O HOMEM QUE SE FOI EMBORA DE BELÉM

O homem que se foi embora de Belém deixa atrás de si um rasto do combustível que o alimentou – a vacuidade e a dissimulação.

Entrou em Belém depois de sair uma figura autopromovida a professor-de-rigor que estava acima da política, mas fazendo da política o seu modo de vida a partir dos anos 80 do século passado.

O homem que vivia sorrateiro e delirantemente devoto da teoria da intocabilidade do mercado, devido às suas irritações, tornou-se numa figura que estava a mais, mesmo para os seus próximos.

O que agora abandonou o palacete, e lá chegou por via de umas quantas conversas de tretas num país com uma taxa de basbaquismo elevadíssima, tornou-se numa espécie de monarca sem reino, mas com muita ginjinha e sandes de qualquer-coisa-que-por-aí-haja.

Viveu dos media e para os media, encontrando nesse percurso quem lê títulos, jornais com muitos cadernos, e vê televisão porque se a desligar tem de ir ao psiquiatra para poder dormir por não aguentar tanta solidão.

Conseguiu fazer, no país dos basbaques, de um mergulho, combinado com jornalistas, um acontecimento de primeira grandeza, à falta de substância. E de uma ida ao Barreiro beber uma ginjinha uma peripécia fora do alcance de qualquer mortal na medida em que quem vai ao Barreiro beber uma ginjinha só pode ser um ente de uma nova estirpe a caminho do cruzamento entre o humano e o que está para além do que se considera sideral, rezavam os cronistas.

O homem que foi embora, apesar de todas as selfies, embora sendo professor de Direito Constitucional, entendeu que a Constituição era o que ele entendesse avulsamente.

O homem que abandonou o sítio onde saltitou por todo o lado, não viverá sem qualquer coisa que o faça sentir que afinal não sendo o que foi, ainda pode, como sempre, imaginar um mundo à roda da sua cabeça.

O homem que saiu de Belém vai ter de andar por aí cheio de congeminações ou a inventar menus, como é de seu timbre.

O que foi durante dez anos o íncola de Belém e que os media tecem loas e mais loas pode ir parar à televisão para continuar a aparecer, mas sendo o que sempre foi, um militante do PSD, está fora do universo do novo PSD. Parece já não ter espaço entre a versão do ex-Presidente da Spinumviva, atual primeiro-ministro, e o circunspecto Pedro Passos Coelho.

O homem que durante dez anos transformou a Presidência da República numa casa a roçar o popularucho para se «aproximar» de um tal povo que ele tem na cabeça como uma espécie em nome da qual presidiu, vai a caminho de casa como o normal cidadão que sai do trabalho e precisa de escorraçar o silêncio com o ruído televisivo.

Quis fazer dos seus consulados um estrídulo de entrada e saídas, de amores e desamores – que o diga Costa – e de fé na sua velha direita por onde sempre andou, mesmo quando ia à Festa do Avante, para elidir a presunção inabalável do seu direitismo mais seleto que o da múmia.

Sai sem brilho, o que não quer dizer que o não coloquem em píncaros da chamada proximidade, que correspondia a um afastamento real nesta Lusitânia desesperada por nada acontecer.

Talvez continue à espera da passagem do ano para ver se ainda há jornalistas que se interessem pelas suas braçadas na baía de Cascais.

Tem fama de beijoqueiro, mas não sendo o que foi durante dez anos, e sem as televisões atrás de si, já ninguém vai na conversa dos beijos cheios de ocasião, uma espécie de moléstia que ele criou para esvaziar a Presidência, substituindo esta «proximidade» pelo afastamento dos reais problemas, tendo deixado cair o apregoado programa contra os portugueses que dormem na rua. Talvez possa vir a fazer uma parceria com a senhora Jonet, a do Banco alimentar, sempre os bancos.

Se alguém se quiser lembrar do que fez, tirando as ameaças abertas quando lhe pediam cabeças por ocasião dos incêndios (não foi só Herodes) ninguém se lembrará de nada que não seja um fait-divers e de um parágrafo para cumprir o sonho que diz ter tido.

Já foi. Lá estão os retratos a prová-lo.

O homem que se foi embora de Belém | Opinião | PÚBLICO

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