Os muros que se não veem e os que se veem

OS MUROS QUE SE VEEM E OS QUE SE NÃO VEEM
No check point, em Berlim, onde outrora o muro dividia a cidade, na parte em que estavam as tropas norte-americanas, juntam-se multidões para tirar fotos e fazer selfies. Vêm de todo o mundo. É uma loucura. Ali estavam os bons, e em frente, do lado de lá do muro, os maus. De um lado a liberdade, do outro os algozes. É fácil escrever a História deste modo.
Uns espertalhotes com eventual apoio das autoridades montaram um posto de controlo e colocaram uns rapazes a fazer de sodados fardados à gringo arrecadando três euro por foto ou selfie. O negócio está a dar.
Na verdade, só se pode fazer prova cabal que se foi a Berlim exibindo a foto com os fardados em frente a uns sacos de areia com a bandeira do país de Trump atrás.
E, no entanto, o país que glorificou o derrube do muro é exatamente o mesmo que quer erguer um novo muro a dividir o México dos E.U.A para impedir que os desgraçados dos mexicanos entrem no mundo livre, o paraíso das oportunidades. Nem que para tanto se tenham de enjaular os filhos dos migrantes.
Há neste mundo em que vivemos algo de profundamente bizarro. Os muros que cercam a Cisjordânia para impedir os palestinianos de circularem na sua terra é como se não existissem…
Talvez palestinianos e mexicanos não sejam bem homens, mulheres e crianças como todas as outras que vivem no mundo porque nasceram ao lado de países que se consideram senhores da lei e, com o poder das armas, são capazes de enfrentar os desgraçados que querem resgatar a sua pátria com pedras na mão ou que querem ter um simples trabalho, nem que seja o de lavar as ruas de uma qualquer cidade dos States.
Este mundo que está a fazer do Mediterrâneo um muro quase intransponível onde se afogam milhares e milhares de esfomeados, homens e mulheres, sem nada de nada, só tem olhos para Berlim, onde desgraçadamente houve quem pensasse que podia dividir o que nascera unido.
Ou talvez nem olhe para não ver, porque se olhasse via e tinha de dar atenção aos sentimentos de sofrimento que estes muros e estas jaulas geram.
Uma selfie em Berlim, no check point, é algo que vale uma aspiração sublime; um troféu raro para fazer mostrar a terra onde havia a maldade.
Os muros que os “bons” constroem a fortificar os países que se pretendem inacessíveis por terra, ar e mar são apenas episódios que não se veem. Verdadeiramente cego é o que não quer ver.
É uma forma de anestesiar os sentimentos que só os humanos desenvolveram como magnificamente vem demonstrando António Damásio.
Porém, um dia pode ser que se veja o que se olha. Se ainda tivermos olhos para ver tudo o que nos rodeia.

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