Ronaldo e o paradigma neoliberal

Cristiano Ronaldo ergueu-se da miséria. Subiu à custa de uma vontade indomável. Tornou-se um ídolo mundial no desporto rei.

Tem tudo o que multibilionários têm, desde relógios de milhões a joias e aviões de outros tantos milhões.

A marca CR7 é planetária. Ele confirma toda a teoria da meritocracia que liberais, populares, democratas-cristãos, sociais-democratas seguem e que Obama celebrizou Yes, We can.

É o empreendedor que fez de si um dos desportistas mais ricos de sempre. Ama-se a si próprio. Olha para o espelho e nada vê de mais belo. Venceu quase tudo e quase todos os recordes.

Para as crianças da Palestina, Mianar, Paquistão, Bronx, Harlem, Manchester, Turim, Oslo, Rio de Janeiro, Quito, Caracas, Tashkent, Ulan-Batur, ele é aquele que venceu e era, como elas, pobre.

Os grandes deste mundo queriam-no à sua mesa e ele gostava de estar à mesa de Trump e do Príncipe herdeiro saudita.

Este homem que encantou estádios a jogar futebol, hoje encanta porque ele chegou onde chegou e aplaudem-no porque estão a aplaudir um filho dos mais representativos de uma cultura que assenta no primado do indivíduo e na luta pelo sucesso custe o que custar.

 Os dirigentes políticos mundiais que abraçaram o neoliberalismo podem apontar à imensa maioria dos que pouco ou nada têm o exemplo de Cristiano Ronaldo. Todos eles sabendo que o caso de Cristiano é a exceção que confirma a regra de que quem nasce pobre não está condenado a ser pobre, mas é altamente provável que o venha a ser. Há uma ilusão para fugir à dureza da realidade. Essa é a essência do neoliberalismo.

Este homem que fez coisas mirabolantes com a bola, hoje arrasta-se nos estádios à procura do que já não voltará porque nos humanos a primavera passa e vem outra fase da vida ao contrário das minhas queridas árvores e flores que todos os anos reverdecem e florescem.

Chora como um menino que não ganhou o recorde que queria. Faz birra e diz que o queriam matar quando todos o apoiavam e o viam com orgulho. E diz que ele é que vai decidir quando se retira. Os treinadores devem estar aflitos. No último jogo do mundial em Dallas milhões viram o que ele já não faz e para quem tem 41 anos faz muito, mas havia no banco quem fizesse mais. Era, no entanto, preciso que o treinador não quisesse matar Ronaldo à custa de acreditar que ele o podia salvar, em vez da equipa. Tem muito para chorar, quase tanto como os milhões para gastar.

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