pode agarrar, entre as dezanove e as vinte horas, pois é a esta hora da competição entre as três casas reais RTP 1, SIC e TVI.
No dia 18 deste mês a marquesa da Malveira, Cristina Ferreira, anunciou na SIC que a sua transferência da casa real TVI deixou-nos a todos em puro estado de estupefação. Disse-o ela a Rodrigo Guedes de Carvalho, sem pestanejar. Assim. Com toda a naturalidade própria de um estatuto de pura realeza.…”Foi como a morte da princesa Diana. As pessoas não estavam preparadas”… E se calhar não estavam. Quem é capaz de aguentar uma coisa destas? Ligar a TVI para a agarrar e zás nada de agarrar na TVI, só na SIC.
É extraordinário. Simplesmente sublime. Uma pessoa a querer agarrar alguém num canal e ter de a procurar noutro. Quem é capaz de aguentar este inesperado e estupefacto facto? Quem tem coração para semelhante empreitada? Quem? Se um português filiado na casa real TVI liga para lá e não apanha a duquesa da Malveira, e tem de a ir procurar na casa real SIC, como, sublinha-se, como se pode aguentar semelhante e inesperada reviravolta na vida?
É como a morte da princesa Diana. Nem o príncipe Carlos esperava. Nem a Rainha-mãe.
É bom que se tenha presente esta orfandade que foi bater à TVI e a todos os portugueses.
…”Foi como a morte da princesa Diana”… Vejam bem, foi como, sendo que este como vem trazer à frase todo o sal real que deixa todos desesperadamente órfãos dado o inesperado.
O que vale, diga-se em abono da verdade, é que morre uma princesa e logo outra nasce.
Nos tempos das Casas Reais mediáticas uma princesa é como um astro que morrendo num lado, logo nasce outro, quando o vil metal assegura um real vencimento.
A TVI não pôde agarrar a duquesa da Malveira, mas por cerca de oitenta mil euros por mês a SIC apanhou-a e se, num primeiro momento foi inesperado, num segundo está conforme o valor das princesas em tempos de euros.
Afinal não foi assim uma coisa tão difícil de perceber: basta carregar no canal 3 em vez do 4 e lá está ela toda aparelhada, convencida, com o mundo dos basbaques de queixo caído.
As monarquias têm destas coisas. Haja princesas. Haja Cristinas para que o nosso quotidiano tenha sobressaltos. Pobre país que só tem uma, dado que a outra, que ficou na TVI, não tem este estatuto maior na nobreza das audiências.
Princesa só há uma que começou como plebeia a ganhar alguns euros e agora ganhou estatuto e guincha quando está no ar. Sim, a Cristina guincha e é no seu guinchar de cima dos seus sapatos de cerca de seis salários mínimos que ela deixou toda a gente estupefacta. Como alguém diria, noutra grande instituição, que “passou-se”? Nada. Apenas a troca de canal para ganhar mais uns euros e entreter a massa plebeia embasbacada com tanto brilho e guincho.

