A doença francesa e não só

Num lampo o incêndio alastrou a um conjunto de bairros periféricos de Lille, Auxerre, Lyon, Marselha e Paris, como se um despertador acordasse uma camada significativa de jovens entre os treze e dezassete anos. Todos à uma a incendiar o que de certo modo representa poder central ou comunal.

As muitas e diversas análises têm um denominador comum, a morte do jovem Nahel M. de dezassete anos por um polícia que disparou à queima-roupa por não ter parado ao controlo de trânsito.

Comecemos pelo começo, deve a polícia atirar a matar numa simples operação de trânsito? Num país civilizado a polícia não atira a matar, algo está errado na França para aquele polícia atirar a matar. Algo muito profundo face ao número de disparos desta natureza.

O levantamento imediato dos bairros guetizados destas cidades mostra o peso insustentável da raiva e da ira destes jovens. O que sobressai é a revolta pura, sem que dela se retire qualquer reivindicação. Pura raiva cega.

Os ataques com morteiro de fogo de artificio são contra equipamentos sociais desde bibliotecas aos quarteis dos bombeiros passando por cantinas, pequenos comércios, viaturas de quem quer que sejam até transportes públicos. A raiva não distingue nada. Segue na esteira de outras raivas que arrasaram a França. Repete-se e amplia-se, num diagnóstico difícil. Para a debelar foram necessários mais de quarenta e cinco mil polícias bem armados, incluindo com blindados.

Não são imigrantes como proclamam as extremas direitas e algumas direitas coladas àquelas. São francesas e seus pais também, na origem magrebinos e alguns africanos. Dois grandes sindicatos da polícia chamam-lhe hordas de seres prejudiciais.

A polícia ganhou um poder acrescido no enfrentamento com o terrorismo, com os coletes amarelos e lutas sociais como as importantes manifestações contra o aumento da idade da reforma as quais se desenrolaram de modo pacífico. O poder deu-lhe autorização para atirar a matar e Nahel M. foi morto.

A França sofre há anos de uma insuportável arrogância do poder central e de uma ofensiva antissindical e antipopular para desmantelar o Estado Social e prosseguir o neoliberalismo da cartilha dogmática dos que creem nos humanos como inimigos entre si a quem tem de se reprimir para irem ao rego como os bois nos tempos da lavoura de meados do século passado.

Macron com o seu novo partido atirou o PS para a quase irrelevância. A extrema-direita medra no afundamento do Estado Social.

O poder logrando destruir as várias intermediações com as diferentes classes e camadas e grupos sociais apresenta a sua face violenta contra os que lutam contra esta marcha para o desastre coletivo de um país com a importância da França.

Se somos inimigos uns dos outros salta a extrema-direita fascizante a pedir ordem e mais ordem contra este conjunto de seres “nuisibles” , como os designam alguns sindicatos da Polícia.

Estas ações de verdadeiro vandalismo dão  pretextos aos chefes dessas correntes da extrema-direita que os utilizam para dar ainda mais poder à polícia e mais pobreza aos pobres. São templos muito complexos.

Os trabalhadores e o povo franceses não são ouvidos, mas castigados por defenderem ter uma vida decente e digna. As esquerdas francesas estão enfraquecidas apesar de algum avanço da França Insubmissa de Mélenchon a quem muitos acusam de radical, atribuindo à palavra radical um significado pejorativo com vistas a desqualificá-la imediatamente.

A extrema-direita medra bem neste pântano. O isolamento social e político dos jovens destes bairros pobres e sem perspetivas ao conduzi-los a ações deste tipo cava uma barreira com vastas camadas populares que defendem melhores condições de vida para estes cidadãos que vivem mal e se sentem humilhados por serem entre os pobres os que são mandados para as suas terras, como se não fossem franceses.

Avizinham-se tempos difíceis para a França, mas não só. As políticas neoliberais de esmagamento das forças populares vai dar força aos extremistas de direita como o provam o seu avanço na Espanha, Itália, Alemanha, Áustria, países do Leste europeu e Escandinavos.

A redução da influência dos verdadeiros ideais social-democratas e socialistas cria estes vazios que os populistas da extrema-direita ocupam. Se não houver coragem para mudar o eixo, a Europa vai passar maus tempos, aliás esse tempo já chegou a alguns países. A persistência no modelo neoliberal trará no seu bojo novas catástrofes sociais.

É mais do que tempo de construir um caminho para resgatar uma vida digna, decente e humana sem nos considerarmos todos inimigos uns dos outros. É a horas das esquerdas limparem os sectarismos e construírem alternativas mobilizadoras com vista para o mar largo das gentes trabalhadoras.

