O Armagedão, tempo de ódio e de guerra

Vivemos um tempo de guerras. Para vivermos um tempo desta natureza é necessário que os humanos organizados em sociedades aceitem que têm inimigos que os querem aniquilar e, portanto, só resta a guerra. A guerra é a confissão autorizada pelo Estado de que o assassinato dos outros é uma conduta heroica e como tal a glorificar.

Na nossa cultura judaico-cristã deve ser tido em conta a narrativa no último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, sobre o fim da Humanidade, o Armagedão, ou seja, a batalha final entre Deus e os governos humanos. Deus escolherá poucos para que na Terra impere a sua vontade. Essa guerra seria no Médio-Oriente. Jeremias falava dessa guerra a ter lugar perto do rio Eufrates.

 A guerra, nestes dias de chumbo e sucessivas injeções de anestesia das consciências acerca da sua inevitabilidade, mantém os humanos como seres incapazes de raciocinar e de agir pelos impulsos mais primários oriundos do tempo em que, como animais a fugir uns dos outros, se matava ou se morria.

A linguagem dos principais dirigentes do mundo está atolada de mortandade. Oferecem aos inimigos o inferno e aos seus a messiânica vitória.

Netanyahu e Trump atingiram o supremo patamar da ignomínia. Trump sempre que algum dirigente tem coluna vertebral ameaça-o com o inferno.

No passado os negociadores da paz eram tratados com respeito, o que não significa que tenha havido condutas ominosas de tratamento de enviados e negociadores.

Estamos em 2025 e no “Ocidente” esta regra passou a ser a da traição absoluta. Através da espionagem assassinam-se negociadores sejam palestinianos, sejam iranianos. Deve ser a perfídia maior entre Estados, um deles aproveitar e matar os negociadores e apresentar a façanha como uma ação de defesa.

Trump, que tinha dado como data limite o dia 15 de junho para se chegar ao fim das negociações, assistiu ao assassinato dos negociadores no ataque ao Irão com, “Todos mortos” disse ele, enquanto decorria ainda o prazo para negociar.

O ataque de Israel ao Irão insere-se nessa linha de um primarismo absoluto, fanático, messiânico de lançar o mundo num dilúvio de fogo, seja ele de que tipo for, desde que possa vencer.

Netanyahu sabe que só poderá eventualmente derrotar o Irão se os EUA entrarem na guerra, sem que o resultado seja certo. Mas também sabe que se os EUA participarem a Rússia e a China não vão ser espectadores. E nesse caso o mundo pode estar à beira do Apocalipse, não como obra de Deus, mas de demónios sem alma como Netanyahu e Trump.

Tal como no Iraque não havia armas de destruição massiva, também no Irão não há armas nucleares e foi Trump quem saiu do Acordo quando foi pela primeira vez Presidente.

Israel e os EUA conhecem esta realidade. Mas apesar disso, querem na região o caminho totalmente livre para fazer o que quiserem e desde logo exterminar os palestinianos.

Quem tem armas nucleares é Israel que não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ocupa ilegalmente os territórios palestinianos. O verdeiro Estado fora da lei tem um nome – Israel.

Ambos entregaram a Síria à Alqaeda e à Turquia, deixando-a refém de ambos e do sultão turco. Invadiram o Líbano a ferro e fogo e destruíram em boa medida o Hezbolah. Continuam o extermínio dos palestinianos e Trump sonha sobre o mar de sangue de Gaza construir um complexo turistico… A Jordânia não passa de um peão de Israel, talvez porque o Rei tenha medo dos milhões de palestinianos a viverem deportados pela Naqba. O Iraque está ainda destruído. Resta o Irão que querem destruir a ferro e fogo.

Esta Europa incapaz de se libertar do complexo de serventuária nada mais tem para fazer que não seja deixar-se conduzir por estes dois seres cuja bestialidade é a cada dia que passa mais evidente.

