O VELHO BRUEGEL, O PROVÉRBIO NADAR CONTRA A CORRENTE E O GENERAL AGOSTINHO COSTA

Peter Bruegel, pintor flamengo do Renascimento, pintou alguns quadros acerca dos Provérbios que então nos Países Baixos estavam em uso. Um deles “Nadar contra a corrente” sempre me impressionou no sentido de que a vida é muito mais que encarneirar nas ideias dominantes.

Nos oceanos mediáticos que banham o mundo, há uma esmagadora maioria de opiniões e análises que fazem uma corrente única de pensamento e que tudo varrem. Há aqui e ali pequenas luzes de pluralismo que de algum modo contribuem para que o nosso espaço de vida não seja como o faroleiro do Principezinho do Saint Exupéry que apenas acendia e apagava.

A invasão da Ucrânia pela Rússia tornou-se o maior acontecimento deste século pelo seu significado geopolítico e geoestratégico.

Ora, vale a pena um exercício de memória. A corrente dominante assentava na seguinte narrativa: a Ucrânia entraria para a NATO, a Rússia seria derrotada estrategicamente e oapoio à Ucrânia seria as long as it takes…A fundamentação eral – a Rússia não aguentaria as sanções jamais aplicadas, as espingardas eram da 1ª guerra mundial, os soldados não tinham rações e segundo a Sra Ursula iriam ficar sem frigoríficos porque lhes estavam a retirar os chipes para os mísseis. Os cancros de Putin eram todos péssimos.

Era o tempo em que todo o tempo era martelada a ideia que não havia nada a negociar a não ser a derrota da Rússia, vide Costa, Biden, Marcelo, Macron, Stoltenberg, o Jardineiro Borrel e Cª. Zelenski convencido pelo embalo ocidental auto proibiu-se de negociar com Putin.

O general Agostinho Costa nas suas análises punha em relevo a quase impossibilidade de derrotar estrategicamente a Rússia e que após a malograda contraofensiva do verão de 2023, a Rússia estava a avançar no território da Ucrânia e que a continuar assim o exército ucraniano poderia sucumbir. Quem estava certo e quem estava errado?

Outro acontecimento maior foi o genocídio atual dos palestinianos de Gaza após os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023 contra os ocupantes israelitas. A uma só voz, o Ocidente correu em socorro de Israel alegando que tinha o direito a defender-se num território por si ocupado ilegalmente. Apesar do genocídio, Israel localizado na Ásia continua a participar na UEFA, nos Festivais da canção e outros eventos culturais. É o nosso bandido a fazer o trabalho sujo, Merz dixit.

A corrente dominante achava que Israel esmagaria o Hamas e traria os reféns de volta. Nas suas análises Agostinho Costa sublinhava que o exército israelita, tido como o melhor da região, não estava a conseguir derrotar os combatentes palestinianos. E até hoje mantém-se essa impossibilidade.  Quem estava certo e quem estava errado?

Devido à incapacidade de Israel de derrotar o Hamas, Netanyahu para salvar a pele no processo judicial em que é acusado, decidiu atacar o Irão com o objetivo de derrubar o regime, aniquilar a capacidade do Irão disparar mísseis hipersónicos e atacar as estruturas onde é suposto estar a produzir urânio enriquecido. A resposta iraniana foi dura e o escudo abriu buracos por todo o lado.  Entraram o spetacular B2 do Imperador de Mar a Largo que, segundo o próprio, obliterou a capacidade do Irão. A corrente dominante alinhou com o Imperador e o candidato a genocida.

Agostinho Costa chamou a atenção para a capacidade do Irão de atacar Israel e para o sucesso que Israel teve ao decapitar o regime, sem, contudo, o derrubar. Quanto ao espetacular ataque contra as instalações iranianas era ainda cedo para tirar conclusões.

Impõe-se de novo fazer a pergunta, quem estava certo e quem estava errado? Mas mesmo partindo do pressuposto que uma análise é uma análise e não uma certeza, é justíssimo afirmar que as análises do general estão mais conformes com o sucedido do que em desconformidade, sendo para além do mais devidamente fundamentadas.

