O país triste

Hoje nas ruas de Portugal a população olhava para o chão para esconder a tristeza. Havia os que faziam da tristeza(poucos) uma bandeira e desfraldavam-na para exibir o seu amor à causa da tristeza.

Luís Filipe Vieira já tinha dito -as vitórias do Benfica são a felicidade do povo português. Ele já tinha avisado.

António Costa leu bem o presságio e correu em socorro do homem incompreendido por tanta suspeição.

Disse Vieira a caminho de Tumba que havia uma campanha caluniosa contra o impoluto Presidente benfiquista. E mais não disse.

São grandes dizeres: que o povo é feliz se ele for feliz e que o andam a perseguir.

Por isso, esta manhã a tristeza silenciosa dos portugueses ouvia-se por todo o lado, incluindo para as bandas de S. Bento.

Em Salónica não era bem ele o perseguido; eram os jogadores do Benfica, pois os PAOKes tinham outro andamento e perseguiam a bola a outra velocidade. Faltavam-lhes pernas.

Se tivessem ganho sentenciou JJesus iam muito longe. O problema é que não foram. Ficaram.

Que tristeza. Que desgraça. Por onde anda a alegria?

O país e o seu Primeiro-Ministro andam tristes. Que tristeza. Valha-nos Jesus sempre super satisfeito consigo próprio. Se ele fosse em frente…Se.O se é uma palavrinha tão pequeninha e vejam a sua contradição com o propósito do catedrático das táticas e o seu desígnio de grande treinador como muito poucos na Champions. Ai se a rã não tivesse passado ao lado da vaca. Se…

O erro estratégico de António Costa

Costa, fazendo de Frei Tomás, trajado de 1º Ministro, anunciou, em visita à Autoeuropa, em 13/05/2010, o apoio à candidatura presidencial de Marcelo; o que supõe, em quem anda a virar frangos há muitos anos, que sabiam ambos ao que iam.

Bem pode clamar pelo dever de contenção que ele virou a esse nível uma incontinência, tanto em política, como em futebol. Costuma acontecer a quem navega à vista e descura os elementos estratégicos.

O PS é, neste momento, o partido com maior influência eleitoral, bem maior que a do PSD. O PS e a esquerda tem uma confortável maioria no país.

O PS tem a vocação de ir a todas, incluindo às mais pequenas freguesias. Cabe então a pergunta – por que desistiu Costa de ter um Presidente da República da área do PS, em vez do trambiqueiro da área do PSD?

Não bate certo alegar que nunca dependerá no governo do PSD e ao mesmo tempo apoiar um homem que toda a sua vida se guiou pelo combate ao PS, ao SNS, ao Ensino Público e à Função Pública.

Dando o seu apoio ao candidato Marcelo apoiado pelo PSD e CDS, Costa abandona uma batalha entregando a vitória aos seus adversários, independentemente do papel que o cidadão Marcelo possa vir a ter. Certo, certo é o PS entrar na luta pelo mais alto cargo da República ao lado da direita, quando esta é francamente minoritária.

Uma estratégia consequente tem nos seus desenvolvimentos essenciais elementos que estão direcionados no mesmo sentido. Não será um bom estratego aquele que para governar diz querer apoiar-se na esquerda e para o cargo de PR apoia a direita ou centro direita, grosso modo. Baralha e desarma os que vão ao combate, pois, como é bom de ver, põe os socialistas ao lado do PSD e CDS nas presidenciais, e nas legislativas contra os mesmos partidos.

Costa pode ter uma fina perceção tática, mas como se sabe não basta para ter um rumo capaz de aglutinar uma mobilização para um combate tão difícil como é o atual em tempo de pandemia.

Teve a coragem de acordar com o BE, o PCP e o PEV quatro anos de legislatura, virando uma página na política portuguesa que durava desde 1976.

Mas tem dentro dele um pendor para que uma determinada perspetiva seja sempre balanceada por outra guinada que trava esse horizonte.

