HOMENAGEM A CARLOS BRITO

Carlos Brito, inteligente e comprometido com a causa do socialismo, tinha forçosamente de questionar os motivos da implosão da URSS e das causas da crise dos partidos comunistas. Não podia fazer de conta, por preguiça revolucionária e ideológica, que o mal estava simplesmente, no que se considerou na dogmática marxista-leninista, no afastamento dos princípios.

Os princípios não podem constituir o fim de uma ideologia, pois esse viés encobre que o fim último do socialismo é erigir uma sociedade democrática, desenvolvida, culta, cuidadora do ambiente, de igualdade entre os cidadãos, apontando a um mundo melhor e muito mais humano e justo para com todos, inclusive com a Natureza.

Quando os princípios se afastam da realidade e se constituem como refúgio de uma elite justificativa da manutenção do poder dessa mesma elite, então e sempre a coragem deve vir ao de cima e questionar o que se tornou incapacidade para superar o percurso da estrada, mesmo que se tenha de ir às fundações, caso estas não resistam ao tempo, como acontece com tudo na vida, salvo os que aceitam os dogmas salvíficos, e mesmo alguns desses têm, por vezes, revelado grande capacidade de compreender o miolo do tempo, veja-se a Igreja.

Foi com este animus que Brito entendeu que tinha chegado a hora da renovação do ideal comunista porque é certo e seguro que tudo o que é obra humana está sempre em movimento, em modo de superação de contradições e, quem não vê e corre contra o tempo das mudanças, acaba em desastre.

Interessa, pois, para além de tudo o mais (e não é pouco) saber quem estava certo: se os seus camaradas que puniram C.Brito ou todos quantos defenderam a renovação do ideal comunista.  

Para responder à questão controversa basta olhar para a perda de influência social e eleitoral do PCP. Os que argumentavam que a direção de Carlos Carvalhas conduzia o partido para irrelevância e, portanto, tinha de se acabar com o desvio liquidacionista, o resultado está à vista – o PCP está perdendo influência a cada dia, seja no plano social, seja no plano eleitoral. Infelizmente corre o risco da irrelevância.

Os factos são factos. Só a direção do PCP está satisfeita, todo o universo comunista vive tempos de angústia por não ver saídas face a um discurso repetitivo e seco.

Sucumbe assim toda a “argumentação” que consistia em defender que a récita da enunciação de princípios mal-amanhados significaria que o PCP voltaria à influência substantiva nacional e local reconhecida urbi et orbe.

O giro dogmático, verbalista e obreirista do PCP aí está a confirmar que o desafio de Carlos de Brito, independentemente dos termos e do modo, era totalmente certo e absolutamente inultrapassável para os comunistas portugueses.

Na hora de dizer adeus a um combatente corajoso, lúcido e responsável, é também hora de levantar bem alto o ideal pelo qual milhões de seres humanos deram de si o melhor que tinham.

 Como sempre nestes caminhos velhos de tanto homem e mulher, em nome do ideal, que outros conspurcaram, obrigando as gerações vindouras a distinguir entre o ideal e o oportunismo mais ou menos violento e criminoso.

 O ser humano nunca será santo, nem um poço de virtudes por mais atrativo que seja o ideal.

Ao fedorento ideal da meritocracia deve erguer-se o da fraternidade dos humanos, o da prevalência dos bens da comunidade, o do socialismo em detrimento do capitalismo, onde cada vez mais conta os interesses dos plutocratas, uma ínfima minoria da humanidade sobre todos os restantes.

Carlos Brito foi um comunista que acreditou tanto no seu partido que dentro da sua bondade nunca imaginou que no resto dos seus anos não tivesse lugar nas suas fileiras.

Merece nesta hora de despedida a homenagem mais sincera de todos quantos lutam, sejam quais forem as ideias, por um mundo melhor. Toda a vida de Carlos Brito foi o cumprimento de um dever de dar o melhor de si pela causa pública, pelos interesses democráticos e populares. Essa vida merece o apreço de todos os democratas. Honrou o ideal que abraçou. Bem-hajas Carlos!

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