O mundo move-se

A CASA BRANCA COM POUCOS HÓSPEDES

O mundo está a mudar aceleradamente. É visível ao longo dos últimos dois anos. Nas últimas duas semanas o número de chefes de Estado que visitaram Pequim é bem elucidativo. A China passou a estar politicamente no meio do mundo.

O centro de gravidade das relações internacionais está a mudar. Sorrateira e calmamente a direção chinesa abriu a porta aos gigantes ocidentais para fazerem da China o seu local de produção barato. Todos lampeiros os inteligentíssimos cérebros ocidentais esvaziaram em boa medida a sua base industrial para aproveitar a mão de obra barata chinesa e a ausência de direitos sindicais. Foi o período em que as grandes corporações se enchiam de potes de dinheiro.

Quando acordaram deram conta de duas coisas com alguma importância: grande parte da base industrial estava algures na China; os chineses tinham com toda a sua sabedoria (a sua civilização é anterior à helénica) encontrado maneiras de criar e desenvolver uma base industrial e tecnológica tão avançada como a dos países mais avançados industrialmente.

Desde os anos oitenta do século passado até ao fim da primeira década do novo milénio a China foi acumulando conhecimentos e sem grandes ondas e sem qualquer espécie de problema com outros países concentrando todos os seus esforços no seu desenvolvimento.

Os mandarins deste lado do mundo deram então conta que a China era de facto uma grande potência e ironia das ironias foi criada a ameaça chinesa, porém, é para a China que, nos últimos anos, são enviados aviões, porta-aviões pelos EUA e pela NATO e é por causa da China que se fazem novas alianças entre EUA, Reino Unido, Austrália, Nova Zelândia, envolvendo também as Filipinas.

A verdade é que até hoje ninguém viu navios de guerra chineses, nem aviões às portas dos EUA e da Europa. Ao que se sabe a China ameaçou os EUA com um balão que os aviões de guerra dos EUA heroicamente derrubaram.

É certo que o regime chinês deixa muito a desejar no respeito pelos direitos e liberdades democráticas, mas não é de agora; atualmente esta importante questão não se compara com o período que se segui a Tianamen e tal não impediu que os ocidentais achassem ótimo investir à grande, à francesa, à alemã na velha China, esquecendo que foram em busca de lucros e aquilo que procuravam podiam os chineses também procurar – ter lucros, o que todos querem, independentemente da maneira como os obtêm.

Nestes últimos quarenta anos os EUA gastaram triliões em armamento para se afirmarem com a sua liderança mundial; intervieram militarmente em Granada, fomentaram os contra na Nicarágua, em Cuba e intervieram militarmente na Jugoslávia e ocuparam o Afeganistão e o Iraque.

Aliás, defendem a integridade territorial da Ucrânia, mas consideram que reconhecendo a ONU e a comunidade internacional que só há uma China, os EUA achem que há duas, uma delas sem existência jurídica.

 A política externa dos EUA caracterizou-se pela soma zero, ganhavam eles, perdiam os outros.

A China dirigiu toda a sua política externa para o comércio contrapondo à política de soma zero a de ganhar/ganhar, ou seja, uma relação em que os dois devem ganhar por mais diferentes que sejam os regimes.

A novidade a que estamos assistindo é a seguinte: os regimes ocidentais democráticos liberais no plano das relações internacionais querem a todo o custo impor a hegemonia ocidental, onde prevalece a sua força e o dólar; a China, a Rússia e outros países com regimes autoritários propugnam por um mundo multipolar onde cada país se sinta mais livre para realizar as suas opções.

 Entretanto os barcos de guerra e os aviões dos EUA/NATO vão continuar a confluir para a China, onde como reconhece a ONU só há uma China e a ameaça chinesa só chega aos EUA e à Europa porque sabem lidar melhor com um mundo de comércio livre tão a gosto dos nossos liberais.

Não admira, pois, que dirigentes europeus, sul americanos, africanos e asiáticos visitem Pequim. Na verdade, a Casa Branca deixou de ser o centro do mundo.

https://www.publico.pt/2023/04/15/opiniao/opiniao/casa-branca-hospedes-2046224

Dalai Lama afinal não tem língua

Dalai Lama, o Oceano de Sabedoria, tradução direta, segundo a Wikipedia, ,Sua Santidade segundo os seguidores, apreciaria que uma criança indiana lhe chupasse a língua depois de ter beijado a criança nos lábios.

