As funções do Presidente da República estão bem definidas nos artigos 120º a 140º da Constituição da República. O que vale dizer que não podem ser inventadas, segundo o gosto de cada íncola do Palácio de Belém.
No quadro político-constitucional o Presidente da República não tem poderes executivos.
Nomeia o Primeiro-Ministro. Pode demitir o governo, dissolver a Assembleia da República e presidir ao Conselho de Ministros, sob proposta do Primeiro-Ministro.
Por isso, o Presidente da República deve deixar o governo governar e só intervir caso considere uma situação verdadeiramente anómala, tanto mais quanto o governo responde perante a Assembleia da República, de onde lhe vem a legitimidade democrática. Tal não significa que não se pronuncie sobre a vida política.
Quando o PR se afirma no exercício do seu mandato opinando sobre as matérias que estão em discussão na ordem do dia, ultrapassando os próprios titulares governamentais, cria distorções no equilíbrio dos vários poderes.
A tendência de aparecer, sobretudo na televisão, todos os dias, muitas vezes para dar conta da sua preocupação com assuntos que não há ninguém de bom senso que não esteja preocupado, cheira a vampirismo político.
Marcelo não pode desconhecer que a vida dos camionistas é dura. A ninguém passará pela cabeça que a vida profissional de um mineiro não é dura. E o mesmo se dirá dos homens que trabalham no fundo das pedreiras. A vida de um padeiro ou de um homem da limpeza das ruas ou das fossas não é pera doce, ou a de um piloto de aviões, pelo grau de responsabilidade.
O Presidente só conhecerá a verdadeira natureza de cada profissão mais dura se passar a fazer uma viagem com um camionista, se descer à mina durante um dia de trabalho, se “pilotar” um avião com um comandante, se passar um dia com um varredor das ruas ou com um limpador de fossas? E só saberá se os coletes amarelos mobilizam muita gente passando na manifestação, sendo notícia? E passando no estabelecimento prisional de Lisboa na altura de protestos quando há notícias em direto?
Quando Marcelo apanha boleia com um camionista alegadamente para chamar a atenção para a dureza da profissão ter-se-á apercebido de quantas profissões estarão em lista de espera? E se se apercebeu vai passar dias, meses e anos (até às próximas eleições) a fazer de conta que é enfermeiro, padeiro, mineiro, trolha, piloto, limpa chaminés, pintor de carros?
O titular do cargo de Presidente da República alertou na sua mensagem natalícia para o perigo do que designou populismo ou posturas eleitoralistas dos partidos, não havendo ninguém que não concorde com a ideia que numa campanha eleitoral a tendência é para facilitar as promessas, sendo certo e seguro que há alguns a prometer que batem todos os recordes …
Marcelo não está a prometer preocupações a mais, bem tendo consciência plena que cabe ao governo tratar do desgaste de cada profissão? Que pretende Marcelo? Levar a cabo um levantamento socioprofissional de cada profissão? Um levantamento sociológico? Ou ser notícia?
É intrigante esta atafona de Marcelo por aparecer diariamente a manifestar as suas preocupações. Não seria mais indicado que nas reuniões com António Costa exercesse com grano salis a sua magistratura de influência? Corre o risco de se banalizar a tal ponto que ninguém se importará com mais um mergulho ou mais uma preocupação ou mais um acompanhamento em direto de qualquer desgraça.
Entre uma rainha, como a da Inglaterra, que quase não fala e um Presidente que não se cala, a virtude está apenas na ida às urnas para eleger o Presidente; talvez, por isso, esta loquacidade marcelina.
Autor: Domingos Lopes
Até passou na televisão…
A ideologia que vai ganhando terreno por todo o mundo tem tanto medo das suas próprias ideias que as esconde, declarando-se vazia de ideias, assetica.
Em suma, para esta desideologia, o que conta é o que cada um possui, pois todos podem ter o que quiserem, na base da nova doutrina liberal. Só os fracos, os que se excluem, os incapazes não alcançam o que pretendem.
As ideologias que se preocupam com a sociedade no seu conjunto são perniciosas. É preciso eliminá-las, tal como vêm proclamando Trump, Balsonaro, Orban e outros tantos.
A saúde, a educação, a justiça têm de obedecer ao primado dos mercados e serem entregues a quem souber tirar lucro.. O Estado é apenas uma grande empresa.
A beneficência dos poderosos, o seu deixar escorrer do topo da pirâmide para a base são a esmola que invocam, servindo-se dos Evangelhos.