As transparências e as aparências de Cristina

A senhora da TVI foi, disse ela, foi, sem cuecas, a Itália. Na festa da TVI, que é algo que o país aguarda e segue com paixão e enlevo, levou um vestido transparente para se lhe ver o que os olhos veem. Tudo certo. E no Instagram escreveu ou mandar escrever que teve mais de três milhões de vistos, o que é obra. Dá que pensar. Mesmo que sejam só cinquenta por cento, mesmo vinte cinco por cento.
Na verdade, o mundo está a ficar cada vez mais um lugar de basbaques, o que preocupa muito mais que as transparências de uma senhora que para acordar precisa de se ver em mil e uma publicações, noblesse oblige.
O mundo vira a cara ao caído na rua, ao que luta por uma vida decente, aos mortos de uma guerra brutal, mas pelos vistos para as transparências há muitas centenas de milhares de olhos.
O fenómeno atinge muito mais gente em termos de basbaques. No mundo narcisista/individualista todos não passamos de cobradores de olhares a ”basbacar” . É pena.
Lembro-me sempre das mulheres que o José Gomes Ferreira via no Elétrico. Que lindo a gente ficar pendurado num olhar e ele ficar famoso apenas porque aquele olhar era o olhar que nos faltava. O Pessoa também ficava extasiado pelo seu rio que não era o grande Tejo, mas isso são coisas de poetas.
Agora os guinchos, o rabo ao léu e sem cuecas é que está a dar, pergunte-se ao senhor professor e PR Marcelo que lá foi ao beija-mão.
Os poetas estão em baixo. Por cima à custa dos lorpas que pagam quase vinte euros está a Cristina que esgota os pavilhões para lhes ensinar a que acreditem neles.
O tempo destes dias está a substituir a racionalidade de gente adulta por um certo grau de infantilização em que a mestra ensina e os incréus acreditam.
Podemo-nos rir, mas Zelenskii não passava de um ator de terceira categoria e fizeram dele o que se sabe.

Poseidon e os que se julgam da estirpe das divindades

No início do século XX distintas mulheres e homens da mais alta burguesia triunfante entravam a bordo do Titanic, o mais extraordinário navio até então construído.

O luxo, o glamour, ao acesso só de alguns humanos, deixaram as populações embasbacadas com aquela vida muito próxima do mais puro ideal burguês- ter e desfrutar a riqueza até ao mais alto pináculo do desejo.

Um século depois um grupo de multibilionários em busca do Titanic e de vestígios de uma riqueza carcomida pelo sal e encoberta de limos e lodo foi à procura de todas as glórias apenas ao alcance de um punhado de famosos-capazes-de-tudo. Vingar-se de certo modo do destino, o que não está ao alcance dos comuns mortais.

Na verdade, toda a atenção do mundo se centrou neles. Durante uma semana consumiram os media. Se já eram famosos devido à sua conta bancária que podia começar no fundo mar e subir ao Everest ficaram ainda mais famosos e talvez para todo o sempre, como o navio perto do qual Poseidon não lhes permitiu que pudessem assemelhar-se à estirpe das divindades.

Poseidon dos que se julgam da estirpe dos deuses

No início do século XX distintas mulheres e homens da mais alta burguesia triunfante entravam a bordo do Titanic, o mais extraordinário navio até então construído.

O luxo, o glamour, ao acesso só de alguns humanos, deixaram as populações embasbacadas com aquela vida muito próxima do mais puro ideal burguês- ter e desfrutar a riqueza até ao mais alto pináculo do desejo.

Um século depois um grupo de multibilionários em busca do Titanic e de vestígios de uma riqueza carcomida pelo sal e encoberta de limos e lodo foi à procura de todas as glórias apenas ao alcance de um punhado de famosos-capazes-de-tudo. Vingar-se de certo modo do destino, o que não está ao alcance dos comuns mortais.

Na verdade, toda a atenção do mundo se centrou neles. Durante uma semana consumiram os media. Se já eram famosos devido à sua conta bancária que podia começar no fundo mar e subir ao Everest ficaram ainda mais famosos e talvez para todo o sempre, como o navio perto do qual Poseidon não lhes permitiu que pudessem assemelhar-se à estirpe das divindades.