A questão é quiçá outra: uma análise diferente desde os primórdios dos humanos não encaixa no sentimento da carneirada. Vai daqui por isso a minha chapelada ao senhor general. Que nunca lhe falte o espírito do velho pintor renascentista. Chapeau.

Trump, em tempo de pura crueldade

O Procurador-Geral da Florida, James Uthmeier, esclareceu que, no seguimento da ordem do Governador da Florida, DeSantis, estava ser construída uma nova prisão para albergar os imigrantes ilegais que forem capturados, cumprindo assim as determinações, nesta matéria, dadas por Trump.

O Procurador confirmou que seria denominada Alcatraz de Jacarés. Ficaria rodeada de pântanos cheios de serpentes e jacarés. Acrescentou que os custos de segurança seriam mais reduzidos, dada a impossibilidade de qualquer fugitivo sair vivo naquelas condições. Alguém construirá a prisão com fundos do Programa de Abrigos e Serviços da Agência Federal de Catástrofes. Talvez um amigo do business.

A segurança do estabelecimento, segundo as autoridades, será mais eficiente que a Alcatraz, ilha de São Francisco, onde “morou” Al Capone.

A prisão será inaugurada em julho e provavelmente Trump apresentá-la-á como um grande feito para fazer America great again.

Os ambientalistas criticaram os danos no ecossistema pantanal pelo facto de passar a haver uma maior movimentação em torno da prisão.

Os EUA encerram dentro de si a vitória dos imigrantes ou fugitivos europeus que levaram ao genocídio das tribos autóctones. Outrora, a brutal violência dos de fora contra os que já lá estavam. Agora é a mais cruel impiedade contra os miseráveis indocumentados que partiram para cumprir o sonho americano.

Mas o sonho americano está bem guardado como se viu em Los Angeles com a chamada da tropa por Trump para intervir internamente. O sonho da América está a tornar-se um pesadelo para os norte-americanos.

Os multibilionários com Trump à frente têm outro sonho: serem ainda mais ricos. Para tanto precisam de concentrar todas as forças na impiedosa e cruel exploração atiçando o racismo, a xenofobia, a homofobia, as crenças religiosas, tudo o que permita impor a ferro e fogo a lei do mais forte, como nos tempos do Oeste selvagem.

Só a mais pura selvajaria conceberia uma prisão rodeada de serpentes e jacarés para impedir a fuga de gente desesperada. Na Idade Média havia castelos com fossos cheios de crocodilos para se defenderem de ataques…

Em 1963, o Procurador Robert Kennedy, ordenou o encerramento da prisão de Alcaraz por ser muito cara a manutenção. Agora o Procurador Uthmeier, seguindo à risca as orientações de DeSantis, abre um novo tipo de estabelecimento prisional guardado por jacarés e cobras. Sabendo-se que nada fará deter a possibilidade de fugas, pode imaginar-se o que virá a suceder. a impiedade mais cruel explica esta medida.

O país mais poderoso do mundo revela a sua “nova” face trumpiana – a brutidade contra os de baixo. Nem todos podem oferecer aviões de luxo de 450 milhões de dólares como o Emir do Catar.

A única lei que Trump reconhece é a da força. Foi à força que quis impedir a sua derrota há 4 anos. Agora no poder usará a força para se manter ou manter a sua dinastia. A água vai continuar a correr para o mar.

…As suas vidas devem ser labirintos sinistros…

O Presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou no dia 17 de junho, no regresso do Canadá (país por si cobiçado e ameaçado) que o líder supremo da República do Irão se não se render poderá ser morto.

Simultaneamente o Ministro da Defesa de Israel declarou que Ali Kamenei seria enforcado como Saddam Hussein.

Estas declarações são de dois lídimos representantes da chamada civilização ocidental prenhe de valores liberais e democráticos.

A sua linguagem, desencantada dos fundos dos tempos medievais ou mais antigos, voltam a ecoar em 2025, em junho.

