O anjo da guarda e o PCP

Lembro-me de na catequese nos ser incutida a ideia de que andava sempre connosco um anjo da guarda que nos dizia o que era bem e o que era mal. Se quiséssemos ouvíamos o anjo da guarda a dizer-nos se as nossas ações eram pecaminosas ou se agradavam ao Senhor.

Naquela idade o terror do Inferno era medonho. Ser precipitado num forno com labaredas incomensuráveis aterrorizava toda e qualquer adulto quanto mais uma criança cujo bem e o mal tinha fronteiras ainda mal definidas.

O certo é que o anjo não aprovava apanhar os ovos de um ninho de um qualquer passarito, mas a tentação era mais forte e embora o anjo viesse pelas cangostas e caminho dos matos a ralhar, logo passava porque outras tentações surgiam.

Às vezes, antes de adormecer, depois de botar o terço em família, o anjo da guarda surgia no escuro a ralhar comigo por isto e por aquilo e mais aquilo de pensar nas pernas da criada (era assim que se dizia) que vislumbrara de longe quando ela se baixara para apanhar a cesta da roupa. Não o via. Na minha crença originada nos ensinamentos da catequista eu imaginava a voz do anjo e não o desimaginava. Qualquer pensamento que me levasse àquelas pernas lá vinha ele abanar me e enxotar-me do pecado.

A verdade é que o anjo da guarda estava sempre ao meu lado para me impedir de cair em tentação.  

Tudo isto e muto mais se passou há muito, muito tempo. Porém, há uns dias fui surpreendido por grandes cartazes cujo conteúdo me levou a essa infância remota. Nos cartazes ali estavam as mensagens – Sempre a teu ladoTodos os dias contigo – e dei comigo a pensar no anjo da guarda.

Esta ideia de que há sempre alguém a meu lado tem o seu quê de enigmático quer nos tempos dos medos dos infernos, quer em termos políticos, pois o estar sempre ao lado é algo difícil de medir por melhores intenções que haja de quem oferece a proteção.

A palavra sempre é um advérbio de tempo, como o nunca, e nunca se deve dizer nunca, sempre também será de evitar porque o sempre é uma eternidade e como tal incomensurável.

Já dentro do comensurável – Sempre a teu lado- também tem os seus quês. Tratando-se, presumindo- de uma classe, a dos trabalhadores, sabe-se hoje e já se sabia, que uma classe, com tantas camadas e segmentos sociais, não se guarda num redil. Assim sendo, estar –Sempre a teu lado – é algo indistinto para quem carrega bem carregada as distinções sociais e faz da sua visão de classe(?), à sua maneira, a sua Bíblia. Ora saber ler é hoje atributo de quase todas as classes e deste modo o destino da mensagem é muito ambíguo e contraditório. A seguir às perdas eleitorais pode compreender-se o esforço, mas um slogan tão indistinto dá que pensar quanto aos destinatários.

Ademais é um tiro no escuro e fora do alvo dada exatamente a ambiguidade dos abrangidos. Por outro lado, o Sempre tem o seu quê da eternidade salvífica ou da terrível perdição.

Vamos supor que o beneficiado, indistinto, não quer ninguém a seu lado a não ser quando ele o solicitar, ou não quer em quaisquer circunstâncias ou apenas quem ele escolher? O cheque preenchido deste modo assume uma obrigação cega, ou seja, faça o que fizer o alegado protegido está sempre coberto e sem riscos. Só Cristo foi tão longe quando recomendou que depois de levar uma bofetada se desse a outra face.

Aqui chegados, coloca-se a pergunta em toda a sua esplendorosa simplicidade, esta afirmação não derivará da ideia velha e desgastada ideia de que há uma espécie de elite- vanguarda- que sabe o que os trabalhadores querem e, portanto, é essa vanguarda que marca a luta o destino está traçado – Sempre ao teu lado– porque no fundo está ao lado do que o “protetor” decidiu? Caso contrário como é bom de ver trata-se de um cheque em branco. Quem pode afirmar com rigor estar todos os dias contigo e a teu lado? Há dias em que nem o próprio está a seu lado. A consciência do si é uma leveza, mas também um peso, mesmo sem anjo da guarda.

Um pensamento sobre “O anjo da guarda e o PCP

  1. Miguel Almeida

    Eh pá, que rebuscado, principalmente essa da ligação da “vanguarda” ao “Sempre contigo”. Um slogan tão maus simples e inocente, a reivindicar a solidariedade do partido com todos os que possam sofrer com as políticas que o partido combate. O PCP está mesmo a tornar-se o teu saco da pancada .

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