O prolongamento da campanha eleitoral por outros meios, diria Clausewitz

Não se pode negar o incalculável valor dos media na intermediação das sociedades. E num mundo de vida sufocada, de corrida em corrida, de desassossego em desassossego o tempo de cada qual é chegar a casa sentar-se, ver e ouvir o que dizem as televisões, às vezes como uma remota companhia, mesmo se acompanhados. A televisão vale muito mais que os vizinhos. Está ali à mão, dia e noite. É um estranho mundo aquele em que vivemos

Em tempo de eleições assistimos a um novo desdobramento do ato eleitoral que consiste no facto de os dirigentes políticos debaterem em direto e no final de cada debate dado por terminado, ele continuar por interpostas pessoas que não concorrem e intervêm com tanta ou mais força que os verdadeiros atores do processo eleitoral.

De certa forma começa um debate monocolor em que meia dúzia de escolhidos “pescam” umas tantas frases dos dirigentes partidários durante um tempo quase sem limite, ao contrário do tempo de debate, elegem quem perdeu e quem ganhou. E ganham quase sempre os mesmos, salvo honrosas exceções.

O que é importante é que mal acabe o debate ou a notícia algum comentarista venha a correr à televisão dizer o que pensa para não deixar que se pense.

Não se trata de anular o comentário acerca do que foi dito por A, B ou C. Aqui o que acontece é prolongamento do debate por outros meios como diria Clausewitz que visa de um modo enviesado fazer prevalecer o ponto de vista ideológico do comentarista. Trata-se de uma deslealdade, pois esse elemento é escamoteado. Ou os media assumem a sua preferência por tal ou tal partido e o leitor/espectador não é ludibriado ou não faz de conta que é imparcial, mas vai plantar o comentário no campo da direita com os mais estapafúrdios “argumentos”, sendo o mais gasto a imutabilidade do status quo graças ao Santo Mercado.

Repare-se na velocidade de reciclagem dos media que apostavam nas entre linhas e fora das linhas na vitória de Rangel e hoje levam Rio aos ombros.

Ele é crescendo da campanha do PSD, ele é o inesperado fulgor de Rio, as suas propostas que ninguém ousa a propósito da justiça, ele é a baixa de impostos, ele é a descida do IRC; o que mais virá em tempo de promessas. Ele é um mar de virtudes quando há dois meses era um mar de defeitos. Que conversão, nem Martinho que viria a ser santo; porém Rio só vai dar a capa a quem pagar IRC…e aos médicos assistentes dos privados e a outros similares; os que pagam IRS ficarão à espera que as grandes empresas engordem mais.

No domingo foi um enlevo ver o casal Maques Mendes/Clara de Sousa. Um verdadeiro platonismo. Os sorrisos, os trejeitos, as buchas, o que se não diz e se vê. Marques Mendes na SIC, Paulo Portas na TVI. Tudo às mil maravilhas. Dois dos principais dirigentes da direita a falar sobre as eleições com imparcialidade. O irrevogável Portas e o ex Presidente do PSD. Que pluralismo. Que coisa linda.

 Pode ser que as televisões, à custa de serem tão iguais e previsíveis, continuem ligadas e os cidadãos desligados. Os media não vão a eleições ou vão?

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