O Estado mínimo é, por exemplo, no caso do Brasil, a atribuição aos cidadãos de umas quantas armas para que se possam defender. O cidadão é inimigo do cidadão, todos contra todos, ficando o Estado a intervir para proporcionar negócios aos que podem com o seu poder económico fazer o país andar.
Esta conceção ideológica passa também pela utilização da televisão para veicular doses cavalares de ingredientes de anestesia da consciência social, da pertença a uma profissão, a um território e até a uma identidade.
Para tanto o importante é absorver tudo que impeça de pensar o futuro em conjunto com os seus concidadãos. O que interessa é ingerir o que o rodeia, sem compreender a razão dos problemas.
Pela televisão entra tudo: fogos, desastres, corrupção, futebol, telenovela, noticiários, pesca, caça, touradas, o que for, sem ser preciso mergulhar no mundo podre circundante. Esse é o mundo das ideologias. O que conta é a realidade sem filtros, sem ideologias, dizem.
A televisão analisa o caso jurídico e dá a sua sentença; não perde tempo, como nos tribunais. Os tribunais buscam a verdade material, a televisão audiências e lucro.
Quando se diz que o “caso” até passou na televisão está claramente a assumir-se (consciente ou inconscientemente) que o que não passa na televisão, não existe.
Passa a desgraça das pedreiras de Borba, dos fogos, os meninos encerrados numa gruta da Tailândia, a queda de um avião e a explosão que o futebol proporciona.
Pode saber-se o que aconteceu à família de Ronaldo ou de Messi. Que interessam as desgraças do vizinho ou do companheiro de trabalho. Isso não releva. São os que têm uma “vidaça” que fazem inveja a qualquer um. Essas são vidas que passam na televisão.
É esta a ideologia que levou Trump a desfazer o pacote de saúde que nos EUA permitiam aos cidadãos fazerem seguros de saúde para acederem aos hospitais. Com Trump só entra no hospital quem puder. O Estado tem de ajudar os mais fortes, os que sabem dirigir a sociedade, tal como dirigem as suas companhias.
Paradoxalmente os corifeus da desideologia prosseguem a sua campanha ideológica. Para que não se pense. Para que se absorva. Para que os cidadãos não passem de lorpas. Pensar é que nunca.
Marcelo surfista na crista do canhão da TVI bateu Macnamara
Na mensagem de Ano Novo Marcelo convocou os portugueses a participarem nas eleições que se vão realizar este ano, destacando o seu significado mais profundo em termos de escolhas para o futuro.
De facto, em 2019 realizar-se-ão três atos eleitorais. Seria adequado, dado que as próximas são já em maio, que os partidos políticos, os media e os portugueses estivessem minimamente interessados nos programas e ou propostas dos que serão candidatos. Ainda mais incentivados pelo vibrante apelo do PR.
Os portugueses, no início deste ano, já tinham sido sacudidos da sua letargia decorrente das festas natalícias por uma tempestade de ideias que jorraram da entrevista da TVI a Mário Machado, especialista em mecenato, e da esperada e desesperada estreia na SIC do programa da Cristina Ferreira, após as suas férias de sumptuoso luxo nas Maldivas.
A nossa Lady Di escolheu para a glamorosa estreia o inebriante Luís Filipe Vieira que se apresentou bem-disposto a jogar à bisca com a senhora.
E para que ninguém tivesse dúvidas acerca da importância daquele conclave a dois, juntou-se via telefone Marcelo que intervalou no meio de uma reunião para desejar as maiores felicidades à fugitiva da TVI.
Em boa verdade qualquer reunião (salvo se outros forem os regulamentos) é passível de um intervalo.
Aceita-se assim que Marcelo intervale. Como não fuma, dado o seu frenesim, aceita-se também, em ano com três eleições, que ele, na esteira da sua mensagem de Ano Novo, entre nas discussões relevantes, não tivesse deixado sozinhos os dois grandes pensadores da manhã da SIC.
O programa foi marcado por uma revelação totalmente inesperada – a promessa de Luís Filipe Vieira de ter um novo treinador que poderia ser Mourinho que só o soube pela imprensa. Explicou a mágoa pelos lenços brancos e, qual adivinho, augurou que os benfiquistas ainda se vão arrepender de ele (Vieira) ter mandado o Vitória para as areias quentes da Arábia Saudita. E deixou implícita a sua recusa em tornar definitiva a escolha provisória.