Publicado no Público online hoje dia 20 de setembro

O jiadismo clubistico

É interessante constatar que jogadores e dirigentes dos clubes de futebol gozam de um estatuto especial, embora informal, quanto à repercussão social no que se refere às suas condutas criminais.
Enquanto na sociedade, em geral, os políticos estão, em boa medida, desacreditados por todo um conjunto de motivos que vão desde a corrupção até à permanentes promessas incumpridas, os dirigentes desportivos gozam de uma acalmia, senão mesmo, quando confrontados com processos judiciais, de uma grande benevolência.
A sociedade portuguesa a pouco e pouco distanciou-se da política; prefere deixar que outros decidam, argumentando que são todos iguais, o que querem é tacho…
É uma postura de descrença e de abandono do que há de mais nobre na vida em comunidade que é o de participar nas decisões que à sociedade dizem respeito, escolhendo de acordo com as opções de cada um.
Um país onde valha a pena ter uma vida minimamente digna passa certamente pela participação de cada cidadão nos assuntos de toda a sociedade.
Vale a pena confrontar o grau de criticismo em relação aos políticos com o grau de benevolência com que se “absolve” os escândalos do mundo do futebol.
O facto de Mourinho ou Cristiano Ronaldo fugirem aos impostos com milhões e milhões de euros passa quase incólume na vida social. O caso explode. Aparece nos media e morre.
Repare-se na diferença com que o aconteceria em relação a qualquer dirigente partidário que fuja ao pagamento dos impostos devidos, como já aconteceu.
O mundo do futebol que movimenta cada vez mais milhares de milhões de euros aparece como algo à parte de tudo o resto. É o mundo que a partir da paixão pelo futebol se organiza de modo a que os adeptos e simpatizantes vivam uma fé clubística que ultrapassa em muito a menor racionalidade.
Os cidadãos veem o futebol como algo inofensivo, com a perceção que os jogadores vêm das classes populares e chegam ao topo por mérito; enquanto os políticos são gente letrada que vai para a política para se servir, para enriquecer ou arranjar vencimentos que de outro modo não obteria.
Se Ronaldo, filho de um casal que vivia numa enorme pobreza, singra na vida e ganha muitos milhões, é encarado pela população como um caso de sucesso, não dando grande relevância ao facto de fugir com muitos milhões em impostos.
Porém, se um autarca ou um dirigente da função pública, ou um ministro o fizesse cairia este mundo e o outro.
O futebol, tal como se apresenta hoje, com doses cavalares diárias, em múltiplas competições, está a tornar-se uma nova religião, seguida por bandos de fanáticos, capazes de arriscar o seu emprego e o sustento de suas famílias, para agradar ao seu clube.
O caso E-toupeira que envolve uma acusação grave ao S.L.Benfica é bem reveladora do fanatismo que faz com que simples funcionários judiciais arriscam a ser presos e a perderem os postos de trabalho; aliás, um deles já se encontra em prisão preventiva há meses. E a troco de umas camisolas, de umas idas ao estádio e tirar umas fotos com jogadores do clube para as colocar no Facebook…
É também interessante analisar o modo como a própria SAD do Benfica reagiu ao despacho de acusação, fazendo de conta que o MP bateu à porta da catedral onde moram os mais ingénuos cidadãos, espécie de anjinhos dos novos tempos, desde o assessor jurídico até ao Presidente que recebia mails do referido assessor, mas não o lia, fechava os olhos para não ficar a conhecer as alegadas falcatruas de Paulo Gonçalves…
Há e haverá sempre quem as defenda as direções façam o que fizerem, assumindo o clube como uma causa suprema, acima de tudo.
Diga-se que a própria SAD dá esse exemplo mantendo Paulo Gonçalves ao seu serviço, contrariando o mais elementar senso comum. Aparecem agora vários conselheiros retardatários com rolos de kleenex a limparem o SLB do assessor que tão bem assessorava…
A sociedade está já encharcada em futebol e tende a substituir o seu envolvimento na construção de uma vida decente e digna por um amor clubístico que apenas precisa de impulsos primários.
Para construir uma sociedade melhor é necessário um empenho mínimo. Para seguir um clube basta aderir e dar azo às descargas de simples impulsos.
É talvez, por isso, que façam o que fizerem os jogadores e os dirigentes, haverá no plano social uma atitude benevolente, porque eles não são a fonte dos males do nosso viver; são um dos fatores de alienação. De certo modo o fervor religioso foi substituído pelo fervor clubístico e aos novos ídolos tudo se perdoa.

