27 DE MAIO DE 1977 EM ANGOLA – A MATANÇA

Há 45 anos em Angola tombou uma parte relevante da juventude mais esperançosa do país, como se o tempo fosse intransponível para os que quiseram acelerá-lo em direção à sagrada esperança.

Dói sempre a morte de tanta gente generosa e combativa; dói ainda mais, por motivos óbvios, a morte daqueles com quem partilhamos os bancos das Faculdade ou as lutas estudantis e democráticas e o sonho da utopia nos anos de terror fascista.

Dói, por isso, a morte de Garcia Neto, velho amigo da República coimbrã Kimbo dos Sovas, e dói a de Rui Coelho meu colega da Faculdade de Direito e a de Sita Vales que conheci em tantas lutas estudantis com a sua frescura e ousadia à tona da vontade. Todas as outras doem na nossa sensibilidade de humanos com sentimentos.

O filme de Margarida Cardoso – Sita- ajuda a compreender a loucura da equipa dirigente do MPLA que quis fugir à História, esquecendo que ao tempo ninguém foge.

Fossem quais fossem os erros táticos daqueles homens e daquelas mulheres, nunca por nunca a resposta àquele confronto podia ser um ajuste de contas brutal responsável por dezenas de milhares de mortes que varreram Angola e a fizeram mergulhar num manto de sofrimento.

Na verdade, do que se tratou foi da eliminação da esquerda marxista dentro do MPLA. Que cálculos podem ter estado por detrás desta matança? Estando o governo angolano muito dependente de Cuba e URSS haveria o temor (tendo em conta a preparação, capacidade e consciência política daquela juventude e daqueles quadros) que pudessem ascender a posições relevantes e deste modo a direção do MPLA impediu essa possibilidade para prosseguir o seu rumo?

Estava em preparação a transformação do MPLA em MPLA-Partido do Trabalho, orientado pelo marxismo-leninismo. Esta mudança serviu para esconder a verdadeira natureza dos acontecimentos e o recuo ideológico encoberto na fraseologia da dogmática?

A acusação ao PCP, alegada por alguns, baseada no facto de muitos daqueles quadros terem pertencido à UEC ou ao PCP é pura invenção para confundir e “justificar” o ajuste de contas entre o núcleo dirigente mais conservador e os que queriam um rumo mais claro para o MPLA.

Não é por acaso (ao contrário do que aconteceu por exemplo em França com o PCF nas colónias que ajudou a criar partidos comunistas) que o PCP nada fez para criar um PC Angolano, apoiando inequivocamente o MPLA.

 Álvaro Cunhal considerava como algo novo do ponto de vista teórico e de sua autoria, quanto ao conjunto das forças revolucionárias mundiais, a existência de um conjunto de países progressistas que se diziam na rota do socialismo e que ele colocava na hierarquia das forças revolucionárias à frente de muitos partidos comunistas.   

Entretanto, faltou naquela hora, a solidariedade aos que caíram. Não se tratava de estar de acordo com propostas e métodos e táticas na luta no seio do MPLA, antes condenar de modo inequívoco o aproveitamento desses erros para fazer imperar em Angola e no MPLA o poder baseado na força do terror em relação aos que queriam um rumo mais nítido do MPLA quanto ao imperialismo.

É difícil compreender que um homem como Agostinho Neto ao fim da tarde do dia 27 de Maio de 1977 tenha proclamado que não iriam perder tempo com julgamentos. Tratou-se de um julgamento político com uma condenação sem julgamento para apurar os factos, o salvo conduto para a corrida à vingança levada a cabo pelos antiprogressistas enfarpelados de marxistas-leninistas.

Será que Neto tinha a verdadeira noção do que iria suceder? E se não tinha por que foi preciso esperar dois anos para fazer parar a impunidade?

O filme de Margarida Cardoso não tinha como objetivo explicar exatamente o que se passou, mas ajuda a compreender. É preciso e urgente trazer do fundo dos poços do terror e do silêncio a verdade, pelo menos para continuar a persegui-la e assim ajudar a pacificar Angola.

https://www.publico.pt/2022/05/27/opiniao/opiniao/27-maio-1977-angola-matanca-2007402

3 pensamentos sobre “27 DE MAIO DE 1977 EM ANGOLA – A MATANÇA

  1. Luciano Caetano da Rosa

    Artigo interessante, bem escrito, sobre o que terá sido uma trágica hecatombe fratricida entre “camaradas”. Grave tem sido tanto silêncio sobre tal acontecimento. A verdade é revolucionária e só ela nos libertará. Ouvi uns zunzuns nesses tempos, mas nunca tão esclarecedores como agora este artigo. De louvar é também a coragem civil de D. Lopes.

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  2. António Melo

    O doc de Margarida Cardoso não explica tudo, mas é um bom contributo para que justiça se faça sobre o este episódio trágico da história angolana. Assim como o é esta crónica de uma testemunha longínqua, mas que soube e aqui dá testemunho.
    António Melo

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  3. Miguel Almeida

    Desculpa s minha falha honesta de compreensão ou conhecimento histórico: a acusação do PCP (“alegada por alguns”) foi de quê? De acusar quem matou ex militantes ou de os acusar dum desvio ideológico?
    Já sobre o PCP não ter tentado criar um PCA, não acho que fosse esse o seu papel num novo país independente. Primeiro, havia expectativas num partido político já existente, realmente angolano, com raiz popular, e segundo seria então e agora acusado de dirigista, e, porque não, monolítico ideológicamente também por isso e até neo-colonialista. Esse papel era dos angolanos! Estarei errado, e o PCP também, neste aspeto?

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