O Prémio Nobel da Paz, o Santo Oceano acreditou que o mar era só água e esqueceu-se que tinha penedos e ondas bravas. O velho Dalai Lama de 87 anos mostrou o quanto a concupiscência lhe passou à frente da sabedoria, o que é grave num santo.

Mas admitindo que os santos, mesmo entre os budistas, têm defeitos, difícil se torna, entretanto, aceitar que o vetusto Santo venha justificar-se que se tratou de uma brincadeira inocente.

O Oceano em vez de Sabedoria encheu-se de Burrice e Cinismo. Quem neste mundo acredita que um inocente de oitenta e sete anos de idade pediu ingenuamente a uma criança para lhe chupar a língua?

Talvez os seus conselheiros pudessem informar que tal não era possível porque de tanto lhe chuparem a língua já não tinha o objeto do pecado.  

Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri

In Jornal de Letras 05/04/2023

É um novo romance, com o título acima, que chega ainda esta semana às livrarias, com a chancela da Guerra & Paz. Aos 73 anos, advogado, presidente do Fórum pela Paz e pelos Direitos Humanos, ex secretário de Álvaro Cunhal e dirigente do PCP, que entretanto abandonou mas sobre o qual escreveu dois livros (um no centenário do partido, outro de memórias) Domingos Lopes dá agora alume o seu sexto título de ficção. De que antecipamos um excerto e do qual fala ao JL (ver caixa)

“(…) Pois eu tenho de confessar que, ao exilar -me em Fátima, fiquei sem rede, sem gente com quem partilhar as minhas amar guras e, portanto, ao contrário dos que se rebolam com os amigos nas dores, eu tive de fazer a travessia sozinha, o que num pnnieiro mo mento me deixou mal, mas depois mais forte.

Trazia o peso na alma do abandono do Sérgio, de não o ter e de aprendera viver sem ele, Muitas vezes travei comigo uma batalha sem tréguas para resistir ao ímpeto de lhe telefonar, houve momentos em que quase fraquejei, já não me lembro o que fiz para não lhe telefonar.

À medida que o tempo passava, diminuía a pressão para entrar em contacto com ele, nunca em relação ao meu amor por ele, esse ainda hoje é efetivo.

Na altura, não tinha a consciência nem o conhecimento que de mim hoje tenho. Fui para Fátima como quem se atira contra uma onda gigante, sabendo que se a furar vem a acalmia, O tempo ajudou a encontrar o sentido que havia dentro do meu inconsciente e guiou -me. Já lá vão quase 40 anos e, no entanto, na minha memória, o que de mais saliente ficou foi a chuva impiedosa que cala no largo do recinto e da freira que me levou para o convento. A chuva caía, caía e eu sentia no frio uma expurgação. Esse é o traço grosso da memória. As lembranças são muitas, fazendo um esforço à procura do que realmente aconteceu, para não me enganar, e quando estou a falar contigo e como sempre fazes muitas perguntas, eu entro dentro dessa caixa onde estão as coisas vividas e escabulho-as para te poder responder e reparo que as respostas são também para mim, marcos que vamos adicionando ao longo do caminho andado; só é possível esse exercício quando nos confrontamos com o passado que outra pessoa nos faz emergir e então pensamos de modo cada vez mais completo, porque ao nos empenharmos para regressar ao que fomos, podemos ver de modo mais esclarecido o que nos aconteceu, melhor, o que fizemos acontecer.

O que sou hoje não é muito diferente do que era, exceção feita à experiência adquirida, que nos vai moldando.

Se fosse outra pessoa que andasse como estamos a caminhar no Estádio Nacional, por entre a mata sempre fresca, a nossa conversa nunca tomaria este rumo, é preciso confiarmos na pessoa com quem falamos e que haja unia corrente que leve de um para o outro, neste caso, a corrente pode ser este silêncio dos ténis a bater no chão cheio de folhas entrecortado por uma pergunta ou outra ao longo deste caminhar.