As palavras têm sentido, representam o que há de mais elevado na comunicação entre os humanos. A palavra nojo é dura, mas que palavra usar para qualificar Ursula von der Leyen, Macron, Starmer e Merz ao proclamarem frente ao extermínio dos palestinianos e aos ataques do Irão que Israel tem direito a defender-se? Eles e elas sabem que a Palestina está ocupada ilegalmente. Sabem que invadir ou atacar outro país é ilegal e, no entanto, do mais alto da hipocrisia e da ignomínia declaram que Israel pode fazer o que entender porque …tem direito a defender-se…

Só Israel tem direito a defender-se e mais ninguém no mundo em que vivemos tem direito a defender-se porque estas fornadas de dirigentes europeus já perderam toda a vergonha e honradez. Para manter os seus privilégios e as suas regalias venderam a alma ao diabo e a Trump. Por isso, quando este último os ameaça com a ocupação da Gronelândia metem o rabo entre as pernas ou correm a apoiar o filho predileto dos EUA, Netanyahu. Era difícil imaginar que a UE chegasse a este servilismo e a este estado de degradação.

Quando von der Leyen, naquele tom de voz pseudo-imperial, num vestuário saído de alguma máquina de liofilização e com um cabelo onde nenhum se solta mesmo que se acenda um temporal, declara que Israel tem o direito a defender-se outra palavra surge, a palavra ira porque sendo um pecado é da condição humana revoltar-se.  Mas acaso alguém neste mundo entende, à exceção de Israel e dos EUA, que defender-se é atacar os outros porque assim estando em guerra permanente só há uma lei, a do mais forte.   

Vivemos rodeados de guerras. Um tempo de guerras. Um tempo de ódios. Só o ódio, só apelidar de animais os palestinianos permite fazer guerras. Só o ódio e a loucura messiânica permitem ao Estado enviar negociadores que em vez de negociarem fazem espionagem para matar os que cumprimentam à nessa mesa de perfídia e de má-fé.

Pode o mundo e a Humanidade ficar refém desta camarilha de loucos que estão a empurrar o mundo para o Armagedão onde por causa dessas loucuras todos perecemos não por causa de um Deus, mas sim destes demónios cegos de ódio, arrogância e malvadez? Só se deixarmos.

O MINISTÉRIO DA REFORMA DO ESTADO TEM MOTOSSERRA?

Trump criou no início do mandato o famigerado DOGE, Departamento da Eficiência Governamental, cuja eficiência foi assegurada com o despedimento de centenas de milhar de funcionários públicos num total de 330 mil (contando com os se sentiram ameaçados e saíram) destinado a poupar 2000 milhões que a final era de 1000 de milhões e depois com o aumento do défice resultante dessa monstruosidade se saldou em zero poupança para o Estado. E 37 000 milhões para as empresas de Musk.

Por cá o, Primeiro-Ministro criou um Ministério, o da Reforma do Estado. A justificação é exatamente a de Trump/Musk, combater a burocracia. Não se sabe quem se lembrou da ideia, mas não é difícil imaginar. A motosserra já trabalha.

Já no século XVI Étienne de la Boétie alertava para o facto de os privados serem capazes de tratar bem dos seus interesses privados, mas muito raramente eram capazes de tratar dos bens da comunidade. As filosofias são radicalmente diferentes. Não se conhecem casos relevantes.

O último com Musk é um desastre para o interesse da comunidade estadunidense. Por cá a IL e o Ventura aplaudem a medida da AD. Os sindicatos denunciam, esclarecendo que uma coisa são reformas e outra são ataques aos serviços públicos com as transferências dos mesmos para os privados e por serem essenciais permitir-lhes-ão aplicar os preços que entenderem. Que ninguém se iluda, fazer os serviços públicos funcionarem mal, é o caminho certo para os entregar aos privados que não vão a votos e imporão os preços que quiserem. Eficientemente.

A MOTOSSERA E A RETROESCAVADORA

TRUMP/MUSK

Pelo que é dado seguir, Musk e Trump já tiveram melhor relacionamento. Agora, fazendo jus à sua elevada educação e cordialidade, trocam insultos. Musk doou muitos milhões para Trump ganhar as eleições presidenciais, diz o multibilionário que conclui alegando que se não fosse o seu big money a coisa não teria dado a vitória a Trump. E ameaça formar um novo partido.

