ACORDAI

Nem sempre temos a consciência de que, em certos momentos, o que estamos a viver, irá ter efeitos que mudarão o modo como se viverá alguns anos à frente. O que se apresenta é muitas vezes o embrião do futuro e não o que permanece.

Quando Tatcher e Reagan iniciaram o combate de modo feroz contra a política saída do final da 2ª guerra mundial, atacando o contrato social que foi responsável pelo nível de vida “ocidental” designadamente o movimento sindical e declarando guerra ao setor público, iniciando as privatizações de tudo o que podia ser viável e rentável, o mundo passou a girar sob essa batuta.

Consolidou-se a consigna “Todo o poder aos bilionários”. Hoje, nos EUA, a democracia engendrou um governo dos ricos, para os ricos e pelos ricos. Que diria Abraham Lincoln, que defendeu que a democracia é o regime do povo, para o povo e pelo povo, da plutocracia dominante de Washington?

 Nos anos 90, a CEE e depois a UE com a participação das famílias políticas socialistas, liberais e conservadoras e Cª empreenderam uma guinada no sentido neoliberal.

As consequências estão à vista: austeridade, empobrecimento, de um lado, e brutal acumulação de riqueza do outro num número restritíssimo de oligarcas.

Tudo isto ocorreu em paralelo com a implosão da URSS, o que fez crer aos dirigentes norte-americanos que tinha chegado a hora de “Todo o poder aos EUA”. As invasões do Iraque e do Afeganistão e os bombardeamentos da Jugoslávia e da Líbia assentam nesta conceção, assim como o alargamento da NATO para o os países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia.

Os governos ocidentais, embora saídos de diferentes partidos passaram a governar do mesmo modo, de acordo com os mercados, ou seja, aumentar os lucros de um lado o empobrecimento do outro.

As elites governantes saem em geral de dentro dos partidos. Reproduzem-se burocraticamente em cada capital dos 27 e com todo o lustro em Bruxelas. Os governantes entregaram a alma aos mercados. O niilismo campeia. O soberano (o povo) não quer a soberania – as eleições confirmam que muito pouco muda. Ataques pessoais, gritaria à falta de ideais. A própria justiça entra pela política adentro face à incapacidade do sistema.

De certo modo a democracia foi expropriada do povo que lhe dava sustento e seiva. Agora é uma repetição de atos eleitorais em que todos atacam todos e tudo. Os que ganham vão para o governo desfazer o que estava a ser feito e que, no essencial, é mudar as chefias para que quem vence possa abocanhar os cargos que justificam a existência do partido único – o partido dos mercados – constituído por várias secções de interesses, os partidos dos governos.

O neoliberalismo transformou as sociedades em indivíduos isolados, descrentes, sem horizontes, num vazio. Só há indivíduos, não há comunidades que ligam uns aos outros. Os verdadeiros indivíduos são os ricos, os famosos, os da vida boa. Os outros são verbos de encher. Servem para votar no tal partido único com as várias secções de interesses.

Os povos assistem a este desvario sem aparentemente saber o que fazer. Olham de lado. O soberano não quer o dom da soberania porque entende que o jogo está viciado. Já está tudo decidido. O soberano sente que o seu poder se encontra num beco sem saída.

Bizarramente os dirigentes da UE pretendem com a loucura do belicismo insuflar alguma crença ao Ocidente. As trombetas da morte batem à porta das casas da Europa. Quem lhes vai dar as chaves?

Nos anos 80 não se imaginava este caminho de desgraça. Não lemos bem os sinais. Pode ser que a cruel realidade desperte e varra a anestesia dominante. Vale a pena recordar o Acordai de José Gomes Ferreira orquestrado por Lopes Graça. …Acordai, acendei de almas e de sóis, este mar sem cais…

  … ACENDEI DE ALMAS E DE SÓIS

 ESTE MAR SEM CAIS…

Nem sempre temos a consciência de que, em certos momentos, o que estamos a viver, irá ter efeitos que mudarão o modo como se viverá alguns anos à frente. O que se apresenta é muitas vezes o embrião do futuro e não o que permanece.