Pode -te parecer estranho, mas o Sérgio entrou debaixo da minha pele e faz parte de mim, oiço o Sinatra vezes sem conta a dizer que alguém está debaixo da sua pele; admito que é memória e nada mais, pois não falo com ele há quarenta anos e muito prova velmente ele hoje será um homem totalmente diferente, não sei, mas deve ser. A verdade é que nos anos em que estivemos juntos, ele foi um referencial tanto ao nível das ideias, fez de mim uma comunista, como a nível de homem. Eu nunca fui de procurar namorados e ele foi o primeiro e devo esclarecer -te que a sua postura em relação a mim foi de uma ternura impressionante, ele impunha –se pelo quase silêncio, pela coragem contida e até por uma fragilidade comovente. Ele não era destemido, era calmo e a sua meiguice tornava -o forte porque a sua própria necessidade de proteção fazia –o ter uma dimensão muito mais próxima daquilo que eu apreciava como a mulher jovem que eu era na altura, ou seja, ser eu e nesse registo ser valorizada pelo Sérgio; eu era como era e esse ser de então sentia que o Sérgio lhe dava muito valor, assim nos dávamos de um modo tranquilo; tudo isto à distância de todos estes anos.” JL

“Um monólogo copioso”

“Quem é esta conservadora que se tornou comunista, mas que acredita num Ser superior? Uma mulher que se revê no PCP ortodoxo que não deve fazer qualquer acordo com o PS ou outro partido? Uma mulher que, abandonada pelo marido, se

refugia em Fátima, apesar de ter militado na 5ª divisão do MFA e continuar a ser comunista? Será incompatível ser-se comunista e crente num Ser superior? Dar ajuda humanitária a refugiados ucranianos, mas defender a invasão russa? Ser-se

bela e atraente e não querer sexo? “, é com esta catadupa de perguntas que a Guerra & Paz inicia a descrição/promoção de Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri. E o autor que diz?

JL: Como ‘classifica’, em breves palavras, este seu novo livro?

Domingos Lopes: E uma novela ancorada num monólogo copioso, desprotegido pelo impulso da justificação do amor sucedido e cuja rejeição foi e é para aquela mulher, a protagonista, inaceitável. A rejeição do amor por parte do homem que amava e ama é a bola de salvação para enfrentar os tristes dias sem o amor que lhe dava a luz de todos os dias.

E daí…

Essa mulher conta a um antigo colega dos anos da revolução de Abril de 1974 que é ela quem o prende e, por o ter preso, ela já não pode ser de outro ou outros. O poder do amor faz de unia católica conservadora uma militante comunista ativa, assim como o poder destrutivo do divórcio a leva a fugir da Faculdade de Direito de Lisboa, que então frequentava, para um refúgio espiritual em Fátima.

Quer dizer que a sua paixão por ele se mantém?

A paixão não se extingue com o rompimento, prolonga-se em função da localização da memória na superfície ou na profundidade dos lagos onde vive. Quando a memória subjuga, como um sequestro, o próprio presente fica prisioneiro do passado. E essa mulher fala como se o que diz fosse o único juízo possível para aquilatar da ordem das coisas, por mais que viva há uma parte dela que secou e ela morreu sem ter percebido que tinha morrido.

Josep Borrell – caixeiro-viajante ao serviço dos grandes armeiros

A guerra da Ucrânia continua a sua dolorosa via com sérios riscos de se encaminhar de modo irreversível para o abismo. A Humanidade assemelha-se à avestruz que face ao medo mete a cabeça debaixo da areia.

Foi assumido por Merkl, Hollande e Poroshenko que os Acordos de Minsk se destinaram a criar condições para a Ucrânia se rearmar e resolver militarmente o problema dos habitantes de fala russa.

A invasão, apesar dessa clara má-fé negocial do “Ocidente”, não tem qualquer justificação e constituiu uma grosseira violação do direito internacional, igual a tantas outras cometidas pelos EUA. Porém, a UE deixou de ter uma visão europeia para o conflito e transformou-se num código postal dos EUA.

Josep Borrell é um socialista do PSOE que em matéria de visão do mundo caminha lado a lado com Biden/Zelensky/ e dirigentes do Leste e Norte europeu que esfregam as mãos ansiosos por um confronto com a Rússia.