Trump Presidente contra-alega com os milhares e milhares de milhões que as empresas de Musk recebem como subsídios.

Musk atira à cara de Trump o seu trabalho gigantesco para despedir centenas de milhar de funcionários públicos. Cortou tanto que ficou sem nada para cortar.

Será que Musk fez do apoio a Trump um investimento, como faz nas Bolsas, e deu torto?

Quando todos os dias os neoliberais defendem os cortes das despesas aqui está onde querem chegar, cortar despesas sociais para entregar a “poupança” na boca dos grandes tubarões que usam motosserras para cortes e retroescavadoras para ficarem com as “gorduras” do Estado.

Com homens deste calibre, cuja cegueira por dinheiro é a característica única, nunca se sabe se uma transação de alguns milhares de milhões põe termo a esta picante novela estadunidense. Big money for ever. As gorduras do Estado caem que nem ginjas na gula dos paquidermes financeiros. E talvez a gula fale mais alto.

Os capachos foram feitos para os capatazes pisarem, coisa e tal. As carochinhas, pois.

Portugal foi autorizado por Bruxelas a gastar até cinco por cento do PIB para comprar armas. O país dos portugueses não está autorizado a passar o défice de três por cento, mas pode comprar armamento até os 5% que a parte que vai para além dos 3% não conta. Bruxelas informou que nesta matéria terá os seus olheiros a monitorizar a realidade dos factos, não vá o governo dos portugueses não cumprir as orientações da capital da Bélgica e sede dos que ali mandam nos países da UE.

Em Portugal nenhum português foi ouvido acerca desta ordem. Nem em Paris ou Bucareste ou Roma.

Ao que se sabe a ordem veio de Trump que por sinal quer deitar a mão à Gronelândia e que as senhoras e senhores que dão ordens em Bruxelas obedecem porque a Europa não pode prescindir da defesa dos EUA. Dizem.

Estas compras serão feitas ao complexo militar dos USA porque precisa dessas encomendas para fazer frente à ameaça russa de Putin, sendo certo que este senhor cavalheiro telefona a Trump e falam acerca de como vai a Europa e o mundo e a Europa e o mundo adivinham do que eles falaram porque os seus porta-vozes emitem declarações e tal e tal.

O neerlandês que combinou com o que manda ( ?!) nos USA ser ele o caixeiro viajante da Organização do Atlântico Norte que já vai no Indo-Pacífico assegura que os donos da NATO não aceitam mantê-la se os europeus não a pagarem.

Os europeus têm de pagar a conta das despesas, mesmo comprando aos USA as armas que poderiam ter de utilizar contra os USA se estes concretizarem a ameaça de empalmar a Gronelândia. Coisa que nunca fariam porque os USA têm de ser compreendidos…

Já houve um senhor holandês na altura da troica que achava que os dos Sul da Europa eram muito dados a gastos com copos e mulheres e como tal rédea curta, austeridade.

Agora a rédea é larga porque qualquer dia as tribos eslavas  da  Rússia com armas da 1ª guerra mundial e sem rações e mísseis e com o Chefe da tribo cheio de cancros tomam conta do país dos portugueses, mesmo que o almirante lhes faça frente logo à saída de Kursk, pois os russos não seriam capazes de se defender com um almirante a dirigir a guerra das planícies.

Para o senhor Rutte a verdade é esta: gastar em superficialidades como construção de casas, hospitais, Serviços Públicos, aeroportos, pontes é altamente lesivo dos interesses ocidentais pelo que não serão admitidos; comprar armas aos States é a forma de nos proteger dos eslavos da Rússia que já têm mira nos copos e nas mulheres e pior que tudo para um neerlandês é ver na sua cruzada puritana protestante um eslavo ortodoxo transformar-se num pecador de copos e gajas.

