O MONOPÓLIO DOS PARTIDOS, DEMOCRACIA E CORRUPÇÃO

Domingos Lopes

Um dos grandes males de que padece Portugal é a desconfiança que se gerou entre o poder político exercido pelos partidos e a imensa maioria do povo.

Muitos fatores podem ter contribuído para a atual situação, mas o desempenho dos partidos contribuiu para essa desconfiança. A maioria da população não se revê no modo de atuar dos partidos existentes, especialmente os do chamado arco da governação.

Os partidos usam todas as artimanhas para se assenhorearem do poder e dele tirarem benesses para alguns dirigentes, o exército de militantes e simpatizantes.

Os escândalos de corrupção que alastram na sociedade entre altos dignitários dos partidos do tal arco da governação são mais um elemento de peso na desconfiança com que os portugueses encaram os partidos.

A queda do Dr Miguel Macedo e a detenção de José Sócrates são casos que, do ponto de vista político, cavam ainda mais fundo esse sentimento de desconfiança.

José Sócrates foi primeiro-ministro com mais de cinquenta por cento dos votos tal foi a empatia criada na população. É agora suspeito, o que é bem diferente de acusado e condenado.

A corrupção instalou-se no terreiro pátrio. Os negócios avançam se os investidores se chegarem à frente com a imprescindível “untadela” para os cofres do partido ou para os bolsos do “cobrador” caso o partido se distraia.

Para além disso os partidos prometem tudo e não cumprem quando se encarrapitam no alto do poder.

Aí chegados, uns atrás dos outros, fecham as persianas ao clamor dos de baixo e ligam as antenas para Bruxelas e para as grandes negociatas que lhes trarão depois da passagem pela política altos cargos dourados com vencimentos fartos.

A manterem-se estas características é previsível que os partidos que são um produto da História, deixem de ter o papel que tiveram.

Ninguém é dono de ninguém. Os votos entregues a quem os desbarata e atraiçoa o prometido vão fazer os semeadores de falsas ilusões pagarem um preço.

Não se pode crer que os “chico espertos” vão conseguir eternamente fazer o povo sentir-se lorpa e roubar-lhe o direito de cidadania.

Tal como já passou a fase da História em que só podiam votar os proprietários ou os homens ou os maiores de vinte e um anos, também é de esperar que não tendo os partidos merecido os votos dos eleitores, estes queiram acabar com o monopólio dos partidos concorrerem à Assembleia da República.

Percebe-se o incómodo dos partidos, mas a responsabilidade é deles por não terem sabido corresponder ao que deles o povo esperava.

Senhores de São Bento, são os seus exclusivos interesses que contam, como a vida vem demonstrando. Às vezes como se vê apenas os interesses de alguns dos seus dirigentes e quadros.

Se tal acabar, novos atores entrarão em cena, certamente imperfeitos, mas seguramente a criar mais possibilidade deste impasse se desbloquear.

O facto de os partidos após a revolução de Abril de 1974 serem os únicos a poderem concorrer às eleições parlamentares, tal não é uma bênção do Olimpo para todo o sempre. Em 1974 esse facto constituiu um avanço, agora está a servir de bloqueamento à possibilidade de encontrar alternativas ao pântano instalado.

Para reequilibrar o sistema de representação que conduz ao exercício de poder, os cidadãos devem poder concorrer às eleições para a Assembleia da República sem ser preciso estarem na lista de um partido.

Tal já aconteceu na Islândia, em que os cidadãos se puderam candidatar à Assembleia Constituinte para redigir uma Constituição.

Deverá ser o povo a escolher: cidadão candidato a deputado ou candidatos em listas de partidos políticos.

Os partidos são essenciais à democracia, mas não têm revelado capacidade para dar à República alternativas que impeçam que sejam os de baixo a carregar os poderosos à custa de escândalos sem fim.

Há muita gente honrada que não quer entrar em partidos e não quer formar outros. Daí que novos atores, provenientes dos movimentos sociais e da cidadania, devam poder entrar no Parlamento. As fórmulas encontrar-se-ão.

IN  ochocalho

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