As freiras missionárias reparadoras do coração de Jesus, o bispo, o padre e o Cabo da GNR- tudo na Mêda

Rezam as crónicas que o padre da paróquia da Mêda, de seu nome Basílio Firmino, quando botava a missa, acompanhado pelo bispo de Lamego, D. António Couto, foi interrompido pelos paroquianos que tinham a seu lado três freiras, todas elas pertencentes à Congregação das Missionárias Reparadoras do Sagrado Coração de Jesus. O nome vai assim compridote, mas sendo essa a designação, como tal deve ser tratada, cada um ou uma com seu quê, tanto mais quanto o caso é raro e de especial melindre.

Diziam os paroquianos e freiras manifestantes à porta do templo católico, onde se passava a missinha no passado domingo dia 15, que o cura da Mêda tinha maltratado as freiras cuja função era de grande nobreza, embora de difícil alcance, pois tratar do coração do Criador é algo de difícil imaginação, mas para a imaginação não há limites.

Correram as notícias que as freiras fizeram queixa à Madre da Congregação que, diante dos factos assentes entre as religiosas e ela, as transferiu. Não se sabe se foram transferidas para o caso amainar ou até morrer ou se à falta de outra saída, o melhor era a transferência. Acontece muito nos grandes clubes de futebol no que às transferências se refere.

Só que o povo da paróquia por isto ou por aquilo se juntou às três freiras, e quando o homem da bata negra rezava a missa, foi expressar o seu desacordo pela ocorrência, deixando à vista de todos que a transferência pode ter sido um ponto de reagrupamento de forças.

Elas e eles e eventualmente a Madre entenderam voltar à lide num outro patamar, o que em vocabulário estratégico se designa como uma etapa superior de luta, ou seja, passando-a para a rua.

Aqui chegados, as trincheiras eram estas – as ofendidas respaldadas pelos paroquianos e o padre e o bispo. Voilá.

Para complicar o teatro das operações surgiu, chamado pelo padre Basílio Firmino, o cabo da GNR da Mêda, o qual interpelado pelo bispo de Lamego lhe respondeu que o direito de manifestação era livre.

Retorquiu D. António Couto que não era bem assim porque não estava a ser respeitado o artigo 251º do Código Penal que assegura o exercício do culto livre de ingerências.

Fácil é de ver que a situação se complicou tanto mais quanto a própria Diocese de Lamego em nota pública considerou a manifestação sem tino e enviou para o MP queixa contra as religiosas, os manifestantes e o próprio cabo-chefe da GNR de Lamego. Foi à medida grande.

No entendimento da Diocese o cabo entrou armado na igreja, o que não podia, alega a dita. E em vez de amansar os manifestantes entendeu que exerciam um direito legítimo, o de se manifestarem.

E visível neste conflito entre freiras alegadamente maltratadas e o padre Basílio Firmino o que em Direito se chama uma colisão de direitos; não é só no Cosmos que há colisões.

Ou seja, a colisão entre o direito dos cidadãos de se manifestarem e o direito do exercício de culto que no entender da Diocese foi desrespeitado.

Esta colisão de direitos em que ambos os conflituantes se sentem protegidos legalmente vai ser apreciada no MP.

 De todos os modos, a Diocese invoca a falta de tino das freiras e dos manifestantes. E ao enveredar pela via do tino fica-se com a ideia que não é de bom tino abespinhar-se, tanto mais que as freiras são religiosas reparadoras do Sagrado Coração de Jesus, sendo igualmente religiosos o padre e o bispo, gente a quem se impõe ter tino.

Quanto ao artigo 251 do Código Penal haja tino e deixem-no lá estar, que está muito bem e chamá-lo não havia necessidade a fim de reparar as desavenças entre religiosos e seus paroquianos. Ite, dita missa est.

https://www.publico.pt/2021/08/23/opiniao/opiniao/freiras-missionarias-bispo-padre-cabochefe-gnr-meda-1974975

Se Ventura não passasse os dias a rezar, o que aconteceria? E em Cabul onde se reza cinco vezes?