São as duas lanças mais afiadas do Ocidente. Atrás delas colocam-se certos dirigentes europeus, gente da estirpe de um “trabalhista” como Starmer, de um liberal/centrista/banqueiro como Macron, de um conservador como Merz e tutti quanti (até o “nosso” Costa) cheios de valores liberais que justificam guerras e guerras. É espantoso que esta Europa da UE se curve diante de semelhantes personagens. Que se passará dentro da cabeça destes homens para seguirem pelo caminho que perseguem indiferentes ao futuro? O que os move? Macbeth a certa altura queria voltar para trás e a sua mulher impeliu-o para os crimes para tapar crimes. Aqui não se descortinam sinais de distanciamento dos carniceiros.

Por cá, em horário nobre, a SIC Notícias plantou no ecrã um oficial do exército israelita a arengar como iam exterminar tudo e todos. Depois teve ajuda de uma senhora jovem de olhos muito abertos e professora universitária que nunca ouviu falar de mulheres na Arábia Saudita e bem sabia como ia acabar o regime teocrático, sem conhecer provavelmente que os religiosos em Israel por causa da teocracia não fazem serviço militar…

Em Israel, em nome do Velho e Novo Testamento, o supremo defensor do Bem, o anjo dos anjos, o exterminador de palestinianos à fome e sede e à metralha, na sua loucura messiânica para fugir à justiça dos homens, avança com o seu outro amigo evangélico, Trump, para lançar um dilúvio de fogo, antecipando o Apocalipse do Irão.

Estes dois homens desprezam todas as regras do direito internacional. Nas suas vidas não há uma gota de bondade ou de compaixão. Estão unidos pela perfídia, pela impostura e pela maldade. Ameaçar brutalmente, fazer sofrer, matar, aniquilar, bombardear, esmagar é o seu restrito vocabulário.  

As suas vidas devem ser labirintos sinistros com pesadelos terríveis acerca do que fazer aos que consideram ser seus inimigos. Parecem saídos de um mundo de serial Killers.

Talvez, no futuro, haja medo de lhes apertar a mão. Nunca se sabe que veneno invisível pode lá estar.

Se este dueto tomar Teherão o mundo vai saber quem se segue na longa rota do poderio brutal da extrema-direita a caminho de ditaduras sem piedade para quem quer que se lhes oponha. O mundo está muito próximo de um negro manto de impiedade e de safadeza.

O Armagedão, tempo de ódio e de guerra

Vivemos um tempo de guerras. Para vivermos um tempo desta natureza é necessário que os humanos organizados em sociedades aceitem que têm inimigos que os querem aniquilar e, portanto, só resta a guerra. A guerra é a confissão autorizada pelo Estado de que o assassinato dos outros é uma conduta heroica e como tal a glorificar.

Na nossa cultura judaico-cristã deve ser tido em conta a narrativa no último livro do Novo Testamento, o Apocalipse, sobre o fim da Humanidade, o Armagedão, ou seja, a batalha final entre Deus e os governos humanos. Deus escolherá poucos para que na Terra impere a sua vontade. Essa guerra seria no Médio-Oriente. Jeremias falava dessa guerra a ter lugar perto do rio Eufrates.

 A guerra, nestes dias de chumbo e sucessivas injeções de anestesia das consciências acerca da sua inevitabilidade, mantém os humanos como seres incapazes de raciocinar e de agir pelos impulsos mais primários oriundos do tempo em que, como animais a fugir uns dos outros, se matava ou se morria.

A linguagem dos principais dirigentes do mundo está atolada de mortandade. Oferecem aos inimigos o inferno e aos seus a messiânica vitória.

Netanyahu e Trump atingiram o supremo patamar da ignomínia. Trump sempre que algum dirigente tem coluna vertebral ameaça-o com o inferno.

No passado os negociadores da paz eram tratados com respeito, o que não significa que tenha havido condutas ominosas de tratamento de enviados e negociadores.

Estamos em 2025 e no “Ocidente” esta regra passou a ser a da traição absoluta. Através da espionagem assassinam-se negociadores sejam palestinianos, sejam iranianos. Deve ser a perfídia maior entre Estados, um deles aproveitar e matar os negociadores e apresentar a façanha como uma ação de defesa.

Trump, que tinha dado como data limite o dia 15 de junho para se chegar ao fim das negociações, assistiu ao assassinato dos negociadores no ataque ao Irão com, “Todos mortos” disse ele, enquanto decorria ainda o prazo para negociar.