Borrell e os socialistas/social-democratas europeus têm como programa estratégico a nível europeu, em relação a este conflito, o alinhamento com a política imperial dos EUA.

O artigo publicado no Público do dia 29 de março é o exemplo gritante de como um socialista se pode transformar num caixeiro-viajante ao serviço de Biden/von Leyen para comprar e vender munições 155mm e armas de todo o tipo para a entregar a Zelenskii, chefe de um regime que antes da guerra era considerado um dos mais corruptos do mundo.

A mensagem de Borrell é esta: Tirar dois mil milhões de euros ao Mecanismo Europeu de Apoio à Paz e enviar o mais rapidamente por todo o mundo caixeiros à procura de saber quem tem munições e rematar tudo quanto haja e encarregar desde já às fábricas que produzam mais armas. A isto chama o senhor Borrell quebrar tabus.

O senhor Borrell está muito preocupado com a falta de munições 155; ele e a senhora Ursula tinham garantido que os russos seriam derrotados com as sanções, o que poderia ser realidade se o mundo continuasse a andar a toque de caixa do chamado Ocidente; só que já não anda, o que não quer dizer que uma parte não ande.

O mundo não é um hoje um sítio calmo e cheio de harmonia, mas quem traçou a sua arquitetura já não manda sozinho, tem outros compassos a concorrer.   

Borrell escreve que é Zelenskii quem define os termos de um acordo de paz, só que quando se prestava a fazê-lo em abril de 2022, logo acorreu o eixo anglo saxónico a impedi-lo prometendo-lhe a derrota militar da Rússia, tantas vezes apregoada pelo trio Ursula/Borrell/Michel e o aprendiz de galaró, o cabo de ordens, o senhor Cravinho.

O que espanta é o à-vontade com que Borrell declara solenemente que comprar munições aos milhões pagas com os fundos do Mecanismo Europeu de Apoio à Paz se tornou num tabu quebrado e outros se seguirão quanto aos incentivos para gastar muito mais na indústria do armamento.

Borrell acode com milhares de milhões para a indústria da morte enquanto os seus camaradas socialistas no governo de alguns países europeus se afincam a impedir aumentos salariais para quem enfrenta uma inflação duríssima e a travar investimentos no setor público para fornecer melhor Saúde, melhor Ensino, melhor Justiça assegurando uma vida minimamente decente às populações.

Ele vestiu-se de caixeiro e corre o mundo à procura de quem venda munições para as fazer chegar à Ucrânia com a conta a ser paga pelos cidadãos da U.E.

Diz o senhor Borrell que o faz em nome de um mundo com regras, como se fossemos imbecis e não conhecêssemos que essas regras de que ele fala não tivessem até hoje servido as potências dominantes na OTAN e U.E.

Sim, um mundo com regras é vital, mas regras que impõem a condenação de todas as invasões e ocupações tanto na Ucrânia, como no Iraque, na Palestina, no Sahara Ocidental, no Iémen ou onde quer que seja.

O senhor Borrell em propaganda é mais ou menos razoável; em matéria de defesa da paz é uma desgraça, ofícios de um caixeiro-viajante em demanda de munições.

Novo livro de Domingos Lopes

Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri, novela
de Domingos Lopes, oferece, na voz de uma mulher
comunista, um mundo de perturbantes contradições
Será incompatível ser-se comunista e crente num Ser superior? Dar ajuda humanitária a refugiados ucranianos, mas defender a invasão russa? Ser-se bela e atraente e não querer sexo? Estas são algumas das questões qua atravessam a novela Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri, de Domingos Lopes. O autor dá voz a uma mulher única, envolta em perturbantes contradições, uma mulher cujos monólogos nunca terminam; são apenas adiados. Ao terceiro livro publicado pela Guerra e Paz, o antigo militante comunista e secretário de Álvaro Cunhal, mergulha na ficção, sem com isso deixar o tom interventivo, lúcido e combativo a que nos habituou quer em 100 anos do PCP: Do Sol da Terra ao Congresso de Loures como em Memórias Escolhidas, livro confessional em que revela os principais momentos da sua longa passagem pelo Partido. Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri chega à rede livreira nacional no próximo dia 4 de Abril, data a partir da qual estará também disponível através do site da editora.
 