Vivo, há largos anos, neste país. Já vi muita coisa. Vivi muito, mesmo muito. De muito pouco me arrependo.

Lembro-me do aparecimento das primeiras bicicletas para mulheres e de preferir ir para o liceu da Póvoa de Varzim numa delas; eram mais lanseiras.

As dos homens impediam as mulheres de as usarem por causa das saias; elas não usavam calças in illo tempore.

Numa homília o padre Amorim da freguesia de Amorim, por sinal um homem bom, mas tão conservador como seco de carnes, amaldiçoou as mulheres por andarem de bicicleta por mostrarem as pernas e beliscava as jovens até ficar a marca por trazerem os braços ao léu. Pelos vistos, Amorim de então, não ficava muito longe da Cabul de hoje.

Um certo dia um par de guardas da GNR, andavam sempre um de cada lado da estrada, abordou um daqueles homens valentes que ia a fumar em cima da bicicleta. Foi mandado parar para mostrar a licença de isqueiro. Foi pancadaria de criar bicho porque o nosso homem tinha pedido lume a outro na taberna do Rupila.

Em Coimbra em 1971 um PIDE apontou-me uma arma e fui parar a Caxias com muitos outros estudantes da Universidade de Coimbra. Fui expulso para Lisboa, só havia Faculdades de Direito em Coimbra e Lisboa.

Participei na revolução e na conquista da Liberdade e da democracia. Ajudei a enterrar o fascismo. Vivi dias e noites como se dia e noite não fossem separadores do tempo.

Assisti ao nascimento do meu filho Pedro e lembro de ter escoado as lágrimas quando virou a cabeça e lhe vi a cara, chorava; pura magia.

Assisti à implosão do chamado socialismo real desvirtuador do ideal socialista/comunista e sem que ninguém naqueles países o tivesse defendido. Nem a chamada pomposamente ditadura do proletariado foi capaz de o fazer, mesmo ditatorialmente. A gangrena impediu-o.

Assisti comovido à libertação de Nelson Mandela, esse gigante da vontade humana, qualquer que seja o rumo entretanto escolhido pelo ANC.

Assisti aos horrores das guerras da Jugoslávia, do Iraque e do Afeganistão. Os resultados estão à vista e o rosário das impiedades.

Vi, no início do milénio, em Nagasaki e Hiroshima mesmo todos os anos passados, a loucura humana. Não estou seguro de que a cruel ambição não possa ampliar, por muitos milhares de vezes, a barbárie nuclear. E é chocante a indiferença humana face a esta corrida armamentista. Ou pelo descalabro climático a que o nosso Planeta está a ser conduzido. Que é esse isso comparado com a marquise de Cristiano Ronaldo no cimo do prédio mais caro de Lisboa? Ou as férias da senhora da Malveira?

Mas o mundo não para de surpreender. O Chega de Vila Real quando soube que o seu líder estava infetado com Covid-19 e não se vacinara, achou muito bem porque os enfermeiros e pessoal da saúde do governo de António Costa certamente o injetariam com veneno, bastaria reconhecê-lo no local da vacinação.

 Segundo o post do Facebook do Chega de Vila Real (não desmentido) …”A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o Chega”…  Que grande combate entre André e a China com a “Nossa Senhora de Fátima” a desequilibrar.

Mas se repararmos o post da Distrital de Vila Real recomenda “… aos militantes do CHEGA que não se identifiquem como tal quando vão tomar a vacina. Incomodamos muita gente e vão fazer de tudo para nos parar. Tomem cautela. O André já nos enviou uma mensagem de WhatsApp a garantir que está tudo bem e que tem passado o dia a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet…” Mas será que em Vila Real, aos que se vão vacinar, se pergunta se são do Chega?

Há, no entanto, uma certeza – André está a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet. E nos Açores já faz parte da solução governativa regional, acrescento, graças a Rui Rio.