Quando Tatcher e Reagan iniciaram o combate de modo feroz contra a política saída do final da 2ª guerra mundial, atacando o contrato social que foi responsável pelo nível de vida “ocidental” designadamente o movimento sindical e declarando guerra ao setor público, iniciando as privatizações de tudo o que podia ser viável e rentável, o mundo passou a girar sob essa batuta.

Consolidou-se a consigna “Todo o poder aos bilionários”. Hoje, nos EUA, a democracia engendrou um governo dos ricos, para os ricos e pelos ricos. Que diria Abraham Lincoln, que defendeu que a democracia é o regime do povo, para o povo e pelo povo, da plutocracia dominante de Washington?

 Nos anos 90, a CEE e depois a UE com a participação das famílias políticas socialistas, liberais e conservadoras e Cª empreenderam uma guinada no sentido neoliberal.

As consequências estão à vista: austeridade, empobrecimento, de um lado, e brutal acumulação de riqueza do outro num número restritíssimo de oligarcas.

Tudo isto ocorreu em paralelo com a implosão da URSS, o que fez crer aos dirigentes norte-americanos que tinha chegado a hora de “Todo o poder aos EUA”. As invasões do Iraque e do Afeganistão e os bombardeamentos da Jugoslávia e da Líbia assentam nesta conceção, assim como o alargamento da NATO para o os países que pertenciam ao Pacto de Varsóvia.

Os governos ocidentais, embora saídos de diferentes partidos passaram a governar do mesmo modo, de acordo com os mercados, ou seja, aumentar os lucros de um lado o empobrecimento do outro.

As elites governantes saem em geral de dentro dos partidos. Reproduzem-se burocraticamente em cada capital dos 27 e com todo o lustro em Bruxelas. Os governantes entregaram a alma aos mercados. O niilismo campeia. O soberano (o povo) não quer a soberania – as eleições confirmam que muito pouco muda. Ataques pessoais, gritaria à falta de ideais. A própria justiça entra pela política adentro face à incapacidade do sistema.

De certo modo a democracia foi expropriada do povo que lhe dava sustento e seiva. Agora é uma repetição de atos eleitorais em que todos atacam todos e tudo. Os que ganham vão para o governo desfazer o que estava a ser feito e que, no essencial, é mudar as chefias para que quem vence possa abocanhar os cargos que justificam a existência do partido único – o partido dos mercados – constituído por várias secções de interesses, os partidos dos governos.

O neoliberalismo transformou as sociedades em indivíduos isolados, descrentes, sem horizontes, num vazio. Só há indivíduos, não há comunidades que ligam uns aos outros. Os verdadeiros indivíduos são os ricos, os famosos, os da vida boa. Os outros são verbos de encher. Servem para votar no tal partido único com as várias secções de interesses.

Os povos assistem a este desvario sem aparentemente saber o que fazer. Olham de lado. O soberano não quer o dom da soberania porque entende que o jogo está viciado. Já está tudo decidido. O soberano sente que o seu poder se encontra num beco sem saída.

Bizarramente os dirigentes da UE pretendem com a loucura do belicismo insuflar alguma crença ao Ocidente. As trombetas da morte batem à porta das casas da Europa. Quem lhes vai dar as chaves?

Nos anos 80 não se imaginava este caminho de desgraça. Não lemos bem os sinais. Pode ser que a cruel realidade desperte e varra a anestesia dominante. Vale a pena recordar o Acordai de José Gomes Ferreira orquestrado por Lopes Graça. …Acordai, acendei de almas e de sóis, este mar sem cais…

https://www.publico.pt/2025/04/12/opiniao/opiniao/acendei-almas-sois-mar-cais-2129559

O KIT DA MAIS ILUSTRE COMISSÁRIA EUROPEIA

Uma comissária da União Europeia – Hadja Lahbib- a congeminadora do famoso do Kit para 72 horas para “responder” a crises.

