O CHÃO DA EUROPA E A GUERRA NA UCRÂNIA

A Europa, melhor a UE, vive um momento em que está a perder o chão. Atravessa várias crises que se transformam numa crise provavelmente existencial.

O trio dirigente Costa, Von Der Leyen, Kaya Kallas, apoiados no renascido militarismo alemão e nas aspirações de grandes potências do Reino Unido e da França não conseguem ver para além da guerra na Ucrânia como modo de tentar ultrapassar a crise que cada um deles vive, agravada sobretudo pela da Alemanha e pela dimensão da revolta juvenil em França. São situações altamente complexas, pois cada um deles está a braços com as prováveis vitórias da extrema-direita nas eleições que irão ter lugar.

O prolongamento da guerra na Ucrânia poderia, na cabeça destes dirigentes, constitui um ilusório fator de coesão destes países face à invasão russa da Ucrânia. No entanto, como se está a verificar com o passar do tempo a continuação da guerra deixou de ter o apoio inicial das populações, além de que existe a recusa de um envolvimento direto. Ou seja, nas opiniões públicas europeias, designadamente juvenil, é dominante a recusa para a participação com tropas. Ninguém quer ir morrer na Ucrânia. Os que louvam o hedonismo querem que os filhos dos outros morram por eles.

Avizinhando-se as eleições presidenciais em França e mais tarde as legislativas na Alemanha o cenário de vitórias da extrema-direita é real. As eleições no Reino Unido, num quadro em que a irlanda, o país de Gales e a Escócia querem integrar o UE e com o avanço da extrema-direita criam um verdadeiro quebra-cabeças aparentemente sem solução. Noutros países, a extrema-direita continuará a manter ou reforçar posições.

Por outra banda, a guerra está a permitir ao complexo militar industrial obter grandes encomendas de armamento, o que acarreta investimentos fabulosas nestas indústrias. Também aqui o prolongamento da guerra é benéfico para encher os cofres das grandes empresas que produzem ou compram armas. Simultaneamente as populações são atingidas pela austeridade que sustenta a indústria da guerra de um lado e do outro do Atlântico.

Na Ucrânia, se a guerra parasse, os atuais dirigentes ucranianos, mergulhados até aos cabelos em esquemas de corrupção que atingem o gabinete de Zelenski e o próprio Procurador-Geral enfrentariam um desfecho inglório.

A Rússia, não obstante as baixas e o desgaste da guerra, não assinará nenhum acordo que não passe pela renúncia da Ucrânia a integrar a NATO e a estabelecer linhas de segurança. A geopolítica é o que é e a Rússia afinal não é uma estação de gasolina com armas nucleares, como afirmava o democrata Obama, para quem a segurança dos EUA estava não só nas fronteiras, mas em todo o mundo, até no Paquistão, país onde o sherif assistiu à liquidação de Bin Laden, escondendo o próprio cadáver do seu ex-agente.

Todos querem a continuação da guerra. Zelenski e a sua entourage já não tem outra opção. A Rússia se recuasse, Putin cairia. A UE precisa da guerra para o núcleo central se manter coeso, esquecendo que normalmente é pela periferia que acontecem as implosões. E talvez o seu triunvirato delirante espere que a Terra deixe de girar em volta do sol.

Quando abertamente o chanceler Merz fala de entrar em guerra com a Rússia até 2030, sabendo-se que a esmagadora maioria da juventude rechaça essa hipótese, mostra o grau de obstinação de um homem em queda no seu país e que encontraria nesta loucura uma espécie de roleta russa para se agarrar ao poder na vã esperança de prolongar a vida política depois do seu “êxito” na Goldman Sachs, esquecendo que só na cartilha neoliberal um bom CEO é um bom chanceler.

A UE perdeu-se no seu labirinto neoliberal e militarista. Merz e Ursula jogam noutro campeonato. Sem combustíveis baratos e sem alavancas para voltar a levantar voo têm como projeto os despojos da Rússia se ela se concretizar. Assumem todas as dores de Trump na China, em Israel, no Irão, no Ártico, no Indo-Pacífico, überal. De mão beijada deram-lhe a segurança da Gronelândia. Todos no mesmo barco; o que será diferente é a hierarquia. Por isso, quando a senhora Ursula quer falar com Trump, desloca-se à Irlanda a um campo de golfe do bilionário.

No chão da Europa sopra um vento de guerra que tudo faz definhar. Nós podemos pará-lo, se quisermos.

O chão da Europa e a guerra na Ucrânia | Opinião | PÚBLICO

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