Nestes dias de ira totalitária disfarçada de alguma candura, os taliban já mandam no Afeganistão e irão impor ao país que se reze cinco vezes. André, segundo o Facebook do Chega de Vila Real, reza todo o dia. Amen.

https://www.publico.pt/2021/08/17/politica/opiniao/ventura-nao-passasse-dia-rezar-aconteceria-cabul-onde-reza-apenas-cinco-vezes-1974363

SE MESSI VIER PARA PORTUGLA JÁ PODE TIRAR O CARTÃO DE CIDADÃO NO ALANDROAL

Portugal deixou há cerca de um mês e meio a Presidência da União Europeia, a União mais avançada do Planeta, diz-se.

No próximo mês de novembro, Lisboa vai ser capital do Web Summit. São aguardadas mil comunicações e participarão mil duzentas e cinquenta start-ups.

No solo de Marte máquinas estadunidenses e chinesas escabulham o solo daquele Planeta.

Os multibilionários da Terra dão passeios aeronáuticos fora da gravidade e voltam.

No Alandroal, na Conservatória do Registo Civil, enquanto aguardava pela emissão de certidões de óbito e nascimento que não podiam ser obtidas online, um casal e dois filhos esbaforidos aguardavam a sua vez para tratar do cartão de cidadão. Tinham saído de Lisboa muito cedo para chegar a tempo de tratar dos cartões, pois em Lisboa não havia vaga em qualquer conservatória.

E como também precisavam de obter os passaportes dos filhos iam de escantilhão do Alandroal para o Entroncamento para tratar dos respetivos documentos, embora morassem em Lisboa. Percorreram mais de duzentos quilómetros e continuariam a volta a meio Portugal para o Entroncamento, mais cerca de cento e oitenta quilómetros e regresso a Lisboa mais cento e vinte.

Enquanto os robôs escavavam o solo de Marte, este casal gastou doze horas porque em todas as Conservatórias em redor de Lisboa até um raio de mais de cem quilómetros não aceitavam o encargo.

A mim já me sucedera com o pedido do registo criminal no ano passado. Impossível obtê-lo em tempo útil. Consegui- o no Tribunal de Redondo a cento e oitenta quilómetros de Lisboa.

Os governos de Portugal deviam ter mais humildade e em vez de proclamar grandes avanços de modernidade serem capazes do mínimo dos mínimos – assegurar aos cidadãos a obtenção e renovação do cartão de cidadão.

A causa desta situação tem a ver com a míngua imposta à função pública impedindo a entrada de novos funcionários para substituir os que saem.

Um país que não é capaz de assegurar este mínimo dos mínimos não cativa os seus cidadãos, antes lhes causa raiva face à impotência de obter documentos absolutamente indispensáveis em pleno século vinte e um.

Como o país fugiu para o litoral, os serviços tendo menos funcionários implodem e não é tida em conta a nova situação.

Há nesta realidade algo de doloroso. Só que essa realidade impõe que se não desista e em vez de os cidadãos se atirarem aos seus compatriotas dos Serviços, deviam com toda a prontidão exigir o cumprimento dos deveres do Estado.

Será que a tal bazuca contempla o reforço destes Serviços para que os meios disponíveis sejam bem empregues e respondam a necessidades tão prementes como esta ou Bruxelas não deixa porque segundo a sua bitola ainda há funcionários públicos a mais?

No Cosmos, em Marte, máquinas comandadas da Terra prosseguem as suas pesquisas. Lisboa incapaz de renovar cartões de cidadão vai receber o Web Summit. Finalmente é conhecido o destino de Messi e os media respiraram de alívio, não fosse ele ficar sem cartão de cidadão.

https://www.publico.pt/2021/08/12/opiniao/opiniao/messi-vier-portugal-ja-tirar-cartao-cidadao-alandroal-1973933

Depois do Iraque segue a tragédia no Afeganistão. Messi no PSG.

Garantiram ao mundo, mesmo violando da forma mais grosseira o direito internacional no caso do Iraque, que a guerra era o melhor meio para impedir aquele país de usar as armas de destruição maciça que afinal não tinha.

Os traficantes da manipulação, incluindo Barroso e Portas, viram o que não existia, tal o grau de perversão das personagens.