Pode acontecer terramotos, tempestades, cheias, incêndios e é bom estar preparado. É preciso muito trabalhinho e juizinho.

Por outro lado, a comissária Hadja talvez não quisesse continuar a viver num anonimato que devia, sendo comissária da UE, considerar um infortúnio.

Ela deu conta doimpulso incontrolável dos cidadãos e das cidadãs para pegar em armas e partir para atacar a malévola Rússia que, segundo alguns estrategos, brevemente chegará a São Romão, bem próximo de Olivença. Ou, dizem outros, a Óbidos por causa do festival de chocolate.

Há até quem tenha visto para os lados da Sierra Morena (após o alerta do senhor Almirante por baixo do gelo da Gronelândia ao vislumbrar submarinos russos, perdão disfarçados de USA) carrinhas de caixa aberta cheia de drones e coisas desse género, disfarçadinhas de pacotes de rebuçados e de bolachas Cuetara que por sinal são muito boas.

Não desimaginemos das doenças e das intempéries, mas ao mesmo tempo imaginemos que os russos que fartos de batalhar na Ucrânia há mais de três anos, decidem contornar a Ucrânia e virem apanhar pela tardinha, sem dizer nem água vai, nem água vem, a Comissão inteirinha em Bruxelas a comer os chocolates belgas que também são bons, como eram os nossos Regina, que tinha uma fábrica para as bandas de Coimbra, quando havia fábricas de fazer coisas, que agora fazem notícias que é o que prende as pessoas aos telemóveis.

Cá está uma covardias sem limites, vir às escondidas e quando uma pessoa menos conta záscatrapás .  Oiçam lá, diz o oficial, agora os chocolates são para nós, vocês não têm direito a eles, temos de os aprisionar, e esta operação especial vai apanhá-los todos, e depois se quiserem negociamos, mas atenção, só depois de nos empanturrarmos.

Percebe-se bem o fito dos russos e a senhora comissária para não criar mau ambiente com o senhor Putin arranjou esta moenga do Kit para nos alertar para o perigo da Rússia vir por aí abaixo com os norte-coreanos a cheirar a alho e gastarem a água e as pilhas todas e nós sem nada. Os de cá sem água e sem os canivetes chineses que só a sra Hadja pode andar com eles nos aviões, porque o resto do pessoal nem corta unhas.

Esta ideia do kit é, por isso, fantástica. Num juízo de prognose é bem possível que os russos venham a Portugal aproveitar esta água das chuvas copiosas porque a deles ainda é do tempo dos bolchevistas.

E tem outra coisa; têm de o fazer enquanto está o Marcelo que é todo beijos e abraços. Se for com o senhor Almirante será muito diferente, mas mesmo muito. Fia fino. Se o artigo 5º ficar a seco ele vai direitinho a Washington e acerta as contas com o Trump num lampo.

Com ele é tudo armas, armas, nem pão, nem queijo. Ainda bem que há comissárias assim. Com ela é a sério – água, radio, medicamentos, pilhas e umas cartitas, não vão os russos fazerem amizades com os de cá e a coisa durar mais de 72 horas. Bem-haja o cérebro da sra. comissária, resplandecente de imaginação e prevenção.

UM PROVOCADOR É UM PROVOCADOR

JOSÉ RODRIGUES DOS SANTOS

Confesso que só hoje vi a entrevista à RTP1 no dia 24, devido aos protestos do PCP e de outros comentários.

 Na verdade, a RTP 1 não encomendou ao pivô uma entrevista. Encomendou um julgamento, até no plano, tal como num tribunal, o pivô estava numa posição mais alta que o Secretário-Geral do PCP. E esse plano é brutal do ponto de vista psicológico no sentido de diminuir o entrevistado.

