O ternurento encanto de Augusto Santos Silva pela política externa dos USA

O MNE decidiu dar registo do desvelo pela política externa de Biden. É verdade que os USA voltaram aos Acordos de Paris e não saíram da OMS, o que é positivo. Mas e o resto?

Santos Silva entusiasmado com a liderança mundial pretendida por Biden por “força do exemplo” esgravata o chão minado da vida internacional para falar das violações dos direitos humanos na China e na Rússia, os quais, acrescento eu, devem ser respeitados em todo lado, incluindo naqueles países.

Ou seja a tal “força do exemplo” a que se refere o nosso Ministro aconteceu há meia dúzia de dias depois de Biden ordenar o bombardeamento da Síria sem qualquer mandato da ONU…o que diz bem desta estranha conceção de multilateralismo. E apenas dois dias depois da CIA ter revelado que o príncipe herdeiro saudita, MBS, tem as mãos sujas de sangue pelo atroz e cobarde assassinato do jornalista J. Khashoggi no consulado saudita em Istambul.

A força do exemplo em matéria da liderança mundial é tristemente defender assassinos desde que amigos e atacar rivais por violações dos direitos humanos. Ou seja, sendo amigo do líder não há nada a apontar, sendo rival do líder estica-se a corda ao máximo. Aliás Biden antes de decretar sanções aos homens escolhidos por MBS para suportar a acusação, telefonou ao Rei a explicar-se. Os direitos humanos são importantes em Washington, Lisboa, Moscovo, Pequim, Riad, Dubai, onde quer que seja.

Santos Silva, seguidista da liderança dos EUA, perdeu uma boa ocasião de colocar na mesa a importância dos direitos humanos no mundo, do verdadeiro multilateralismo e de defender uma política internacional de acordo com os princípios consagrados na CRP e na Carta das Nações Unidas. Por isso, em vez de bombardeamentos unilaterais são precisas ações que pacifiquem a região, sendo inevitável o reconhecimento de um Estado independente da Palestina, direito reconhecido pela comunidade internacional.

Um Ministro dos Negócios Estrangeiros do país que ocupa a Presidência da União Europeia deve medir as palavras e não tomar os seus desejos, inclinações e opiniões pela política externa portuguesa. As decisões de Biden devem sempre estar sujeitas ao escrutínio dos interesses de todos os países – saber se essas ações são positivas ou negativas para a paz e a cooperação mundiais. O que é bom para os USA não é ipso facto bom para a UE, Portugal ou o mundo. Aqui é que bate o ponto.

O enlevo de Santos Silva não augura nada de bom em termos nacionais e da Presidência portuguesa da UE. O Sr. Ministro devia conter-se; os USA são o país mais poderoso do mundo, mas o mundo de hoje já não depende só do Tio Sam. O mundo vai mesmo na senda do multilateralismo, o qual é contraditório com a existência de um líder. Esse pode eventualmente ser o desejo de Santos Silva, mas outra coisa é a realidade e essa impõe maior contenção.

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