Depois veio o Afeganistão invadido com o apoio Ocidental para edificar um regime democrático e mandar os taliban para o Inferno. Foi o que prometeram.

Centenas de milhares de mortos. Dois países destruídos. Miséria. Fome. Desgraças. Tudo por causa do Império e dos seus ordenanças.

Agora os EUA vão fugir do Afeganistão e regressarão em força os fascistas teocráticos apoiados pelo Paquistão e sabe-se lá quem mais.

Os EUA deixam nas mãos dos carrascos aqueles a quem garantiram proteção. Que se defendam, disse Biden. Só não disse com o que se podiam defender.

O povo afegão viverá mais uma tragédia. O mundo virará a cara. Leonel Messi está no PSG.

O vazio de Marcelo

Marcelo anda muito preocupado com o vazio político. Quer uma alternativa ao atual governo. E como não a vê, anda à procura.

As funções presidenciais não têm nada de vazio. Estão elencadas e são fundamentalmente aquelas que constam nos artigos 133 a 135 da CRP. Os legisladores constituintes encheram as funções, não resultando qualquer encargo que passe por andar a preencher o que está vazio.

Neste tempo doloroso causado por uma pandemia que teima em manter-se, é uma agonia o prato vazio de dezenas de milhar de portugueses. É um duplo vazio, as ausências de comida e da dignidade.

Vazio está o sonho de centenas de milhar de portugueses de terem uma vida decente para si e a sua família.

Vazio está ainda o sentido de vida, pois aumentaram em muito os pobres e os que já eram muitíssimo ricos ficaram ainda mais. A crise que o país vive lançou muitos milhares no desespero e umas poucas dezenas a encherem-se de riqueza, à custa dos que trabalham duro ou dos próprios pobres.

Mais vazio está o país de gente que nas aldeias, vilas e cidades a partir de uns trinta ou quarenta quilómetros do litoral, pois os seus naturais não têm onde poder ganhar a vida e fogem da terra onde nasceram, sem que ninguém apresente uma mão de propostas para que o esvaziamento cesse. 

Há um vazio abismal de gente na maior parte do território nacional. É um vazio não só no sentido patriótico e estratégico, mas até de solidariedade nacional. O que custaria encontrar um programa mínimo a subscrever por todos os partidos, associações sindicais, patronais e demais interessados? Há alguém que queira o país vazio de gente no interior?

A esperança que vinha dando sentido às novas gerações de poderem viver melhor que a de seus progenitores esvaziou-se. Amargamente a juventude não sabe como vai ser o futuro. O devir está vazio; não só o de encontrar uma profissão digna, mas em boa medida vazia está a esperança de lutar pelo sonho. Alguém é capaz de achar que tem sentido uma vida vazia de um sonho de viver melhor? Verdadeiramente inquietante – este sonho de viver melhor já não cabe na economia, cabe o défice e pouco mais. Já não são precisos economistas, bastam capatazes.

A vida não pode ser uma soma de vazios. Tem de haver a dignidade que a preencha e que faça que todos se sintam esperançados em que o futuro não seja essa soma.

Pois bem, apesar de muitas fragilidades deste governo, o vazio que há à direita tem a ver com o próprio vacuidade desse campo. Que têm a propor?

 A direita, até ao momento, não apresenta ideias em que os portugueses se revejam. E não se revendo, deixam esses partidos sem o apoio necessário para governarem. Esse é o seu drama e não do país. Marcelo sofre de dores por tal vazio, mas isso deve-se ao facto de passar de PR a comentador.

Passos tinha o empobrecimento e logrou empobrecer os remediados e os pobres. E Rio? Alguém conhece as propostas do PSD?

Dentro do próprio PSD fala-se do regresso de Passos. Um certo crescimento da IL e do Chega à sua direita deixa-o como o tolo em cima da ponte, sem rumo.

O CDS tenta fazer prova de vida dado o vazio em que caiu com o surgimento da IL e do Chega.

A direita está entalada entre o seu deserto de ideias e o Chega cuja ideia máxima é convocar e gritar contra o que chama de vergonha.

