ITE, MISSA EST

As narrativas acerca da guerra na Ucrânia vão fazendo o  já longo caminho no mundo ocidental. Alteram ao sabor das justificações para a manutenção do suporte por parte do Ocidente, bem escorado no apoio dos EUA, sem o qual não seria possível à Ucrânia continuar a enfrentar a Rússia.

Com base na decisão da NATO/EUA/UE de admitir a entrada da Ucrânia na NATO, fechando o anel que cerca a Rússia depois da entrada de todos os outros países ditos socialistas para a NATO, a Rússia invadiu a Ucrânia exigindo a manutenção daquele país como neutral e uma nova arquitetura de Segurança Europeia, a concretizar entre a Rússia e NATO/EUA. Por muito menos, como foi o caso da colocação de mísseis nucleares soviéticos em Cuba, o mundo esteve à beira da 3ª guerra mundial.

Acerca da entrada da Ucrânia para a NATO, a narrativa ocidental era a de que a decisão cabia exclusivamente à Ucrânia. Em Cuba ou na Venezuela já não cabia àqueles países agirem de acordo com as suas decisões soberanas.

Havia a ilusão ocidental de que as pesadas sanções económicas impostas à Rússia derrotariam aquele país e lavá-lo-iam à ruína e à fragmentação, na linha da velha aspiração estadunidense de que Zbigniew  Brzezinski expôs o seu pensamento no livro “O grande tabuleiro de xadrez”, considerando que os EUA jogavam na Eurásia a sua hegemonia mundial. Ora, a Ucrânia desempenha a este nível o papel de charneira, até na programada passagem da iniciativa chinesa, Road and Belt, e ao mesmo tempo, poderia com o apoio ocidental e as sanções económicas fomentar a partilha da Rússia em vários Estados, eliminando para os EUA e o Ocidente a competição com o maior país do mundo.

 A narrativa segundo a qual os EUA estão a desligar-se da Ucrânia é desmentida a cada minuto em todas as operações militares da Ucrânia. O que aconteceu foi os EUA reclamarem à UE o pagamento dos gastos militares. E compras de armamento. Os europeus da NATO atualmente capitaneados pelo mequetrefe Mark Rutte aceitam, contentes da vida, e assim continuam a dar provas de vida atacando reformas, pensões, serviços de saúde, ensino público para fazerem frente às despesas com o apoio à Ucrânia. Por isso, Merz e a coligação com o SPD tem sido arrasada nas eleições regionais.

Em Portugal, o Dr. Bravo manipulou números, escondeu dados na tentativa de tirar aos cidadãos as suas reformas e entregá-las à gestão de Fundos privados, cuja arte é jogar na economia de casino, sendo que está destinado a perder os que descontaram e a ganhar os obscuros donos dos Fundos cujo fundo são as reformas dos portugueses. Os mesmos ditos liberais e outros que tais já procuram novas vias. Os caminhos da militarização ocidental também passam por aqui.

A narrativa mudou, entretanto, com a falência (até à data) das sanções. Surgiu a do apoio necessário ao longo do tempo que fosse preciso, o famoso as long as it takes. Stoltenberg, sendo o norueguês, ex-Secretário-Geral da NATO, o mais intrépido narrador…. Depois veio a da grande   contraofensiva ucraniana em 2023 que finalmente correria com os russos para a Rússia. 

Não obstante todo o apoio ocidental que levou a Ucrânia a utilizar tudo o que de mais sofisticado o Ocidente tem (à exceção de armas nucleares e Tomawaks), a narrativa mudou para obrigar Putin a negociar. Para o conseguir lançou a enorme operação de 40 dias de milhares de drones e que consistiu em atacar a Rússia na profundidade do seu território atacando centro nevrálgicos de logística e energia. A partir desta ofensiva, segundo, Zelenski, Putin ver-se-ia obrigado a negociar. Entretanto, nos intervalos destas várias narrativas mantinha-se a de que a fraqueza da Rússia é tão grande que ao longo de quase cinco anos não conseguiu conquistar o Dombass…mas estaria pronta para atacar a Europa e, segundo Mertz, até 2030 a guerra será inevitável e a Alemanha terá então o maior exército europeu ocidental. Em parte, esta narrativa explica os desastrosos resultados eleitorais da CDU…  E a necessidade de defender uma solução diplomática para o conflito bélico.

 Em 2022 todos queriam a guerra para obterem objetivos totalmente diferentes. A Rússia impedir a entrada da Ucrânia na NATO; os EUA/UE/NATO/Ucrânia a fragmentação da Rússia e a criação de vários novos Estados; a Ucrânia um novo papel preponderante na Europa. E agora parece que todos continuam nas mesmas posições: a Rússia até à derrota da Ucrânia; os EUA já conseguiram separar a Rússia da Europa, substituindo a Rússia no fornecimento de hidrocarbonetos a preços cinco vezes mais elevados “apoderar-se” da UE em termos estratégicos. A UE, sem rumo, a justificar o apoio, pagando as despesas da guerra com o dinheiro dos europeus, esperando desesperadamente algo que só Kallas, Ursula e Costa acreditam; a Ucrânia de Zelenski quer que a guerra continue para continuar como Presidente e safar-se de o que se não safam os seus colaboradores diretos, presos ou perseguidos por corrupção, incluindo o próprio Procurador-Geral. Tudo bons rapazes.

Assim vão as narrativas. Tudo contra a Rússia e tudo a favor do genocídio palestiniano e da guerra contra o Irão. Ite, missa est, dizia-se.

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