Pois e coisa. Neste dia a França de Macron mandou mais um navio de armas para Netanyahu. Pois. E a Alemanha de Merz continua a proibir manifestações de apoio à Palestina e o fim do genocídio palestiniano. Pois e tal, senhor António Costa, Presidente do Conselho Europeu que garantiu a pés juntos que com a Rússia não se negociava até à sua derrota. Pois e tal. A carochinha era muito linda e tinha um vestido com joaninhas pintadas e Portugal tem de gastar o que não tem porque os capachos foram feitos para os capatazes limpares os sapatos. Coisa e tal.

EM VEZ DE FALAR DE CIMA DA BURRA

A vaga neoliberal instalou-se dentro dos regimes democráticos e sangra-os. Na UE foram criadas regras que se impõem a todos os Estados, sejam mais ou menos desenvolvidos. Os partidos que governam têm nas questões decisivas para o seu desenvolvimento económico uma pauta única e reduzida. Há pouco espaço para a diferença, a qual se faz sobretudo por via de ataques em torno da honorabilidade. Os media ampliam os casos. Casos e mais casos e dias de chafurdice. Assim se governa e se faz oposição.

A discussão sobre os grandes problemas do país, da UE e do mundo está a cargo de comentadores com 90% de opiniões idênticas ou muito parecidas. Há uma espécie de pensamento único. Os partidos governantes não serão iguais, mas alinham na busca dos mesmos fins, entendem-se e diferenciam-se sobretudo pelo barulho dos ataques entre si.

O mundo das brutais desigualdades instalou-se. De Washington a Moscovo, de Toronto a Pequim, de Lisboa a Helsínquia, de Pretória a Riade, de Singapura ao Rio de Janeiro.

Por cá Ventura fala de ciganos e corruptos e de mais benefícios para os que já têm muitos. Tem a complacência dos media, é o político com mais entrevistas nas têvês…mais que Montenegro e Pedro Nuno dos Santos juntos. Branco o é galinha o põe.

As outrora chamadas linhas vermelhas de tanto se desbotarem passaram a incolores em quase todos os associados de Bruxelas para evitar a invocada ingovernabilidade. Os democratas-cristãos, os conservadores, os socialistas, assumem acordos em nome da tal governabilidade com a maioria das extremas-direitas. Parece que chegou a hora do Chega. Por todo o lado se lê e se ouve o perigo de marginalizar o Chega. Os donos disto tudo não veem problema no Chega ser a alternativa, tal como em Itália com Meloni, toda repimpada entre Bruxelas e Washington.  

Os povos sentem-se impotentes. Então, votam nos que pescam no descontentamento e apregoam como inimigos pobres desgraçados que nada decidem e são usados para entreterem os distraídos a atirarem pedras a esses concidadãos. Os votos no Chega não são só protesto e raiva, talvez sejam uma espécie de linha S.O.S. Quando tudo em redor está mal, pode ser atrativo experimentar o pior, tal como escreveu o filósofo inglês F.H.Bradley.

Como morreu a esperança, cada um(a) fica mais só. Nesse estado, é mais fácil vir ao de cima o lado mais negro da humana condição, o egoísmo, a vingança, a inveja, o oportunismo e o desespero. Os perdedores gostariam de copiar os ganhadores, os oligarcas, os famosos da boa vida. Os de baixo têm pedras e atiram o Chega como uma pedra para “partir isto tudo”, para ver se o pior faz mudar as coisas que vão mal. Em termos de psicologia de massas o sentimento pode ser irracional, mas a ideia punir o status quo “precisa” do voto em Ventura.

O PS português faz de conta que não vê o desaparecimento de outros pêsses noutros países exatamente por não fazerem diferente. Continua a insistir na defesa de políticas que criam este atoleiro democrático, seja nas políticas de desenvolvimento económico, seja na militarização da UE.

  O PCP dirige-se a uma parte da sociedade que, no essencial, já não o ouve ou já não existe. Faz que vai à frente e está parado a olhar para o passado, replicando métodos, palavras de ordem e campanhas. Fica contente com ir perdendo votos e deputados a conta gotas. Ajá anunciada moção de rejeição do programa do governo não lembra ao diabo. Qualquer um pode adivinhar o próximo Comunicado do CC do PCP sobre os resultados das próximas eleições.

