O ABRAÇO DE URSO?MITO DE SÍSIFO?

O ABRAÇO DE URSO?MITO DE SÍSIFO?

A decisão tomada pelo PCP, no rescaldo das eleições não parece ter sido tomada de supetão nessa noite.

Se se tiverem em conta as diversas sondagens eleitorais que apontavam na direção dos resultados obtidos, era forçoso ter em conta que os resultados impunham estudar as possibilidades que eles abriam, dado que a direita perderia a maioria que detinha no Parlamento.

Entre a possibilidade de parar a política de empobrecimento e a continuidade da coligação a escolha foi clara para Jerónimo que bem andou em abrir a porta a um novo caminho entre as esquerdas.

E bem andou Costa ao atirar para o caixote do lixo o chamado arco da governação que não passava de uma artimanha para que nada mudasse em Portugal.

E naturalmente Catarina Martins que soube estar à altura do momento histórico que estamos a viver.

A importância dos acordos vai muito para além de Portugal. Vêm aí eleições na Espanha; é preciso estar atento para ver se os ventos de mudança sopram de cá para lá, levando boas novas.

É importante sublinhar que estes acordos atiraram para a oposição a minoria que com o apoio de Cavaco se queria alcandorar no poder.

Esse mérito é hoje reconhecido em vários quadrantes. Na verdade por que motivo PCP e PS e BE não se podiam entender em questões vitais para a salvaguarda das populações? Foi o que fizeram e levaram à derrota da direita que parece que ainda não acordou para esta nova realidade e continua a gravitar em torno da sua minoria querendo por magia torná-la maioritária, mesmo quando no parlamento fica com menos deputados que os do PS, BE e PCP.

A decisão do PCP convocando o PS para governar é algo que retoma a malha (descosida entretanto) que o PCP teceu ao longo da sua existência na luta pela unidade democrática.

Na revolução de Abril o PCP, no governo provisório, teve um papel com o PS e os militares de grande valor no que se refere à unidade para assegurar a transição democrática.

Quando foi preciso derrotar o candidato da direita, Diogo Freitas do Amaral, o PCP que tinha inscrito na Resolução política do Congresso que nunca votaria Mário Soares, teve a ousadia de engolir o sapo e dar o escrito por não escrito e assegurar um contributo decisivo para eleger PR Mário Soares.

É verdade que nos últimos anos o PCP não se empenhou nessa linha como se devia ter empenhado na unidade das forças das esquerdas no sentido de encontrar denominadores comuns que possibilitassem a convergência que impedisse a direita de governar. Ora sem o PS era impossível tal solução.

Ninguém sabe o futuro. A porta está aberta. Que não entrem pela janela quem vá fechar a porta.

Tendo em conta a luta antiga acesa entre o PCP e o PS haverá sempre o “risco” em qualquer organismo vivo quem pense de maneira diferente. É a vida.

O PCP abriu um caminho- ou o faz ou volta a encastelar-se e sacrificar o seu reinado ao sectarismo e perde o PCP e toda a esquerda para muitos e muitos anos…

O caminho não é apenas do PCP, mas também do PS e do BE.

Não é segura a tese de que a convergência das esquerdas signifique inelutávelmente a perda dos Partidos Comunistas.

Essa espécie de Mito de Sísifo que significaria que os PPCC passavam a vida a lutar pela unidade e quando chegavam ao alto da montanha e realizavam o acordo e tal facto levaria a uma queda de influência até ao sopé da montanha…

É preciso ver as coisas em cada caso.

Pode suceder que os acordos com essas forças levem a descurar a ação política de base e a desmobilizar os partidos dos combates que lhe deram a influência.

O PCP esteve nos governos provisório e reforçou-se significativamente.

Na Câmara de Lisboa com Jorge Sampaio ganhou influência e prestígio.

O contributo para eleger Soares foi extraordinário e tal refletiu-se na sua influência.

Os acordos colocam novos problemas que têm de ser atacados.

O primeiro é não perder a ligação às bases de apoio.

O segundo é esclarecer a ação do governo.

O terceiro é demarcar-se claramente das decisões que lesam profundamente as populações.

O quarto é saber equilibrar a divergência de certas medidas com o interesse geral de uma nova política que não sendo a do PCP é bem melhor que a política da coligação derrotada.

Entre o risco de manter o empobrecimento dos portugueses e de Portugal e a possibilidade de abrir um novo caminho, o PCP optou pelo novo caminho a abrir a tal janela de esperança para a imensa maioria.

Se o PCP não desse este passo ao cabo de décadas de protesto o que estava em causa era o próprio PCP. O darwinismo também se aplica aos partidos.

O PCP não se pode contentar em ser um partido autárquico. Se o PCP continuasse fechado, outros movimentos teriam de abrir o caminho ora aberto pelo PCP, BE e PS.

Há, no entanto, um dado novo: o BE passou à frente do PCP e claro está que aumentou a disputa entre ambos.

O PCP vai querer ser a terceira força e o BE vai querer manter-se, como é óbvio. Que esta competição não coloque em causa os acordos é o se pode desejar do lado de quem está à esquerda.

domingos lopes

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2 pensamentos sobre “O ABRAÇO DE URSO?MITO DE SÍSIFO?

  1. Gosto da tua interpretação dos factos, que é a mesma que a minha e repousa numa esperança genuína de ainda podermos mudar o mundo para melhor.
    Um abraço.
    FBC

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