A TODAS AS CONSCIÊNCIAS DORIDAS

Uma certeza me parece certa – as invasões, as ocupações e as mortes para os órgãos de comunicação social têm valores muito diferentes.

Para comprovar esta conclusão inicial parto do princípio universalmente aceite que as invasões e ocupações são totalmente condenáveis.

Deste modo, a invasão do Iraque, da Síria, da Líbia, do Kosovo, do Iémen e da Ucrânia só poderiam merecer a condenação da comunidade internacional.

O rosário de destruição e de mortes diz respeito a seres humanos e os agentes das destruições e das mortes deveriam ser julgados à luz dos mesmos critérios.

Pode-se ter em conta o volume das mortes e o grau de destruição, mas uma invasão e uma ocupação só pode ter em comum a reprovação universal.

Neste momento, os media bombardeiam-nos com os bombardeamentos russos e todos sentimos o desespero humano da impotência face à tragédia.

Ao mesmo tempo, a cada segundo, minuto, hora e dia os iemenitas são bombardeados por uma coligação de Estados capitaneados pela autocrática Arábia Saudita e morre gente a cada segundo, minuto, hora e dia. E que nos dizem os media? Quase nada. Os Estados que bombardeiam e que têm o apoio claro dos EUA constituem ditaduras absolutistas de tipo medieval. Há uns dias o regime saudita decapitou 81 presos.

No entanto, há uma espécie de cortina de ferro que tapa tudo e o que se lá passa chega de viés, como se fosse natural. Quantas portuguesas e quantos portugueses sabem que a cada segundo, a cada minuto e a cada dia há seres humanos no Iémen que são trucidados e que milhões de seres humanos não têm comida?

Quem de entre todos os seres humanos de boa vontade pediu sanções contra a Arábia Saudita? O big money fala mais alto que a democracia.

Quem tem coração para a Ucrânia por que não tem para o Iémen? Quem tem memória da invasão, ocupação, destruição do Iraque e das dezenas e dezenas de milhares de mortos iraquianos? Quem se esqueceu de Faluja e Mossul? Quem pediu uma sanção contra os que desencadearam a guerra contra o direito internacional? Por que motivo Biden, Macron, Scholtz, Zelensky, Putin não classificam de criminosos de guerra aos responsáveis pelos horrores cometidos contra o povo iraquiano? Quem esqueceu o interminável rol de torturas no centro prisional de Abu Ghraib? E que têm os palestinianos de Gaza e da Cisjordânia a quem ninguém acode quando dias, semanas e meses são bombardeados pelos governantes de Israel sem dó, nem piedade? Quantas dezenas de milhares de palestinianos mortos são precisos para uma sanção a Israel?

Nada destas invasões e ocupações justificam a invasão da Ucrânia pela Rússia; todas sem exceção são condenáveis.

Mas a verdade é que a ocupação da Ucrânia nos invade do ponto de vista mediático e que nos deixa atordoados. Mas qual o motivo que impediu o mundo de pedir a punição que agora pede? Por que não aparece um governante bondoso e caridoso a pedir sanções contra os autores da invasão e ocupação do Iraque?

O mundo corre a grande velocidade. A solidão de quem corre de casa para o trabalho e regresso a casa presta-se a ser sublimada pelas caixas televisivas; uma nova espécie de Coliseu romano.

Já nem os smartphones nos deixam sós; a inteligência artificial persegue-nos para o bem e para o mal. Apesar de tudo vamos continuar a fazer a nossa História, como sempre. Sem saber se é para sempre.

4 pensamentos sobre “A TODAS AS CONSCIÊNCIAS DORIDAS

  1. Fernando Oliveira

    Meu caro camarada Domingos Lopes,

    Sobre a guerra na Ucrânia, não consigo estar de acordo contigo, ao contrário do que acontece com a análise do teu recente livro sobre o Partido (PCP), sua história, causas da perda de influência e relevância na sociedade, o seu esvaziamento e ausência de projecto com futuro e medidas básicas para travar e inverter a situação.

    E porque é que não estou de acordo ?

    Pelas mesmas razões que não estou de acordo com a posição do PCP, que considero oportunista.