Os quatro anos da gerigonça permitiram ao PS reforçar as suas posições, o que nunca tinha sucedido após quatro anos de governo.

O avanço precipitado de Costa de apoio a Marcelo deixou o PS em termos do cargo- PR- nas mãos de um homem que já mostrou ao país que é um verdadeiro catavento espalhafatoso, como um alfaiate, a alinhavar o cargo fazendo dele uma espécie de concorrência mediática com a sua amiga, a nova administradora da TVI.

Este segundo mandato (em que a conflitualidade social vai aumentar) será muito importante, tendo em conta as características do semipresidencialismo português.

Marcelo dá tudo e mais o que não tem para ser protagonista, veja-se a propósito do apoio de Costa a Vieira o que ele disse publicamente com ar contrito, que ia falar com ele. O PR fala com o PM nas suas reuniões semanais às quintas, mas o veneno é servido como se fosse um copo de ginja, só que é em Belém. E aí está o erro de Costa.     

https://www.publico.pt/2020/09/15/opiniao/opiniao/erro-estrategico-antonio-costa-1931616

 

Apreciemos o instante de Ommar Jayyam

Um instante separa a devoção da blasfémia

um instante divide o certo do incerto;

desfruta este instante e tem-no em grande apreço,

que a vida no seu todo retém este instante

OMAR JAYYAM, astrólogo, matemático, seguidor de Avicena, materialista, e poeta iraniano do século XII

De Tutankamon a Marcelo

 Dá que pensar o modo como os portugueses têm escolhido os dois últimos Presidentes da República. O povo que elegeu o conservadoríssimo e provincianíssimo Cavaco que se gabava de ser doutorado pela Universidade de York é o mesmo que elegeu o trambiqueiro Marcelo que voltará a ser eleito em 2021.

Dois conservadores que conviveram bem com a ditadura de Salazar/Caetano. Dois políticos que se arvoram em estar por cima da política.

Um fazendo de Belém uma catacumba de submissão à austeridade de braço dado com Passos e Portas depois de anos antes jurar colaboração com Sócrates quando este tinha 50% dos votos. Um fingido para chegar ao mais alto cargo. Sempre com um ar agastado de quem acha que ninguém o merece, ele que foi de longe o que teve uma carreira política mais ziguezaguiante de ambição desmedida e que se apresentava como um padre da aldeia que para não pecar não lia jornais em público.

Foi este homem feito de lugares comuns que entrou na cabeça dos portugueses e que não hesitaram em dar-lhe os seus votos. Foi-se embora cheio de rancor face ao acordo do PS com os partidos à sua esquerda, chegando a exigir um documento escrito para indigitar Costa, que acabou por não o fazer, sendo certo que era o Parlamento quem tinha a palavra definitiva. Foi-se para o seu canto chocar com a realidade, como ele gostava de piar.

Veio este de mil peles feito desde estarola a professor, de comediante a fofoqueiro, de beijoqueiro a sabichão, de agente de enterro a aplicador de cataplasmas, de socorrista de avionetas e fogos a mergulhador fugindo às regras covidianas, de controleiro da DGS a bebedor de ginginha no meio do maralhal, de surfista a homem de levar a câmara para o barbeiro, de dançarino a equilibrista, de organizador de auto-excursão à Festa do Avante com cantoria para têvê mostrar à pomposa e solene declaração de Castro Marim em que com ar pesaroso anunciou ao país certamente com conhecimento prévio de António Costa e Marta Temido que em setembro ele não contava com mais de 100 casos de infeção diários.

Et voilá Mr. le Président teria seguramente dados fornecidos por alguém deste mundo, mas que se desconhece a proveniência ( embora a transparência para Marcelo seja um dos mais altos valores que diz prezar) e que apontavam para cem casos diários, mais pico, menos pico. Assim falou Rebelo de Sousa em fala presidencial.