 Parece haver nos portugueses um grau de imunidade significativa contra esse vazio, e uma certa sabedoria de experiência feita – isto não está bem, mas para pior já basta assim.

O vazio de Marcelo | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Salgado preferiu tirar a máscara

Segundo as notícias, Salgado foi fazer exames médicos à Suiça e seguiu daquele país para a Sardenha em férias. Em julho é normal gozar férias. Aparece nalgumas fotos provenientes da Sardenha e, numa delas, não segue as regras sanitárias do uso de máscara obrigatório em espaços públicos, parecendo ir a caminho de um restaurante/pastelaria.

A Sardenha é conhecida pela sua beleza e pelas praias paradisíacas que bordejam as suas costas. A cor das suas águas está espalhada pelo mundo. Um homem que enfrentou o oceano a caminho das terras de Vera Cruz nos seus iates, sempre bem acompanhado, não desprezaria nunca as águas da Sardenha.

Há um apelo antiquíssimo de algumas estirpes de homens e mulheres por certos lugares. No fundo, esses seres humanos aceleram o percurso que os levam ao Paraíso, frequentando estágios de habituação a esse destino final.

Antes da existência legal de estágios laborais, nos antípodas situavam-se os estágios permanentes dos Todo-Poderosos nos mais belos locais do “nosso” Planeta.

De Petra ao Taja Mahal, do Macchu Picchu ao Nilo, da Patagónia ao Gobi, das noites brancas do Ártico ao Palácio Azul de Pequim, estes Senhores estagiaram antes das suas almas viajarem a velocidades hipersónicas a caminho do verdadeiro Paraíso pelo qual às suas ordens a golpes de espada e de balázios enviaram milhões para o Inferno, os quais acreditavam que voavam para outro Paraíso que não o dos vencedores.

À medida que o longo tempo se foi derramando, a Humanidade inventou as Casas da Justiça, as quais na boa interpretação original deveriam ser um paraíso porque ali se faria justiça igual para todos e todas. Esta é a justiça terrena capaz de apaziguar e, nesse sentido, os chamados àquela casa nela entrariam como quem um dia entrará no Reino da melhor justiça, aquela em que cada crente entende ser a melhor, ficando de fora os não crentes ou ateus.

Apesar disto, é compreensível que Ricardo Salgado, antigo dono do BES, não troque as águas turquesas da Sardenha pelos bancos rudes e duros do tribunal criminal de Lisboa, habituado desde menino aos melhores paraísos desta Terra.

De cima da sua idade não podia correr o risco de se infetar na Casa da Justiça. Os tribunais podem contagiar, mesmo com máscara. Na Sardenha Salgado tirou a máscara e desmascarou-se.

Ricardo Salgado preferiu tirar a máscara | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Os Kim e as purezas dos puros

Há umas semanas atrás Kim Jong Un, o grande líder da Coreia do Norte, verberava os que no seu país se deixavam levar pela penetração ideológica e cultural das ideias da burguesia. Todos deviam seguir as tradições coreanas milenares.

O pai dele Kim Jong Il foi mandado pelo avô, Kim Il Sung, estudar para a Suiça e ele o atual líder foi mandado por seu pai estudar também naquele país revolucionário de banqueiros.

Quem sabia que no país dos Alpes a pureza ideológica revolucionária se equipava à pureza do ar nos glaciares alpinos?

Até o corte de cabelo de Kim Jong Il se encaixa perfeitamente na milenar tradição coreana, a qual tem sido recebida entusiasticamente pelas grandes estrelas de jogadores de futebol dos maiores clubes do mundo.

A pureza dos puros é a Salvação da Humanidade. Ai dos impuros.

Cuba- dias de diálogo ou dias de ira?