De herois a vilões em tempo de klenex

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A vida tem destes desfechos. Quem ama desalmadamente pode perder-se perdidamente. É o amor em tempo de klenex.
Ser herói, servindo o glorioso. Tocar nos heróis por amor ao glorioso. Envergar a camiseta igual à dos heróis, à dos que recebem milhões e têm carros que espantam tudo e todos . E têm mulheres de instagran. E o mundo a seus pés.
Ser herói arriscando tudo, até as centenas de euros de vencimento. Tudo pelo glorioso. Mesmo tudo. Dar tudo para receber a recompensa de entrar na catedral e ser reconhecido como um dos “nossos”, dos que estão na primeira linha para o penta ou o hexa ou o que seja. Ser herói por uma fé incontida que se pode ajudar a ampliar, mesmo correndo riscos trágicos. Ser herói e ter alguém da família nos adjacentes da grande catedral vale tudo, incluindo trabalhar às escondidas para o braço direito do grande timoneiro. Só eles e os homens que não dormem para que o glorioso continue a ganhar.
Ser detido e na altura regressar como um herói. Continuar, apesar da detenção, no grande posto de onde “os” águias tudo veem.
Ser herói e furar como dizia o Zeca. Furar. Furar as vezes que fossem precisas. Sapadores no terreno ”inimigo”. Ser herói e esventrar o que devia permanecer intocável. Para se ser herói e estar onde estão os grandes chefes. Ao lado deles.
Como podiam dizer que não?
Amar perdidamente até se perderem…
Ambicionar desmedidamente até que agora, em tempos de klenex, é preciso que caia também o homem certo que percorreu milhas de futebol de Norte ao Sul para que se salve a grande instituição.
Ele, o homem certo, atrás do chefe certo vai ter que amargar o ostracismo, como no tempo dos gregos da Antiguidade.
Para que a águia voe alto é preciso encontrar uma explicação para aquilo que é mais que evidente.
O Direito e as suas regras exigem que alguém dentro da grande CASA seja sacrificado. Assim será feito para que no Olimpo da Luz a cegueira tape a justiça, sendo ela cega que importa quem manobrou e quem prevaricou? Apresentem a cabeça de Paulo que não a de João Batista e tudo se resolverá…
Os que quiseram ter estatuto de heróis e para tal foram incentivados ficarão ao rés da terra e a águia continuará a voar. Mesmo que os heróis que na clandestinidade trabalhavam para a grande CASA caiam nas malhas da justiça. Sempre houve santos e mártires… as camisetas continuarão a ser por si envergadas. O amor em tempo de klenex não tem limites; por um lugar na catedral tudo é possível, quando se ama perdidamente o glorioso. Outros que não o amam assim se safarão.

Quanto vale no Ocidente a cabeça Israa al-Ghomgham?

Neste nosso tempo coexistem realidades que se afirmam nas antípodas uma da outra.
Em quase todas as cidades europeias jovens, mulheres e homens podem livremente participar em manifestações a favor ou contra o governo; podendo até dar-se o caso de as manifestações pedirem a queda do governo.
O que poderia suceder era o governo cair, se, na verdade, a manifestação fosse suficientemente participada.
Israa al-Ghanghan tem vinte e nove anos, é uma mulher que nasceu na Arábia Saudita e participou em manifestações contra o governo, segundo as autoridades sauditas.
Pertence à minoria chiita e opõe-se à discriminação que a maioria sunita impõe no país.
Foi julgada e o Procurador pediu a pena de morte por decapitação. Presa há três anos, aguarda desde seis de agosto a sentença que será proferida no dia vinte e oito de outubro e assim ficar a saber se terá de enfrentará a guilhotina ou o sabre da decapitação ou outra condenação.
No século em que se confirma que nós somos uma mistura de diversas misturas, entre mulheres Neandertal e homens denisovano, por exemplo, vivendo na Eurásia; que se descobriu que a lua tem água congelada nos polos, pois bem, na Arábia Saudita decapita-se por participar em manifestações. Prende-se, tortura-se e executa-se. Em 2 de janeiro de 2015 foram quarenta e sete os decapitados.
Há tempos atrás um espião envenenado levou à expulsão de centenas de diplomatas russos; entretanto,legadamente pelo governo sírio ter usado gás sarin contra cidades com jiadistas entrincheirados na população, americanos e franceses bombardearam a Síria.
Porém, o sério risco de condenação fria à morte desta jovem não agita as chancelarias que estão viradas para outros lados.
Uma mortandade de palestinianos tornou-se um costume. Cortar cabeças na Arábia Saudita é um hábito, assim como bombardear o Iémen com bombas made in USA…
Este é mundo em que uma minoria de trilionários sauditas compram ao Ocidente as armas mais sofisticadas, fazendo como diz Trump (o pagador do silêncio de mulheres com quem teve sexo) big money através do seu silêncio sobre a ignomínia que é aquele regime.
Os grandes da Terra não têm os seus sentidos nos países que não lhe vão à mão, seja qual for a razão.
Os sauditas, que compram armas ao país de Trump, como as que mataram as mais de cinquenta crianças iemenitas porque um dia poderiam ser terroristas, segundo a sua justificação para o bombardeamento do autocarro, podem fazer o que quiserem. O que importa é levar uma caterva de Ministros e empresários àquele país do Golfo e trazer de lá grandes encomendas.
No Ocidente que diz prezar os direitos humanos o que conta na realidade é o vil metal. Que importa que as mulheres e os homens sauditas queiram ser como todos os outros cidadãos que se podem manifestar livremente?
Que importa que na Arábia Saudita rolem mais uma ou mais duas ou mais dezenas de cabeças. Eles, os sauditas, andam à procura de carrascos que saibam usar o sabre. A guilhotina não é bem coisa do deserto. Faz-lhes lembrar a revolução francesa…
O que vale é que o exemplo de Israa al-Ghomghan vai mostrar um caminho. Pena é que o mundo por vezes pareça adormecido.