José Rodrigues dos Santos, ao longo dos dez minutos, apenas tinha em mente encurralar Paulo Raimundo e foi o que tentou fazer, comportando-se como se fosse o dono da RTP, e quisesse acusar o PCP de blasfémia por não aplaudir os deputados ucranianos. Por muito que P.R. explicasse que não aplaudiu aqueles deputados porque serem também responsáveis pelo facto de na Ucrânia os partidos social-democrata, comunista, e outros, menos os partidos ligados aos nazis – os Banderistas e os nazis do batalhão Azov – bem como os sindicatos estarem ilegalizados.

JRS impediu conscientemente que PR abordasse os temas relacionados com as eleições de 18 de maio. Seguramente não convidaram PR com a informação que a entrevista de 10 minutos seria exclusivamente sobre a Ucrânia.

JRS e os seus donos atraíram PR para uma entrevista sobre as eleições e depois de o “apanharem” nos estúdios enfiaram-lhe um enxerto de “porrada”, o que não conseguiram face ao desempenho do entrevistado. Trata-se de uma covardia sem limites. Como todos os covardes, JRS pretendeu ser forte com a eventual  “ fraqueza” do entrevistado face ao tema Ucrânia, onde o pensamento único, o do partido da guerra é dominante e ficam boquiabertos quando alguém ao arredio da bolha dos media se atreve a defender outra solução que não seja a do rearmamento e a da guerra.

Como se convidasse Luís Montenegro, Pedro Nuno dos Santos, e todos os outros dirigentes e, durante o tempo, lhes perguntasse os motivos de defenderem o envio de cada vez mais armamento para a Ucrânia e a razão de os seus partidos aplaudirem deputados  de um parlamento onde socialistas, social-democratas, comunistas e partidos de esquerda  estão interditos. Ou por que motivo defendem o envio de armas para a Ucrânia e não para a Palestina. E nem mais um segundo sobre o dia 18 de maio.

JRS prestou um péssimo serviço ao pluralismo que deve nortear a informação. Vestiu a farda de capataz e despiu a de jornalista. Foi um pouco mais longe. De cima da sua arrogância comportou-se como um velhaco. Só faltou piscar o olho em direto aos que com ele organizaram semelhante velhacaria.  

Gira, el mundo gira

Admite-se a dificuldade em acompanhar as grandes mudanças no mundo. Normalmente é mais fácil seguir o curso normal. Porém, o curso normal das coisas não é seguro. Muda, às vezes. Estamos a assistir e a participar num desses momentos de mudança. O que levou o nosso Camões a dizer que – todo o mundo é composto de mudança, tomando novas qualidades – e cá vamos nós atrás das mudanças que outros vão à frente.

A guerra nunca teria acontecido se a Rússia não tivesse invadido a Ucrânia e os EUA /UE/Zelenski não quisessem a invasão/guerra. Os ucranianos davam o sangue, a UE o apoio material (em boa medida) e os EUA alimentavam-na com sua poderosa máquina de guerra. Daí ser uma guerra do Ocidente por via dos proxys ucranianos que dependiam dos EUA em matéria de armamento.

Se recuarmos no tempo, os dirigentes ocidentais, designadamente os da UE posicionam-se hoje em frontal contradição com as suas declarações a garantir que não havia espaço para negociações e a Rússia teria de sofrer uma derrota estratégica. Em todos os media, salvo três ou quatro honrosas exceções, esta era a verdade única, a que podia ser difundida e foi ad nauseam.

A arrogância ocidental atingia o pico himalaiano. Os russos nem sequer tinham botas e as armas eram da 1ª guerra mundial. E provavelmente muitos daqueles fazedores de opinião acreditavam no que diziam, tão grande era, por que não dizê-lo, a sua burrice e, nalguns casos, a cretinice.

Esta guerra contribuiu para mudar o mundo. Os que a viam, perdidos no tempo dos filmes sem som e a preto e branco, não têm agora capacidade (talvez alguns mais refinados não queiram) de encarar a novidade no mundo. Ainda vivem no mundo hegemónico ocidental.