 UCRÂNIA – A TROCA DE SANGUE POR ARMAS

Olekseï Reznikov, Ministro da Defesa da Ucrânia, declarou numa entrevista ao programa de notícias TSN do canal 1+1 ucraniano, em 06/01/23, que … A principal ameaça para a Aliança é a Rússia. A Ucrânia faz hoje frente a essa ameaça. Cumprimos hoje a missão da NATO.  Eles não dão o sangue deles pela missão. Nós damos o nosso. Eis a razão pela qual nos devem fornecer armas”, in- https://twitter.com/aaronjmate/status/1613086637571080192?t=UGsvjOwOfOGSFVEYr4i31A&s=19.

Ao cabo destes meses de guerra e a fim de podermos encadear uma lógica subjacente às declarações de Reznikov vale recuar um pouco no tempo e ler as de Oleksiy Danilov, Secretário do Conselho de Segurança e de Defesa da Ucrânianum artigo de opinião publicado no jornal Ucrainska Pravda em 11/02/23 …” O Ocidente deve preparar-se para descolonizar a Rússia que vai desaparecer com as suas fronteiras atuais… Os processos que levaram ao colapso da URSS estão agora em curso na Rússia de hoje…”
https://www.pravda.com.ua/eng/columns/2023/02/11/7388917/

 Seguindo esta linha de raciocínio um dos mais destacados conselheiros de Zelenskï, Oleksï Arestovitch, declarou que a condição para a Ucrânia entrar na NATO era a destruição da Rússia.

O Público do dia 11 do corrente mês num texto de Catherine Belton e Francesca Ebel reportava que …”Um membro bem relacionado dos círculos diplomáticos  com funcionários governamentais afirmou que …a Ucrânia representa uma ameaça existencial à Rússia…”

O think-tank Rand Corporation criado pelo Pentágono no esboço da estratégia em 2019 Extanding Russia: Competition from Advantageous Ground e Overextending and Unbalancing Russia inclui claramente a ideia de desestabilizar a Rússia e levar ao seu enfraquecimento. O documento já entrava em linha de conta com uma invasão da Ucrânia e alertava…”  Poderia conduzir a perdas humanas e territoriais desproporcionadas e um fluxo de refugiados e até a uma paz desvantajosa…”

As revelações de Angela Merkel, François Hollande e Poroschenko que os Acordos de Minsk não passaram de um degrau para ganhar tempo e rearmar as Forças Armadas ucranianas batem certo com o que supra se transcreveu.

A estas somam-se as dos dirigentes ocidentais a dar como garantida a derrota militar russa quer pela incapacidade russa e o seu atraso e extrema desorganização, quer pela capacidade militar da Ucrânia, quer pelo dilúvio de sanções económicas que iriam desconectar a Rússia do mundo e conduzi-la ao colapso económico e social.

A sra. Ursula vestiu a pele de porta-voz da NATO ao declarar solenemente que a Rússia não escapava à derrota militar e que as sanções de mais de uma dezena de pacotes levaria ao fim do regime, logo seguida pelos srs Borrell, Costa, Michel e por um tal MNE que mandava prender Putin no Algarve se para lá fosse de férias.

 A Rússia vende hoje mais petróleo que antes da guerra. A inflação é inferior à da Europa e o PIB russo cresce mais que o da U.E.

As promessas enfáticas aos dirigentes ucranianos de lhes fornecerem todo o armamento necessário para derrotar militarmente a Rússia torna muito difícil assumir a realidade.  No entanto, pelo menos por ora mantêm em aberto a entrada da Ucrânia na NATO. Tal significaria que a NATO passaria a ter um novo centro no Leste, na Polónia, na chamada nova Europa, como assim foi designada por George W. Bush contra Chirac e Schröder aquando da invasão do Iraque.

O mundo vai mudar, não se sabe bem quais as consequências em todo o seu conjunto, mas vai. O eixo da mudança visa quebrar a hegemonia do país que tem mais prisões que universidades e que gasta no seu sistema penitenciário o astronómico montante de setenta e quatro mil milhões de dólares e é atingido por tiroteios constantes nas escolas, igrejas, supermercados e um pouco por todo o lado.

Na Ucrânia o sangue vertido pelos ucranianos será mais uma tragédia a juntar a tantas que os humanos têm vivido. As armas falam da morte e por isso levam a morte, sejam elas de quem forem, do Ocidente ou da Rússia.

