Se Ventura não passasse os dias a rezar, o que aconteceria? E em Cabul onde se reza cinco vezes?

Vivo, há largos anos, neste país. Já vi muita coisa. Vivi muito, mesmo muito. De muito pouco me arrependo.

Lembro-me do aparecimento das primeiras bicicletas para mulheres e de preferir ir para o liceu da Póvoa de Varzim numa delas; eram mais lanseiras.

As dos homens impediam as mulheres de as usarem por causa das saias; elas não usavam calças in illo tempore.

Numa homília o padre Amorim da freguesia de Amorim, por sinal um homem bom, mas tão conservador como seco de carnes, amaldiçoou as mulheres por andarem de bicicleta por mostrarem as pernas e beliscava as jovens até ficar a marca por trazerem os braços ao léu. Pelos vistos, Amorim de então, não ficava muito longe da Cabul de hoje.

Um certo dia um par de guardas da GNR, andavam sempre um de cada lado da estrada, abordou um daqueles homens valentes que ia a fumar em cima da bicicleta. Foi mandado parar para mostrar a licença de isqueiro. Foi pancadaria de criar bicho porque o nosso homem tinha pedido lume a outro na taberna do Rupila.

Em Coimbra em 1971 um PIDE apontou-me uma arma e fui parar a Caxias com muitos outros estudantes da Universidade de Coimbra. Fui expulso para Lisboa, só havia Faculdades de Direito em Coimbra e Lisboa.

Participei na revolução e na conquista da Liberdade e da democracia. Ajudei a enterrar o fascismo. Vivi dias e noites como se dia e noite não fossem separadores do tempo.

Assisti ao nascimento do meu filho Pedro e lembro de ter escoado as lágrimas quando virou a cabeça e lhe vi a cara, chorava; pura magia.

Assisti à implosão do chamado socialismo real desvirtuador do ideal socialista/comunista e sem que ninguém naqueles países o tivesse defendido. Nem a chamada pomposamente ditadura do proletariado foi capaz de o fazer, mesmo ditatorialmente. A gangrena impediu-o.

Assisti comovido à libertação de Nelson Mandela, esse gigante da vontade humana, qualquer que seja o rumo entretanto escolhido pelo ANC.

Assisti aos horrores das guerras da Jugoslávia, do Iraque e do Afeganistão. Os resultados estão à vista e o rosário das impiedades.

Vi, no início do milénio, em Nagasaki e Hiroshima mesmo todos os anos passados, a loucura humana. Não estou seguro de que a cruel ambição não possa ampliar, por muitos milhares de vezes, a barbárie nuclear. E é chocante a indiferença humana face a esta corrida armamentista. Ou pelo descalabro climático a que o nosso Planeta está a ser conduzido. Que é esse isso comparado com a marquise de Cristiano Ronaldo no cimo do prédio mais caro de Lisboa? Ou as férias da senhora da Malveira?

Mas o mundo não para de surpreender. O Chega de Vila Real quando soube que o seu líder estava infetado com Covid-19 e não se vacinara, achou muito bem porque os enfermeiros e pessoal da saúde do governo de António Costa certamente o injetariam com veneno, bastaria reconhecê-lo no local da vacinação.

 Segundo o post do Facebook do Chega de Vila Real (não desmentido) …”A Nossa Senhora de Fátima está com ele e não vai permitir que um dos seus escolhidos sucumba a uma doença criada na China para destruir o Chega”…  Que grande combate entre André e a China com a “Nossa Senhora de Fátima” a desequilibrar.

Mas se repararmos o post da Distrital de Vila Real recomenda “… aos militantes do CHEGA que não se identifiquem como tal quando vão tomar a vacina. Incomodamos muita gente e vão fazer de tudo para nos parar. Tomem cautela. O André já nos enviou uma mensagem de WhatsApp a garantir que está tudo bem e que tem passado o dia a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet…” Mas será que em Vila Real, aos que se vão vacinar, se pergunta se são do Chega?

Há, no entanto, uma certeza – André está a rezar pelo bem do país e a ler textos na internet. E nos Açores já faz parte da solução governativa regional, acrescento, graças a Rui Rio.

Nestes dias de ira totalitária disfarçada de alguma candura, os taliban já mandam no Afeganistão e irão impor ao país que se reze cinco vezes. André, segundo o Facebook do Chega de Vila Real, reza todo o dia. Amen.

https://www.publico.pt/2021/08/17/politica/opiniao/ventura-nao-passasse-dia-rezar-aconteceria-cabul-onde-reza-apenas-cinco-vezes-1974363

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