Passo maior que a perna ou pernas cortadas?

António Costa e Mário Centeno sempre que invocam  a necessidade de cumprir as regras referentes ao défice e do Pacto de Estabilidade (?) para rejeitar reivindicações justas de grupos socio -profissionais, fazem-no recorrendo à velha e gasta ideia que não se pode dar um passo maior que a perna e com este argumento ad terrorem tudo se esgota, pois, de um lado, ficam os certinhos e poupadinhos e, do outro, os gastadores inveterados, os estroinas, os tais que gastam balúrdios em mulheres e vinho…

Vale a pena olhar para os passos que se dão e ter consciência do peso substantivo subjacente ao referido “argumento”.

Os portugueses que adoecem e são depositados em refeitórios em vez de uma enfermaria sentirão o quão mal vai a sua vida e como o passo é bem menor que a perna.

Será justo invocar a triste ideia de o passo ser maior que a perna se nos períodos de disseminação do vírus da gripe os portugueses ficarem internados nos hospitais do SNS em macas de bombeiros e nos corredores dos hospitais?

É inacreditável que quem precise de uma consulta médica tenha de aguardar vários meses para que ela tenha lugar. Como se pode levianamente falar de passos grandes quando é tão pequeno o que se pretende- uma consulta…

Quem precisar de uma certidão de registo criminal e tem de passar doze horas ou mais numa fila, perdendo um dia de trabalho, nunca admitirá que o seu passo seja maior que a perna. É aviltante ter de ir para uma fila de centenas e centenas de metros para aceder a uma certidão que demora segundos a ser impressa.

Quem more na margem esquerda do Tejo e tenha que penar todos os dias para lutar (sim, lutar) por conseguir um lugar no barco olhará para as suas pernas e lamentará que os seus passos para Lisboa e da capital para casa sejam tão curtos que não lhe permitam fazer a viagem, ou a faça em condições a roçar o desumano. Estranhará que seja preciso lutar com outros concidadãos para poder entrar no barco, pois se não o fizer arrisca-se a ficar na margem, como um marginalizado pelo Estado que de incúria tanta não é capaz de assegurar passagem a quem vai trabalhar…

E os que querem chegar por via-férrea a Lisboa ou outras grandes cidades agoniam em carruagens superlotadas e gastas de tantos anos, iniciando e terminando o dia de trabalho em estado de grande inquietação. Que importará o pedido de desculpas se a vida precisa do mínimo dos mínimos, o de assegurar por parte do Estado que as carruagens chegam e partem para transportar os que delas necessitam.

Há distritos em que os cidadãos para terem acesso à Justiça têm de fazer cinquenta ou mais quilómetros e caso não tenham viatura própria terão de ir de véspera caso se deslocassem em transportes rodoviários… e dormirão onde?

É esta a triste realidade de um país cujo governo PSD/CDS privatizou a ação executiva e este governo não reverteu a situação. Ou seja é curto o rendimento para pagar ao agente de execução porque o Estado se quis ver livre de encargos cortando as pernas aos seus cidadãos.

Um maquinista da CP espera desde outubro passado para aceder à carta de condução porque o Estado recusa ter meios para responder a uma necessidade imperiosa dos seus cidadãos.

E aqueles professores que para poderem continuar a lecionar têm de ir trabalhar para Escolas a mais de cem quilómetros do local de residência?

Como pode o Ministro Centeno falar de passo maior que a perna se o ministério que tutela corta as pernas aos portugueses no sentido de que em 2019 os direitos sociais mínimos dos portugueses não são em grande medida respeitados?

In Público online de 07/06/2019

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