A guerra um dia acabará. As negociações terão lugar e provarão que os que empurraram os ucranianos para a tal derrota militar da Rússia serão corresponsáveis pela tragédia, pois que o sangue vertido foi inútil e ao serviço de um projeto alheio aos interesses da própria Ucrânia. Quem estará nas negociações, Putin ou Zelenskï?

https://www.publico.pt/2023/06/14/opiniao/opiniao/ucrania-troca-sangue-armas-2053180

ESTE PAÍS VAI MAL

Os media marcam significativamente o tempo da política. O que não passa nas televisões e não sai nos jornais é como se não existisse. Os atores políticos falam para os cidadãos através dos media. O tempo da mediação direta é quase nulo.  Têm, por outro lado, um papel que, a ser bem cumprido, é essencial para o debate das ideias. Sem ideias diferentes ou até muito diferentes resta o situacionismo, aquilo a que a linguagem popular designa como “são todos iguais e o que querem é apanhar-se lá em cima, mas com o meu voto não”.  Aqui medra a extrema-direita e todos os que se servem da democracia para a amordaçar já confessadamente.

Portugal é, neste momento, um exemplo de como o situacionismo mina a alma popular e leva à descrença nas virtualidades únicas e imprescindíveis da vida democrática. O grande problema dos portugueses é o custo de vida, a falta de habitação, a desgraça da seca, a desertificação de país que vai encolhendo e encostando-se ao mar que se expande, a falta de infraestruturas, designadamente o aeroporto de lisboa, o Ensino, a Saúde, e a Justiça. O empobrecimento aumenta, um, em cada três portugueses, vive mal. Falta decência à nossa vida coletiva.

Não é aceitável que o Estado e as principais autarquias não construam habitação social; a iniciativa privada constrói se quiser, mas é inaceitável que os impostos recolhidos deem para pagar a loucura dos banqueiros (nesta desgraça anunciam lucros fabulosos, sem baixar as taxas de juro) e não dê para minimizar a desastrosa situação de quem quer viver debaixo de um teto e não de uma ponte.

A seca está aí com muita força e a pergunta tem de ser feita, o que se está a fazer para impedir que o Sado desapareça ou outros rios sigam o mesmo fim? E para impedir a desertificação do território que faz fronteira com Espanha?

 O computador do adjunto de Galamba deve ter alguma importância, mas gastar horas, dias, semanas a debater o assunto é uma bizantinice e uma incapacidade das elites dirigentes para acertar o rumo da governação.

Pode o PS, sob pena de suicídio, ignorar a corajosa e democrática luta dos professores pelo Ensino e pelo futuro do país?

Pode o PS continuar a fechar serviços no SNS que vão abrir no setor privado e fazer de conta que as pessoas não se revoltam primeiro por dentro e depois nas urnas e nas ruas contra quem os despreza?

Pode o PS continuar este ciclo inenarrável de ver como a Justiça se degrada, apodrece desde o tempo até às prescrições e à vida sem vida dos funcionários judiciais?

O governo descarrilou, há ministros que pura e simplesmente não existem; há uma que a propósito da seca anunciou a grande medida- pedir a Bruxelas que declare a seca. Onde está a cabeça desta gente, cá ou lá?

E a oposição? Corre atrás de computadores, dos aviões, dos palcos caros, das ruas em obras para aumentar a rede do metro. Resta a senhora Jonet com um banco para os pobrezinhos, falta como na década de cinquenta do século passado cada família ter um pobrezinho. Azeitonas, pão e um copinho de vinho, pobretes, mas alegretes. Há oitenta anos.

 Corre ainda atrás dos Leopardos para a Ucrânia e questiona grosseiramente um Presidente de um país amigo com uma proposta de paz para a Ucrânia. Há mais interesse em mostrar a Washington que é preciso derrotar militarmente a Rússia e até prender Putin do que ouvir, estudar e responder a essa proposta.

Os media puxam pelos casos até à exaustão tentando agarrar os cidadãos pela barulheira em torno deles, parecendo que realmente o país é uma escadaria de casos sem fim à vista, criando a ilusão de que entre os partidos políticos tudo é a mesma coisa, matando esperanças de mudanças. A superficialidade virar-se-á contra os próprios media e correrão o risco de se nivelar no tamanho dos títulos.

Este país vai mal. Tem uma oposição de direita, o PSD, que quase nada de diferente tem a propor. Pois bem, se qualquer um dos partidos serve, os franceses, por exemplo, trocaram num abrir e fechar de olhos Hollande pelo seu Ministro da Economia, o liberal centrista Macron. Et par cause… Se, por outro lado, as esquerdas do PS continuarem a ver qual é a melhor e de costas voltadas, a orientação política continuará a vir de Bruxelas e Washington onde a música é cada vez mais a mesma.  

https://www.publico.pt/2023/05/18/opiniao/opiniao/pais-vai-mal-2050094

O deplorável espetáculo medieval do rei modernaço e da consorte, agora sim, com sorte

A coroação de um homem que tem um mordomo para o vestir e que acorda todos os dias com uma gaita de foles e que viaja com um criado que transporta o assento da sanita só podia acontecer num país que ainda vive o trauma de ter deixado de mandar no mundo.

