QUARENTA E SETE DECAPITAÇÕES

O reino da Arábia Saudita abriu 2016 à sua maneira, com um dos símbolos da sua identidade, a nua crueldade. Como se o tempo naquele país tivesse sido cercado e deixasse de fluir, asfixiado pelo absolutismo e se vivesse ainda nos tempos da bestialidade.

Na alvorada do segundo dia de Janeiro o regime da casa Saud livrou-se de quarenta e sete opositores através de quarenta e sete decapitações.

Uma das vítimas, o Xeique Nimr Al-Nimr, de acordo com as notícias que chegam das catacumbas de um país sem tempo livre, fazia da palavra a arma contra os que não falam porque são os donos de toda a espécie de polícias virtuosas encarregadas de vigiar os que falam.

No mundo em que os homens e as mulheres podem falar há quem tenha a Arábia Saudita como parceiro de qualidade. Obama, Merkel, Hollande, Cameron e até o íncola do palácio de Belém não dispensam o Reino das decapitações e das chicotadas. O Reino em que as mulheres podem ser candidatas se os homens deixarem…

Pode a Arábia Saudita ser parceiro de uma coligação contra o Daesh quando no país leva a cabo o mesmo género de terror?

Aliás cabe perguntar onde foi o Daesh inspirar-se para pôr em prática as decapitações dos que não seguem as orientações do Califa?

A palavra que um homem pode usar para dizer o que pensa aos seus compatriotas e a partir dela formular opiniões, juízos, valores, certos ou errados como todo o ser humano é o suficiente para que a monarquia absolutista ordene que lhe seja cortada a cabeça.

A simples palavra ao sair da boca dos sauditas cria o pânico nos governantes. A palavra distingue o ser humano dos outros animais, mas os nobres sauditas não querem que os homens e mulheres falem livremente. Não suportam a ideia que cada um possa falar por sua cabeça.

O medo é tão grande que vãmente pensam que se cortarem as cabeças a quem fale livremente se veem livres das palavras. Mas não.

As quarenta e sete decapitações levadas a cabo vão provocar medo, mas a revolta também nasce do medo, assim como a coragem.

Um dia as palavras circularão livremente na Arábia Saudita e os sabres farão parte do museu dos horrores.

domingos lopes

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2 pensamentos sobre “QUARENTA E SETE DECAPITAÇÕES

  1. Costumo, por princípio, não fazer comentários a análises de situações que sempre coloquei num estrado onde a lógica – sobre que estão as coisas analisadas – não obedece aos quadros formais da lógica da cultura ocidental.
    Que Obama & Cia. Lda se tenham posicionado no plano da lógica economicista da estratégia imperialista, isso é dado há muito adquirido e sabemos bem definir esse caminho.
    De resto, a nossa reacção / intervenção não poderá passar de mera constatação dos factos: se imaginamos que podemos agir, então devemos saber que estamos a lutar com armas qualitativamente desproporcionadas.
    De resto, não deixaria nunca de agradecer o contributo rigoroso para a melhor compreensão dos recentíssimos acontecimentos naquele teatro da política regional e também mundial.
    pedro germano

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  2. TUDO EXCELENTE, MAIS UMA VEZ, E ESPECIALMENTE BELA É A PASSAGEM “pensam que se cortarem as cabeças a quem fale livremente se veem livres das palavras. Mas não. As quarenta e sete decapitações levadas a cabo vão provocar medo, mas a revolta também nasce do medo, assim como a coragem.”

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