BURKAS/ BURKINIS TOLERÂNCIA

 

A polémica está instalada nas sociedades ocidentais onde existem comunidades muçulmanas cujas mulheres se vestem com burkas ou burkinis nas praias, tendo certas autoridades francesas proibido o uso daquele vestuário.

O recente texto de André Freire e Liliana Reis no Público de 07/09/2016 é, em ultima instância, um exemplo de um certo espirito de intolerância envelopado na luta contra a descriminação de géneros.

Não estamos de acordo com o que sucede em muitos países muçulmanos em que as mulheres são obrigadas a usar um tipo de vestuário que lhe tapa o corpo ou parte do corpo. É sem dúvida uma violência inaceitável.

No dia 4 de Setembro, início das aulas na Argélia, em Sebbala, perto de Argel, três alunos não puderam entrar nas aulas porque o diretor do liceu considerou que deviam usar véu, o que não é sequer imposto por lei.

Porém não podemos de cima dos “nossos” valores demo liberais impor aos outros um tipo de comportamento que proíba o uso de vestuário que tapa o corpo ou parte do corpo às mulheres.

E a razão é exatamente aquela que André Freire e Liliana Reis alegam, e que reside no art.1º da Declaração Universal dos Direitos do Homem.

…” Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos. Dotados de razão e consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade “…

Ora se todos os seres são livres e iguais em dignidade e dotados de consciência e devendo agir uns para com os outros com espírito de fraternidade, não é compatível com a liberdade a proibição do uso de certo vestuário.

Por isso os governos não devem impor aos indivíduos uma conduta quanto a vestuários, como faz a Arábia Saudita, o Irão, o Qatar e Cª.

Quanto ao segundo argumento que decorre do primeiro é que na verdade as mulheres devem ser respeitadas no uso do vestuário.

Não se nega em sociedades misóginas e discriminatórias (na Arábia Saudita as mulheres nem sequer podem sair sozinhas à rua) que o poder dos homens leva sem dúvida a que muitas mulheres não vistam em total liberdade e se sintam coagidas a vestir de acordo com a vontade masculina.

Porém será sempre um processo emancipatório que levará (tal como sucedeu em Portugal) a que a mulher se sinta em total liberdade de escolha.

Em França os cidadãos são iguais quando ao uso do vestuário.

Nenhuma mulher vai ser punida pelas leis da República se usar uma minissaia.

O que acontece é que no atual estado de coisas e sobretudo desde a invasão do Iraque, do Afeganistão pelos EUA, dos ataques militares ocidentais à Líbia e à Síria há uma espécie de choque civilizacional que as potências imperialistas e os jiadistas aproveitam para imporem os seus propósitos.

A proibição do uso de burkini só vem favorecer os que defendem esse choque.

Não se deve do “alto” dos valores ocidentais proclamar: estes são os nossos valores ou os aceitam ou são punidos.

Esta mentalidade vanguardista e elitista dá causa a que as comunidades se fechem na defesa das suas identidades e não se abram às sociedades plurais e abertas.

O mundo é muito mais que uma Declaração, que um modo de vida, que a liberdade de vestir. É também um caminho que cada comunidade a seu tempo e no seu ritmo vai fazendo.

Só esse caminho que vem de longe, de muito longe nos pode aproximar na humanidade de cada mulher, de cada homem, de cada comunidade.

Quem impuser  a sua vestimenta colherá tempestades que transportarão a recuos muito grandes. Nunca no mundo muçulmano o recuo civilizacional foi tão grande desde os processos independentistas que se seguiram à 2ª guerra mundial

A tolerância é essencial num mundo pleno de intolerâncias. Por detrás da burka ou do burkini está um ser humano que usa um vestuário que no Ocidente a maioria não usa. Tão só isto.

Quem se esqueceu das prédicas em Portugal dos padres contra as mulheres que usavam manga curta ou andavam de bicicleta ou iam para as praias mostrar as pernas?

E quem esqueceu os jovens rapazes liceais escondidos nas dunas para ver as inglesas em biquini? Como crescemos!

E já a talho de foice: a vergonha de na escola ou no liceu de usar roupa pobre, remendada quando a dos outros era bem mais asseada?

Os processos individuais das opções são de cada uma e de cada um. São caminhos que o Estado deve deixar à escolha individual. Esse será o caminho mais consentâneo com o processo de firmar escolhas mais abertas e de acordo com a consciência das envolvidas.

Haja tolerância! E o mundo será melhor.

domingos lopes

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3 pensamentos sobre “BURKAS/ BURKINIS TOLERÂNCIA

  1. Penso que há um sério risco em continuarmos, nós europeus, a ser tolerantes para com os islâmicos que vivem entre nós, quando eles não têm essa tolerância connosco nos seus países e declaram abertamente que é seu desejo dominarem-nos um dia…Veremos o que o futuro nos reserva.

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  2. Em 2000, estive em Konya, cidade santa na Turquia, e para uma senhora entrar numa mesquita tinha de ter as pernas, os braços e a cabeça cobertos. No ano seguinte, em Roma, a minha companheira, para entrar na Basilica de S. Pedro também teve de cobrir os braços e colocar um lenço na cabeça. A mesma intransigência!
    Só a laicidade do Poder garante a Liberdade.

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