Inverter o rumo da guerra

Esta guerra na Ucrânia que nunca devia ter acontecido convocou o velho e “adormecido” espírito militarista urbi et orbi.

Já não se fala dos graves problemas da pandemia, nem dos problemas sociais como o empobrecimento dos povos da Europa. Nem das consequências das intermináveis sanções que massacram os que vivem dos seus vencimentos na Rússia e no Ocidente. Nem da crise climática. Nem do futuro.

Fala-se de armas, de aviões, de misseis, de tanques, de helicópteros, de exércitos e de guerra.

Os EUA uma vez mais ficam longe da guerra e os europeus matam-se uns aos outros com armas sofisticadíssimas.

Putin não tem perdão pelo mal que está a fazer a todos os inocentes na Ucrânia. Zelensky convoca a NATO, critica o que considera apoio menor de alguns países e apela ao envolvimento de todos na guerra, bem sabendo que em tal situação o seu país se transformaria num inferno nuclear sem saída para a vida humana nos próximos tempos.

Nos media, o russo, é o monstro e o ucraniano, o herói. No momento atual de extremo sofrimento para o povo ucraniano vítima da invasão interessa perguntar à consciência de cada um se o caminho a seguir é o do militarismo e somar às montanhas de armas mais armas ou é o caminho da razão, do mais humano humanismo para fazer parar a guerra para negociar.

Os conflitos militares no centro da Europa podem alargar-se e envolver outros países e, nesse caso, não se sabe o que pode acontecer, mas seguramente fica aberta a porta para a guerra mundial com armas nucleares. E talvez fosse a última.

Pode haver quem faça cálculos acerca de uma guerra na Europa que de um golpe esmagasse a Rússia e deixasse o continente em ruínas e que nesse quadro lhe fosse mais fácil dominar e impor a sua hegemonia no mundo.

A verdade é que a guerra continua. As sanções prosseguem mesmo sem se conhecer o resultado do inquérito aos mortos de Bucha. A roda da guerra roda. O mundo começa a dividir-se entre os criminosos e os “nossos”, os heróis.

Cinde-se a Humanidade e há uma parte que deixa de o ser quer para Putin quer para os outros, os ocidentais elevados à categoria de bons.

As populações são nauseadas pelo clima de guerra e cegamente seguem os profissionais da loucura, aqueles que se tornam super-ricos vendendo armas e mais armas, ou seja, a morte. Sim, esta é a via da morte, aquela em que num lado ou no outro, aquele que der mais garantias quanto ao número de mortos que matar a mais que o outro, ganha rios e mares de dinheiro.

O caminho do militarismo tantas vezes repetido leva à tragédia e à destruição de um continente que em termos de conquistas sociais é de longe o mais avançado em todo o mundo.

O que faz os governos europeus perderem a sua força para se imporem e encontrarem entre si os caminhos para uma solução negociada para o conflito? Que pode ganhar a Europa ao entrar nesta louca corrida ao militarismo?

Os ucranianos são tão humanos como os russos, por muito que Putin o queira impedir de ser. E os russos, não obstante Zelensky são homens de carne e alma como os russos.

A loucura humana é de todas a pior. Quando se proíbe na Rússia a palavra guerra e quando no Ocidente se proíbe Tchecov ou Dostoievsky ou se muda o nome das bailarinas russas para ucranianos sem o consentimento de Edgar Degas, como fez a National Gallery, para onde caminhamos?

Estranha a nossa Humanidade que aceita estes governantes e que os segue mesmo quando lhes cai em cima desgraças como o aumento brutal dos combustíveis, dos cereais, dos fertilizantes, isto é, o insuportável aumento do custo de vida.

Como pode aceitar que Biden chame criminoso a Putin sem uma única vez mencionar o interminável rol de crimes cometidos por George W. Bush no Iraque?

Como pode o inenarrável Boris Johnson, incapaz de se conter sem uma party em período de rigoroso confinamento, liderar a corrida armamentista na Europa?

Tantas guerras. Tantas montanhas de cadáveres. Tanta brutalidade. E nem por isso nos levantamos contra esta louca estupidez. Que será preciso para inverter o rumo?

A GUERRA NA UCRÂNIA E A NOVA ORDEM MUNDIAL EM GESTAÇÃO

Quando no final da 2ª guerra mundial os EUA bombardearam com armas atómicas Hiroshima e Nagasaki estava subjacente àquela infâmia que o verdadeiro alvo era a URSS, pois o Japão estava de gatas.