No outro canal Luís Goucha bem se tinha esfarrapado para passar a perna à Cristina ,tendo levado para o seu “programa” Mário Machado, conhecida personalidade do mundo da bondade, repleto de condecorações conferidas nas prisões por onde passou dada as opiniões controversas de sua autoria.
O ano tinha terminado (lembram-se?) com Marcelo a alertar para os perigos das disputas eleitoralistas e populistas, e começou o novo com o apelo ao debate sereno e cívico para defender o regime democrático.
Ora aqui estamos nós entre a SIC, TVI, RTP e CMTV ungidos por grandes debates acerca das condições em que os portugueses vivem, a importância do Parlamento europeu, as consequências do Brexit, o futuro da geringonça e as escolhas da Madeira.
O que vale o anúncio de três ou quatro novas estações de metro em comparação com a nova cláusula de rescisão de Eder Militão? Ainda se António Costa seguisse o conselho de Assunção Cristas e mandasse abrir vinte novas estações de metro…Resta-nos a saga da luta mortal entre Montenegro(nome de espadachim) e Rio, o conciliador.
Razão tinha Marcelo na sua mensagem…“Debatam tudo, com liberdade… Podemos e devemos ter a ambição de dar mais credibilidade, mais transparência, mais verdade às nossas instituições políticas. Para que a confiança tenha razões acrescidas para se afirmar… “Et voilá, os grandes debates em curso, animados pelo mais alto magistrado da nação, mostram que a SIC, a TVI, a RTP e a CMTV, estão atentas. E daí esperar que continuem a levar grandes figuras aos seus écrans, muito futebol, a vida sexual e luxuosa dos famosos e seus escândalos, a explicação dos crimes, e muitos beijinhos de felicidades. Sem televisão os portugueses não saberiam escolher. Sem Marcelo que seria do surf? Bem hajam no país de tantos basbaques.
Bolsonaro, seu irmão? Ele mesmo?
A ideia de Marcelo ir à tomada de posse de Bolsonaro podia ser boa, mas foi péssima. Bastou passar dois ou três dias para ver que, apesar da “irmandade”, a ida foi um espalhanço monumental, uma daqueles falhanços que não é do Estado, mas sim exclusivamente do detentor do mais alto cargo político em Portugal.
Marcelo está habituado a lidar com o que se pode chamar uma agenda de superficialidades: aparecer preocupado com as situações alarmantes; rejubilante com as vitórias desportivas; ternurento com os infelizes; insinuante com os desafios eleitorais; superdesportivo a dar mergulhos em praias marítimas e fluviais; e sempre, sempre pronto para dar afeto, um primor, o special one…
A vontade de transformar vinte minutos (o tempo que o capitão Presidente lhe concedeu) numa vitória diplomática é um absurdo gritante. Houve um quinto tema – a visita de Bolsonaro a Portugal (que duvido que se concretize).
Ora vinte minutos, onde tratou de cinco temas- a comunidade portuguesa no Brasil, a comunidade brasileira em Portugal, as relações entre Portugal e Brasil a CPLP e a visita a Portugal de Bolsonaro, a dividir por cinco temas dá quatro minutos, o que significará que cada Presidente deverá ter falado entre dois minutos por tema, caso algum deles não se tenha remetido ao silêncio …
Ora esta reunião …”formal e substancialmente boa entre irmãos”… não pode deixar de ser vista, em termos meramente político-diplomáticos como um espalhanço monumental e daí a necessidade de Marcelo substituir factos por uma conclusão.
O que disseram (se é que disseram) é segredo, mas em todo o caso o mais importante foi a tentativa frustrada de Marcelo arengar que não podia ser melhor, chegando ao cúmulo de se lembrar que as reuniões entre irmãos são rápidas… talvez pairasse já na sua inteligência política o falhanço da ida assistir à indecorosa tomada de posse do Brasil por parte de Bolsonaro e seus capangas e que tresandava às alfurjas do fascismo.
Se dúvidas houvesse dissiparam-se, pois ainda Marcelo mal tinha aterrado em Lisboa e Bolsonaro dava o tiro de partida para a caça às bruxas no aparelho do Estado, os simpatizantes de partidos de esquerda vão ser despedidos … assim, por serem de esquerda. Os apoiantes da ditadura podem ficar, não são políticos. Os filhos vestem azul e as filhas rosa.