O ataque de Israel ao Irão insere-se nessa linha de um primarismo absoluto, fanático, messiânico de lançar o mundo num dilúvio de fogo, seja ele de que tipo for, desde que possa vencer.

Netanyahu sabe que só poderá eventualmente derrotar o Irão se os EUA entrarem na guerra, sem que o resultado seja certo. Mas também sabe que se os EUA participarem a Rússia e a China não vão ser espectadores. E nesse caso o mundo pode estar à beira do Apocalipse, não como obra de Deus, mas de demónios sem alma como Netanyahu e Trump.

Tal como no Iraque não havia armas de destruição massiva, também no Irão não há armas nucleares e foi Trump quem saiu do Acordo quando foi pela primeira vez Presidente.

Israel e os EUA conhecem esta realidade. Mas apesar disso, querem na região o caminho totalmente livre para fazer o que quiserem e desde logo exterminar os palestinianos.

Quem tem armas nucleares é Israel que não assinou o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ocupa ilegalmente os territórios palestinianos. O verdeiro Estado fora da lei tem um nome – Israel.

Ambos entregaram a Síria à Alqaeda e à Turquia, deixando-a refém de ambos e do sultão turco. Invadiram o Líbano a ferro e fogo e destruíram em boa medida o Hezbolah. Continuam o extermínio dos palestinianos e Trump sonha sobre o mar de sangue de Gaza construir um complexo turistico… A Jordânia não passa de um peão de Israel, talvez porque o Rei tenha medo dos milhões de palestinianos a viverem deportados pela Naqba. O Iraque está ainda destruído. Resta o Irão que querem destruir a ferro e fogo.

Esta Europa incapaz de se libertar do complexo de serventuária nada mais tem para fazer que não seja deixar-se conduzir por estes dois seres cuja bestialidade é a cada dia que passa mais evidente.

As palavras têm sentido, representam o que há de mais elevado na comunicação entre os humanos. A palavra nojo é dura, mas que palavra usar para qualificar Ursula von der Leyen, Macron, Starmer e Merz ao proclamarem frente ao extermínio dos palestinianos e aos ataques do Irão que Israel tem direito a defender-se? Eles e elas sabem que a Palestina está ocupada ilegalmente. Sabem que invadir ou atacar outro país é ilegal e, no entanto, do mais alto da hipocrisia e da ignomínia declaram que Israel pode fazer o que entender porque …tem direito a defender-se…

Só Israel tem direito a defender-se e mais ninguém no mundo em que vivemos tem direito a defender-se porque estas fornadas de dirigentes europeus já perderam toda a vergonha e honradez. Para manter os seus privilégios e as suas regalias venderam a alma ao diabo e a Trump. Por isso, quando este último os ameaça com a ocupação da Gronelândia metem o rabo entre as pernas ou correm a apoiar o filho predileto dos EUA, Netanyahu. Era difícil imaginar que a UE chegasse a este servilismo e a este estado de degradação.

Quando von der Leyen, naquele tom de voz pseudo-imperial, num vestuário saído de alguma máquina de liofilização e com um cabelo onde nenhum se solta mesmo que se acenda um temporal, declara que Israel tem o direito a defender-se outra palavra surge, a palavra ira porque sendo um pecado é da condição humana revoltar-se.  Mas acaso alguém neste mundo entende, à exceção de Israel e dos EUA, que defender-se é atacar os outros porque assim estando em guerra permanente só há uma lei, a do mais forte.   

Vivemos rodeados de guerras. Um tempo de guerras. Um tempo de ódios. Só o ódio, só apelidar de animais os palestinianos permite fazer guerras. Só o ódio e a loucura messiânica permitem ao Estado enviar negociadores que em vez de negociarem fazem espionagem para matar os que cumprimentam à nessa mesa de perfídia e de má-fé.

Pode o mundo e a Humanidade ficar refém desta camarilha de loucos que estão a empurrar o mundo para o Armagedão onde por causa dessas loucuras todos perecemos não por causa de um Deus, mas sim destes demónios cegos de ódio, arrogância e malvadez? Só se deixarmos.