Os que seguiam os EUA para onde quer que eles fossem, não compreendem que o papel dos subservientes é serem-no e assim está cumprido o seu papel. Quando já não servem, são descartáveis. A História demonstra-o.

O aparecimento de um novo chefe de fila do grande Império com ideias iguais às do ex-chefe, mas com um caminho diferente para manter a hegemonia, baralhou os súbditos e deixou-os a esbracejar e a fazer proclamações ocas e próprias, na linguagem de Nitzsche, da décadence evidente partout.

António Costa, refiro-o por ser de cá do burgo, passou o seu tempo enquanto Primeiro-Ministro a proclamar que a Rússia tinha de ser derrotada. Ele e o seu governo. Ele e quase todos os dirigentes do PS. Ia atrás da Sra. Ursula, do Sr. Scholtz, do Sr. Macron, do Sr. Riki, do Sr. Steimer, do Sr. Borrel, do Sr. Stoltenberg e do atual Sr. Rutte e da Sra. Kaya Kallas e de tutti quanti.

O Sr. Presidente do Conselho Europeu acordou ontem no meio de esta longa letargia para vir acusar a Rússia de não querer negociar e, por isso, era preciso obrigá-la a negociar…Depois de terem prometido a Zelenski que se não assinasse o Acordo de Istambul, lhe daria todo o apoio as long as it takes.

Esta nata de dirigentes da UE são irresponsáveis e movem-se num mundo paralelo à realidade material. É de admitir que se sintam fora do tempo. Só que não voltam para dentro do tempo e continuam a correr numa realidade paralela e abusivamente a tentar impor às nações da UE e aos povos destas nações o fardo do partido da guerra.

Abraçaram – socialistas, liberais novos e antigos, populares e democratas-cristãos, certos verdes e outros de outras cores – o partido único, o partido da guerra.

Já nada têm a propor à Europa, a não ser a guerra. A Alemanha rearma-se e a França assusta-se. Macron está de partida. Mertz tem 30% e sem o SPD e os Verdes não anunciaria o que anunciou. Falou em 800 000 milhões para armas, grande parte delas para comprar aos EUA…

O rearmamento da Europa não é só para dar cobertura à russofobia; destina-se a manter os povos em estado de alienação e tentar cada uma das potências ficar com mais poder que a outra. A NATO quanto tempo durará? Sem o cimento do patrão…

Trump tenta dividir o eixo Rússia/Irão/China. O novo imperador trata de se ocupar de outros assuntos dada a quase insignificância da UE com tais senhoras e cavalheiras à frente dos seus destinos. Trump “compreendeu” que a escalada na guerra atingiria perigosamente o patamar nuclear. A UE, como não dispõe tal armamento, afirma-se como um garnizé frente ao galo da capoeira. Por isso, a UE está como está, com governos minoritários à espera de fazer aceitar o que já muitos aceitam, a extrema-direita.

Nem nestas circunstâncias, únicas para fazer a diferença, a UE e seus dirigentes são capazes de confiar nos povos respetivos e mobilizá-los para fazer do nosso fantástico continente um continente de paz, harmonia, liberdades, direitos, com um ambiente sustentável e de cooperação com todos os povos do mundo numa plataforma de segurança para todos, ucranianos, russos e todos, mesmo todos. Essa seria a melhor defesa da Europa. Os russos vieram a este lado da Europa para derrotarem em Berlim Hitler e a Paris atrás do exército napoleónico e regressaram de imediato. Os que vivem na Europa são europeus, desde Lisboa aos Urais. A Europa precisa de paz e cooperação para ser diferente e importante no mundo.

UM TRAPACEIRO É UM TRAPACEIRO

Vamos assistindo incrédulos ao cortejo da obstinação de Luís Montenegro em permanecer silencioso sobre as suas avenças diretas ou indiretas de entidades privadas. O seu governo está disponível para lhe dar cobertura em não reconhecer que, como Primeiro-Ministro, não podia auferir essas avenças, uma delas, pelo menos, com interesses dependentes do Estado. Ponto final parágrafo.