O chamado Reino Unido encolheu e custa caro caber dentro dos seus limites e daí o rei que foi coroado rei de quinze países quando não o é, a não ser no passado. Há alguém que acredite que o rei Carlos III é rei da Austrália ou da Nova Zelândia ou da Jamaica ou da Antígua e Barbuda? Nem ele. O faz de conta é muito bonito. E serve para dar uma visão de grandeza. A ele serve-lhe às mil maravilhas, ao Estado inglês nem por isso.

Além do mais é um grande espetáculo de entretenimento e as televisões seguem ao segundo a coroação; as mesmas que têm uma caterva de comentadores a reclamarem que é preciso cortar nas gorduras do Estado. Pois bem, a coroação do rei custa ao Estado, segundo a Euronews, 280 milhões de libras, num país a empobrecer a olhos vistos, com o SNS a rebentar pelas costuras e com o extravagante Johnson e a não menos estouvada Liz Truss e o multibilionário Rishi Sunak a gastarem na guerra da Ucrânia o que não é empregue para impedir cada vez mais milhões de ingleses empobreçam.

Talvez pensar o futuro como se fosse o passado, o que como se sabe é impossível, resulte durante algum tempo em termos de psicologia social.

A Carlos III vai ser posta na cabeça uma coroa de ouro maciço e cheia de diamantes e pedras preciosas. Foi ungido para lhe confirmar o direito divino do monarca e da investidura em que receberá vários objetos que simbolizam diferentes virtudes e bênçãos.

Está fora de questão receber a virtude de ter uma relação sadia com os filhos e netos, bem como com toda a família. Isso é para os plebeus.

Os ingleses comportam-se como basbaques diante de tão deplorável espetáculo e custa ver o Partido Trabalhista enfileirar naquela cerimónia medieval a ser paga por quem vive mal.

Mas por cá, os nossos media, não quiseram ficar atrás e acompanharam ao segundo a coroação do monarca que acorda diariamente ao som de gaitas de fole e tem na comitiva um transportador de um assento da sanita para Sua Majestade poder defecar sem que o seu real CU se entupa se não sentir que aquele é o seu assento.

Costa, o négligé soigné contra o sonho de Marcelo

Andava confessadamente, em diversas ocasiões, na senda do sonho, à procura de uma alternativa ao governo do PS; às vezes a caminho de Viseu, ai Jesus que lá foi ele, outras vezes na sua atividade de comentador mor do reino. E mal Costa se descuidava, lá aparecia a falar das más notícias, tudo em direto.

Perseguia, no seu jeito négligé, Costa a costurar os remendos que cada dia iam surgindo no governo de sua inteira responsabilidade.

A maioria absoluta oferecida a Costa dava, pensava ele, para ter quem quisesse e como quisesse no governo, mesmo quando manifestamente tinha de mandar para casa gente imprópria para ser governante.

Na verdade, António Costa/PS foram dando mostras ao país que um governo de maioria absoluta é um perigo para o funcionamento pleno das instituições democráticas porque quem “domina” o parlamento é levado a crer que é rei e senhor, o que como se está farto de ver não é verdade.

A direita conhecendo o desígnio e o sonho de Marcelo e revelando uma incapacidade doentia para apresentar qualquer programa alternativo seguiu o exemplo do tonitruante Ventura, limitando-se a adjetivar o governo com uma agressividade nunca vista em termos de normalidade democrática.

A promoção de Ventura (veja-se o triste e repugnante episódio contra visita de Lula da Silva) tem levado o PSD e a própria a IL a entrar no campo gizado pelo trauliteiro encartado com mestrado e doutoramento na universidade de Steve Bannon, o extremista da extrema-direita dos EUA.

Marcelo o maior contorcionista que escrevia cartas a Marcelo a atacar a Oposição democrática em 1973 tinha em mente cozer o governo em banho-maria e chamar Montenegro, chegasse ou não o voto dos portugueses. À terça-feira falava da dissolução, à quarta da economia que estava a ir bem, à quarta vetava a eutanásia, à quinta aparecia de repente a dizer que era grave a guerra na Ucrânia, à sexta dependia e ao fim de semana era o que aparecesse; este era o plano para o governo cair de podre.

