As facadas no bengalês Mohamed Shamim

A cidade para eles é como uma mina. Vestem de escuro e têm estreitos corredores entre carros e autocarros, apenas trânsito onde mergulham como mineiros.

 Chegam à superfície quando tocam à campainha para entregar a refeição. Não têm de falar, apenas to deliver

A sua vida é a sua bicicleta. É nela que trabalham a fazer o que ninguém quer fazer e fazem-no por meia dúzia de euros.

Shamim tinha outro emprego para além de serpentear nas ruas de Lisboa entre carros e, às vezes, palavrões, procurando a sorte por ter nascido num país que não é de sorte.

Há sessenta anos eram os portugueses a procurá-la onde quer que ela estivesse, mão-de-obra barata para construir prédios na região de Paris e em toda a França. Os nossos de então viviam em bidões…Os que agora chegam vivem às carradas em quartos ou casas clandestinas à espera da sorte e que não as derrubem.

Shamim não teve sorte. Alguém lhe quis roubar o sustento e ele agarrou a bicicleta para perseguir a sorte e entregar muitas refeições a quem as encomendava. Um homem esfaqueou-o até à morte. Morto, ficou oito horas à espera de que os serviços de emergência o viessem buscar.

Dizem as notícias que o assassino não logrou retirar-lhe a bicicleta. Nada mais dizem acerca do autor do crime. Dão conta que o bengalês que trabalhava como servente num restaurante e entregava refeições deixa a viúva e dois filhos pequenos.

Shamim, o bengalês que fazia em Portugal o que os portugueses não querem fazer, era um escravo dos novos tempos das democracias liberais.

Deixam-nos vir trabalhar para fazer o que ninguém que fazer. Mas depois soltam-lhes os cães amestrados                                                        (alguns no auge da carreira política à sua custa) para os mandar para a sua terra.

Ganham de duas maneiras, nos salários de miséria que pagam e na divisão entre os que estão um pouco acima do ponto de vista social e os novos desgraçados da Terra, vivendo quase como o proletariado do século XIX.

Shamim era um ser humano. E estes às vezes amam e são solidários. Outras vezes matam. Quanto mais rebaixarem todos os Shamim do mundo, mais serão assassinados. Quanto mais forem respeitados como seres humanos, menos serão assassinados.

A cidade quase nem deu pelas facadas. Ninguém sabe quem ele é. E, no entanto, os que aguardam a confeção da comida sem os Shamim não poderiam esperar pelas refeições.

Ele esperou oito longas horas noturnas à beira da rua para o virem buscar. Que triste sorte a de Mohamed Shamim.

Talvez quando todos sentirmos as facadas de Shamim a cidade se torne mais acolhedora e como escreveu Paulo de Tarso, mais conhecido entre os cristãos como São Paulo, na Epístola aos Galatos…Não há judeus, nem gregos, nem escravos, nem homens, nem mulheres; porque vós sois todos apenas um em Cristo…

Mohamed Shamim pelo nome seria crente de Alá. Era um homem. É essa humanidade que nos une. Que importa que seja muçulmano ou hinduísta ou o que quer que seja… Eu, sem fé nos deuses, e com pouca fé nos homens, confesso-me crente na bondade, na benevolência, na solidariedade, na amizade, no amor, na ajuda recíproca e na empatia. Essa é a estrada dos humanos. A outra é a das feras.