Como Montenegro não quer dar explicações acerca desta conduta e como sabe que ficou e ficará marcado para todo o sempre por a não esclarecer, foge e leva consigo debaixo do braço o partido e o governo para dar ares de ter apoio – revelando medo – como se uma conduta ilícita pudesse ser branqueada por uma votação eleitoral. Como advogado, bem sabe que não. Quem determina se há um ilícito são os tribunais. Quem escolhe os governantes são os povos.

Há, no entanto, nesta crise algo de misterioso e que leva a fazer a pergunta: por que foge com tanto pavor da Comissão de Inquérito? O que teme? O que se sabe, maculando o seu cargo, não seria caso para a crise que provocou, então de que foge ele e os que o apoiam?

Friamente: há uma ano o PS teve 78 deputados, o PSD e o CDS 78. A aliança da direita ganhou por uma diferença de uns pingos. O PS deixou passar o governo, alinhou na eleição do Presidente da Assembleia da República e votou contra a moção de censura do PCP, salvando o governo de cair. E o Dr. Montenegro exige ao PS que vote favoravelmente a moção de confiança no governo, sendo o partido da oposição por ter tido uns pingos de votos a menos? O Dr. Luís não parou no tempo para ressuscitar a União Nacional de Salazar? Falta apenas arregimentar autocarros e populares e encher o Terreiro do Paço para o aclamar como salvador da pátria e da proteção de dados…

Só adiantados mentais seriam capazes de congeminar que para governarem exigiriam que a oposição desse a sua confiança política a um governo cujo chefe está envolvido em condutas censuráveis, pelo menos do ponto de vista político. Um governo governa. Ninguém o derrubou, Não sendo sequer previsível que viesse a ser derrubado, por que se autoderruba avançando com o pedido de confiança que nunca poderia ter, pois é absolutamente minoritário?

Montenegro anda a brincar aos governos. As pirraças já o impediram de informar o PR o que pretendia com a comunicação ao país. Este por sua vez não lhe atendeu o telefone para que um birrento não ficasse só.

Perdido na preocupação da proteção de dados, Montenegro perdeu o rumo governativo, não atina com um dos primordiais princípios da chamada democracia liberal ocidental – o governo governa, a oposição que não é governo é alternativa/alternância e espera a sua vez. O que faz o governo pedir à oposição a confiança para continuar a governar? Quer autoderrubar-se para alegar que não o deixaram governar, quando ninguém o impediu…O governo quer que a oposição seja sustento da sua política.

 Luís Montenegro navega nos ventos da chantagem política. Sabe que a moção de confiança é o biombo para esconder as eleições que quis provocar e não tem coragem de assumir.

Sabemos que a confiança nas instituições é pouca. Que a esperança em mudar a vida não é grande. Mas um trapaceiro é um trapaceiro. E dar o poder a um trapaceiro é ser corresponsável pela trapaça.

https://www.publico.pt/2025/03/11/opiniao/opiniao/trapaceiro-trapaceiro-2125450

O MUNDO A MUDAR, A EUROPA EM ANQUILOSE

O mundo assistiu, nos últimos setenta anos, a mudanças que outrora necessitariam séculos. Desde a competição entre os sistemas capitalista e socialista, à coexistência pacífica, à implosão da URSS, à ordem internacional unipolar liderado pelos EUA (correspondente ao fim da História), à guerra na Ucrânia entre o Ocidente e Rússia e à reviravolta dos EUA, pretendendo celebrar acordos com a Rússia e em simultâneo declarar guerra comercial aos aliados e tomar conta da Gronelândia e do Canal do Panamá. O caso da NATO é revelador do desnorte que assola do lado Atlântico. É mais fundo do que o que parece. E na própria UE.

O mundo está a adaptar-se a uma nova “ordem” entre o multipolar e as zonas de influências das principais potências.  O Império já não é capaz de impor a sua lei por esse mundo fora.