    São elas :

    1 – Esta guerra não começou agora. Iniciou-se com a implosão da URSS, e, sucessivamente, com o golpe de estado fascizante de 2014, com a tomada da Crimeia historicamente russa, tal como Odessa (tudo resultante de uma decisão pessoal e voluntarista de Kruschev, em meados dos anos 50, talvez no pressuposto de uma URSS inexpugnável), pelo massacre de 15.000 russos entre 2014 e 2022 na região do Donbass, do compromisso dos EUA e da NATO de não avançarem para leste, compromisso não cumprido. Avançaram e em força para todos ex-países do bloco soviético, várias ex-repúblicas soviéticas, num total de 14 novas adesões à NATO, a troco de muitos milhões de dólares para ajudar a recuperar das consequências da implosão da URSS. A Federação Russa, na altura completamente escaqueirada e entregue a um “legionário” bêbado, sem princípios de qualquer tipo, ficou conveniente impávida. Quem sabe se o projecto de Ieltsin não seria também o de se aliar aos EUA e ser engolido por eles e pela NATO. Mas este, parece-me o enquadramento das antecâmaras da guerra actual.

    2 – Em guerra surda, os EUA e a sua NATO, com o apoio do Reino Unido e da UE, foram fazendo ouvidos moucos às reclamações da Rússia (por acaso de Putin) sobre as ameaças que sentia com o cerco da NATO, enquanto cimentavam Zelensky como o “homem de palha” dos EUA e dos bandos neoazis que, entretanto, foram integrados nas forças armadas ucranianas e no seu estado-maior de conselheiros.

    3 – A guerra em curso foi uma causa ou uma consequência de todos estes precedentes ?
    Em minha opinião, foi claramente uma consequência, face a um encurralamento sem saída da parte da Rússia, já que negavam negociar as condições que, com razão, a Rússia ia apresentando, ano após ano. E o “homem de palha”, no seu papel, ia provocando com sucessivos pedidos de apoio à NATO e testando a reacção Russa, que, a nunca reagir, ia acordar um dia com o facto consumado e completamente manietada. Com a adesão formal da Ucrânia à NATO, o célebre artigo 5º passaria a poder ser accionado e a Rússia ficava com um cerco quase por todos os lados – do mar Báltico ao Mar Negro, por um lado, e com o Alaska do outro. A visão do planeta num globo, em vez de num planisfério, ajuda-nos a compreender melhor a situação.

    4 – A colocação da Rússia (mesmo que com Putin à frente) no mesmo plano do imperialismo mais agressivo alguma vez visto, corporizado pelos EUA e a sua NATO. E essa colocação, muitas vezes assumindo a forma de uma equidistância errada e perigosa, revela alguma incapacidade em saber definir com clareza quem é o inimigo principal. Para mim, claramente, são os EUA e a NATO.

    5 – Esta guerra vai terminar com um Acordo que, na substância, não será muito diferente daquele que tinha sido possível se os EUA e a NATO (porque o “homem de palha” foi sempre uma mera marioneta que apenas faria o que os seus patrões ditassem ou ditem) tivessem aceitado negociar antes de ela ocorrer. Se isso se confirmar, pergunto :
    Quem são os verdadeiros responsáveis pelas mortes, pela destruição, pelo sofrimento de milhões de cidadãos inocentes ?

    NOTA – Estou convencido que as menções e ameaças de eventual uso de armamento nuclear não passam de “retóricas” tácticas de guerra. Contudo, se essa irresponsabilidade e crime acontecerem, o responsável será sempre o 1º a carregar no botão. Só que, ao fim de uma hora, não haverá ninguém vivo para lhes pedir responsabilidades.

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  2. vitor garrido

    Estou optimista no que toca à não deflagração de uma guerra nuclear.
    disse um dia Fidel Castro. ” Não haverá 3ª guerra mundial. É que os ricos não querem morrer!”

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  3. Rui Ramos

    Artigo de D.Lopes excelente e que denuncia a canalhice e hipocrisia de quem se submete aos ditames do palhaço Bidem e seus sequazes no mundo. Também apreciei os comentários ao artigo do D. L. O

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