O cartaz do abandono

Olhei para este cartaz e dentro de mim senti um incómodo; não  pela mensagem que apoio.
Em Portugal há quase dois milhões  de pessoas pobres; alguns milhares abandonadas debaixo de aquedutos, outras nas entradas das portas, outras ainda vagueando sem direito a cama de papelão.
E, no entanto, não  há um único  cartaz a pedir que não  as abandonem. Um único.
Então  pensei no seguinte: não  abandonar um animal é um ato muito  individual; abandonar uma pessoa é abandonar a nossa humanidade; o nosso destino comunitário.
Se houvesse tal cartaz ele incomodar- nos- ia de modo muito diferente.
Um animal de guarda depende de quem o guarda e se o não guardar, os serviços camarários eventualmente o levarão.
E um homem ou uma mulher abandonados quem os leva? Ninguém.
Então aquilo que diz respeito a todos, à comunidade, o que incomoda, é para esconder.
Não é para ser lembrado porque se o fosse tínhamos que arregaçar  as mangas e encontrar soluções. 
Neste individualismo/ egoísmo o melhor é ninguém  lembrar os nossos deveres de humanos.
Um abandonado é uma pedra no nosso sapato da consciência.
Um cão é um cão.  Não  incomoda tanto.
O Papa Francisco incomodava- se e pelos vistos incomodava: agora foi apenas uma circunstância. Quem se lembra daquele sorriso?
Talvez alguém ou muitos alguém  devessem sair da comodidade e afixar cartazes com o rosto dos abandonados a clamar que os não  abandonem. É apenas um incómodo. 

Olhei para este cartaz e dentro de mim senti um incómodo; não  pela mensagem que apoio.Em Portugal há quase dois milhões  de pessoas pobres; alguns milhares abandonadas debaixo de aquedutos, outras nas entradas das portas, outras ainda vagueando sem direito a cama de papelão.E, no entanto, não  há um único  cartaz a pedir que não  as abandonem. Um único.Então  pensei no seguinte: não  abandonar um animal é um ato muito  individual; abandonar uma pessoa é abandonar a nossa humanidade; o nosso destino comunitário.Se houvesse tal cartaz ele incomodar- nos- ia de modo muito diferente.Um animal de guarda depende de quem o guarda e se o nao guardar, os serviços camarários eventualmenre o levarão.E um homem ou uma mulher abandonados quem os leva? Ninguém.Então aquilo que diz respeito a todos, à comunidade, o que incomoda, é para esconder.Não é para ser lembrado porque se o fosse tínhamos que arregaçar  as mangas e encontrar soluções. Neste individualismo/ egoismo o melhor é ninguém  lembrar os nossos deveres de humanos.Um abandonado é uma pedra no nosso sapato da consciência.Um cão é um cão.  Não  incomoda tanto.O Papa Francisco incomodava- se e pelos vistos incomodava: agora foi apenas uma circunstância. Quem se lembra daquele sorriso?Talvez alguém ou muitos alguém  devessem sair da comodidade e afixar cartazes com o rosto dos abandonados a clamar que os não  abandonem. É apenas um incómodo. 

O ADULTISMO, NOVA FORMA DE INFANTILISMO

Anda por aí uma nova doença. Ela está bem presente em certos partidos, na comunicação social e nas redes sociais. Falam-me amigos, que há muito conheço, que ela também aparece nas esplanadas e até nas esquinas onde, às vezes, ainda há quem pare para conversar.

Os sintomas desta nova doença consistem em passar para outros os problemas próprios e acrescentar a este viés outro, o de que aqueles problemas existem por causa de outrem.

Normalmente os psicólogos falam de que há certos adultos relativamente mais esclarecidos, ou supondo-se mais esclarecidos, que responsabilizam os outros pelos seus falhanços. Como não têm relva para justificar o falhanço do pontapé, nem árbitro, atiram-se a outros, responsabilizando-os.

Vladimir Ilich Ulianov, o tal da perinha e do boné à bolchevista, descobriu que havia dirigentes do movimento revolucionário que eram tão puros que descartavam alianças e compromissos com outras forças. Sofriam de infantilismo escreveu ele.

Pois bem, tendo em conta o movimento das coisas, e passados mais de cem anos, surgiu um novo infantilismo a que darei o nome de adultismo na medida em que os seus defensores se recusam a olhar para o que fizeram e atiram-se a outros que não fizeram o que eles queriam que fizessem, responsabilizando-o pelo seu próprio insucesso. Julgam-se mais adultos que os outros, incapazes de admitir que outra coisa não se pode fazer fora do quadro por si determinado.