No fundo tratava-se de fazer um sério aviso àquele país acerca de quem mandava na nova ordem mundial saída do final da guerra. 

Na impiedosa e brutal invasão da Ucrânia pela Rússia o que está em causa parece ser também a criação de uma nova ordem mundial após anos de recuo daquele país no confronto com os EUA que através da NATO o foi cercando de misseis cada vez mais próximos de Moscovo e de todo o território.

Os EUA na sua linha estratégica definiram a China como inimigo a abater tinham todo o interesse em neutralizar (caso pudessem) a Rússia e ficariam seguramente em melhores condições de se “ocuparem” com a China. Longe vão os tempos da amizade EUA/China em que cada um deles se bateria contra a URSS até ao último soldado do parceiro.

A Rússia, a Ucrânia, a China, os EUA e a Europa estão ordenados no mesmo sistema mundial. Todos eles inscrevem as suas economias e os seus modos de vida no sistema mundial capitalista com as suas nuances, sobretudo na versão chinesa.

A invasão da Ucrânia também serviu para apresentar a Rússia como uma potência capaz de marcar de modo decisivo a sua zona de influência depois de ter em algumas ocasiões dado sinais inequívocos do que pretendia e do que tinha para fazer valer as suas pretensões.

Talvez os mais distraídos não tenham tido na devida conta o disparo num dos seus satélites que serviu para mostrar o seu poderio quanto às suas possibilidades em relação à defesa do sistema do escudo protetor dos EUA/NATO, o chamado AEGIS, instalado depois dos EUA se terem retirado do Tratado INF sobre eliminação de mísseis de curto e médio alcance assinado em Moscovo em 1987. 

A Rússia já tinha exibido os seus novos mísseis hipersónicos Kinhzhal que tendo em conta a sua velocidade mostravam a sua superioridade e de certo modo a inutilidade do sistema instalado na Polónia e na Roménia e que custou aos cofres daqueles países rios de dinheiro-big Money para as indústrias da morte.

Ao ter em conta esta realidade, ela de modo nenhum justifica a invasão, apenas se a refere porque essa realidade é mais complexa que a luta entre anjinhos e diabos.

 O batalhão Azov por mais fascistas que tenha não serve para o justificar a invasão. Nem as leis discriminatórias dos ucranianos de língua russa ou das esquerdas ucranianas. Por mais que a Rússia se sentisse ameaçada, a guerra nunca seria a saída. Neste capítulo não pode haver ses, nem mas.

Desta guerra, por outra banda, ressaltam algumas evidências mais ou menos seguras: a irrelevância da União Europeia em termos militares e a sua vassalagem em relação aos EUA; o novo relevo da Rússia no panorama internacional e a consolidação de uma nova ordem internacional em que China e Rússia passam a ter um papel claro de contrapeso aos EUA.

Os novos atores mundiais passam a ser EUA/NATO num polo e China/Rússia noutro. Naturalmente que as coisas não vão assentar já, mas esta parece ser a tendência. Esta guerra na Europa não tem lugar na zona máxima de rivalidade que é a área do Pacífico onde os EUA para se imporem atropelaram a França que agora submissa aceita a hegemonia dos EUA no conflito com a Rússia decorrente da invasão da Ucrânia.

Os europeus da União Europeia não têm nada a propor, como se tem visto, a não ser andar a toque de caixa dos EUA.

Em vez de correrem a comprar armas ao país que assiste à guerra e à crise europeia enriquecendo por estas duas vias, deviam assegurar neste continente um caminho de desarmamento e de segurança para todos os países sem exceção. A Europa já está saturada de armas. O que faz falta é a segurança de e entre todos os europeus, como contributo para a segurança mundial.

A nova ordem, seja ela qual for, irá no sentido da multipolaridade, mas deve ser aproveitada para encetar a diminuição dos armamentos e não no da busca incessante de armas que permitam a quem as descobrir mandar no resto do mundo. Em vez de inflação, miséria, fome e caos social, o mundo precisa que se invista para que todos os povos tenham uma vida minimamente decente e não nos fabulosos lucros do complexo militar-industrial.

Corrida às armas – caminho do inferno

É em tempo de guerra que se deve falar da paz pela simples razão de que é nesta ocasião que ela mais falta faz. A paz é o supremo bem da Humanidade. Só em paz podemos ser o que somos.

A Rússia iniciou a invasão da Ucrânia e é a responsável pela grave situação que vivemos. Nada justificava a invasão, independentemente do projeto de cerco à Rússia por parte dos EUA e da NATO.