O BE acantonou-se no seu identitarismo e fechou-se tentando abrir com um verbalismo populista sem qualquer efeito prático. Fala para dentro e para os que estão próximos.

Nem um, nem outro, capitalizaram o descontentamento social. São vistos como os outros partidos. E, sendo muito injusto, é necessário um exercício de grande humildade para compreender e ajustar os estilos, as propostas e uma maior clareza estratégica quanto aos objetivos.

Como é possível que estes dois partidos ao cabo de todos estes anos estejam de costas voltadas, como competidores incapazes de forjar algo comum, bem sabendo que sem essa base não procedem e, que mesmo assim, precisam de outros para alianças que permitam a mudança? Que dizem a juntar forças nas autárquicas e nas presidenciais…nem agora avançam com o apoio a Sampaio da Nóvoa ou outro para candidato a PR? As esquerdas têm de aprender a ouvir, a ter em conta o que ouvem, em vez de falar de cima da burra.

Em vez de falar de cima da burra | Opinião | PÚBLICO

ESTA VOZ SUBLIME DO IRÃO

WOVEN SOUNDS

Havia uma voz sem rosto. Vinha de um espaço do céu (assim se pensa) onde a harmonia é o único ser. Flutuava como um fio fino de filigrana. Intrigava a ausência do rosto.

A voz, nesse espaço celestial recolhia-se e então a flauta de cana (ney em persa) o selar, a kamancha, o tambor e a pandeireta surgiam num fundo de um horizonte de tecedeiras ancestrais, puxando fios.

 Logo a voz de embalar nos batia nas paredes que não vemos, mas sabemos estarem dentro de nós, na porta dos sentimentos de felicidade.

Tudo se passava como se um leve vento crepuscular nos afagasse a face.

Porém, a voz continuava sem rosto. Ouvíamo-la. Era como se ali sempre estivesse estado desde que se começou a tecer tapetes e o próprio tempo.

De repente, quando tudo terminou e ela deixou o tear e se virou, surgiu o rosto, o da iraniana Maryam Abtahi, a tecedeira de voz sublime. Ela e as outras a tecerem o futuro. Que seja tão colorido como os desígnios implícitos na voz e nos tapetes. Que a sorte chegue breve.

Isolar, atomizar, anestesiar.

Arlindo Cunha num interessante texto publicado neste jornal   Admirável Mundo Novo | Opinião | PÚBLICO analisa alguns comportamentos dos humanos no mundo de hoje a propósito do livro de Aldous Huxley.

Huxley cria que as novas tecnologias iriam formatar os humanos e fazê-los perder a sua individualidade, funcionando como peças de uma engrenagem hierarquizada. Não sucedeu, embora a sua reflexão dê muito que pensar.

O humano é um bicho inteligente, flexível, sensível, capaz dos maiores feitos e de brutais maldades criminosas. Num outro plano, como bem descreve Arlindo Cunha, é mais dado a ser levado por “… uma situação onde a liberdade não nos é retirada por terceiros, mas trocada voluntariamente por conveniência e prazer…”

No ponto atual do nosso viver há como que um choque invisível entre o indivíduo e a comunidade onde se insere. O neoliberalismo veio atomizar os seres humanos, fazer deles peças soltas ao deus-dará. Só há indivíduos. A sociedade é uma invenção, dizia a Sra. Tatcher. O que ela proclamava no final do século passado ganhou o universo dos humanos. Cada um sabe de si, se é que sabe. O mundo sou eu e as minhas ocupações. Uma infinidade de ocupações centradas em si mesmo. O outro só existe, se for como eu. O ponto de contacto é a “tribo”, mas para logo se aconchegar no ego gigante.  

Esta realidade foi engendrada na medida em que a vida em comunidade foi sendo estilhaçada, tornando a esperança no destino comum um sonho perdido, pelo menos por ora.