Em Lisboa o PS, o BE, o Livre e o Pan decidiram propor para Lisboa uma coligação com Alexandra Leitão à cabeça. É um direito que lhes assiste. A coligação apareceu como irá desaparecer e correspondia a um projeto político de dar a Câmara ao PS que durante o consulado de Moedas ninguém o viu ou ouviu, talvez, viemos a saber pela voz de J.L. Carneiro por não ter chegado. Até ele concorda que não se sabe por onde andava, mas adiante.

Ora bem, a coligação teve menos votos que há quatro anos. Mas isso não interessa para o caso, o que conta foi o PCP seguir o seu caminho, concorrer e até aumentar o número de votos porque tinha um candidato bem preparado e capaz.

Vejam lá o despautério, até lhe ofereciam a Vice-Presidência…assim, talqualmente.

O PS por andar perdido nestes quatro anos, Carneiro dixit, achav\1a e pelos vistos muito gente, que o PCP devia encontrar o novo paradeiro do PS, conduzindo-o à Praça do Município, se possível com fanfarra. Entretanto, o mesmo PS aqui ao lado em Loures tinha como candidato uma nova versão do Tamerlão e em Santiago de Cacém não concorria porque o PS, mais o PSD, a IL e o CDS concorriam apertadinhos para varrer os comunistas do Município.

Ou seja, os adultos do PS, mais os dos seus aliados, mais os dos seus simpatizantes na comunicação social de cima do seu estatuto de adultos altamente conscientes e zeladores do combate à direita entenderam que o PCP, se fosse o que eles queriam que fosse, devia juntar-se a eles e garantir ao PS Lisboa.

Este texto visa o que visa e seguramente não visa desculpar, nem branquear o desnorte autárquico do PCP que a não ser corrigido levará (já está a levar) à sua insignificância autárquica.

Mas é preciso dizer que uma coisa é uma coisa e outra coisa é este infantilismo de fazer passar um tique de superioridade de adultos encartados de esquerda para justificar o seu próprio falhanço. Jamais. Aguardemos o que vai fazer quem agora chegou.

ALGUMAS CONSIDERAÇÕES SOBRE O CESSAR-FOGO EM GAZA

Tudo o que parece, nem sempre é.

Para se compreender o acordo é necessário ter uma perspetiva do embate entre o Hamas e Israel e a envolvência regional e até internacional.

Os acontecimentos de 7 de outubro há dois anos impediram a celebração dos acordos de Abraão patrocinados pelos EUA, o que significava a oficialização de Israel como parceiro no mundo árabe, deixando cair a pressão de isolamento de Israel na região. E mostraram a força do Hamas.

Israel que alegou ter sido surpreendido (com os melhores serviços secretos do mundo) desencadeou uma ofensiva brutal para capturar os reféns, expulsar os habitantes de Gaza, liquidar o Hamas e o eixo da resistência à ocupação. Trump juntou-se a Natanyahu e projetou construir em Gaza uma instância balnear, uma Riviera trumpiana e Cª.

Para levar a cabo a sua política Netanyahu bombardeou durante dois anos uma faixa de terreno exígua com a sua poderosa aviação e arrasou Gaza. Pela fome tentou matar os palestinianos. O saldo são cerca de 67 00 mortos e centenas de milhar de feridos e malnutridos, ao rés do perigo de vida. Tem sido considerado por organismos da ONU um genocídio.  

Não conseguiu derrotar o Hamas, nem libertar um único refém.

Recorda-se que o Hamas foi criado em dezembro de 1987quando teve lugar a Intifada iniciada a 09/12/1987. Teve o apoio dos Irmão Muçulmanos e da então Conferência Popular arabo-islâmica com movimentos reconhecidos pela Organização Internacional dos Irmãos Muçulmanos, in “Com Alá ou com Satã”, páginas 145,6 de Domingos Lopes e Luís Sá, Editora Campo das Letra.

Quanto ao eixo da resistência, Israel tentou mudar o regime iraniano. Bateu num paredão e retirou, pois, os mísseis iranianos mostraram (mesmo sem imprensa, interdita pela democracia israelita) as fragilidades do escudo de aço. Em certos momentos parecia uma peneira. A correr pararam a guerra. Tanto quanto se sabe o programa nuclear prossegue.