Salazar na sua odienta perseguição aos comunistas instituiu uma famigerada fórmula para assegurar a tal educação limpa, sem ideologia, que consistia na última pergunta aos candidatos a professores: Qual a razão do erro do comunismo? A resposta: o comunismo está errado devido ao egocentrismo da criança…
Ora como se vê esta é a educação limpa, sem vestígios de ideologia, que vigorou em Portugal nos tempos de Salazar e que Bolsonaro quer ressuscitar.
Ainda não se tinha recomposto da viagem e, no Brasil, Bolsonaro atacava os tribunais de Trabalho porque o cavernícola entende que para o trabalhador não há direitos laborais.
Quem se mete aos sorrisos com candidatos a ditadores fica mal visto. E se lhe chama irmão…
Como pôde Marcelo, Presidente de uma República laica, democrática, considerar irmão Bolsonaro que coloca Deus, no plano institucional, acima da Constituição, e tem no seu governo éne evangélicos, como um verdadeiro jiadista evangélico? E que acha que cada brasileiro deve ter duas armas? E que não houve ditadura no Brasil, nem tortura… Que falhanço, meu irmão.
Quem é mais famoso: A Cristina ou o Marcelo?
Todo o mundo sabe o quanto Marcelo se sente atraído pelos famosos, talvez porque tenha aceite o desfio introspectivo de se considerar o mais famosos de todos os famosos.
Tem parecenças com a Cristina Ferreira nos pinchos que dão; nos guinchos ganha ela.Nos pinchos ganha ele, apesar da idade.Ele está em todo olado a toda hora. Omnipresente.Cristina é mais de ir para paraísos de luxo e que ela entende deverem ser mostrado na suas contas. No fundo ela pensa que se não os mostrar ela não esteve lá. Só esteve porque os exibiu…É um modo de ser.
Uma famosa para o ser tem de exibir e exibir.
Pensemos em grande e interroguemo-nos: Que seria dos portugueses se a famosa da Malveira não mostrasse o luxuoso quarto onde dormiu nas Malvinas? Uma pasmaceira.
Marcelo não pode competir a esse nível. Já teve uns tiques com o Tio Ricardo Salgado a caminho das terras de Vera Cruz. Agora o mundo da presidência requer outra arte. Tem de ganhar nos afetos, nas preocupações e nas surpresas.
Quem havia de imaginar que Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, ligaria de cima da sua “potestas” para dizer:- Olá Cristina, sabe quem fala? É o Marcelo, o Presidente, não me esqueci de si, e para que o Goucha não pense que o mar é só água, aqui estou eu a ligar para a SIC. Para mim SIC e TVI sempre. Aliás já avisei o país que lhe liguei, esteja descansadinha. Eu bem vejo a sua emoção; dê um abraço ao Filipe Vieira e já agora transmita-lhe se faz favor que um dia destes apareço na Catedral para lhe dar um abraço e ao barbas.Beijinhos, olhe diga-lhe que é melhor ao pé da Estátua do King.
Marcelo é quem é e não se imagina noutro lugar que não seja na primeira fila à frente, o mais famoso.Congemina a cada instante o instante que se segue; não falha.Ninguém o segura. Nada o detém. Nem o lado escuro da Lua. Já se ofereceu ao Presidente chinês para tripular a próxima nave.
A família e o lucro
No ar arrasta-se ainda o que resta da quadra natalícia e, como sempre, nela a família ocupa um espaço especial. É tradicionalmente o momento de invocação da importância da defesa da família.
A noção da família não foi sempre a mesma; a título de exemplo e para não recuar muito no tempo, na época do morgadio era diferente da gerada pela revolução industrial, e igualmente diferente da criada na globalização mundial.
Vale a pergunta se nos nossos dias o que conta é a família na sua plenitude como se defende ou haverá algo mais importante que a subordina.
A direita, no que toca à abordagem deste tema, proclama a todos os ventos a importância quase sagrada da família. A extrema-direita faz da família o alfa e o ómega. Bolsonaro, no discurso da tomada de posse, invocou a família a granel e exaltou as suas virtudes.
A igreja coloca a vida familiar no supremo altar dos valores, fazendo dela um núcleo essencial onde pretende apoiar-se, e daí a justificação do seu combate ao aborto, ao divórcio e à eutanásia.
Na grande maioria destas abordagens chocam as proclamações a favor da família e o modo como os diversos poderes dominantes esvaziam as bases em que ela assenta.