O MINISTÉRIO DA REFORMA DO ESTADO TEM MOTOSSERRA?

Trump criou no início do mandato o famigerado DOGE, Departamento da Eficiência Governamental, cuja eficiência foi assegurada com o despedimento de centenas de milhar de funcionários públicos num total de 330 mil (contando com os se sentiram ameaçados e saíram) destinado a poupar 2000 milhões que a final era de 1000 de milhões e depois com o aumento do défice resultante dessa monstruosidade se saldou em zero poupança para o Estado. E 37 000 milhões para as empresas de Musk.

Por cá o, Primeiro-Ministro criou um Ministério, o da Reforma do Estado. A justificação é exatamente a de Trump/Musk, combater a burocracia. Não se sabe quem se lembrou da ideia, mas não é difícil imaginar. A motosserra já trabalha.

Já no século XVI Étienne de la Boétie alertava para o facto de os privados serem capazes de tratar bem dos seus interesses privados, mas muito raramente eram capazes de tratar dos bens da comunidade. As filosofias são radicalmente diferentes. Não se conhecem casos relevantes.

O último com Musk é um desastre para o interesse da comunidade estadunidense. Por cá a IL e o Ventura aplaudem a medida da AD. Os sindicatos denunciam, esclarecendo que uma coisa são reformas e outra são ataques aos serviços públicos com as transferências dos mesmos para os privados e por serem essenciais permitir-lhes-ão aplicar os preços que entenderem. Que ninguém se iluda, fazer os serviços públicos funcionarem mal, é o caminho certo para os entregar aos privados que não vão a votos e imporão os preços que quiserem. Eficientemente.

A MOTOSSERA E A RETROESCAVADORA

TRUMP/MUSK

Pelo que é dado seguir, Musk e Trump já tiveram melhor relacionamento. Agora, fazendo jus à sua elevada educação e cordialidade, trocam insultos. Musk doou muitos milhões para Trump ganhar as eleições presidenciais, diz o multibilionário que conclui alegando que se não fosse o seu big money a coisa não teria dado a vitória a Trump. E ameaça formar um novo partido.

Trump Presidente contra-alega com os milhares e milhares de milhões que as empresas de Musk recebem como subsídios.

Musk atira à cara de Trump o seu trabalho gigantesco para despedir centenas de milhar de funcionários públicos. Cortou tanto que ficou sem nada para cortar.

Será que Musk fez do apoio a Trump um investimento, como faz nas Bolsas, e deu torto?

Quando todos os dias os neoliberais defendem os cortes das despesas aqui está onde querem chegar, cortar despesas sociais para entregar a “poupança” na boca dos grandes tubarões que usam motosserras para cortes e retroescavadoras para ficarem com as “gorduras” do Estado.

Com homens deste calibre, cuja cegueira por dinheiro é a característica única, nunca se sabe se uma transação de alguns milhares de milhões põe termo a esta picante novela estadunidense. Big money for ever. As gorduras do Estado caem que nem ginjas na gula dos paquidermes financeiros. E talvez a gula fale mais alto.

Os capachos foram feitos para os capatazes pisarem, coisa e tal. As carochinhas, pois.

Portugal foi autorizado por Bruxelas a gastar até cinco por cento do PIB para comprar armas. O país dos portugueses não está autorizado a passar o défice de três por cento, mas pode comprar armamento até os 5% que a parte que vai para além dos 3% não conta. Bruxelas informou que nesta matéria terá os seus olheiros a monitorizar a realidade dos factos, não vá o governo dos portugueses não cumprir as orientações da capital da Bélgica e sede dos que ali mandam nos países da UE.

Em Portugal nenhum português foi ouvido acerca desta ordem. Nem em Paris ou Bucareste ou Roma.

Ao que se sabe a ordem veio de Trump que por sinal quer deitar a mão à Gronelândia e que as senhoras e senhores que dão ordens em Bruxelas obedecem porque a Europa não pode prescindir da defesa dos EUA. Dizem.