Texto publicado no Público em 06/09/2018

Nem todas as árvores morrem de pé

chaparro deitado

As árvores, diz-se, morrem de pé. A verdade é que as há que preferem morrer deitadas. Veja-se o chaparral que vai morrer junto ao grande lago que é o Alqueva. Todas de pé, menos três. Duas deitadas a espreguiçarem-se para o lado do nascente, esperando da água e de Cheles sabe-se lá o quê.
A outra espreguiçando-se para o poente virando costas a Castela e estendendo-se para Montejuntos.
Todas as outras erguendo-se para o céu de onde vem um calor impiedoso a crestar o restolho de agosto, aguardando que os pombos torquazes nelas acarrem quando o sol se estiver a ir e um ventinho vier serenar a pele dos chaparros .
Só que ninguém sabe explicar, nem os grandes sábios, a razão das três azinheiras não quererem morrer de pé quando chegar a sua hora e deitarem-se à espera do dia final para aquecerem no seu brasido a alma dos de Capelins.
Virando as costas às irmãs estas três azinheiras estendem a sua personalidade horizontal, como que rastejando à procura do que só elas sabem, pois nunca o disseram a ninguém, nem aos que as cuidam.
Rastejar pode ser a afirmação no meio da altivez.
Delas um dia se poderá dizer morreram como os homens.
Alguns, raros, como estas azinheiras, morrem de pé. A natureza poderia explicar. Porém, o que ela sabe não o diz. Quem quiser saber o há de procurar e se tiver sorte a pé ou deitado o ficará a saber.

Os Monchiques do PSD e a falta de espuma do CDS

 

Após três anos de governo PS com apoio parlamentar das esquerdas, a direita quando governou estava tão convencida da inevitabilidade da austeridade que ainda não se encontrou consigo própria, nem com um programa que a possa guindar ao poder.

Rui Rio tem consciência do estado de alma do partido que se acomodou tanto a nível de direção como localmente. Está burocratizado e disponível para a lutas internas por postos que assegurem a vidinha aos seus membros. Mobilizam-se em torno dos líderes que alimentam as suas esperanças de não serem esquecidos na hora da vitória.

A aproximação de Rio ao PS, que conta com muita gente dentro do PS, constitui para os anteriores círculos dirigentes do PSD uma traição ao projeto neoliberal que defenderam à outrance, pois sabem que não tem, num eventual bloco central, a mesma intensidade. E é isso que os une, o galope neoliberal.

É a esta luz que Santana abandona a família para se arvorar em ser o único e legítimo filho do que alegadamente era o PPD de Sá Carneiro e que ninguém sabe. Os cismas são vários sobre o verdadeiro pensamento de Sá Carneiro.

Congeminou que pode ter um resultado eleitoral para lhe dar capacidade de contar na cena política, o que não sucederia com Rio.

A Santana não lhe basta um cargo proeminente em qualquer instituição pública. Quer mais; e esse mais o PSD não lho dá, nem provavelmente viria a dar.

Santana e Pedro Duarte, Montenegro e outros largaram o fogo no PSD e agora são muitos os Monchiques que Rio enfrenta e ao que parece sem ajuda de meios aéreos.

Tenta apagá-los fazendo da época dos incêndios devido às elevadas temperaturas a sua oposição ao governo.