A democracia foi sangrada por dentro face à sementeira de austeridade e de empobrecimento. Foi plantado o desânimo. Partiu-se a bússola, e a democracia precisa de participação, confiança e sentido do percurso.

As forças totalitárias compreenderam que era mais fácil conquistar os humanos com “doçura” do que com a força bruta. No pós-modernismo tudo é fofo, não há arestas. A técnica é isolar, atomizar, anestesiar e virar cada um para dentro de si.

É interessante confrontar este ponto atual com outros no nosso caminho. Nas sociedades primitivas ser esquimó inuit era ser humano. Para os esquimós Toutches ser humano era ser toutche. Para os ianomanis da Amazónia o indivíduo conta enquanto membro do grupo. Só, não conta. Na Grécia antiga, a condenação ao ostracismo correspondia a uma pena de 10 anos de exílio, longe de Atenas.

Étienne de La Boétie no seu livro “Discurso sobre a servidão voluntária” , escrito no final do sec. XVI, regista que Ciro após conquistar a capital da Lídia, Sardes, recebeu a notícia que os lídios se tinham revoltado. Em vez de pegar em armas para os derrotar fundou bordéis, tabernas e jogos públicos, mandando pregões a anunciar a obrigatoriedade de os frequentar. Resultou em pleno, de tal ordem que a palavra latina para designar passatempo é ludi que vem de lydi. A palavra portuguesa lúdico vem daí.

 Sétimo Severo, Imperador de Roma, inaugurou as Decennallia, sumptuosas festas que criavam uma ilusão de poder e como grandes espetáculos eram concorridos por todo o povo de Roma que desse modo aplaudia o Imperador.

“…Nestas festas os tiranos ofereciam o quarto de trigo, o sesteiro de vinho e o sestércio…in “Discurso sobre a servidão voluntária”. Ainda não havia futebol.

Nada que que se compare no Dia do Trabalhador – 1º de Maio- ao dueto sublime a roçar o piroso entre Luís e Tony, em São Bento, o da porta aberta naquele dia.

O que agora é diferente por comparação com tempos antigos é a poderosa máquina tecnológica e o poder dos media no que toca a capacidade de tornar os indivíduos numa espécie de baratas a correr de fogacho em fogacho, sem a capacidade de integrar o que sucede na evolução global do mundo, como muitas vezes sucedeu, só que agora se agravou com a atomização social retirando ao indivíduo a sua razão de ser, a sociedade “… Nenhuma das faculdades superiores do homem existe a não ser para ligar a vida individual à vida da espécie…” in “Condition de L’homme moderne”, Hanna Arendt.

O ser humano traz consigo a novidade e o velho caminho por onde veio. Momentaneamente o caminho parece aproximar-se do abismo. Guerras na Ucrânia, Gaza, Iémen, Congo, Sudão e à beira do conflito na India e Paquistão e em Taiwan.

Aqui na Europa só se ouve o clamor da corrida às armas. A voz da paz está silenciosa. Os telemóveis ligados parece que nos desligam dos outros ou nos ligam apenas ao nosso minúsculo mundo. Como tudo é passageiro, os dias que hão de vir, talvez nos deem mais esperança. É preciso pensar. Ouvir a canção de Paco Ibañez, Palavras para Júlia …Un hombre solo, una mujer, así tomados, de uno en uno, son como polvo, no son nada… poema de José Austin Gyosolo. Não haverá o admirável mundo novo sem os outros.

COM ARMAS SE FAZ A GUERRA

Será que, nós humanos, não temos capacidade para nos mantermos como seres capazes de viver uns com os outros? Será?

As guerras não ocorrem ao acaso; nascem de preparação anterior. O primeiro passo implica a acumulação de armas. A corrida às armas tem em vista defender-se do “inimigo”. Todas as guerras se justificaram desta maneira. A da Ucrânia não constitui exceção nesta matéria.

Todas as partes foram acumulando armas: Rússia, Ucrânia e NATO.