Mas quem é esta mulher? Perguntar-se-ão os leitores logo nas primeiras páginas de Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri, o novíssimo livro de ficção de Domingos Lopes. Quem é esta advogada estagiária que, num extenso monólogo, conta a sua vida ao patrono, seu ex-colega de curso há dezenas de anos? Uma mulher que não foi amada quando criança, ficando marcada de modo indelével?

Quem é esta conservadora que se tornou comunista, mas que acredita num Ser superior? Uma mulher que se revê no PCP ortodoxo que não deve fazer qualquer acordo com o PS ou outro partido? Uma mulher que, abandonada pelo marido, se refugia em Fátima, apesar de ter militado na 5.ª divisão do MFA e continuar a ser comunista? «É muito estranho ter ido ao santuário de Fátima numa espécie de fuga para dentro de mim, achei que toda a espiritualidade de Fátima me levaria a encontrar um equilíbrio que me permitiria continuar a viver sem a angústia».

Que mulher é esta que dá gratuitamente aulas aos ucranianos, mas defende a invasão de Putin? «O Putin sabe o que faz. É preciso parar Biden, é um perigo, é um cínico. Só Putin o pode parar. Os russos são assim e eu admiro‑os, são pão, pão, queijo, queijo. São eslavos, ortodoxos, os que defenderam o cristianismo contra a Turquia e daí não aceitarem que lhes roubem a Crimeia. Foi Krushchov, que era ucraniano, que deu a Crimeia aos ucranianos numa noite de copos. É de loucos.»

Quem é esta professora, instrutora de segurança privada, cinturão negro de karaté? Bela, atraente e que não quer sexo? Uma mulher que foge de si própria? Será tudo isto assim tão inconciliável, inesperado e surreal? Ou existirão outros comunistas portugueses que partilhem destes paradoxos? As respostas estão nesta prosa cativante, fluída e enérgica, que desafia permanentemente a imaginação e a capacidade interpretativa do leitor.

Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri chega à rede livreira nacional no próximo dia 4 de Abril, numa edição Guerra e Paz que dificilmente conseguirá parar de ler.
 


 
Sequei e Morri Sem ter Sentido que Morri
Domingos Lopes
Ficção / Novela

 
 


Tiroteios nas escolas dos EUA- Wellcome to the Farwest

Ontem o tiroteio foi em Nashville. Uma jovem com duas espingardas semiautomáticas e um revólver matou três crianças e quatro adultos. Foi morta pela polícia.

Estima-se que haja 400.000.000 milhões de armas nas mãos dos cidadãos dos EUA.

Em 2020 verificaram-se 45.000 mortes com armas de fogo (homicídios, suicídios, acidentes). Em 2023 o número de mortes com armas de fogo é 4.368.

Desde 1999 ocorreram naquele país 376 tiroteios. Este ano, até esta data 12.

Que sociedade é esta, única no mundo ocidental, com este nível de tiroteios contra jovens e adultos absolutamente indefesos?

Pode um país com este tipo de violência constante afirmar-se como líder do Ocidente?

 Os EUA banalizam a violência. Os armeiros podem vender sem quaisquer restrições armas, incluindo de guerra.

Neste grande e fantástico país as crianças não estão livres de serem dizimadas por colegas ou adultos totalmente transtornados pelo tipo de modo de vida, o chamado american way of life.

O estofo cívico/moral deste país está à vista de todos. Impera o big money e a venda livre de armas está acima da vida humana. O lobby dos fabricantes de armas tem mais poder que os defensores da liberdade das mulheres interromperam a gravidez, sendo muito deles defensores acérrimos da pena de morte.

 Este país cresceu à base da força violenta, impôs ao mundo a violência em dezenas de intervenções militares, tem bases militares e tropas em redor de todo o Planeta e intitula-se defensor dos direitos humanos

Trump durante a sua presidência quando aconteciam esta espécie de massacres permanentes defendeu que o problema não estava na liberdade total para comprar armas, mas sim no facto dos professores não as usarem e não serem treinados para tal fim.