O mundo de hoje é marcado pela competição feroz em que o objetivo é garantir o lucro máximo que não se compadece com os problemas familiares de diversa ordem, tidos como menores face à magnitude da produção e da produtividade.
O novo Deus, o mercado, exige devoção, devendo os empregados terem presente que para aquele posto de trabalho está em fila de espera um vasto número de candidatos de mão estendida.
Com esta nova divindade chegou também a ideia que há direitos a mais. Os direitos adquiridos fazem, entre outros, dos funcionários públicos um bando de madraços, tornando-os ingratos, pois o que querem é ganhar mais e trabalhar menos.
A exigência cada vez maior aos trabalhadores por parte das entidades patronais não pode deixar de ter repercussões na vida familiar e até na queda da natalidade.
Se os horários de trabalho conjugados com o tempo gasto na deslocação para o local do trabalho ocupam grande parte do dia, a disponibilidade reduz-se a quase nada para a vida familiar que tende a secar por falta de combustível. Se há filhos passam a ser um pesado encargo.
A mulher é vista do lado na empresa como um encargo por causa da gravidez e do aleitamento.
A ideia de uma espécie de disponibilidade permanente choca com a necessidade de guardar energias e afetos para a vida em família. Se a sociedade vive em constante aceleração criando com os avanços tecnológicos novas dependências, em vez de libertações, os cidadãos estão a ser agrilhoados por estes novos avanços porque se soltam os ventos negativos da globalização que querem nivelar quem trabalha pelo mais baixo da escada.
Se a tudo isto juntarmos a deslocalização dos portugueses para o litoral, criando também graves problemas no domínio da habitação e no congestionamento da vida urbana, então, para além da disponibilidade para o emprego, há ainda a juntar as horas de vai e vem de casa para o local de trabalho.
Fazer filhos requer disponibilidade financeira e amor, o que nos tempos modernos só dá nas telenovelas. O que vale é que todos estão preocupados em defender a família…Só que uns colocam o lucro acima de tudo, mesmo falando da defesa da família. O lucro é a família dos mercados.
Marcelo, a ginginha e as eleições
Marcelo, o Presidente da República portuguesa, declarou, ao Jornal de Notícias de 24 de dezembro, no dia em que foi ao Barreiro beber uma ginginha ( não há nenhum português que não saiba que a ginginha é a sua bebida preferida desde a infância) que a campanha eleitoral começou mais cedo…
Marcelo tem uma perceção da realidade que vai muita para além do comum, pois a ninguém passaria pela cabeça que os partidos estivessem desde já preocupados com eleições e ele quando foi dirigente máximo do PPD/PSD jamais lhe passou pela cabeça ter em conta eleições cinco meses antes de elas terem lugar…
Marcelo, não está só preocupado com as campanhas antes do tempo, mas com tudo o que o rodeia, mas tudo mesmo – desde os enfermeiros aos camionistas, desde os coletes amarelos aos ferroviários, desde o INEM aos alfaiates, desde os estivadores aos professores e aos taxistas, mas o que mais o preocupa é o falhanço do Estado…Vive em sobressalto permanente por causa dos incêndios, das pedreiras, do furto do quartel de Tancos, do helicóptero que caiu em Baltar …
Marcelo tem cerca de dez milhões de preocupações que é o número de portugueses com que ele está preocupado, melhor dito, dada a quadra natalícia, preocupadíssimo.
Ele desmultiplica-se para chegar a todos os portugueses, mas claro dez milhões são qualquer coisa e não dá para todos, embora se lhe reconheça o esforço, como por exemplo, no mesmo dia em que foi visitar a Raríssimas foi à ginginha porque o Barreiro é a terra onde há ginjeiras por todo o lado; como se sabe por ordem do falecido Alfredo Silva.
Este estado de alma característico do nosso Presidente fá-lo lamentar-se e com toda a razão da gulodice dos partidos cinco meses antes das eleições europeias. É uma pena que não esperem mais três ou quatro meses…Não se contendo, o Presidente tinha de fazer o reparo, não fosse algum populista aproveitar-se e para que o terreno ficasse preenchido Marcelo ocupou-o, pois ele, como se sabe, não pactua com o populismo. Ele, diga-se em abono da verdade, não tem poderes para impedir que se lhe dirijam a pedir selfies, pedem-lhe e ele cede…Cede porque o povo é quem mais ordena tanto nas selfies como nos abracinhos e nos abraços que por esse Portugal inteiro ele vai espalhando, tudo para que o populismo não apareça.