O CDS, sacrificado pela estratégia de Rio, aproveita-se da falta da falta de espuma para apagar os Monchiques do PSD. Está, porém, tolhido. A visibilidade que Portas lhe deu no governo de Passos, incluindo a de Cristas, vira-se contra o próprio partido, mesmo que este hoje proclame o contrário de tudo o que aprovou no governo desde o congelamento dos salários na função pública e do salário mínimo nacional, os cortes nas pensões, os aumentos nas taxas moderadoras, o aumento da carga de horas de trabalho na função pública, os cortes nos guarda florestais, os cortes nas quotas do pescado, os despejos, a reforma dos tribunais afastando os cidadãos da justiça, as privatizações sem lei nem roque, até ao pavor que era viver sob o chicote destes mandarins impiedosos, pois todos os dias os bilionários tinham boas notícias e o resto da população más. Foi o período em que uma ínfima minoria ficou mais rica e a imensa maioria com menos rendimentos e se espalhou deliberadamente a pobreza.

Enquanto o PSD lambe as feridas, o CDS chega-se à frente nas críticas ao governo. Enquanto Rio ensaia o bloco central, o CDS preterido demarca-se, marcando o terreno.

O CDS cavalga a crise do parceiro de tantas ocasiões para ganhar estaleca. Não parece vir a ter sorte.

Surpreende que um partido como o PSD se encerre dentro de si próprio por falta de um programa que una quadros e dirigentes. Rio bem tenta fazer da aproximação ao PS um guião, mas sem sorte

É algo inesperada a incapacidade destes partidos terem um programa, um guião para apresentarem. Vivem de incêndios, roubos de armas e pouco mais. Como dizia o seu protetor Cavaco – chocam com a realidade…

Publicado no Público online com o título truncado

Centeno, a Grécia e o jogo das escondidas

 

A propósito da saída da troica da velha Grécia reacendeu-se na vida política uma discussão enviesada que visa esconder o que esteve na base das intervenções do Banco Central Europeu, FMI e União Europeia.

O que levou ao colapso de algumas economias periféricas foi a crise do sistema financeiro internacional. Para o salvar os Estados resolveram emprestar milhares de milhões de euros para assegurar que os bancos não faliam e assim salvar os congéneres franceses e alemães que iriam ser duramente atingidos com os incumprimentos dos bancos dos países da periferia.

O Estado português já fez chegar à banca mais de dezassete mil milhões de euros.

A crise do setor imobiliário alimentado por uma banca insaciável espoletaram a crise nas economias mais vulneráveis.

Independentemente da leviandade de muitos cidadãos e de certas empresas, no que se refere ao acesso ao crédito oferecido pelos bancos, a verdade é esta: os Estados pediram a intervenção da troica para salvar a banca.

No vídeo com que Mário Centeno brindou os gregos e a União Europeia não há uma palavra que refira sequer ao de leve as causas da crise. Tudo se passa como se os gregos fossem os únicos responsáveis pela crise, independentemente de graves e grosseiras distorções na economia grega da responsabilidade das autoridades gregas.

Na mensagem de Centeno o que se passou na Grécia foi um desvario grego e agora ou andam direitinhos de acordo com a troica ou voltam a ter de enfrentar o pelotão de domesticação dos países sem salvação.

As transferências de riquezas dos gregos para empresas estrangeiras, o desemprego a rondar os vinte e seis por cento, a pobreza extrema de mais de um quarto dos gregos, uma economia que compete a partir de salários baixos, um serviço de saúde em ruínas, eis o resultado da intervenção da troica.

A Grécia está hoje bem mais pobre do que estava. Vai continuar sob vigilância apertada de que Centeno se vangloria.

As economias da Europa central safaram-se afundando a economia dos países periféricos.

Com os chamados programas de assistência financeira os países sob assistência ficaram muito mais pobres e os países que a dirigiram mais ricos. Onde está a coesão da União Europeia? Será possível imaginar uma união em que uns empobrecem e outros enriquecem, devendo os que empobrecem seguir as regras que os levaram ao empobrecimento?

Pode aceitar-se, ou há quem julgue que será aceite, que a pobreza é um mal para os países pobres, mas um bem para quem investe e pode retirar lucros fabulosos? É esta a União?

Centeno é Ministro das Finanças de um governo que governa com o apoio parlamentar das esquerdas não pode ser o mandatário do rigor austeritário das troicas. É um caminho perigoso para o PS. Afinal o senhor holandês que Centeno substituiu continua a reinar…