Uma sociedade que se debate com este tipo de violência é seguramente uma sociedade doente. Por isso os retrocessos civilizacionais que nela se verificam. Armas, mais armas, desde a polícia ao Estado até aos particulares, Wellcome to the Farwest

INVASÕES DO IRAQUE E UCRÂNIA E OS IMPERIALISMOS

CRAVINHO – O CABO DE ESQUADRA

Fez no dia 20 deste mês vinte anos que os EUA com o apoio do Reino Unido e da Espanha invadiram o Iraque com uma monumental mentira agitada até à náusea de que Saddam Hussein tinha armas de destruição massiva.

Alguns dos mentores deste crime horrendo contra o direito internacional já vieram mostrar arrependimento pelos 320.000 mortos causados.

É bem revelador que sendo uma data redonda em Portugal os media que rejubilaram na invasão, primeiro com a eliminação das armas, depois com a instauração da democracia (houve quem a comparasse com o 25 de Abril), fugiram agora dela e sem deixar de referir como algo menor concentraram toda a atenção na invasão da Ucrânia, também ela um ignominioso crime contra o direito internacional.

Recordemos o massacre de Faluja, os mercenários da Blackwater, os terríveis crimes cometidos na prisão de Abu- Grhaib, todo o rol de danos colaterais justificados pelo fim da invasão e comparemos com o modo como retratam as atrocidades russas cometidas na Ucrânia.

O que espanta já não é só a hipocrisia, é também, em muitos aspetos, o cinismo com que se apresenta a realidade, pois a cerca de dez mil quilómetros de distância as armas inexistentes no Iraque ameaçavam os EUA e as perseguições armadas ás populações de língua russa bem encostadas à Rússia não constituíam qualquer ameaça à Rússia, nem a sua eventual entrada da Ucrânia na OTAN depois dos países do Pacto de Varsóvia terem ingressado.

Por outra banda, o primeiro-ministro japonês em Bucha mostrou o seu regozijo pela ordem de detenção de Putin pelo TPI e o mundo ocidental por intermédio dos media mostra a sua indignação pelos crimes russos; paremos um instante para pensar: quem deve ser presente ao TPI por mais de 300.000 mortes no Iraque? Quem? George W. Bush? O socialista Tony Blair? Aznar? Durão Barroso? Paulo Portas?

Quem se esqueceu do tribunal que julgou Saddam e cuja sentença era já conhecida antes de instaurado o tribunal?

O Presidente do TPI que ordenou a detenção é polaco e o Secretário inglês? Não era e é a Polónia o país em que o poder judicial não goza de independência?

E de tanto falarem nas armas nucleares russas paremos mias um pouco, só um pouco, o senhor Fumio Kishida, primeiro-ministro japonês, já se esqueceu das bombas atómicas em Hiroshima e Nagasaki? Para quando um tribunal para julgar um dos mais vergonhosos crimes de guerra de guerra contra populações inocentes daquelas duas cidades japonesas?

Mas quem até hoje usou um verdadeiro arsenal de armas químicas no Vietnam depois da invasão que causou mais de dois milhões de mortos vietnamitas?

Não há invasões boas, nem imperialismos bons. Estamos a assistir a uma luta de potências capitalistas (capitalismo de Estado e capitalismo puro e duro). A hegemonia dos EUA saída do fim da guerra fria, tanto quanto se perceciona, está a ser posta em causa. A China, a Rússia e um conjunto de potências do Sul consideram-se capazes de enfrentar as leis do grande império. Este é o ponto.

O que faz falta ao mundo é a intervenção popular e democrática, seja onde for. Os povos, os sindicatos, os movimentos sociais, designadamente o movimento da paz, os democratas têm de se levantar para exigir o fim da guerra.

Não se pode embarcar na trágica ideia de derrotar a Rússia ou a Ucrânia militarmente. Parar a guerra é a melhor segurança contra o desnorte que será a prossecução sem fim da guerra.

A democracia e a paz são as armas mais eficazes contra o precipício, o militarismo será o caminho para a próxima guerra mundial.

Os portugueses devem empenhar-se para se fazer parar a guerra; Portugal como membro da OTAN em caso de conflito mundial estará na mira de armas nucleares e os militaristas de Moscovo e Kiev não justificam a postura do governo português onde o Ministro dos Negócios Estrangeiros mais parece um cabo de esquadra, sem desprimor para os cabos de esquadra, do que um diplomata.