As sucessivas invasões do Líbano atingiram duramente o Hezbollah, mas longe, bem longe de o aniquilar.

Em relação ao Iémen Israel assassinou vários dirigentes do topo da hierarquia, mas nunca conseguiu impedir que fosse atacado por mísseis.

Na opinião pública mundial, o isolamento de Israel nunca foi tão grande a ponto de aliados seus na Europa, sob a pressão das opiniões públicas, terem sido obrigados a reconhecer o Estado palestiniano, como forma de aliviar e esvaziar essa pressão que se tornava cada vez mais forte.

Deve referir-se que o apoio da UE a Israel atingiu tal significado que foi publicada legislação a reprimir o direito de manifestação de solidariedade, tentando utilizar certas manifestações radicalistas para as tentar fazer confundir com o imenso rio humano de apoio à causa palestiniana.

Acrescente-se que nos regimes árabes vizinhos nem uma manifestação teve lugar. O que diz bem da sua postura nesta guerra. Se estivessem com a Palestina, Israel não teria chegado onde chegou.

De facto, Israel e outros países árabes e muçulmanos conseguiram derrotar Assad e entregar a Síria a um islamista, ex-dirigente da Al Qaeda, que com os seus donos estão a esmagar outras comunidades sírias – druzos, aluitas, cristãos maronitas, curdos – e rendeu-se a Israel.

A Cimeira de Charm-el-Sheik visa retomar este interregno de dois anos e avançar para o estabelecimento de relações entre Israel e o mundo árabe sob o alto patrocínio dos EUA e pelos vistos dos líderes europeus… a vassalagem é para cumprir.

Na mente dos EUA o projeto visa enfraquecer as relações da Rússia e da China na região e fazer enfraquecer os BRIC na região dado que a Arábia Saudita e os Emiratos fazem parte, bem como o Irão.

A ir por diante significaria uma divisão de peso nos BRIC e um isolamento do Irão em termos regionais.

 O desafio para Trump é isolar o Irão e atingir deste modo a Rússia e a China.

Quem resistiu a este inferno de metralha e fogo provavelmente poderá resistir a novas provas. São precisas pausas em todas as lutas. A marcha para a independência da Palestina está em curso. Vai haver quem a queira impedir, muitos dos que estão em Charm-el-Sheik. Outros que lá não estão vão continuar a apoiar a causa palestiniana. Vai ser difícil.

A provação dos palestinianos está a ser muitíssimo dura. Se estivessem unidos tudo seria mais fácil, mas todo o mundo árabe e muçulmano tem lá os seus instrumentos a fim de poderem jogar a sua influência própria, mais do que pela independência. Não é só Israel que teme a Palestina. Uma Palestina laica, democrática é também temida pelos países árabes e muçulmanos. O povo palestiniano é dos mais instruídos e combativos, nunca esquecer. Com a solidariedade internacional acabará por vencer.

Tudo o que parece ser, nem sempre é.

OS RESULTADOS ELEITORAIS DE ONTEM

As esquerdas perderam o pé, incluindo o PS que se situa entre o centro-esquerda e o centro, mais centímetro menos centímetro.

O PCP continua o seu caminho paulatinamente para a perda de relevo, incluindo no terreno autárquico, onde nos anos 80 conseguiu com grande inovação criar uma conceção de poder local.

Apesar da carga ideológica dos primeiros anos de Abril, o PCP primava por ter muitas vezes mais simpatizantes do que militantes nas suas listas. Para o PCP de então, não havia esquerda ou direita na esmagadora maioria das autarquias, mas sim gente que pudesse trabalhar em prol das populações para a defesa de uma vida melhor.

É preciso recomeçar, mas para tal é necessária gente com essa capacidade e com outra genica. Encontrá-la é difícil, mas no partido quando a encontram não integram, rejeitam-na. Em geral.

Não me parece que o PS seja um partido de esquerda em termos autárquicos.  Talvez de centro-esquerda, se precisar das esquerdas.

Segundo Carneiro na declaração desta madrugada …O PS voltou ontem… Por amor de deus… O que é que isto quer dizer, chegou vindo de onde?