Só que enquanto dirigente político foi um fracasso total, perdeu sempre; só ganhou quando ganhou a televisão e mesmo aí porque o PS se sentia confortável com ele – veja-se bem o raciocínio com o que está a acontecer.

Costa é de outro tempero, está habituado a ganhar, mesmo passando por cima do seu camarada Seguro.

Costa, repete-se tem ares de négligé, mas é um négligé bien soigné e deve ter deixado Marcelo sem saber que comentário fazer, a não ser que discorda dele, como se não soubéssemos.

Vamos ter de esperar, a direita também e Marcelo idem aspas. Falta a ação decidida do povo português. Se os partidos à esquerda dessem as mãos e mostrassem a alternativa a esperança seria maior.

O vendaval ideológico da direita e os media

Há nos media portugueses um vendaval ideológico cujo objetivo é colocar os partidos da direita no governo. Fazem-no porque têm uma maioria absoluta de opiniões nos jornais e nas televisões. No setor público do Estado em vez de fazer diferente, garantindo uma verdadeira pluralidade, papagueiam a dominante.

De manhã à noite, incansavelmente, chafurdam na sua especialidade, a politiquice elevada ao grau absoluto.

O ataque sem tréguas ao governo, aproveitando as incapacidades e as vulnerabilidades da sua própria política de orientação neoliberal, não tem como contraponto uma outra alternativa. Escondem o objetivo deste jogo para juntar o máximo possível de confluências e derrubar o governo. Marcelo Rebelo de Sousa não resiste e cada dia que passa cumpre o seu desígnio de se ver livre da maioria absoluta do PS.

Um exemplo atual – a visita de Lula. PS e PSD têm a mesma posição sobre o conflito na Ucrânia. De que se havia de lembrar o PSD no seu esplendor a pedir meças ao Chega, de que o PS se devia demarcar da posição de Lula. Só a impunidade mediática lhes permite tal exercício. Por um breve instante imaginemos a ida de Marcelo ao Brasil e tendo em conta as diferentes posições sobre a Ucrânia alguém consegue conceber aberturas de telejornais brasileiros a questionar a posição de Portugal e a confrontar o governo brasileiro sobre a posição portuguesa?

A direita perdeu o sentido de Estado e o de um relacionamento estratégico de Portugal com o Brasil, seja qual for o governo de cá ou de lá.  Por motivos óbvios, basta atentar ao número de portugueses no Brasil e de brasileiros cá.

Não se pode fugir a esta questão a que PSD e grande parte da direita foge: o Brasil não é estratégico para Portugal, e os outros países de língua oficial portuguesa?  O seu apego a Bruxelas e à NATO não lhes permite ver mais além?

Depois há uma questão cuja simplicidade foi exposta por Lula: condenando a invasão, que fazer a seguir, negociar ou continuar a guerra?

Combater até derrotar a Rússia, segundo os EUA/U.E. e a que preço? Já nos prometeram a derrota por via das sanções. Estão a afetar a Rússia, mas a mudar o paradigma da moeda de transações, e não será por aqui que a derrota chegará porque o mundo não anda a toque caixa do Ocidente. E quanto está a ser afetada a Europa por causa das sanções?

A irrealidade e o grau de manipulação chegam a este ponto – Todos os dias os russos perdem a guerra por falta disto ou daquilo, até de botas e misseis, mas quem não tem munições é a NATO ou se tem, diz que não tem.

Há uma questão a que todos têm de responder e à qual não se pode fugir: para salvar a face da NATO é preciso chegar à guerra nuclear?

O deslumbramento pelas posições atlantistas de continuar a guerra até à vitória militar da Ucrânia impede o espírito de abertura para uma negociação que pare a guerra.

A visita de Lula a Portugal para grande parte da direita foi mais um palco de luta contra o governo e um acrescento à defesa do militarismo ocidental que pelos vistos ouvir falar de paz é o mesmo que o diabo ouvir falar da cruz.

O vendaval vai continuar a ter efeitos muito perversos, mas o que já viveram algumas décadas sabem de experiência feita que a irrealidade bate sempre de frente com a realidade. Para além da corrida aos armamentos e marchar, marchar contra a Rússia, o que vai decidir vão ser as condições de vida dos povos da Europa que nunca viveram tão mal desde a segunda guerra mundial. Inventar realidades só na ficção, na política vale apenas para a ocasião.