Cristiano partiu em direção à TERRA-DO-SIM

O mais espantoso que a vida encerra talvez seja o imprevisto muitas vezes a raiar o absurdo.

Kafka criou o caixeiro-viajante, Gregor Samsa, “Metamorfose”, que na sua profissão ajudava a sustentar a família. Um dia acordou transformado num inseto e assim morreu abandonado pela família.

Cristiano Ronaldo acordou ontem, a meio da tarde, transformado num outro ser pelo abismal pesadelo de não aceitar a essência de uma equipa de futebol, é o treinador que faz a equipa.

Que me lembre Gregor não tinha um sonho na vida para além de ser caixeiro-viajante. Cristiano tinha um – ser titular e marcar o golo mil. Acordou aterrado pelo pesadelo de poder não ter garantido o lugar e quiçá não marcar o milésimo golo. No fundo, o amor que tinha à seleção era talvez inconscientemente uma invenção para chegar à tal meta ou sabe-se lá a capacidade de cada um para inventar possibilidades. Ou até para se manter jovem que deixara de ser. Uma espécie de mentirinha que todos os dias o embalava.

Superou metas até a da sua origem de menino pobre de que o seu atual exibicionismo de novo-muito-rico é  marca bem relevante. Tudo superou. Porém, quando na sua cabeça deixou o lugar de jogador e arquitetou o de treinador, habituado a que o seu poder decidisse, esbarrou na realidade que não aceitava.

Chamou o seu avião, cheio de espelhos feitos de uma matéria que reflete o passado e foi em direção da Terra-do-Sim, onde nunca há Nãos. A verdade é que mesmo naquela Terra, ele vai acordar todos os dias. Talvez com o seu dinheiro possa renovar os espelhos que lhe mentem, coitados sem saber.

Gregor tinha um emprego. Perdeu-o ao transformar-se num inseto. Morreu só. Um caixeiro-viajante não pode ser uma barata, salvo Mark Rutte.

Cristiano no seu avião a caminho da Terra-do-Sim pode um dia vir a encontrar a imensa cidade do ABSURDO, onde não se pode viver o presente com os olhos do passado.

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