Quem o viu reparou no ar condoído, embora as suas funções enumeradas na Constituição da República não contemplam sentimentos e expectativas, imagina-se que o Sr. Presidente quis dar a mão à Senhora Dra. Marta Temido e para a proteger deu a entender que muito provavelmente ela lhe teria segredado aquele número especial de infeções.

E porquê Marta e não Costa? Porque se sabe que Rebelo de Sousa não vai à missa ( só para beijar o Cardeal) com o irritante otimismo do Primeiro-Ministro.

Como se costuma dizer ele há feitios para todos os gostos e, na verdade, este pequeno país vai de um extremo a outro. Ao lado de Tutankamon, Cavaco era um sorridente. E de repente em Belém foi cair uma estrela da televisão, um trambiqueiro.

Só os portugueses vão do oito para o oitenta em escassos segundos, tal a força que os anima. O problema é se se habituam a percorrer o caminho dos basbaques. Artista já há, e a temporada de cinco anos avizinha-se.

https://www.publico.pt/2020/09/08/opiniao/opiniao/mumia-trambiqueiro-1930778

A émeérrepêpisação do PCP

A primeira Festa do Avante realizada em 1976 na FIL, na qual foi posta uma bomba, inseriu-se num contexto mais vasto de realizações do mesmo tipo como a Festa do Humanité (PCF), Unitá( PCI), Mundo Obrero (PCE), entre muitos outros.
Foi o PCP que criativamente engendrou na colina da Ajuda estes grandes espetáculos aliados à divulgação de realizações culturais de elevado nível.
Durante mais de vinte anos participei na Organização da Festa pelo lado da participação de quase uma centena de partidos comunistas e de esquerda de todo o mundo, desde Timor Leste aos EUA.
A Festa reuniu quadros da maior qualidade a diversos níveis e gerações de intelectuais desde logo o pintor e escultor, o saudoso Mestre Rogério Ribeiro.
Até o Sr. Prof. Dr. Marcelo lá foi, antes de ser eleito para o cargo que tão beijoqueiramente ocupa.
Com o advento da pandemia as Festas do Humanité e do Mundo Obrero foram canceladas, com toda a lógica.
A Festa tem para o PCP um certo simbolismo, uma espécie de atestado de força que, entendido à maneira da sua direção, seria suficiente para justificar um ano de vida. Trata-se da substituição de uma ação abrangente por um ritual quase sagrado. Ora os rituais tendem a fazer perder o pé à realidade.
Não é de aceitar que um partido que existe para defender os mais desprotegidos ponha à frente deles esta celebração em tempos de pandemia. E afinal o que preside a esta obstinação que os faz ligar aos militantes para irem? O que explica este estranho fenómeno? Será que estes dirigentes do PCP interiorizaram que se a Festa não se fizesse, o PCP deixaria de ser o que era? Mas tal não aconteceu num ano em que caiu um dilúvio de água…
A direção do PCP, imitando o MRPP no estardalhaço verbal, conseguiu colocar em cima da mesa o tema da Festa, mas pelos piores motivos. Quando há anos se unia os portugueses para comprar o terreno, hoje a direção do PCP conseguiu criar um ambiente que dá para tudo para atacar o partido.
É uma perversidade querer meter no mesmo saco do anticomunismo todos os que se pronunciam sobre o evento no sentido de apresentarem as maiores reticências em relação à realização. Há quem o faça exatamente para defender o partido.
A direção do PCP devia ser a primeira a dar o exemplo e cancelar a Festa. Não se trata de saber se é legal ou não, nem a ousadia está nessa vertente. A pandemia existe e não há risco zero e toda a gente sabe que numa Festa há desinibição, copos, abraços e …Porquê esta decisão? Será que se a seguissem se sentiriam derrotados depois do verbo gasto a incentivar o caminho traçado? Onde está a coragem? Em colocar à frente de todo o Partido a direção do PCP? A coragem seria substituir a ritualização dogmática pela ponderação que tivesse em conta a importância da disseminação do vírus e a presença das gerações mais idosas para um certo equilíbrio da Festa face à juventude.
As chamadas telefónicas a pedir aos militantes para irem são muitas e há militantes que sempre foram e não vão. Muitos não vão por motivos simples – a pandemia existe e o vírus está em todo o lado, incluindo na Quinta da Atalaia, porquê arriscar? Quem duvida que o PCP é capaz de fazer uma grande Festa? A direção do PCP?
Os dirigentes do PCP sabem que façam o que fizerem têm o seu lugar garantido pelo centralismo democrático, só ele podem propor outra direção. O mal maior é que como nunca era preciso um PCP mais forte e a direção está a torná-lo mais fraco.
https://www.publico.pt/2020/08/31/opiniao/opiniao/emeerrepepizacao-pcp-1929805

