Um gajo nunca mais é a mesma coisa, mas um(a) gajo(a) pode sair outra coisa se for ao teatro em Almada

Uma camarata na forma de um abrigo e quatro homens que vão aparecendo interpretando diferentes personagens e uma mulher que entra na mesma rotação. Tudo simples. Como se fosse a casa de uma aldeia de onde partiam os soldados para combater os “terroristas” nas colónias portugueses. Às vezes a camarata faz de acampamento militar e de cenário de guerra. Não saberiam onde era Lisboa, mas poderiam ter estado em Nambuangongo, Wiriamu ou Medina de Bué ou nas florestas tropicais onde se entrincheirara o inimigo que afinal não o era, o que nunca é dito, pois do que se trata é da visceral violência da guerra.

A ação é feita de solavancos. Há um fio condutor, a tremenda fragilidade humana. As pulsões do Eros e do Tanatos. O mesmo ser capaz de estripar, matar, violar não compreende o porquê do divórcio e capaz de correr os riscos de combate para proteger o camarada de armas.

Freud e Einstein interrogaram-se em cartas trocadas acerca do porquê da guerra – Warum die Kriege? Porquê a pulsão destrutiva? O que faz o ser humano fazer a guerra e desumanizar os outros seres humanos aniquilando-os?

Nos almoços dos camaradas de armas que recordam os mortos em combate ou posteriormente há uma terrível identidade. É a de terem ido à guerra e quem vai à guerra nunca mais de lá sai o mesmo.

A guerra que os fez sentirem-se heróis, fez deles depois da revolução de Abril de 1974 homens do lado errado da História ou passados estes anos todos “criminosos” a aproximarem-se daqueles que estão hoje mais próximos do ponto vista político dos que lhe impuseram a guerra.

A falta de respostas a múltiplas questões, a própria insegurança de um futuro ao rés do fim de vida, lançam-nos num desespero que desperta as memórias de um passado cheio de desafios vencidos como foi o de participar numa guerra e voltar vivos, mesmo que estilhaçados por dentro.

Um homem que andou de metralhadora na mão a matar inimigos e regressa triunfante não compreende que a mulher que por ele esperou se queira divorciar. Nem o filho que se apaixona por uma jovem com sangue africano nas veias que por sua vez o vai largar porque acaba por defender algumas atitudes do pai em aldeias do interior que à entrada e à saída têm afixados cartazes da extrema-direita.

A extrema violência da guerra não foi sós tiros disparados contra os guerrilheiros angolanos, guineenses ou moçambicanos. Nos solavancos da ação que Rodrigo Francisco nos faz move, a violência é também a que faz os militares servirem-se das mulheres ou do modo como consideram os negros.

A violência brutal da guerra não é coisa que se esqueça. Os homens que estiveram na guerra e mutilaram, mataram, torturaram e violentarem podem encontrar-se nos almoços dos batalhões a que pertenceram, mas a mente de todos eles está povoada de terrores que continuam a viver. Muitos não podem dormir com janelas fechadas; muitos outros têm sonhos onde lhes sucede o que nunca sucedeu; outros ainda não suportam um noticiário que tenha notícias de guerras.

A enorme virtude de” Um gajo nunca mais é a mesma coisa” é trazer para o supremo laboratório que é a vida este passado escondido e que se torna necessário desenterrar para lhe dar um sentido e pacificar e dar tranquilidade a dezenas e dezenas de milhares de homens que estiveram a combater por uma causa perdida que partiram heróis e chegaram facínoras, como diz um dos atores. E, no entanto, foi a própria guerra que acelerou a libertação de Portugal e das colónias portuguesas.

Freud na troca de correspondência com Einstein acreditava que um grande esforço de educação talvez fosse possível suplantar as pulsões da destruição que acompanham a Humanidade desde o seu início.

Quem for ver “Um gajo nunca é mesma coisa” também sente que por instantes nunca mais é a mesma coisa.  Pelo poder da arte cénica, um homem ou uma mulher pode sentir que o Eros pode ser mais forte que Tanatos, não obstante a loucura e a violência da guerra.

Tudo isto só é possível porque a encenação desde os atores ao espaço e à música nos transformam, nos emocionam e nos transportam para o mundo do teatro onde tudo acontece no palco, mas podia acontecer na vida. Vale a pena ver a peça para um gajo(a) não sair de lá a mesma coisa.

2 pensamentos sobre “Um gajo nunca mais é a mesma coisa, mas um(a) gajo(a) pode sair outra coisa se for ao teatro em Almada

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