A guerra está a servir de pretexto para desencadear uma corrida às armas; ouve-se o rufar dos tambores da guerra.  O que a economia não aguentava como por exemplo pequenos aumentos de salários acomoda agora 2% do PIB. Até a poderosa Alemanha se virou para a corrida às armas, coisa nunca vista desde o fim da 2ª guerra mundial. A procissão vai no adro, mas quer na Rússia, quer nos EUA, quer na Europa as trombetas da corrida às armas soam por todo o lado.

Se os tempos da crise financeira seguida da pandemia eram difíceis, os de agora são de pavor e choque como no Iraque e agora na Ucrânia. Putin, talvez devido ao seu passado, designou a guerra como operação militar especial, um eufemismo brutal. De facto, então no céu iraquiano, como hoje no céu ucraniano chove a morte e a destruição.

A pergunta é simples: devemos correr às armas para nos defendermos ou o caminho deve ser outro, como por exemplo o assinalado pelo Papa Francisco?

O planeta e a Humanidade estão à beira do precipício. Na nossa Terra há armas para fazer sobreviver apenas alguns insetos no caso de conflito nuclear; a Humanidade desapareceria, a espécie criadora de deuses e de outras tantas maravilhas e que forjou a civilização de que desfrutamos.

No mar navegam submarinos carregados de armas nucleares apontadas aos homens e mulheres das cidades do mundo; nos céus azuis aviões furtivos ou não voam prenhes de armas nucleares; no solo milhares de rampas de lançamento estão prontas a enviar a morte a milhares de graus centígrados. Então precisamos de juntar mais armas a esta quantidade monumental bastante para nos reduzir a zero?

O mundo mais do que nunca precisa que a paz se imponha e se pare o horror na Ucrânia e se caminhe no sentido do desarmamento.

É nesta hora que as vozes das mulheres e dos homens justos e amantes da paz se têm de fazer ouvir para exigir o fim da guerra, obrigar a máquina de guerra de Putin a parar e a retirar-se para a Rússia e a criar condições de segurança para todos os envolvidos, a obrigar os países da NATO a parar de se rearmar e encetar negociações pela paz. Cada arma nuclear custa mais que um hospital. Mais que uma Universidade. Que se pare com a loucura da corrida às armas a Norte, Sul, Ocidente e Oriente. O Planeta está intoxicado e a Humanidade ao rés do abismo. Pensemos. Não deixemos que seja este o rumo. É possível outro. Quem pesará mais no futuro- o complexo militar industrial ou a força da paz?

No continente europeu é possível e é altamente aconselhável que a corrida às armas seja substituída pelo desarmamento. É preciso definir essas condições e garantir a todos desde os escandinavos aos eslavos, aos meridionais, aos ibéricos, aos habitantes dos países balcânicos, aos teutónicos, aos anglo-saxões, aos magiares, a todos sem nenhuma exceção a segurança. Uma paz que assente em cima de armas nucleares é sempre frágil. Não se encontra uma paz melhor que a que repouse sobre o mínimo armamento possível.

Para tanto torna-se absolutamente vital o empenho dos mais interessados neste rumo-os povos; sem eles é impossível.

Todos os caminhos desde o Vaticano até aos gabinetes ministeriais passando pelas avenidas cheias de gente são válidos. A paz merece o esforço. Com a mobilização popular de toda a gente de bem que não quer assistir à destruição em horas de tudo quanto a Humanidade construiu desde há milénios. A corrida às armas é o caminho do inferno. Vale a pena o difícil caminho da paz.

https://www.publico.pt/2022/03/28/opiniao/opiniao/corrida-armas-caminho-inferno-2000403

A TODAS AS CONSCIÊNCIAS DORIDAS

Uma certeza me parece certa – as invasões, as ocupações e as mortes para os órgãos de comunicação social têm valores muito diferentes.

Para comprovar esta conclusão inicial parto do princípio universalmente aceite que as invasões e ocupações são totalmente condenáveis.

Deste modo, a invasão do Iraque, da Síria, da Líbia, do Kosovo, do Iémen e da Ucrânia só poderiam merecer a condenação da comunidade internacional.

O rosário de destruição e de mortes diz respeito a seres humanos e os agentes das destruições e das mortes deveriam ser julgados à luz dos mesmos critérios.

Pode-se ter em conta o volume das mortes e o grau de destruição, mas uma invasão e uma ocupação só pode ter em comum a reprovação universal.