Cuba vive dias difíceis. Seria bom que se não transformassem em dias de ira. Que os dias difíceis fossem, de uma ponta à outra da ilha, de esperança. Em Cuba, volta a colocar-se com vigor em cima da mesa a questão aparentemente contraditória entre o exercício dos direitos civis individuais e o dos direitos sociais. A questão pode ser enunciada deste modo: um regime que organiza a produção económica no sentido de satisfazer as necessidades populares está, por esse facto, isento de garantir à população o direito de se manifestar? Acrescentando a esta situação outra gravíssima: mesmo sofrendo um bloqueio por parte do grande Império que impede o país de acesso a tantos produtos?

Uma parte da população cubana saiu à rua para protestar contra as condições de vida. Fez aquilo que é absolutamente normal em Portugal. O PCP, a CGTP e os outros sindicatos fazem-no a toda a hora. E ainda bem para os trabalhadores. Em geral, a polícia impede que o seu exercício cívico/político seja obstaculizado por quem que que seja. O patronato não pode mobilizar trabalhadores contra os manifestantes ou os grevistas. Nem o Estado. Nem os partidos.

Diz o Presidente cubano e com razão que o país enfrenta o bloqueio asfixiante e que os inimigos da revolução se aproveitam da situação e outros estão confundidos. É quase certo que é assim, mas apesar disso persiste o problema, como se resolve então?

Como já há experiência internacional acerca do que sucedeu nos países do “socialismo real” os dados estão lançados; ou os dirigentes cubanos juntam ao bloqueio outro bloqueio cívico ou procuram por todos os meios um diálogo que conduza a saídas nas quais a população se reveja e aceite. Não há terceira via.

 Cuba conseguiu êxitos assinaláveis na Educação, Saúde abalada com o Covid, Desporto, Ciência tendo em conta o bloqueio e o grau de desenvolvimento de onde partiu o país. E se, neste momento, há quem não se conforme e queira fazer ouvir o seu protesto, mesmo que confundido ou confuso ou discordando de medidas do governo, a levar à letra a declaração do Presidente Bermudez, tais circunstâncias são impeditivas desses cidadãos exercerem esses direitos? Esta é a questão. Só a Blimunda do Saramago conseguia ler o íntimo dos outros e saber das verdadeiras intenções, mas isso era antes de tomar o pequeno-almoço e no imaginário riquíssimo do nosso Nobel.

Pergunta-se- só podem manifestar-se os que estão esclarecidos, os que não têm dúvidas, os que estão de acordo com as medidas do governo? Esse direito indiscutível não deve bloquear o outro direito – o daqueles confusos ou confundidos, seguros ou inseguros, certos ou errados, fortes ou fracos que se opõem às medidas governamentais porque as condições de vida se agravaram devido à pandemia e ao velho e ilegal bloqueio.

Um regime de tipo popular ou socialista deve reforçar o ideal de liberdade e democracia de modo mais fulgurante que a liberdade arrancada ao capitalismo pelos movimentos populares, sociais, democráticos, ecológicos, feministas e outros.

Ou a revolução francesa pelos direitos individuais e a russa pelos direitos socias e económicas são incompatíveis passados estes séculos de caminho da Humanidade? O que se viu foi a impossibilidade na URSS e nos outros países do Leste europeu de construir o socialismo sem garantir os direitos e as liberdades democráticas. Esse modelo sem o oxigénio que é a liberdade dos povos tarde ou cedo sucumbiria e sucumbiu.

 Cuba deveria compreender que há uma rota que conduz ao desastre. O regime tem mais apoio que nos países do Leste, parece. Por isso, as possibilidades são mais amplas para respeitar direitos e liberdades mínimas. Pode imaginar-se um socialismo em que parte (grande ou pequena) não pode sair à rua e protestar ou apoiar? Muito provavelmente o regime é capaz de mobilizar centenas de milhares de cubanos, mas há outros cubanos que se mobilizam para protestar contra o que acham que não está bem. Considerá-los inimigos é um desastre. São cubanos que não estão de acordo com o governo. Haverá, inclusive em termos académicos, algum regime que tenha o apoio de todas e todos os cidadãos?

