Vozes de Outros Donos

Ontem foi a vez de outra voz. A da Maria Luís. Contidamente metálica e determinada. Quase adolescente. Inodora. Cheia de palavras graves e agudas. Delirante. Quase jiadista prometendo o paraíso aos mártires da austeridade. Promessa abençoada pelos deuses dos mercados. O novo bezerro de ouro.

Antes desta era a vez e a voz de Gaspar. Aflitivamente sem vida. Jiadista também. Um entusiasmo pelo martírio de um pecador por quem a Jonet rezará pela salvação. Uma voz sem sal. Apenas feita de cicuta.

São as vozes deste governo. Dolorosas como convém à promessa da Vida Eterna. Vozes de algumas alcatifas de catedrais e mesquitas.

Vozes emprestadas pelos insondáveis deuses omnipotentes e orwellianos.

A de ontem impenetrável como o aço. Sobra da voz um percentagem de dois décimos de um pecadilho menor.

O resto é o cumprimento rigoroso das ordens dos usurários para que a Junta da Freguesia Portugal cumpra ou morra.

Os do Sul vivem uma espécie de pecado original que os contaminou para todo o sempre. A periferia. O atraso de sempre.

São vozes de tal modo decalcadas dos seus mandantes que só o exorcismo de um poderoso xamã as poderá tirar da paranoia em que mergulharam.

Já não era dela aquela voz.

Suprema Hipocrisia

OS INIMIGOS DOS MEUS INIMIGOS

Ao que parece todo o mundo está contra o Estado Islâmico…mas não é bem assim. Basta confrontar a posição da Turquia com o que se passa na cidade síria de Kobani cuja a população é curda.

O governo turco em vez de atacar os jiadistas bombardeia as posições dos sitiados curdos.

Os militares turcos preferem negar os direitos nacionais dos quinze milhões de curdos que vivem na Turquia e aliam-se ao do Estado Islâmico.

Foram as autoridades turcas que empaturraram os jiadistas de armas, seguindo o exemplo dos EUA, Reino Unido, França Arábia Saudita e Cª.

Essas armas serviriam para derrubar o regime sírio, como os talibans serviram para derrubar o regime laico então existente no Afeganistão.

De novo a história se repete: medraram-nos e senhores da sua força ei-los em pleno instaurando o terror medieval onde ganham o poder. Voltamos à época dos califas, das crucificações, da morte por apostasia e ao puro reino do medo.

Os dirigentes dos EUA dizem que os bombardeamentos não estão a atingir os jiadistas…cabe perguntar: quem estão a bombardear? As infra estruturas sírias? Refinarias? Gaseodutos? Expliquem-se.

O laboratório militar que é hoje a Síria e o Iraque, países centrais no Médio- Oriente, está a servir de teste à expansão do islamismo para as populações muçulmanas da Rússia e China?

A fragmentação do Iraque está a ser implementada na Síria?

O que está a acontecer é o enfraquecimento destes países a poderes dispersos de configuração tribal como na Líbia debilitando toda a região, ganhando dimensão Israel, a Turquia e porventura, nesta fase, o Irão.

É evidente que os EUA tiveram no Afeganistão um vitória de pirro…pois não são capazes de instalar outro poder que não seja os dos talibans coligados ou não.

No Iraque guindaram ao poder os chiitas e segmentaram o país em comunidades tribais.

Parece que a estratégia passa, antes de tudo, por transformar estes países em Estados fracos e capturar as suas riquezas, nomeadamente o petróleo e o gás.

Fazendo um exercício de prognose o que interessa aos EUA parece ser a instalação do caos.

Se lograr instalá-lo só o seu poderio militar poderá impor a ordem. Poderá?

Ademais a estabilidade da China é demasiado intimidante para quem quer ser o número um no mundo. Estes jiadistas experimentados em tanta guerra podem servir. Os inimigos dos meus imigos são meus amigos…