 Quanto ao sucedido em Lisboa responsabilizar o PCP é ver o caso de modo muito simplista e enviesado.

O PS perdeu porque a sua política autárquica em Lisboa é má. Que me perdoem os socialistas, mas onde está a diferença que não é visível? Qual era a diferença com Medina? As ciclovias…

Na oposição a Moedas faltaram quase sempre à chamada, voltaram agora diz Carneiro…o problema é que ele ainda nem sequer chegou. Anda à procura da humildade do arrogante Montenegro para não o trocar pelo Ventura.

A política autárquica do PS em relação ao PCP é roubar-lhe câmaras, juntando-se à direita, como em Santigo Cacém, onde não concorreu para que o PCP ficasse sem a Câmara. Foi junto numa lista com toda a direita, salvo o Chega.

Em termos autárquicos, há que recomeçar e apontar rumos que liguem as populações por uma vida melhor, sendo que na maioria dos municípios isso está muito para além da esquerda ou da direita. 

Na maior parte dos concelhos as classes populares são esmagadoramente dominantes, o que significa que as alianças têm de ser muito mais amplas.

O maior erro das esquerdas é partir para as autárquicas como se fossem para legislativas. Os partidos de direita podem-no fazer porque têm apoio nos media e capacidade financeira.

Talvez vá persistir esta cegueira por mais anos à espera de Godot, como ele não vai chegar a culpa seja dos comunistas porque desde que nasceram a culpa é deles.

EIS A NOVA AMERICA DE OURO

Não perdeu tempo. Durante mais de cinquenta e seis minutos atacou a ONU (que o deixou sem teleponto, com ruídos, e a ele e à sua mulher sem poder usar as escadas rolantes).

 Karolie Kevitt, adida de imprensa, considerou a o caso como uma ação deliberada. Ele próprio defendeu que as pessoas responsáveis pelos casos deviam ser presas. Ao que se sabe, tudo foi tratado pelos serviços da Presidência.

Começou modestamente afirmando que no fim do seu primeiro mandato deixou o mundo em paz e agora é o caos. Em 2016, quando perdeu as eleições para o “dorminhoco” Biden, havia no mundo todas as guerras que agora existem, menos a da Ucrânia e mais a do Afeganistão. Talvez ele não contabilize o genocídio em Gaza por ter olho para o negócio e já só ver torres, piscinas e resorts nas águas do Mediterrâneo.

As “fábricas” de líderes dos EUA, à custa de tanto se fecharem, perderam o contacto com a realidade e substituíram-na pelo universo em que vivem, rodeados de cifrões por todo o lado. Ademais, Joe Biden estava igualmente bem inserido nesta bolha.

Discursou como se dirigisse a uma Assembleia de acionistas. O direito internacional não faz parte da sua formação. Pertence a outros domínios, como o dos palpites e o da chamada química, os quais ao fim de trinta segundos o faz topar o interlocutor. Por isso, olhou para Lula da Silva e topou um nice guy, yeah. Aguardemos pelo novo palpite.

O Rei dos autoelogios deixaria Narciso a chorar de vergonha por não ser capaz de semelhante feito.

O paraíso está nos EUA desde que tomou posse. Faz milagres. Infelizmente continua a haver mais cadeias que universidades e a esperança de vida diminui. Em 2024 houve 21 500 homicídios, 77% com armas de fogo. Provavelmente as armas são da natureza do carvão, lindas e limpas.

Expulsou e mandou prender dezenas de milhar de imigrantes associando-os à alta criminalidade, fazendo recordar a brutal crueldade com que os foragidos e imigrantes europeus exterminaram os nativos americanos daqueles territórios.  Agradeceu a El Salvador o papel de Herodes.

Invocou o nome de Deus em vão para justificar o ódio a todos os que não são evangélicos. O Cristo de que fala deve ser o redentor das criptomoedas e das Bolsas de valores mobiliários.

Exortou o mundo a seguir o seu exemplo e a fechar as fronteiras (menos Israel que as alarga), sendo os EUA um país de gente imigrada.  