Neste momento, os media bombardeiam-nos com os bombardeamentos russos e todos sentimos o desespero humano da impotência face à tragédia.

Ao mesmo tempo, a cada segundo, minuto, hora e dia os iemenitas são bombardeados por uma coligação de Estados capitaneados pela autocrática Arábia Saudita e morre gente a cada segundo, minuto, hora e dia. E que nos dizem os media? Quase nada. Os Estados que bombardeiam e que têm o apoio claro dos EUA constituem ditaduras absolutistas de tipo medieval. Há uns dias o regime saudita decapitou 81 presos.

No entanto, há uma espécie de cortina de ferro que tapa tudo e o que se lá passa chega de viés, como se fosse natural. Quantas portuguesas e quantos portugueses sabem que a cada segundo, a cada minuto e a cada dia há seres humanos no Iémen que são trucidados e que milhões de seres humanos não têm comida?

Quem de entre todos os seres humanos de boa vontade pediu sanções contra a Arábia Saudita? O big money fala mais alto que a democracia.

Quem tem coração para a Ucrânia por que não tem para o Iémen? Quem tem memória da invasão, ocupação, destruição do Iraque e das dezenas e dezenas de milhares de mortos iraquianos? Quem se esqueceu de Faluja e Mossul? Quem pediu uma sanção contra os que desencadearam a guerra contra o direito internacional? Por que motivo Biden, Macron, Scholtz, Zelensky, Putin não classificam de criminosos de guerra aos responsáveis pelos horrores cometidos contra o povo iraquiano? Quem esqueceu o interminável rol de torturas no centro prisional de Abu Ghraib? E que têm os palestinianos de Gaza e da Cisjordânia a quem ninguém acode quando dias, semanas e meses são bombardeados pelos governantes de Israel sem dó, nem piedade? Quantas dezenas de milhares de palestinianos mortos são precisos para uma sanção a Israel?

Nada destas invasões e ocupações justificam a invasão da Ucrânia pela Rússia; todas sem exceção são condenáveis.

Mas a verdade é que a ocupação da Ucrânia nos invade do ponto de vista mediático e que nos deixa atordoados. Mas qual o motivo que impediu o mundo de pedir a punição que agora pede? Por que não aparece um governante bondoso e caridoso a pedir sanções contra os autores da invasão e ocupação do Iraque?

O mundo corre a grande velocidade. A solidão de quem corre de casa para o trabalho e regresso a casa presta-se a ser sublimada pelas caixas televisivas; uma nova espécie de Coliseu romano.

Já nem os smartphones nos deixam sós; a inteligência artificial persegue-nos para o bem e para o mal. Apesar de tudo vamos continuar a fazer a nossa História, como sempre. Sem saber se é para sempre.

Um treinador, um embaixador ou o que for.

No https://portuguesaletra.com são os seguintes os sinónimos de javardo – sórdido, cerviz, bodegão, porco, sujo, trapalhão, burgesso, cerdo, bronco, brutamonte, abjeto, espurco, cervelo, nojento, azeiteiro, porco-bravo, asqueroso, javali, cachaço, barrote, cacho, incivil, malcriado, abodegado, alarve, besuntão, berrão, cangote, cacoso, torpe, cabeça, anafado, bodoso, chico, obsceno, tramposo, balordo, catrofa, brutamontes, arrieirado, barrão, imundo, caveiroso, bertoldo, chacim, chorão, porcalhão, brutitates, grosseirão, banha, bestaraz, porco-montês.

Com esta panóplia de sinónimos percebemos melhor a razão que levou o senhor embaixador a não pedir desculpa pela javardice.

De facto, quando qualquer cidadão utiliza uma expressão de modo errado, de imediato pede desculpa; ora não é o caso, como se verá. E era o que faltava explicar para quem duvidasse da suprema educação do senhor embaixador.

Na verdade, o senhor treinador do FCP está completamente errado ao exigir desculpas para desistir da queixa-crime.

E porquê? Devido à maldosa interpretação do senhor Sérgio que não tem capacidade de entender que o senho embaixador não o insultou; apenas quis dizer que o senhor treinador era um azeiteiro, ou seja, um cacoso, bodoso, arririeirado, banha e caveiroso. Ou um incivil.

Como pode o nosso Ministério Público ter incomodado o senhor embaixador por dizer que o senhor Sérgio era um espurco? Tanta maldade junta nunca se tinha visto…como ousar pedir desculpa pelo cacoso? Que horror. Um embaixador é um embaixador; um treinador um treinador; um javardo é um coiso, assim um coiso, sem mal, como não podia deixar de ser. Amen.