Estas compras serão feitas ao complexo militar dos USA porque precisa dessas encomendas para fazer frente à ameaça russa de Putin, sendo certo que este senhor cavalheiro telefona a Trump e falam acerca de como vai a Europa e o mundo e a Europa e o mundo adivinham do que eles falaram porque os seus porta-vozes emitem declarações e tal e tal.

O neerlandês que combinou com o que manda ( ?!) nos USA ser ele o caixeiro viajante da Organização do Atlântico Norte que já vai no Indo-Pacífico assegura que os donos da NATO não aceitam mantê-la se os europeus não a pagarem.

Os europeus têm de pagar a conta das despesas, mesmo comprando aos USA as armas que poderiam ter de utilizar contra os USA se estes concretizarem a ameaça de empalmar a Gronelândia. Coisa que nunca fariam porque os USA têm de ser compreendidos…

Já houve um senhor holandês na altura da troica que achava que os dos Sul da Europa eram muito dados a gastos com copos e mulheres e como tal rédea curta, austeridade.

Agora a rédea é larga porque qualquer dia as tribos eslavas  da  Rússia com armas da 1ª guerra mundial e sem rações e mísseis e com o Chefe da tribo cheio de cancros tomam conta do país dos portugueses, mesmo que o almirante lhes faça frente logo à saída de Kursk, pois os russos não seriam capazes de se defender com um almirante a dirigir a guerra das planícies.

Para o senhor Rutte a verdade é esta: gastar em superficialidades como construção de casas, hospitais, Serviços Públicos, aeroportos, pontes é altamente lesivo dos interesses ocidentais pelo que não serão admitidos; comprar armas aos States é a forma de nos proteger dos eslavos da Rússia que já têm mira nos copos e nas mulheres e pior que tudo para um neerlandês é ver na sua cruzada puritana protestante um eslavo ortodoxo transformar-se num pecador de copos e gajas.

Pois e coisa. Neste dia a França de Macron mandou mais um navio de armas para Netanyahu. Pois. E a Alemanha de Merz continua a proibir manifestações de apoio à Palestina e o fim do genocídio palestiniano. Pois e tal, senhor António Costa, Presidente do Conselho Europeu que garantiu a pés juntos que com a Rússia não se negociava até à sua derrota. Pois e tal. A carochinha era muito linda e tinha um vestido com joaninhas pintadas e Portugal tem de gastar o que não tem porque os capachos foram feitos para os capatazes limpares os sapatos. Coisa e tal.

EM VEZ DE FALAR DE CIMA DA BURRA

A vaga neoliberal instalou-se dentro dos regimes democráticos e sangra-os. Na UE foram criadas regras que se impõem a todos os Estados, sejam mais ou menos desenvolvidos. Os partidos que governam têm nas questões decisivas para o seu desenvolvimento económico uma pauta única e reduzida. Há pouco espaço para a diferença, a qual se faz sobretudo por via de ataques em torno da honorabilidade. Os media ampliam os casos. Casos e mais casos e dias de chafurdice. Assim se governa e se faz oposição.

A discussão sobre os grandes problemas do país, da UE e do mundo está a cargo de comentadores com 90% de opiniões idênticas ou muito parecidas. Há uma espécie de pensamento único. Os partidos governantes não serão iguais, mas alinham na busca dos mesmos fins, entendem-se e diferenciam-se sobretudo pelo barulho dos ataques entre si.

O mundo das brutais desigualdades instalou-se. De Washington a Moscovo, de Toronto a Pequim, de Lisboa a Helsínquia, de Pretória a Riade, de Singapura ao Rio de Janeiro.

Por cá Ventura fala de ciganos e corruptos e de mais benefícios para os que já têm muitos. Tem a complacência dos media, é o político com mais entrevistas nas têvês…mais que Montenegro e Pedro Nuno dos Santos juntos. Branco o é galinha o põe.

As outrora chamadas linhas vermelhas de tanto se desbotarem passaram a incolores em quase todos os associados de Bruxelas para evitar a invocada ingovernabilidade. Os democratas-cristãos, os conservadores, os socialistas, assumem acordos em nome da tal governabilidade com a maioria das extremas-direitas. Parece que chegou a hora do Chega. Por todo o lado se lê e se ouve o perigo de marginalizar o Chega. Os donos disto tudo não veem problema no Chega ser a alternativa, tal como em Itália com Meloni, toda repimpada entre Bruxelas e Washington.  

