A sustentável leveza do documentário de Sofia Pinto Coelho

Um documentário é algo relativo a documentos ou a situações vividas e que são relatadas a partir de elementos verosímeis do ponto de vista da estrutura do que é narrado.

Sofia Pinto Coelho a partir de um conjunto de elementos ou dados da vida de um homem e do seu relacionamento propõe-nos na linguagem cinematográfica dar-nos a sua visão de uma parte da vida de Daniel, cidadão mulato nascido em Cabo-Verde que vem estudar em Portugal e vai como como técnico agrícola trabalhar em S. Tomé e Príncipe e Guiné-Bissau.

O que nos revela através da sua câmara prende-nos e essa é a primeira virtude do Daniel e Daniela.

Desde o início que Daniel é uma personagem – a pose, a eloquência, a vida , o relacionamento com a filha Daniela, a gravitas ou a leveza do que diz vão enchendo o documentário e “agarrando” o espectador.

Parece que Sofia Pinto Coelho pretendeu através de Daniel e Daniela revelar um documento escorreito da personagem e de tudo o que a rodeou e que não foi pouco – a luta de libertação dos povos das ex-colónias portuguesas na sua grandeza e nas suas misérias.

Daniel dá-nos a visão dele e de algum modo o distanciamento de sua filha em relação a esse mundo; em diversos diálogos entre as duas personagens é visível quão são diferentes os dois mundos ligados por um amor incontornável entre aquele pai e aquela filha e até na passagem pela Guiné-Bissau entre a mãe e a filha Daniela.

As viagens por Cabo-Verde, S. Tomé e Guiné-Bissau numa espécie de peregrinação para que a fila mulata saiba de onde veio tem o seu quê de divertido e até uma certa leveza, mas isso é a força do documentário. Daniela desarma o pai quando este do pedestal de um homem “sábio” não compreende o mundo dos jovens como o da sua filha tão distante do mundo da sua juventude. Ela “só” quer ser médica, enquanto Daniel sonha com outros voos para Daniela.

Sofia maneja a câmara de modo a proporcionar-nos o melhor dos diálogos e a beleza daqueles países africanos, desde logo os vários crepúsculos desde o equador aos trópicos e a luxuria verde de S.Tomé, a paisagem lunar de Cabo-Verde , as suas estradas inóspitas e há um momento em que nos consegue pôr a viajar dentro da Hyace que sobe os pequenos planaltos do país.

O que nos queria contar contou e coloca-se a vela questão da arte – e o modo como contou fez-nos pensar no tempo, no fim do documentário ou manteve-nos amarrados ao que se passava no ecrã?

A mim manteve-me preso ao que ia mostrando. Desde o tempo brutal do colonialismo, ao da libertação, ao dos erros do processo e ao tempo de um homem que viveu com toda a força e nos mostrou como vive entre muitas outras coisas com a sua filha Daniela.

Ele amante de livros, possuidor de uma biblioteca extraordinária, é obrigado a descer â terra e dar conta que os eu amor pelos livros não diz grande coisa à filha, mas o seu amor e o dela estão para além disso, é a vida de um a acabar e a de outra no seu esplendor. Quando Daniel deu o nome à sua filha Daniela talvez desde esse momento se escrevesse o amor que os haveria de marcar como nos conta o documentário.

Isto vale um documentário? Não há receituários acerca das complexidades daquilo que é o mais simples, a vida.

Não é preciso peso para que um documentário seja um exemplar da boa arte cinematográfica. A leveza das pessoas e das coisas é uma arte.

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Um pensamento sobre “A sustentável leveza do documentário de Sofia Pinto Coelho

  1. Luciano Caetano da Rosa

    Uma boa recensão como esta não é apenas uma análise competente de elementos formais (enredo, narrativa, narrador(es), ponto de vista, personagens, conteúdos de época, históricos…). É também aquela que com leveza faz criar água na boca e leva uma pessoa a desejar ler a obra em análise.

    Pequenas revisões sugeridas:… é visível quão diferentes são… e não …quão são…( estilística); …que o seu amor pelos livros… e não: que os eu amor ( gralha de tipografia); luxúria, claro, com acento agudo; … a velha questão da arte…e não: a vela…etc ( gralha).

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