Os EUA, sendo, embora, a maior potência mundial, enfrentam desafios que os tornam vulneráveis, desde logo uma dívida externa de cerca de 40 triliões de dólares que só não os levam à bancarrota pelo facto de o dólar ser a principal moeda de pagamento internacional.

A economia norte-americana perdeu capacidade competitiva, não obstante nas indústrias tecnológicas ter resultados espantosos como provam as fortunas de Musk, Bezos e Zuckenberg.

A globalização neoliberal virou-se contra os seus impulsionadores. As principais potências capitalistas deram passagem à China com a deslocação das suas principais fábricas para aquele país em busca de superlucros. É interessante assistir ao facto de ser a China a defender a globalização, enquanto Trump pretende fechar os EUA para fazer a America great again que nos termos em que é apresentado é a confissão da incapacidade de competição no plano do comércio internacional. A UE segue no seu declínio: desindustrialização, degradação do nível de vida e a derrota na guerra. 56 milhões de europeus não conseguem ter as suas casas aquecidas.

O homem de extrema-direita que hoje comanda os EUA não virou nem pacifista, nem antieuropeu. Compreendeu que na Ucrânia ou vence a Rússia ou há guerra nuclear e que não consegue derrotar a Rússia que dispõe de maior poder nuclear e de maior capacidade de aguentar o choque devido à sua extensão. Tornou os europeus ainda mais dependentes dos EUA vendendo-lhes armas, desgastando a Rússia, caso prossiga a guerra.

Os ataques aduaneiros já vinham de Biden com Reduction Inflation Act- 2022-   a castigar os produtos provenientes da UE. Agora Trump agrava as tarifas. Já não consegue competir. É aí que dói.

A União Europeia está como que perdida na sua demencial corrida armamentista num contexto de estagnação económica e de graves problemas sociais que se agravarão com o desvio de recursos do plano social para o plano militar. As forças políticas que carregam no carro da guerra não têm a confiança dos povos. Ademais, paradoxalmente alguns países já só governam com aliados de Trump.

As decisões da Comissão, em matéria de gastos com a defesa, em momento algum, foram objeto de anúncio programático eleitoral.  É este o Norte, o da indústria da morte?

Acresce que a “justificação” algo que assenta na psicologia do medo acenado pelos dirigentes ocidentais. Independentemente dos desígnios nacionalistas de Putin, não há nos últimos 500 ou 600 anos invasões russas de países europeus, enquanto a Rússia foi invadida por Napoleão e a URSS pela Alemanha nazi. Nestes últimos trinta anos a NATO participou na invasão do Afeganistão, do Iraque e nos ataques militares à Líbia, à Jugoslávia e continua a ajudar a política genocida de Israel. Não têm lições a dar.

Trump pretende afastar a Rússia da China e neutralizar os BRICS nas suas orientações de desdolarização dos pagamentos internacionais. Deixa cair a tradicional primeira visita ao Reino Unido (mesmo depois do convite do Rei Carlos III) e vai à Arábia Saudita. O mundo mudou. A Europa não muda, anquilosou. Luta entre si e alguns dos países europeus também querem terras e minerais raros e portos de mar. O butim está em disputa.

O supremo prazer das coisas simples

Quando acordei chovia. Passou a chuva. O céu abriu um pouco. Resolvi ir à horta sem as botas de borracha por causa da preguiça de tirar as calçadas e enfiar as de borracha.

Na horta está aquilo que os editores apelidam de obra, ou seja, a criação. A minha esperança estava nas ervilhas tortas e nos grelos de couve naba. Semeara as ervilhas lá longe, em novembro, plantara as couves em dezembro.

A obra estava quase acabada e regalei-me de volta das ervilhas a tirar-lhe a literatura toda que os tutores haviam protegido do maligno vento espanhol. Por debaixo dos pés das ervilhas as vagens escondidas e as mais longilíneas. Prestando homenagem ao avô do meu Pedro irei fritá-las em banha e um nico de azeite com rodelas de salpicão e fatias de pão de milho.