Quo vadis poor America?

Sete tiros a centímetros do alvejado é para o matar sete vezes. Um joelho assente com o peso de todo o corpo no pescoço de um homem, seja qual for a cor desse homem, é para o matar por asfixia.
Quando o polícia dispara sete vezes contra Jacob Blake o choque é tão grande que há um momento de estupefação e de incredulidade. Há um abalo e de repente sentimos os tiros, a dor e a raiva. Como é possível? Sete disparos seguidos contra um homem desarmado…Só a fome de vingança cega e de matar.
Quem vir o vídeo dos polícias que perseguem Jacob Blake verá que o primeiro tiro derruba Jacob, um homem que já nada pode fazer. Está ferido gravemente ou a caminho da morte.
Jacob Blake é negro, tal como era George Floyd, a quem um polícia matou com o joelho no pescoço, mesmo repetindo longamente que não conseguia respirar.
A tal lei permite aos cidadãos dos EUA comprarem todo o tipo de armas, incluindo a adolescentes de 17 anos, mas se um preto tem um canivete ou uma faca no carro, então o polícia atira sete vezes para ver se o mata.
Um adolescente de 17 anos, armado de uma arma de guerra que a lei e a ordem lhe permitem adquirir a ele e aos supremacistas brancos, atira a matar e mata.
O livre acesso à aquisição de armas, incluindo de guerra como a empunhada pelo adolescente que atirou a matar faz parte de um movimento mais geral dos racistas e supremacistas brancos para manter a população negra atemorizada, como se fosse gado bravo pronto a ser alvejado, cada vez que alguém sugira uma suspeição.
A simples ideia de ser permitido a organização de milícias armadas para alegadamente impor a lei e a ordem que permite a um polícia sentir-se confortável disparando sete tiros a menos de um metro evidencia algumas características da América de hoje. Uma sociedade doente, sem rumo certo, entre um caminho de repelões trumpianos que vê o mundo como se fosse o seu campo de golf na Florida ou as suas torres de Nova Iorque e uma outra América imobilizada por diversos impasses internos, incluindo o seu declínio e incapacidade para contribuir resolver problemas muito graves à escala mundial.
Só numa sociedade doente se podem gerar este tipo de brutalidades medonhas em três meses, apesar da comoção que causou não só nos EUA, mas em todo o mundo.
O conjunto de forças que Trump representa vai empurrando os EUA para uma linha de confronto interno que faz aquele país recuar aos anos do pior racismo. O Ku Klux Klan continua ativo. Os evangélicos estão a puxar a carroça da loucura. Não se importam com o vírus assassino, para eles o que conta é o big money. Um preto serve para levar tiros. Sete. E quem se revoltar também leva. As milícias estão ativas e matam. Quo vadis poor America?

A tentaç~ ao do chaparro

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Entre a terra crestada pelo Sol inclemente e o verde do vale de Lucefecit, hirto, de braços abertos, o chaparro pede ao céu proteção.

As raízes presas à terra seguram-no. A fereza do astro incita-o a partir. E abandonar e deserdar os protegidos na casa da sombra.

O céu é a última tentação do chaparro.