Tem as melhores armas do mundo…soube há duas semanas que a China e a India são os sustentáculos da Rússia…até países da NATO que compram petróleo proveniente da Rússia e, acrescento eu, em vez de o comprarem aos EUA.

Lançou um violento ataque à energia verde. Achou extraordinário que só agora se poder ir jantar a qualquer restaurante em Nova Iorque ou Washington, o que não acontecia há oito meses. Disse-o sem se rir.

Em relação a Gaza reafirmou o seu papel de apoio a Israel e não se distanciou um milímetro da política de Netanyahu.

No que se refere à Rússia regressou à era de Obama apelidando-a de fraca. E o conflito de uma potência fraca que nunca aconteceria com ele ou que ele acabaria em 24 horas afinal é para continuar. Deve ser da fraqueza.

Tudo se passou na ONU para a qual os EUA deram um importante contributo após a 2ª guerra mundial como instância chamada a resolver conflitos por via pacífica (sendo essa a sua filosofia).

Afinal o novo Luís XIV das Américas quer substituir a ONU por ele próprio, devendo as Nações Unidas serem uma organização ao serviço do novo rei do mundo. Esta é a irrealidade em que vive Trump, o paizinho de Mark Rutt da NATO. O que vale é que ele vai impedir que as mulheres grávidas tomem paracetemol. Here is America.  

Eis a nova América de ouro | Opinião | PÚBLICO

Como rezam Rubio e Netanyahu? Sem mulheres por perto.

Mark Rubio foi a Jerusalém assegurar a Netanyahu que pode continuar a contar com o apoio dos EUA para bombardear os vizinhos e os países mais distantes, desde o Irão ao Catar e ao Iémen. O governo israelita vive da e para a guerra graças a Trump.


O jornal “Público” desta segunda-feira noticia que…O passeio deste domingo em Jerusalém – que esteve, numa parte, vedado às mulheres, incluindo às jornalistas, porque Netanyahu e Rubio “queriam rezar”…

Quando uma mulher ou duas mulheres, ou um homem ou dois homens querem rezar, rezam. Os que rezam, basta-lhes quererem.

Mas para estes dois sujeitos, homens dos mais poderosos, não é assim. Não rezam se houver mulheres por perto, mesmo que sejam jornalistas, profissionais que nos fazem chegar notícias.

Têm à mão quem impeça que as mulheres de os verem rezar. Provavelmente outros homens dados a rezar, dadas exigências destes extraordinários cavalheiros.

Eles não podem ser vistos a rezarem por mulheres porquê – o ato de rezar, se visto por mulheres não vale para o Criador? Ou estes cavalheiros se rezarem e avistarem uma mulher ou mais do que uma já não são capazes de rezarem?

O problema maior é outro: o mundo, em parte, depende destas criaturas. Segundo, Merz, o chanceler da maior potência da U.E., Netanyahu faz o “nosso trabalho sujo”. Mark Rubio é o Ministro dos Negócios Estrangeiros da potência protetora da U.E., a quem a sra. Ursula se submeteu sem a menor consulta às nações deste velho continente.

Chegados aqui cabe perguntar: porque criticam os dirigentes ocidentais os fundamentalistas islâmicos do Daech ou similar?

O mundo está mesmo nas mãos de gente muito perigosa, gente que não consegue ver uma mulher para rezar ou para continuar a rezar…

EPPUR SI MUOVE, SR. PRESIDENTE, UM ATIVO DA DISTOPIA 

O mundo está a mudar. O processo em curso traz dentro de si contradições, por vezes, violentas. É obra das forças que não aceitam o status quo e sentem que possuem a força para mudá-lo.

Na guerra da Ucrânia confrontam-se forças que pretendem operar a mudança de paradigma na relação de forças à escala mundial e aquelas que querem manter a unipolaridade.

O grande confronto é entre a Rússia e os EUA/UE/OTAN, mas na realidade é apenas uma parte desse confronto, pois basta abrir a mente para ver que é entre o Ocidente/EUA e seus aliados e a Rússia, China, Irão, e de uma forma mais esbatida, mas real, com os BRICS e o chamado Sul global. A Conferência de Shangai é um testemunho eloquente desta contradição.

