Os debates que o não são, por que não roubou Prometeu aos Deuses tempo para o dar aos humanos?

Os debates de vinte e cinco minutos não são bem debates para esclarecer as propostas dos líderes dos partidos e deste modo as diferenças entre eles; são uma espécie de ringue em que o primeiro a expor troca a exposição por meia dúzia de pontapés no adversário obrigando o atingido a passar o “debate” a correr atrás do outro para ripostar com outra “sova” e assim em redemoinho até ao trucidamento final de um ou dos dois.

Está montado o Coliseu romano para vitoriar os vencedores da arena e vituperar os que não sabem usar os punhos e as espadas.

No Coliseu de Roma não havia moderador, só o poder absoluto do Imperador. De algum modo os moderadores nas estações de televisão têm um poder similar, trocam o sinal do polegar pelo estribilho – O tempo acabou.

Depois recomeça com tempo “infinito” – o do debate dos comentadores; os hierofantes, os que interpretam in nomine populi quem venceu. É o tempo da estação, avara em o conceder a quem pode esclarecer e de cancelas abertas para quem interpreta o que milhões de seres humanos no seu íntimo atendem em parte ou na totalidade face aos argumentos veiculados, quase sempre aos chutos.

A velocidade do tempo que vivemos e nos escraviza impõe esta maneira de encarar a democracia, submetendo-a ao tempo mediático; o dono de todo o tempo comunicacional obriga o debate democrático conter-se dentro de duas dúzias de minutos.

Num tal contexto o debate deriva muitas vezes para um tipo de pronunciamentos agressivos impossíveis de verificar ficando no ar o lado da política espetáculo que agrava a desconfiança dos cidadãos no seu exercício.

Na fábrica ou no escritório o dono do tempo é o patrão, na democracia atual o tempo do debate é uma espécie de arremesso democrático, ou seja, um cheirinho que acompanha a democracia.

O modelo escolhido torna evidente o rebaixamento do debate democrático a uma repetição quase burocrática de um conjunto de frentes a frente em que é impossível na prática qualquer interveniente apresentar as propostas, obrigando-os a recorrer a uma série de slogans fortes que substituam ideias e propostas. A chamada e apregoada preparação não passará da finta, da rasteira com que o outro não conta, substituindo-a pela afirmação mais ou menos serena das ideias e dos projetos.

Choca o tempo atribuído aos debates com o tempo conferido aos comentadores a explicar o sucedido no “confronto” das posições e o foguetório em que muitas vezes as suas opiniões não passam de ecos das suas opções políticas.

Este tempo de debate é o terreno ideal para os populistas; ali medram, inventam, insultam, aldrabam e espojam-se na lama por si criada.

Talvez Prometeu nos tivesse trazido mais felicidade se tivesse roubado tempo para desfrutarmos em vez de nos entregar o fogo; os debates atuais na televisão apenas confirmam esta realidade. Nem nos debates eleitorais os candidatos, de onde sairá um primeiro-ministro, têm tempo e aceitam-no. Glória às televisões nas alturas. Amen.

Um pensamento sobre “Os debates que o não são, por que não roubou Prometeu aos Deuses tempo para o dar aos humanos?

  1. Luciano Caetano da Rosa

    Em regra, os apresentadores são a voz do dono, his master’s voice. Os formatos, como agora se chilreia, sem ofensa para os amorosos passarinhos, foram estudados ao milímetro pelos peritos de serviço ao grande capital. Quando algum interveniente começa a “descambar”,
    quer dizer, a pôr a nu o sistema, a exploração, a opressão, o racismo, a violência e outros predicados do capitalismo, pandemia das pandemias, logo os periquitos e papagaios da designada comunicação social começam a sobrepor o seu chilreio a quem está a falar e expor ideias claras e distintas (cf. Descartes), com manobras de diversão e outros truques. Os embates não podem ser combates de esclarecimento por falta de tempo, pelas interrupções, pela orientação tendenciosa do questionamento, po entorses à lógica formal… Fazit ou resultado: muita gente fica ainda mais confusa do que já estava. Mas depois vêm os papagaios mais experientes dizer quem ganhou o prélio, quem esteve bem aqui, quem esteve mal ali… e assim vamos consumindo rábulas de democraCia.

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