Por essas e outras razões tinha de ficar espantado e chamar a atenção para o facto de a campanha eleitoral ter começado mais cedo.
Se os partidos fizessem como ele, não fariam campanha eleitoral como ele não fez.
Marcelo está de manhã à noite, todos os dias, nas televisões, nas rádios, nos jornais, preocupado com os portugueses. Para ele todos os dias são dias para aparecer preocupado. Quando chegarem as presidenciais ele não precisa de fazer propaganda. Só precisa de ir a um ou dois debates com uma caterva de candidatos que começam a campanha quatro ou cinco meses antes…
Abençoados aumentos dos lucros e amaldiçoados aumentos dos salários
O que está a passar em Portugal a propósito das greves dá que meditar. O que pedem os grevistas? Em geral aumentos e maior dignificação no seu trabalho.
Como se sabe os salários estiveram congelados desde Sócrates até à chegada do governo de António Costa com apoio parlamentar do PCP, BE, PEV, e PAN. Congelada esteve também a progressão na carreira nalgumas profissões do sector público. Também, por isso, os sindicatos reclamam aumentos. São estes profissionais que são obrigados a enveredar por formas de luta extremas.
Em contraste, repare-se que o anúncio trimestral / semestral dos aumentos dos lucros dos bancos é apresentado como um facto quase sublime. Quanto maiores forem os aumentos dos lucros maior é a bênção. Centenas de milhões de euros de lucros são impactantes. A pompa da circunstância faz esquecer tudo, o que vale é grandeza dos aumentos dos lucros, os quais assentam, muitas vezes, em despedimentos, cortes salariais, comissões e mais comissões para quem deposita os seus rendimentos…
Há, nesta nossa fase da vida social, uma espécie de um critério dúplice que serve para castigar os de baixo e para glorificar os de cima. O PSD através de alguns dos seus dirigentes reaparecem a defender a austeridade e a continuação do empobrecimento.
Um polícia que não tem rendimento para alugar um quarto em Lisboa ou no Porto dorme no carro não pode reclamar aumentos para não complicar as imposições de Bruxelas.
Os trabalhadores (sem os quais não haveria aumento de lucros) são uns ingratos por não aceitarem aumentos na casa dos 80 cêntimos diários; ou reclamarem trinta e cinco horas; ou quererem progredir na carreira; ou que o tempo que trabalharam conte (como não pode deixar de ser) para a reforma; ou como os estivadores não quererem trabalhar jorna, como há setenta anos…
Os que fazem greve são antipatriotas, mas os grandes patrões que ameaçam deslocalizarem as fábricas são patriotas…
Os cortes no SNS que levaram para fora do país enfermeiros e médicos, quantos portugueses mataram? Como se fazem essas contas? O desinvestimento no SNS quantos cidadãos mata?
A direita aplaude porque quanto maior for o desinvestimento no SNS mais avança a privatização dos serviços de saúde…
Quem está disponível para esperar trinta minutos ou mais ao telefone para que o atendam para tratar da marcação de uma consulta no Hospital de Santa Maria para informar que não pode ir àquela consulta naquela data?… e assim dar a vez a outro.
Se o aumento de um euro por dia desestabiliza a economia, por que motivo as centenas de milhões de lucros para os quais contribuíram a força de trabalho empregada não deve ser taxada de modo a que na redistribuição dos rendimentos a sociedade no seu conjunto possa beneficiar de melhores serviços? Se um euro é uma espécie de enormidade, por que motivo a ameaça de fugir com os lucros para outros países não é uma pressão gigantesca?
Os que mais se insurgem contra os que reclamam aumentos salariais são exatamente aqueles que na sua vertigem pelo lucro deixaram o país e a Europa numa crise profunda. Aliás são os de baixo que estão a pagar o destrambelho dos banqueiros.
Os bancos que se vangloriam dos aumentos dos seus lucros e pagam a preço de oiro os seus gestores são os mesmos que agitam espantalhos e demónios contra os seus empregados que pretendem, por via do seu contributo, ver aumentados os seus vencimentos, num país em que um quarto da população vive em pobreza.
Parece que a crise provocada pelos banqueiros e pelo sistema financeiro, incluindo por aqueles que garantiram que o BES, BPN, BP estavam firmes, são patriotas e beneméritos como comprovam as suas condecorações, e os de baixo, esmifrados pelas medidas anticrise, são o demónio.
