Morrer como uma pedra

Foi uma pancada seca, vinda de dentro de mim que me atirou para o chão sem que eu pudesse fazer nada. Fiquei colada ao chão, sem me poder mexer. Nos meus olhos via uma parede branca de leite e, às vezes, distinguia as coisas. Dei conta que não me podia mexer, ao fim de uns instantes. Estava ali como uma pedra. Não podia falar e ainda pensei gritar, não conseguia. Estava tombada para o lado direito. Quando pensei em me virar para me levantar só a tal parede branca aparecia à frente do meu olhar. Era uma pedra colada ao chão.

A minha filha haveria de estranhar tanto tempo na casa de banho. Mãe, mãe, que tens tu? E eu ouvia. E, sem poder responder, fiquei naquela maldição que viera de dentro de mim e me fizera destroçar a pontos de ficar estendida no chão, como uma pedra.

Quando vi a minha filha fiz um esforço tão grande, tão grande para dizer Cristina leva-me ao hospital, desisti. Nem a mão lhe pude estender. Ela aproximou-se de mim e tentou levantar-me, não consegui porque um corpo morto que não se mexe pesa mais que o corpo normal. E o meu era uma pedra colada ao chão.

No meio daquele rio de branco, pensei que ia morrer. Não me mexia, colada ao chão, como uma pedra.

Na ambulância dos bombeiros a ideia da minha morte chegou com muita força. Estava a caminho dela. Chegara sem qualquer aviso. Eu ia como vai o azeite por um funil, sem poder voltar de novo para trás, de encontro ao regaço da morte.

E no hospital, quando ouvi os médicos dizerem uns para os outros que ia ficar assim colada à cama decidi dizer à milha filha que não queria viver, e quando ela me veio ver e eu lhe ia dizer o que queria dizer então não fui capaz e só disse a palavra morrer, mas mal dita, só que ela percebeu porque me respondeu, ó mãe, morrer, qual morrer, tens cada ideia, tira essa ideia da cabeça.

A minha aflição era não conseguir dizer que não queria ser uma pedra. E fiquei danada com a Cristina porque tinha a obrigação de me deixar morrer e veio com aquela conversa. Eu era uma pedra colada à cama do hospital. Eu não falava, não mexia um dedo. Eu era um estorvo para mim mesma e não queria continuar a ser. Uma vez ou outra ouvi a enfermeira a pedir fraldas.

E então eu dizia para mim mesma que ia deixar de comer. Elas vinham dar-me de comer e eu não abria a boca. Cerrava os dentes. Então meteram-me uma sonda e um tubo no braço. Só que eu não me podia mexer para atirar aquilo pelos ares.

Dizia à minha filha, à minha Cristina a palavra morrer muito mal dita e ela virava a cara, já não respondia, virava-se.

A certa altura já nem a palavra morrer podia dizer. Nem os restos da palavra. Já não dizia nada.

Então disse para comigo quando a Cristina e o Fernando e a Inês viessem, ia fechar os olhos enquanto eles cá estivessem para que soubessem que eu não os queria ver.

Eu estava morta, como uma pedra. E ninguém ia visitar pedras. Dentro de mim já não havia palavras. Já nem à minha filha, nem ao meu marido, nem à minha neta eu queria ver; só queria morrer. Morrer. E de um dia para o outro nem a palavra morrer eu era capaz de dizer.

Então para que eles soubessem bem o que eu queria fechei os olhos para sempre. Mal abriam a porta eu fechava os olhos. Quando uma vez ou outra me levaram numa cadeira de rodas a dar uma volta, eu fechava os olhos. Ali estive anos de olhos fechados, como uma pedra. À espera. Como uma pedra.

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4 pensamentos sobre “Morrer como uma pedra

  1. Vítor Silva Costa Atalaia

    Obrigado pela cruel mas verdadeira imagem deste seu artigo.
    Viver como …uma pedra! Tantos de nós acabamos vivendo como pedras, porque outros que nem sequer conhecemos, a isso nos obrigam…
    Uns porque acham que não temos o direito de decidir das nossas vidas, do nosso corpo, da nossa liberdade; outros porque têm a certeza que o seu Deus exige que se viva até ao último suspiro. Almas boas, quase santas, que entendem que a purificação vem com a fé e o sofrimento. Que Deus estranho este que quer o sofrimentos dos seus filhos!…
    Há que proibir que se possa decidir sobre a vida, que já o não é, e a decisão de terminar o sofrimento? Assim parece.
    Mas quem é que tem o direito de decidir sobre o que eu quero fazer da minha vida? Porquê?
    E se eu puder e decidir suicidar-me? Ir-me-ão proibir de o fazer?
    Basta de hipocrisias: quando a vida não faz mais sentido porque o corpo terminou o seu ciclo natural e o sofrimento se tornou insuportável, ajudem-me, que eu quero partir… serenamente.

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