O JULGAMENTO DE CAVALEIRO FERREIRA NA FACULDADE DE DIREITO PELO MRPP EM 1974 E O TEXTO DO SOL NASCENTE

O Semanário Sol Nascente resolveu fazer uma incursão ao que chama Arquivo Histórico da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa e deteve-se num dos episódios mais provocatórios ocorrido pouco pois do 25 de Abril do qual conta coisas e loisas. Aqui a memória em muitos aspetos está fresca, tal a intensidade do acontecido. Nem sempre sabemos a razão por que nos lembramos de certos acontecimentos, mas de outros sabemos. Saio a terreiro porque nesse episódio estiveram envolvidas personagens e registaram-se confrontos político-ideológicos dignos de relevo. E de algum modo paradigmáticos dos caminhos de então.

Morava com outros colegas na Estrada de Benfica e numa tranquila tarde o meu namoro foi interrompido pela campainha frenética que engasgada não parava de chamar. Era o Justino António aflito. Os émeérrepêpês tinham apanhado o Cavaleiro Ferreira na Faculdade (depois de ter sido saneado) e iam julgá-lo.

Lembrei-me de um alerta, dias antes, do Carlos Brito para estarmos atentos às provocações do MRPP na Faculdade. Fui para a Faculdade. Aí chegado o espetáculo era algo que se podia situar entre o trágico e o surrealista. À entrada da Faculdade um cordão de ativistas do MRRP de maus modos a notificaram-me que não podia entrar porque o que se estava a passar nada tinha de estudantil, decorria um julgamento popular e gritavam” os pides morrem na rua”. Assim. Tentei entrar e levei uns pontapés. Falei, à parte, com o Justino e combinamos que ele iria ao MFA dar conta do que se passava e para virem a fim de evitar o tal “julgamento popular”. E lá foi o Justino. Já não sei muito bem qual foi o estratagema que usei para entrar, julgo que foi o de propor aos participantes se eu podia entrar; talvez pensassem que a maioria iria deixar-me à porta, o que não aconteceu.

O Professor estava a um canto da sala. Tinha sido eu quem se levantou na aula de Direito Penal para propor a expulsão do Professor e consequente saneamento. Ele encarou-me e deve ter pensado o pior.

As intervenções iam no sentido de condenar aquele dignitário do fascismo.  Pedi a palavra e o “Tribunal” não ma concedeu. Usei o mesmo esquema – a assembleia era soberana e decidiria se podia ou não usar da palavra. Grande confusão. Dada a primeira votação, temeram o que veio a suceder, foi me concedida a palavra. Para ganhar tempo em relação ao cumprimento da tarefa do Justino lá fui protelando a intervenção e já no uso da palavra que prolonguei ad nauseam até ouvir o burburinho dos militares a chegarem e a entrarem no anfiteatro para levarem Cavaleiro Ferreira.

Ao contrário do narrado no Arquivo da História nenhum professor se encontrava no anfiteatro, nem um. Nessa altura andavam cheios de medo, quase todos. Quase.

Do lado dos Estudantes Comunistas estávamos dois, o Justino e eu. Não estava mais ninguém da Comissão Pró Eleições. O “julgamento” era à tarde e não havia aulas. A sala não estava cheia e muitos dos presentes não pertenciam ao MRPP, eram estudantes, alguns voluntários (que tinham feito a tropa e tinham um regime diferente) que estavam a assistir e não alinhavam com aquela loucura, como se viu pelas duas votações.

Omiti propositadamente nomes dos principais juízes e instigadores, muitos deles figuras de proa de Portugal, em vários setores da sociedade dos nossos dias.

O que me move não é qualquer ajuste de contas, antes repor a verdade do sucedido. É o registo histórico do que poderia ter sido a brutal provocação ao novo regime se, por acaso, os intentos daquela trupe, autodenominada marxista-leninista-maoista, tivessem sido levados até ao fim.