Os povos sentem-se impotentes. Então, votam nos que pescam no descontentamento e apregoam como inimigos pobres desgraçados que nada decidem e são usados para entreterem os distraídos a atirarem pedras a esses concidadãos. Os votos no Chega não são só protesto e raiva, talvez sejam uma espécie de linha S.O.S. Quando tudo em redor está mal, pode ser atrativo experimentar o pior, tal como escreveu o filósofo inglês F.H.Bradley.

Como morreu a esperança, cada um(a) fica mais só. Nesse estado, é mais fácil vir ao de cima o lado mais negro da humana condição, o egoísmo, a vingança, a inveja, o oportunismo e o desespero. Os perdedores gostariam de copiar os ganhadores, os oligarcas, os famosos da boa vida. Os de baixo têm pedras e atiram o Chega como uma pedra para “partir isto tudo”, para ver se o pior faz mudar as coisas que vão mal. Em termos de psicologia de massas o sentimento pode ser irracional, mas a ideia punir o status quo “precisa” do voto em Ventura.

O PS português faz de conta que não vê o desaparecimento de outros pêsses noutros países exatamente por não fazerem diferente. Continua a insistir na defesa de políticas que criam este atoleiro democrático, seja nas políticas de desenvolvimento económico, seja na militarização da UE.

  O PCP dirige-se a uma parte da sociedade que, no essencial, já não o ouve ou já não existe. Faz que vai à frente e está parado a olhar para o passado, replicando métodos, palavras de ordem e campanhas. Fica contente com ir perdendo votos e deputados a conta gotas. Ajá anunciada moção de rejeição do programa do governo não lembra ao diabo. Qualquer um pode adivinhar o próximo Comunicado do CC do PCP sobre os resultados das próximas eleições.

O BE acantonou-se no seu identitarismo e fechou-se tentando abrir com um verbalismo populista sem qualquer efeito prático. Fala para dentro e para os que estão próximos.

Nem um, nem outro, capitalizaram o descontentamento social. São vistos como os outros partidos. E, sendo muito injusto, é necessário um exercício de grande humildade para compreender e ajustar os estilos, as propostas e uma maior clareza estratégica quanto aos objetivos.

Como é possível que estes dois partidos ao cabo de todos estes anos estejam de costas voltadas, como competidores incapazes de forjar algo comum, bem sabendo que sem essa base não procedem e, que mesmo assim, precisam de outros para alianças que permitam a mudança? Que dizem a juntar forças nas autárquicas e nas presidenciais…nem agora avançam com o apoio a Sampaio da Nóvoa ou outro para candidato a PR? As esquerdas têm de aprender a ouvir, a ter em conta o que ouvem, em vez de falar de cima da burra.

Em vez de falar de cima da burra | Opinião | PÚBLICO

ESTA VOZ SUBLIME DO IRÃO

WOVEN SOUNDS

Havia uma voz sem rosto. Vinha de um espaço do céu (assim se pensa) onde a harmonia é o único ser. Flutuava como um fio fino de filigrana. Intrigava a ausência do rosto.

A voz, nesse espaço celestial recolhia-se e então a flauta de cana (ney em persa) o selar, a kamancha, o tambor e a pandeireta surgiam num fundo de um horizonte de tecedeiras ancestrais, puxando fios.

 Logo a voz de embalar nos batia nas paredes que não vemos, mas sabemos estarem dentro de nós, na porta dos sentimentos de felicidade.

Tudo se passava como se um leve vento crepuscular nos afagasse a face.

Porém, a voz continuava sem rosto. Ouvíamo-la. Era como se ali sempre estivesse estado desde que se começou a tecer tapetes e o próprio tempo.

De repente, quando tudo terminou e ela deixou o tear e se virou, surgiu o rosto, o da iraniana Maryam Abtahi, a tecedeira de voz sublime. Ela e as outras a tecerem o futuro. Que seja tão colorido como os desígnios implícitos na voz e nos tapetes. Que a sorte chegue breve.