O confronto militar sendo o eixo do conflito, até pode não ser o que é mais importante nele.  A guerra não é destinada a ocupar a Ucrânia, mas sim para obter uma resposta a um avanço do Ocidente /OTAN no sentido de se colar à Rússia (entrando para a OTAN) e empurrá-la para as estepes da Ásia Central, retirando-lhe qualquer centralidade europeia, tal como consta em vários documentos, designadamente no think-tank Rand Corporation, ligada ao Pentágono.

Tal como os EUA se sentiam ameaçados em 1962 com os mísseis nucleares soviéticos em Cuba, e que quase levou o mundo a uma guerra nuclear, também a Rússia se sente ameaçada com a entrada da Ucrânia na OTAN, tanto mais quanto em 09/02/1990, James Baker, Secretário de Estado dos EUA, concordou com Gorbatchov que a expansão da OTAN para Leste era inaceitável…National Security Archive, OTAN expansion: What Gorbatchov heard, Declassified documents.

 Esta era e é a questão central – redesenhar uma nova arquitetura de segurança e cooperação na Europa e no mundo. A segurança de uma potência não pode ser levada a cabo com a insegurança da(s) outra(s).

Todas as tentativas de envelopar o conflito nas chamadas normas morais liberais do Ocidente esbarram na História e sobretudo no atualíssimo genocídio em Gaza com o apoio do Ocidente, incapaz de aplicar a Israel a mais residual das sanções político/económicas.

A moralidade moraria no eventual resort de Trump em Gaza, a construir sobre os esqueletos dos palestinianos, já sem a coragem que teve Tamerlão no século XIV que ordenava a construção de torres, mesquitas e madrassas sobre dezenas e dezenas de milhares de prisioneiros dos povos derrotados.

Agora em Gaza Netanyahu e Trump encarregam os aviões, os tanques e a fome de matar os palestinianos sobre os quais se Trump poderia mandar construir as estâncias e receber o prémio Nobel da paz por acabar guerras que não acabaram e que os EUA começaram ou alimentaram.

A mudança no mundo tornou-se inevitável e possível. Trump e os seus conselheiros aperceberam-se desse facto e pretendem, dentro dessa perspetiva, diminuir as possibilidades da sua concretização ou e atenuar os efeitos.

O grande adversário da potência em perda da hegemonia é a China. Da outra banda, a Rússia não sucumbiu e torneou, para já, os obstáculos de natureza económica, e fez gorar as sanções de um Ocidente incapaz de ver o mundo como ele é, sobretudo a elite dirigente da UE que se bate pelos seus privilégios, de costas voltadas para os povos e países que a integram. Acresce que a nova Administração tenta separar a Rússia da China, na esteira de H. Kissinger.

Por outro lado, Trump quer evitar a derrota na Ucrânia, pois de contrário teria de escalar para um outro patamar incontrolável e incerto. E para tanto veste-se de negociador, o chefe do país sem a participação do qual a guerra já teria acabado. Percebe-se, uma vitória da Rússia deixaria os EUA de rastos interna e externamente, e daí a negociação com a Rússia.

Ao contrário do que afirmou Marcelo na universidade de verão dos jotas do PSD, o grande objetivo de Trump é enfraquecer Putin e a Rússia. A diferença entre o poder real e anulidade absoluta é a boutade de Marcelo. Ele e os líderes da UE são na verdade um ativo da distopia europeia, incapazes por anquilose de sair da derrota estratégica da Rússia e perseguir essa ilusão antiga e falida.

Neste confronto entre titãs, há um anão que se põe em bicos de pés para ser visto, a liderança da UE. Vivem entre privilégios e temem perdê-los. A denegação é o seu estado de espírito.

E, no entanto, como afirmou Galileu aos seus carrascos /juízes Eppur si muove, o que a fixação nas suas cadeiras de poder, agora em Bruxelas, não os deixa aperceberem-se. E, no entanto, o mundo dirige-se inexoravelmente para a multipolaridade.