Reclamar mais uns tantos euros por mês para que antes do dia vinte de cada mês não falte salário devia ser reconhecido como perfeitamente natural e humano.
É verdade que este governo parou o empobrecimento desvairado de Passos Coelho… Quantas mortes não terão acontecido em Portugal devido a essa austeridade como castigo dos portugueses, obrigando-os a entregar aos bancos mais de vinte mil milhões de euros… O que se podia fazer com esse montante?
Há os de cima e os de baixo. Os de cima podem ter lucros fabulosos, os de baixo têm de suportar esses lucros fabulosos…e amouchar. Só que os de cima são mesmo poucos, os de baixo são quase todos.
Entre a vida e a morte – Paulo Sucena a propósito do romance de Domingos Lopes – Nas margens do medo
Domingos Lopes, Nas Margens do Medo, Âncora Editora, 2018
Entre a Vida e a Morte
Paulo Sucena
Considero legítimo qualificar Nas Margens Do Medo como um romance rural, tendo em conta o contexto em que decorre, uma aldeia alentejana, Capelins, situada perto do Guadiana, num tempo que se estende pelos finais da década de 1930 até um ano que o narrador não revela mas que o discurso permite situar, no mínimo, nos finais da década de 1940, abordando uma temática que essencialmente se prende com a situação de fome e de trabalho precário e mal remunerado dos trabalhadores rurais do concelho de Alandroal. É a partir deste tópico que a narrativa se vai estruturar e enriquecer nos seus diversos segmentos de que avultam as jornadas do contrabando.
A ascendência deste romance não provém tanto de Júlio Dinis em que os/as protagonistas estão acima da comunidade rural pela sua origem familiar, pela sua cultura e riqueza de linguagem, mas mais de Fialho de Almeida e do modo como o excelente contista aborda a violência do trabalho dos ceifeiros alentejanos. De Aquilino Ribeiro herdou o narrador a atenção e cuidado que dispensa à expressão da fala das personagens de Nas Margens Do Medo, desde o vocabulário à organização morfo-sintáctica das frases, distanciando-se, todavia, de Aquilino quando, em vez de se colocar num nível superior de linguagem, aproxima o seu discurso do das personagens com o intuito de tornar mais coesa e fluente a matéria que pretende comunicar.
Essa comunicação faz-se deliberadamente sem sinais ou símbolos de natureza ideológica. O romance não está estruturado em função de uma progressiva tomada de consciência da classe trabalhadora conducente a uma revolta, colectivamente organizada, contra as forças opressoras. Nem tão pouco, Nas Margens Do Medo, ao contrário da corrente neo-realista, é construído sob a influência do pensamento marxista nem as suas páginas são percorridas por um sopro lírico capaz de abrir janelas de esperança para um horizonte onde já se divisassem dias felizes. Pelo contrário, a história e as personagens não rompem a desolação de uma aldeia parada num tempo parado, como era, aliás, a esmagadora maioria do Portugal rural daquela época. As inquietações e a turbulência dos actores não saem das fronteiras de suas mentes conservadoras que só vemos verdadeiramente indignarem-se e barafustarem perante um caso insólito que alguém descobriu e rapidamente difundiu: a vida em concubinato de Lurdes e Manolo que meia dúzia de anos antes um contrabandista português encontrou em Olivença, era ele ainda um rapazote, sem pai nem mãe, assassinados pelas tropas de Franco, e trouxe para Capelins onde no dia da chegada foi “adoptado” por aquela jovem de vinte anos, dona de uma venda que herdara dos pais.
Esta é a situação nuclear da qual o romance arranca num tempo em que a Espanha Republicana era sacudida pela brutalidade de uma guerra civil e em Portugal se vivia sob uma ditadura feroz cujo sinal de maior desumanidade e violência provinha do Campo de Concentração do Tarrafal, cemitério de dezenas de democratas deixados morrer sem assistência médica e sem dó nem piedade. Acabei há pouco de escrever uma das palavras que melhor definem esta narrativa, violência. Na verdade, a violência percorre intensamente esta obra de Domingos Lopes. Violência da guerra; violência do regime salazarista; violência da GNR, da Polícia de Vigilância e Defesa do Estado e violência da PIDE; violência dos senhores da terra; violência doméstica; violência da fome e do desemprego; violência do trabalho nos campos e nas pedreiras; violência do sol e da chuva; violência da vida de contrabandista. É neste contexto profundamente disfórico que se movimentam as personagens de Nas Margens Do Medo, cuja acção se confina a parâmetros fortemente individualistas, com uma ou outra excepção. Seja a revolta dos ceifeiros que Zé Inácio protagonizou e que a pouco e pouco e de forma avulsa vai ganhando a adesão dos companheiros que reivindicavam condições de trabalho menos penosas. Seja a mobilização de toda a gente para combater um fogo que ameaçava a casa do Felisberto, sujeito que gozava de pouca simpatia na aldeia. Seja, na parte final do romance, a greve dos ceifeiros que desencadeou uma onde de forte repressão e várias prisões e fugas dos grevistas.