Quem era capaz de proclamar que o 25 de Abril teve como objetivo impedir a revolução proletária que o vento Leste trazia, era capaz se perfilar como juízes de um tribunal “popular” cujos juízes eram os mais ativos militantes da Federação dos Estudantes Marxistas-Leninistas ao serviço do Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado, o PCTP. O vento Leste foi uma poderosa inspiração que levou muitos deles e delas às cadeirinhas dos vários poderes. Aquele era o tempo e o modo; depois o tempo já era outro e o modo também e tudo se justificou para abandonar os princípios do Livro Vermelho. Os convertidos abraçados ao ímpeto da conversão estão sempre mais próximos do Alto.

https://www.publico.pt/2022/03/03/opiniao/opiniao/julgamento-cavaleiro-ferreira-faculdade-direito-lisboa-mrpp-1974-1997411

Sejamos coerentes, não há nenhuma guerra boa

Toda a guerra é criminosa; salvo a guerra de libertação nacional e a guerra desencadeada face a um ataque absolutamente iminente. Os normativos da Carta das Nações Unidas são claros, assim como a doutrina posterior acerca da guerra justa e da ameaça iminente.

Foi criminosa a guerra da NATO para impor o Kosovo independente a invasão do Iraque por parte dos EUA e os seus sicários.

A guerra na Ucrânia não é uma guerra de libertação, é uma guerra de opressão nacional. É uma guerra condenada à derrota, mesmo que Putin ponha em Kiev um sátrapa, na linguagem usada por Lénine que o ex-dirigente do KGB abomina por ter reconhecida a Ucrânia como um povo e uma nação e não uma província do império russo.

Um dos orgulhos que os comunistas brandiam nos céus humanos era a grandeza dos bolchevistas em reconhecer após a revolução a independências dos povos e contraste com a opressão czarista. Milhões de mulheres e homens aderiram ao comunismo também com base nessa política de reconhecimento dos povos à autodeterminação, independentemente do que se seguiu.

Um dos orgulhos dos comunistas é o primeiro decreto do novo governo russo em 1917 – o Decreto da Paz- a Rússia saía da guerra, o que levou ao fim da primeira guerra mundial.

Só a perda total de referenciais inegociáveis pode levar um partido comunista a evitar condenar com toda a veemência a invasão da Ucrânia, agravando um historial de apoio a invasões perpetradas pela URSS.

Nada justifica esta guerra. Nem o desafiante e desequilibrador alargamento da NATO em forma de tenaz em redor da Rússia, e muito menos a retórica de tipo imperialista de Vladimir Putin. Nem a ameaça futura à Rússia. Os meios para conjurar essa ameaça nunca podiam ser esta guerra para impor em Kiev a humilhação e um lacaio.

A utilização da metralha por mais sofisticada que seja nunca pode ser algo conforme ao ideal comunista no sentido da libertação do indivíduo e da sociedade. Esse é o lado desumano dos fabricantes de armas que tudo apostam no último modelo de matar em massa para vender aos seus homens e mulheres, fregueses ávidos de possuir o direito de matar aos milhares e milhares, caso não sejam seguidos.

Putin está a matar ucranianos que lutam pela sua terra, pela sua língua, pelo seu país e pelo seu futuro.

Putin conseguiu reforçar a máquina de guerra que é a NATO e limar para já as inúmeras contradições entre as suas várias potências. Macron esqueceu os submarinos vendidos pelos EUA à Austrália a substituir os franceses e Scholtz e a Europa ficaram sem o gás que passará a vir muito provavelmente dos EUA.

Esta guerra é injustificada e injustificável por mais razões que a Rússia tenha (e tem) para se sentir ameaçada. Havia que dar tempo para que prosseguissem as negociações e se elas falhassem considerar outros meios, que não seriam a guerra.

Esta guerra não vai resolver nenhum dos problemas de segurança da Rússia; antes pelo contrário, vai desencadear uma campanha contra aquele país porque ninguém de boa vontade e bom senso poderia aceitar que a invasão e ocupação da Ucrânia do tamanho da Alemanha e França poderia ser uma solução. A guerra abriu as portas a um clima de histeria contra a Rússia.

É curioso que nem a CEE, nem a NATO, nem as potências mundiais decretaram sanções de meia dúzia de cêntimos contra os EUA aquando da invasão do Iraque.

A guerra é um crime, seja onde for. A mim faz me doer a alma ver tanta gente importante tão justamente furiosa contra a Rússia e que em 2003 furiosamente justificou a invasão daquele país.

Temos o mundo que temos. Haverá sempre espaço para os homens e mulheres justos, mesmo que não pareça.

Se formos coerentes a começar por cada um de nós o mundo será mais coerente e justo.

Para todos podermos viver de um modo decente e justo não aceitemos as guerras, sejam quais forem os Senhores que as comandam. Precisamos de paz, sobretudo no meio de uma guerra.