Há vinte anos o mundo levantava-se contra a invasão do Iraque; hoje o mundo parece sem rumo. Haja a coragem de apontar um rumo certeiro- a paz.

A guerra, o mal de quase todos, a paz, o bem de todos, então porquê?

É difícil suportar psicologicamente o peso desta guerra que todos os dias nos violenta e que nos faz pensar nos horrores dos combatentes envolvidos. Pode meter-se a cabeça debaixo da areia como a avestruz, mas a verdade é que a cada segundo continua a destruição e o cortejo de mortes. Hoje é na Ucrânia e amanhã onde será?

A invasão injustificada e violadora do direito internacional tornou-se, neste momento, uma guerra entre a Rússia e o chamado Ocidente. E não é uma guerra entre a liberdade e ditadura. É um conflito por interesses geoestratégicos. Os oligarcas estão na Rússia, na Ucrânia e no Ocidente.  

As guerras quase sempre acrescentam problemas ao problema que alegam ir resolver. Hoje a guerra, seja onde for, é ilegal face ao artigo 4º da ONU, e daí a perplexidade pelo silêncio da ONU. Não só em relação à Ucrânia, mas também à Palestina e Iémen.

Também não se trata da primeira guerra após a segunda guerra mundial, pois a Turquia invadiu o Norte do Chipre em 1974 e os EUA/NATO desencadearam uma guerra em 1999 contra a Jugoslávia à margem do direito internacional.

Talvez o velho São Cristóvão, nestas circunstâncias, não aguentasse o mundo no estado em que se encontra e soçobrasse ao contrário do que diz o milagre.

Só no sec. XX na Europa nas duas guerras mundiais morreram mais de cem milhões de humanos.

Muitos homens e mulheres sábios se interrogaram e se interrogam acerca do porquê desta loucura quando se sabe de ciência certa que o armamento nuclear existente a ser utilizado levaria ao provável fim da Humanidade.

A guerra traz no seu bojo um espantoso inventário de sofrimentos. Vivemos neste mundo em cima de montanhas de milhares de milhões de morto causados pelas guerras ocorridas e de que há memória. Será que fomos feitos para fazer guerras? Mas como, se quase ninguém na Europa quer ser militar? Como, se russos e ucranianos fogem ao recrutamento? Então por que motivo aceitamos esta inevitabilidade como se tivéssemos de suportar esta incapacidade dos governantes para fazer a paz? Como podemos imaginar jovens e homens portugueses a ir combater no Leste europeu? Ou colocar o país na mira de armas nucleares se a escalada entrar nesse patamar? A Europa da paz soçobrou perante o militarismo. Já se fala do trânsito de dirigentes da UE para a NATO.

O que nos faz comover pela morte de jovens que morrem em simples acidentes e nos mantém quase impassíveis quando dezenas e dezenas de milhares de homens na sua juventude enchem cemitérios improvisados?

Esta guerra na Ucrânia é uma ignomínia. Os beligerantes escondem que a vitória de quem quer que seja significará mais dezenas e dezenas de milhares de mortos, mais destruição, mais miséria e fome e superlucros para os fabricantes da indústria de morte e os especuladores de sempre. A ministra da Defesa já fala em compras de armamento em conjunto, mas não há dinheiro para problemas centrais da dignidade humana – alimentação, saúde, escola pública, habitação e justiça.

Sem exagero o futuro da Humanidade pode estar a ser decidido nos campos de batalha da Ucrânia.

 Morrem diariamente centenas de ucranianos e russos (ambos seres humanos) e parece que não basta e que é preciso a entrada de novos combatentes vindos de outros países para prosseguir o inferno bélico. Se tal acontecer ninguém sabe onde a guerra vai chegar.