Não é, portanto, este um romance em que os trabalhadores protagonizam uma gesta colectiva, antes, pelo contrário, estamos perante uma história cujas unidades narrativas se circunscrevem a acontecimentos que se iniciam e terminam na esfera de acção das personagens, apresentando-se assim o romance como um mosaico de “experiências vividas”, usando palavras de Edmund Husserl, ou, se preferirem uma expressão mais tardia do filósofo alemão, como o mundo da vida (Lebenswelt) que sublinha melhor o carácter unitário e sintético do romance como uma totalidade.
Dessas experiências vividas destacam-se as de Lurdes e Manolo pelo peso psicológico e social que sobre ambos a sociedade fez pender e também a de João Comprido, oriundo de uma família muito pobre em que o pai alcoólico batia frequentemente na mulher até que o filho lhe fez frente e ele o expulsou de casa, lançando-o numa vida de extrema precariedade até ao dia em que Manolo o contrata e posteriormente convida para fazer par com ele na prática do contrabando.
Tendo em conta que o contrabando é um dos eixos fundamentais da história é necessário ressaltar o papel de Zé Fino que um dia traz dois miúdos, filhos de pais comunistas assassinados, para esconder em Portugal e que a GNR prendeu e torturou barbaramente num posto do Alandroal sem que Fino tivesse confessado o acto de que era acusado. E também a relevância do trabalho de Manuel Perleques que do seu moinho prestava auxílio aos homens do contrabando.
Acima destes ergue-se a figura de Cobra, o maestro de toda aquela actividade ilegal, que nos surge como um personagem destinador da vida e da morte. É ele que subtrai Manolo aos horrores da Guerra Civil e o traz para Portugal e para uma vida feliz ainda que mais tarde arriscada e percorrida, em alguns momentos, por uma soturna melancolia. É ele que ao confiar Manolo a Lurdes transforma os dias pardacentos que ela vivia em dias luminosos cujo acme é a concretização, anos mais tarde, de um secreto e sofrido amor por Manolo que nela foi crescendo quando o “filho adotivo” atingiu a juventude. Mas é o Cobra que também destina Manolo à morte ao pedir-lhe para passar para Espanha alguns portugueses fugidos à repressão da ditadura, sendo portanto ele que, indiretamente, leva Lurdes ao suicídio.
Será oportuno lembrar que como contraponto à disforia que perpassa pelas páginas deste romance apenas nos surgem alguns, poucos, momentos de euforia. Aqueles em que os intervenientes gozam os sabores de comedorias dignas do arroz de favas queirosiano e os que os fregueses da taberna da Lurdes desfrutavam nos quentes convívios em que o vinho oferecia aos bebedores tarde jubilosas. O vinho tem, aliás, uma presença quase tão constante como nos poemas de Omar Khayyam, ganhando mesmo um tonalidade, de alguma modo, evangélica. Cito Frei Bento Domingues:”Nas Bodas de Caná, a transformação de água em vinho é considerada o primeiro signo da novidade absoluta do Novo Testamento: Cristo surge como aquele que não pode com a tristeza do mundo. Mesmo nas situações mais desesperadas é preciso tudo fazer para que haja uma embriaguez de alegria.”
Direi, a terminar, que não sendo este um romance de teor revolucionário dele transcorre, de um modo implícito, a condenação da exploração dos trabalhadores, a opressão política, a violência das forças repressivas e ainda nele encontramos gente, no cairel do medo, a levantar-se do chão. Confesso que no fim da sua leitura me ficou a ressoar sob os olhos uma toada de amor e de morte, por isso algo me diz que nas margens do Guadiana se ouve o choro inúmero das águas lamentando a morte de dois amantes.
02/12/2018