Os cubanos são um povo de heróis desde Marti a Che a  Cien Fuegos a Fidel e seguramente quererão ser tratados com a dignidade democrática que merecem. Já não lhes basta sofrer na carne o bloqueio do Império e serem agora castigados pelo bloqueio cívico por parte dos seus dirigentes. O argumento das patifarias do Império não pode justificar que o povo cubano não possa usufruir as liberdades democráticas que reivindica. As experiências socialistas do século XX mostram que a subestimação do valor da liberdade conduz ao fracasso.

 Haja a coragem revolucionária e encete-se o diálogo. A não ser assim no futuro a marca do socialismo também naquela parte do mundo ficará associada à asfixia democrática. Tenha-se presente que a extrema-direita também emerge com força na Hungria, na Polónia, na Chéquia, na Bulgária e no território da ex-RDA.

 O ideal socialista precisa de ser resgatado e ter dentro dele o que o capitalismo não permite: liberdade, democracia e direitos sociais, económicos, ecológicos, culturais e de género. Não há futuro numa perna só. Os dois pilares são essenciais para o caminho do socialismo. A democracia não é inimiga dos direitos sociais, bem pelo contrário, quanto mais democracia, maior a possibilidade de alcançar os direitos sociais.

Cuba: dias de diálogo ou de ira? | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Rebelo de Sousa em entrevista ao Público – a revelação em todo o seu esplendor

A entrevista de Marcelo Rebelo de Sousa, conduzida por Maria João Avilez no P2 deste jornal de 11/07/2021, tem o seu quê de surpreendente num primeiro momento da leitura. A pergunta pode resumir-se a esta questão muito simples: o que pretendeu MRS passar para a vida política com a entrevista sobre António Guterres?

MRS não dá ponto sem nó. “Ajudado” por M. J. Avilez o entrevistado traz para a superfície a ligação umbilical entre ambos. No fio condutor da sua memória ele vai buscar, em grande medida, as origens dessa irmandade à fé católica.

O relevo da fé é de tal ordem que os apresenta (com ou sem mandato de Guterres- não revela) unidíssimos nesse desiderato, sem em momento algum, apesar da extensão, referir qualquer expressão desse ensejo de luta pela liberdade contra a ditadura.

Com ou sem consciência, MRS fala de Guterres como uma espécie de irmão gémeo quase nascidos da mesma criatura – a fé. A partir dessa irmandade é sugerida de modo subliminar a divisão do país num pequeno Tratado de Tordesilhas em que o centro-direita era para MRS e o centro-esquerda para AG.

De elogio em elogio (é relativamente comum em termos familiares) MRS revela algo de verdadeiramente original no percurso de ambos – tinham três coisas em comum-queriam a democratização do país, a descolonização e a entrada na CEE.

Julgo que é a primeira vez que este passado é assim assumido, tanto mais quanto não são conhecidos quaisquer escritos de MRS sobre a importância da democracia versus ditadura de Salazar/Caetano, muito menos contra a guerra colonial e mesmo até no que concerne à CEE.

Pelos meandros de uma memória bem escolhida, MRS vai dando passos sempre no sentido de apagar todas as diferenças entre ambos. E num lance de génio, de autêntico hierofante revela o lado totalmente desconhecido da vida de AG – a sua imensa solidão no PS, tendo levado para aquele partido a sua posição de católico, sempre tendo em conta a pouca presença católica no PS.

MRS ficou tristíssimo com a decisão, mas rapidamente compreendeu a importância da adesão de AG ao PS. E, apesar disso, e mesmo quando era líder da oposição, nunca deixou de coordenar com AG a ação entre ambos.

Fica-se a saber que no período em que a Alemanha era liderada por Helmut Kohl, ambos ficavam em Bruxelas, no mesmo hotel, em extremidade opostas, e a meio da noite lá iam coordenar as suas coisas.

MRS revela que AG falhou como primeiro-ministro porque era uma personalidade que não precisava da política e quando viu o que era o pântano foi-se para não se sentir “tolhido”

Não se sabe e provavelmente não se saberá o que AG pensa destas “revelações” entusiasmadas de MRS; num momento em que por todo o lado são acentuados os pontos de divergência entre MRS e António Costa, mesmo quando ambos o negam.

