ENTRE ULISSES E OS MERCADOS

Na “Odisseia” Ulisses lamentava-se na sua incansável vontade de regressar a Ítaca … “porque nada há mais doce do que a pátria e de que os pais, ainda que um homem habite longe … num opulento palácio”…
O mundo de hoje não é o da Grécia antiga. Sem dúvida. Mas o mundo da globalização financeira conseguirá apagar todas as marcas, todas as singularidades, tudo aquilo que marca um povo, uma nação ou a o indivíduo?
A voracidade dos mercados vai conseguir apagar aquilo que pode designar como alma, o que é invisível em cada um ou em cada povo, mas que faz a diferença e impede (indivíduos e povos) de serem semáforos?
A crise grega e europeia de algum modo representa a luta entre a identidade e a globalização totalitária que pretende fazer crer que os fracos são iguais aos fortes.
A Grécia com todas as suas forças, fraquezas, histórias, atrasos e contradições preferiu a identidade, a alma, a dignidade construída em milénios.
Entre uma dívida impagável e o consequente jugo correram o risco de se não render à troica, como outrora Xenofonte e os seus dez mil guerreiros não se renderam a Artaxerxes, rei da Pérsia. É essa coragem que a todos dá coragem. A que fica a marcar a História. A que suplanta o ramerrão do dia-a-dia. A que faz a diferença. A vez em que se arrisca e sai certo. Como diria o Manuel da Fonseca a propósito da Tuna do Zé Jacinto tocando a marcha Almadanim…
Não são só as ruas e as moradias calmas e belas com as janelas rendadas a silêncio de Amesterdão, os canais de Estocolmo, os bosques de Berlim, as noites brancas de Helsínquia e toda a cultura de Praga que fazem a doçura das pátrias.
As ilhas e o continente da Grécia formam uma singularidade que não se deixa esmagar pelo movimento totalitário de uma globalização que só olha o lucro como único deus.
Talvez seja necessário recordar uma das coisas mais simples da vida que devia estar sempre presente em todos os momentos da vida humana: os homens nasceram antes do dinheiro e este foi criado para servir o homem e não para o escravizar.
É, por isso, que Ulisses vivendo exilado em opulentos palácios persegue a doce pátria.
É, pois, necessário que a Europa seja capaz de ser a casa comum de todos os povos, pátrias, nações iguais, solidárias, em paz e de tirar de cada um dos países o melhor que tem e não de se aproveitar da força do poder de alguns deles para impor aos mais fracos os seus desígnios.
Se assim não for feito a Europa, tal como está a ser erguida, desabará. Os mais fracos e periféricos que não se juntarem no desafio da coragem pagarão caro a sua vocação para receber as migalhas dos poderosos.
Já outrora noutro grande império se dizia que Roma não pagava aos traidores, mesmo aos que serviam o império.
domingos lopes

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