Por que se foge a esta realidade? Temos o poder de fazer parar esta guerra. Os governos dependem do apoio popular. Se houvesse a coragem por parte dos povos, os governos não participariam na guerra. A paz é o supremo bem da Humanidade, sem ela os humanos são como bárbaros que se matam uns aos outros. Não se pode continuar a fazer de conta que a guerra é lá longe porque começa num sítio e pode alastrar, como já vimos no passado, a todo o continente e a todo o mundo. Só a paz nos permitirá defender um futuro em que a segurança de todos os países seja o critério para a vida futura. Este é um tempo de guerra e é preciso forjar o tempo da paz, sem invasões, de respeito pela legalidade internacional e evitar a terceira guerra mundial. A questão é simples: fazer parar a barbaridade e erguer as bandeiras da paz contra as bandeiras da morte. Este é desafio mais aliciante para todos os povos e indivíduos.

https://www.publico.pt/2023/03/15/opiniao/opiniao/guerra-mal-quase-paz-bem-entao-2042539

Por que não te calas Zé Manel?

José Manuel Durão Barroso é um daqueles casos iguais a muitas outras figuras históricas cujo percurso enforma de características marcantes da nossa condição humana. Há nele uma pulsão para a grande hipocrisia. Vejamos.

Durão Barroso foi um destemperado maoista, defensor do radicalismo mais extremo contra o sistema e sobretudo contra as correntes de esquerda que combatiam o fascismo por serem frouxas comparadas com a grandiosidade da luta do MRPP.

 Tornou-se num jovem general cuja ambição era o incêndio da pradaria sendo que a ignição decorreria de partir montras dos bancos e que servia para provar a tibieza dos comunistas e a grandeza dos marxistas-leninistas-estalinistas-maoistas.

Enfrentou a revolução do 25 de Abril de 1974 com a alegação de que se tratava de um golpe de estado para impedir a revolução do proletariado que estava para chegar nos braços do MRPP dirigido pelo grande educador da classe operária, o camarada Arnaldo Matos.

Quando o 25 de Novembro de 1975 derrotou a esquerda militar o vento Leste amaciou, Durão Barroso foi fazer-se à vidinha encostando-se ao PSD que o recebeu de braços abertos para prosseguir a sua carreira por outros meios muito mais acomodatícios, sendo que mantendo o nariz ao vento sempre a cheirar pelas alturas e respetivas mordomias. Mudou a indumentária exterior e interior. Havia que sacudir toda a poeira revolucionária acumulada em mil diatribes.  A história repetia-se em relação aos grandes convertidos.

Durão Barroso foi secretário de estado, ministro e primeiro-ministro. Marcou a sua passagem à frente do governo com letras da mais vil vergonha no envolvimento de Portugal na invasão do Iraque garantindo que aquele país tinha armas de destruição massiva, o que como se sabia e se veio a confirmar foi um monumental embuste.

Bush, Blair, Aznar, Durão são responsáveis por mais de uma cem mil mortes e a destruição do Iraque, sendo que há quem afirme que o número de mortos é na ordem dos quinhentos mil.

Depois desta proeza Durão Barroso foi para Presidente da Comissão europeia, o seu currículo foi a porta de entrada porque os EUA mandam na Europa e o “camarada” José Manuel soube-o desde sempre.

Graças aos serviços prestados na U.E. Durão Barroso foi chamado para um dos mais altos cargos no Banco Goldman Sachs, seguramente por motivos que nada têm a ver com a sua experiência como banqueiro, pois nesta área a única que lhe é conhecida foi a de partir montras de bancos e que segundo Sigmund Freud seria desde logo um presságio/sinal da sua raiva/aspiração.

Barroso foi escolhido para ser uma altíssimo dirigente daquele banco cujos serviços são prestados a governos, instituições e às famílias mais ricas do Planeta. O “camarada” José saiu-se bem do seu passado e a alta burguesia soube agradecer-lhe.

Há dias Durão Barroso veio falar sobre a invasão da Ucrânia muito preocupado pelo futuro dado o carácter de Putin.

Independentemente das injustificadas razões de Putin para a invasão, algo tem de ser dito sobre a desfaçatez deste político/banqueiro – se tivesse um pingo de dignidade estava calado.

O que faz um político experiente, bem rodeado, aparecer nesta altura a atacar a Rússia quando sem mandato da ONU, com base numa das maiores mentiras da História se colocou na posição vergonhosa de mordomo de Bush a apoiar a invasão do Iraque?

Por que veio a terreno defender os interesses do Império? Deixou bem gravado em letras garrafais aquilo que é – um mequetrefe.