Depois do golpe de Estado da Praça Maidan, em 2014, liderado por Vitoria Nuland, (a tal que queria que a UE se fod—e) tudo acelerou. A Rússia tinha pressa para impedir que a Ucrânia se continuasse a armar, como foi já esclarecido por François Hollande, Angela Merkl e Poroschenko; a NATO/EUA/UE partiam do pressuposto que derrotariam a Rússia com as sanções económicas, desligando-a do mundo.

Em grande medida, por essa razão os EUA, que tudo fizeram para derrotar a Rússia, salvo envolver-se diretamente (o que conduziria à 3ª guerra mundial- talvez a última- parece quererem desligar-se da aventura militar e deixar a UE a continuar a fornecer armas à Ucrânia (compradas aos EUA) e até, quem sabe, segundo alguns dirigentes de países importantes envolverem-se no território ucraniano, levando o continente para muito próximo do braseiro nuclear.

Ursula von der Leyen, António Costa, Kallas e outros engoliram o disco da corrida aos armamentos. Há dinheiro a rodo para a indústria da morte. Não o há para a saúde e para a habitação, mas há 800 000 milhões de euros … para armas. Diz da loucura em que vivem os dirigentes europeus, fechados numa bolha onde não entra a vida das populações e dos povos europeus.

Instigam a corrida aos armamentos, como recentemente Durão Barroso, em entrevista ao DN de 22/04/2025 que demagogicamente invoca os filhos e os netos para justificar a corrida aos armamentos, dado o aparente nexo de causalidade entre viver em paz e acumular armamento.

Historicamente, sempre que se defendeu a corrida aos armamentos para conter uma ameaça acabou por desaguar na guerra. Aliás, o próprio Durão Barroso tem um historial sinistro no que toca à defesa da guerra, pois garantiu-nos que o Iraque tinha armas de destruição massiva e bem sabia que era mentira. Que autoridade pode ter alguém que para capacho dos EUA se prestou a este infame papel?

A corrida aos armamentos e consequente acumulação de armas tem pelo menos dois objetivos: entregar aos grupos económicos que se dedicam à indústria armamentista a exploração de novos investimentos que darão maior percentagem de lucro que a indústria em crise e muito provavelmente jogar na guerra em condições que não degenerem numa guerra mundial no pressuposto que a Rússia não suporte o esforço de guerra e leve à queda do regime.

E, neste clima de histerismo armamentista que está em preparação a entrega de parte ou de todos os fundos da Segurança Social a Fundos privados e, em nome do esforço armamentista, e criar o risco de fazer as pensões entrar na roleta do mercado bolsista.

No dia do apagão um vizinho antes de se saber exatamente o que se estava a passar dizia-me que tinha sido o Putin a cortar os cabos submarinos…imagine-se a eletricidade a chegar por esta via. Na verdade, o clima de intoxicação de massas é realmente assustador. Droga a mente das pessoas. Impede-as de usar a razão.

Como escreveu o grande escritor e emérito pacifista, Stefan Zweig, …exigir imparcialidade durante a guerra é pueril, pois a guerra é indiferente a esses princípios, e até necessita precisamente de uma constante excitação que mantenha o entusiasmo pela causa própria e o ódio ao adversário…in  “O mundo de Ontem”, editora Livraria Civilização; daí as penas de prisão bem pesadas na Rússia e a censura a tudo quanto é russo na UE, muito para além do praticado na guerra fria. E o bater na tecla cega e acéfala, durante este tempo todo, da necessidade imperiosa de derrotar estrategicamente a Rússia, o que até hoje não se verificou.

Trata-se, como é bom de ver, de uma partida cujo resultado é não só imprevisível, como também altamente perigoso.

Ninguém sabe o ponto em que este confronto bate no limiar do que a Rússia possa considerar que está em causa o problema existencial. Por muito menos John Kennedy ameaçou a URSS com um ataque nuclear quando os soviéticos estacionaram mísseis nucleares em Cuba.

Os EUA ao “abandonarem” a Ucrânia não o fazem por motivos pacifistas e construtivos. Fazem-no porque estão a perder a guerra. Ou escalam para o patamar nuclear ou retiram-se para esconder a derrota no conflito. É aqui que bate o ponto.