Os pés ficaram tão encharcadas quanto o meu nariz de ar puro da manhã. Com os pés assim, o destino marcou o rumo – apanhar espargos que esta longa chuva os fez saltar da terra onde se escondiam. Tudo se passou num silêncio gótico e vegetal. Os pés ao cheirarem as rodelas de salpicão secaram. Tão simples.

Suicídio em direto na SIC

Não temos uma sala oval, nem zaragatas. Talvez, por isso, o PR achasse que a humilhação do PM em não lhe telefonar antes da Proclamação da Inocência merecesse o gesto absolutamente simpático e cortês de não lhe  atender o telefone, e daí por mera cortesia dar a conhecer ao país o quão Marcelo estima Montenegro, malgré tout.

Dizem que Trump despachou Zelenski, humilhando-o, coitadinho do homenzinho. Marcelo não despachou Montenegro, suicidou-o em direto na SIC. Sem humilhação, apenas com comiseração institucional.

VIVAM AS FEIRAS E QUEM AS APOIOAR

Hoje, num desses hipermercados de referência, descobri finalmente o motivo da minha antipatia por estes “estabelecimentos”. Neste domingo carnavalesco havia magotes de gente cheias de carros de compras até à cabeça. Caminhavam do mesmo modo que rolavam os carros, em silêncio, por entre prateleiras de o que se precisa e de o que não se precisa.

Alguns consumidores levavam os filhos dentro dos carros e um vigilante chamava a atenção ao transgressor pela conduta inaceitável. Tudo isto se passava em voz de plástico para não fazer perder a atenção nas fantásticas promoções de vinhos de terras que não os produziam.

Para sossego dos contribuintes não havia vozes, apenas olhares um pouco incrédulos ou cheios de frustração. Um ou outro exultante.

Giravam as multidões raspando, alguns contribuintes, nas mesas à disposição cartões à espera da sorte que não chegava e silenciosamente esperavam pelo jogo do clube ou da telenovela ou da série. Tudo conforme o pastor dos negócios e das almas semimortas

Ninguém falava a alguém.  No final das compras, uma voz perguntava pelo cartão e pelo NIF, caso necessitasse. 

Num extremo da cidade e no outro ponto da cidade fronteiriça localizam- se as Feiras do Relógio e a da Brandoa.

Ali os humanos falam, gritam, regateiam, dizem brejeirices, param e falam com os vendedores e entre si, como faziam seus pais, avós e bisavós. Sabem que à astúcia do vendedor é preciso dar a volta para a apanhar. Há de tudo, menos o silêncio das almas anestesiadas.

Um cigano vende goiabeiras e outras árvores de fruto. Uma cigana cuecas elegantes para senhoras bonitas, diz ela. Um paquistanês exuberante molhos de agriões. Um indiano mangas e anonas. E grelos frescos que não há na sua terra. Um fulano com a pronúncia das Beiras vende nozes e figos secos.

Até há quem venda pássaros apanhados em armadilhas.

Uma vendedeira ensina quando se plantam os aipos e os morangueiros. Um atrevido pergunta-lhe se pode plantar os tomates atrás dos do marido que os planta primeiro que os seus. Ela manda-o plantar ao pé dos do padre Inácio.

Há bifanas com molho a escorrer e sandes de couratos e copos de vinho e de cerveja.

Há um homem muito magro que ganha algumas moedas a dizer onde se pode estacionar o carro

Há do outro lado da estrada dezenas de aves de capoeira e faisões da senhora que vende galos a africanos como quem vende botões.

O homem que vende ovos diz a um eventual comprador – ontem o jantar foi fracote e cheguei à frigideira, está a ver esta caixa de seis, estrelei-os e não comi mais porque lhe queria lhe queria vender outra.

O silêncio de uma grande superfície é o de do indivíduo solitário sem pertença. É um consumidor com um número fiscal. O movimento da Feira é a prova provada de que somos seres humanos. Vivemos juntos e podemos falar uns com os outros.