 Na verdade, apesar de muitas convergências do PS com o PSD em questões tão sensíveis como as leis laborais, são vários os anúncios de Costa a dar conta que não haverá acordo com o PSD.

Para a História talvez fique a quase certeza de muito provavelmente Rio nada ter a dizer sobre hotéis em que a meio da noite tenham ido coordenar a ação política.

É bem verdade que Costa fez tudo para MRS ser eleito. Porém, também é verdade que este é o último mandato de MRS e com o frenesim de ativismo em que está envolvido, dia e noite, talvez sofra de nostalgia pelos tempos tão magnificamente centristas. Admite-se que esta pulsão o leve a este eixo que percorre a entrevista. MRS nunca deixa de nos espantar. É de prever pavores de quem com ele partilhou o passado.

 Fica na entrevista revelada a vontade do autodesignado “irmão” de AG. Que a paz reine entre os homens de boa vontade e de desígnios escondidos.

A revelação do centrão em todo o seu esplendor | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Afeganistão 20 anos depois – um imenso mar de desgraças

Foi recentemente anunciada a retirada das tropas dos EUA do Afeganistão, quase vinte depois de terem iniciado a guerra (outubro de 2001) sob o comando de George W. Bush, após os ataques terroristas de 11 de Setembro de 2001.

Vinte anos é tempo suficiente para saber o que resultou desta guerra. Antes de mais cabe perguntar – a tal estrondosa vitória na ocasião sobre o terrorismo como se reflete hoje naquele país?

Os EUA derrubaram o poder dos Taliban, alegadamente expulsando a Al Qaeda do país, mas a retirada das suas tropas daquele país foi negociada com os Taliban… os derrotados há 20 anos.

As autoridades governamentais do Afeganistão que assentavam a sua estabilidade na presença militar dos EUA e da NATO estão agora na mira dos Taliban como se pode constatar pelos seus ataques no Norte do país e fugas das tropas governamentais para o Tajiquistão.

Os Talibans, uma organização que contou sempre com o apoio do Paquistão, cujos interesses naquele país vêm de longe, foram aliados especiais dos EUA que os apoiaram até com armamento sofisticado como os célebres mísseis Stinger na guerra contra a invasão soviética.

Barak Obama e Donald Trump negociaram continuamente ao longo destes anos com os Talibans para encontrar saídas do atoleiro em que se envolveram tal como passado ingleses e soviéticos.

O mais curioso é que tudo leva a crer que fizeram uma guerra que causou muitas dezenas de milhares de mortos entre militares e civis, aumentou assustadoramente a miséria e a fome no país, fragmentou ainda mais as diversas etnias, para voltar a colocar no poder os Talibans. As negociações que conduziram à saída dos soviéticos foram apresentados como uma vitória das forças que iriam fazer a transição para a democracia, a qual foi interrompida pela vitória militar dos Taliban e imposição de um regime fascista clerical terrorista escudado numa interpretação do Islão completamente retrógrada, medieval e brutal. 

A invasão somou horrores ao horror, logo seguida da do Iraque (2003). As duas guerras causaram centenas de milhares de mortos, milhões de refugiados, acrescentaram miséria e transformaram aqueles países em viveiros de guerras sectárias.

A lei das tribos substitui a dos Estados e das nações e os interesses étnicos voltaram a sobrepor-se a todos os demais.         

O Afeganistão, tudo leva crer, aproxima-se de um novo banho dos fundamentalistas contra as populações e da imposição do terror contra os direitos democráticos. É caso para perguntar foi para isto que se fizeram estas guerras? O mundo ficou bem pior do que estava antes destas invasões. Os arquitetos destas loucuras vão desaparecendo de acordo com as leis da vida e da morte e ninguém lhes pedirá contas. 

Joe Biden quer festejar o dia da Independência e não ouvir falar de coisas tristes. Tudo certo. Mas quem fabricou toda aquele imenso mar de tristeza, miséria e morte? 

Afeganistão 20 anos depois – um imenso mar de desgraças | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)