Apesar do mundo alucinado e desvairado de Trump, a Administração no seu conjunto, foi levado a tomar um banho de realismo, e que mostra o declínio do Império e simultaneamente a capacidade de apreender que o mundo mudou e não há MAGA que faça o tempo voltar para trás.

É estranho e bizarro que o continente das guerras mundiais, de cem anos uma outra, continue perdido nos sonhos de grandeza imperial definitivamente arredados do palco. Quando Ursula von der Leyen ou Kallas ou António Costa carregam no acelerador do carro da guerra que representam para os povos europeus? Continuar o projeto de se submeterem aos EUA e comprarem-lhe armas, anunciando publicamente o seu desacordo com as negociações sobre a Ucrânia e uma autonomia estratégica para inglês ver.

Já perderam de vista o projeto pacifista de uma Europa de paz e de coesão social, o objetivo mais nobre desde a existência da Europa, mas para tal era necessário confiar nos povos da Europa e não partir de uma estratégia dirigista e burocrática afinada com os EUA para impor aos povos europeus a política neoliberal que devasta o mundo, como bem esclareceu no seu livro “Fratelli Tutti” o saudoso Papa Francisco.

A Europa vai de Lisboa aos Urais. Foi engendrada em múltiplos confrontos. Deve-se ao saber de homens de todo os países, desde Sócrates a Platão, Ovídio a Plutarco, Shakespear a Tolstoi, Roman Rolland a Goethe, Petrarca a Cervantes, Camões a Espinoza e a tantos e tantos europeus que com a sua arte, conhecimento e sabedoria imaginaram a nossa civilização e a fizeram avançar.

Não podemos permitir que regressemos à barbárie. É preciso que mulheres e homens esclarecidos levantem as suas vozes e consigam que a guerra na Ucrânia se resolva à mesa das negociações e certamente com concessões de parte a parte.

Precisamos de dar uma volta de 180 graus e usar afinal os recursos que existem para resolver os problemas reais que afetam os cidadãos dos países da UE, designadamente a habitação, a saúde, os serviços públicos e a degradação ambiental.

A intoxicação e manipulação dos governos e da maioria dos media funciona como uma droga para anestesiar a consciência e a razão humanas. Depois de tantas desgraças e guerras em solo europeu é caso para perguntar se ainda não estamos cansados de centenas de milhões mortos. Será que a essas montanhas de mortos queremos juntar o braseiro nuclear? Será que nós humanos não temos capacidade para nos mantermos como seres capazes de viver uns com os outros? Será?

Na morte de Francisco, o homem de sorriso de avô

Sinto me mais só.

Falta-me aquele sorriso.

Uma companhia. A ânsia de o ler. “Todos irmãos”.

Falta-me a sua coragem. A sua gentileza e a sua bondade. A sua força serena e contagiante.

Num mundo de hipócritas cheios de ” valores”, como o dos vendilhões do Templo, falta-me a sua subversão de apelar ao fim das armas nucleares. 

Falta-me a sua coragem, como a dos cristãos primitivos, de remar contra a maré.

Falta-me o exemplo de quem não queria ser exemplar, mas apenas a de um homem que trilhava o caminho da integridade.

Falta-me, num mundo de vénias aos mais poderosos, a audácia de estar com os pobres.

Falta-me a sua sabedoria de saber que vale mais a diplomacia que todas as guerras.

Falta-me, como comunista órfão e ateu, o mais católico dos católicos.

Guardo o que de bom deixou, mas a verdade é que me falta aquele sorriso. Um sorriso de um homem que fazia da fragilidade e de todos os frágeis a sua força.

E agora?

 Partir com todos os pobres e com todos os trabalhadores de todo o mundo pelas avenidas do despertar dos corações humanos para um mundo mais justo, sem armas nucleares, sem guerras, um mundo onde sejamos “Tutti Fratelli”.

Falta-me o irmão Francisco. 

Ficou o seu exemplo.