O meu avô vinha de bicicleta

Nestes dias vidrados de tristeza silenciosa (como a dos prisioneiros) que tudo oprime, aqui estamos bem longe uns dos outros, à espera de melhores dias.

Bastou um vírus para mostrar quão frágil são as bases em que assenta o nosso modo de vida. O intruso fechou o mundo e mudou as regras da vida. Até os abraços e os beijos nos interditou.

 Com inteira razão, o Papa Francisco escreveu na Encíclica “Fratelli Tutti, no parágrafo 32 … A pandemia do Covid-19 despertou, por algum tempo, a consciência de sermos uma comunidade mundial que viaja no mesmo barco … e que ninguém se salva sozinho…” E no final do parágrafo 19 “… Não nos damos conta de que isolar os idosos e abandoná-los à responsabilidade de outros sem um acompanhamento familiar adequado e amoroso mutila e empobrece …”

Dizem certas personagens que a sociedade não se pode dar ao luxo de ser perturbada pelo apoio da família aos idosos; normalmente os que, como bons fariseus, acham que o melhor do mundo é a família, mas os custos laborais prevalecem. A divindade máxima, o Santo Mercado, implacável, manda e, portanto, obedecerás ao teu novo Senhor, o Rei dos Reis, o Imperturbável. Que interessa a dignidade humana se não dá lucro, descarte-se.

Amorim, a aldeia onde nasci, estava há mais de sessenta anos, ligada à Póvoa de Varzim por uma reta. À entrada da aldeia havia uma subida para quem vinha da Póvoa. O meu avô também era barbeiro e ia certos dias cortar cabelo para aqueles lados. Quando eu achava que era a hora da sua vinda, ficava de cima da janela à espreita de o ver desmontar da bicicleta, pois custava-lhe fazer a subida. Então eu descia e quando ele chegava a tossir abraçava-me e às vezes dava-me bolachas que trazia guardadas num lenço tabaqueiro. Sentava-se num banco de pedra encostado a um muro. Abraçava-me. E seguia para Terroso, a aldeia vizinha do lado Norte.

 Esta estranha forma de amar, a dos avós, é única. Insuperável. Insubstituível. Sem dúvida que certos cuidados de hoje não existiam, mas aquela luz nos olhos dos avós, mesmo a ralhar, é, quem sabe, a melhor de todas para incendiar o afeto nas e das crianças.

Desgraçadamente a pandemia ataca com mais vigor os mais idosos e os que padecem de enfermidades crónicas graves.

Em abono da verdade, uma sociedade que arruma os velhos em prateleiras está a transmitir este desumano ensinamento, o ser descartável e que se afasta para não perturbar.

Voltando ao barco em que todos viajamos como referia Francisco II, a pandemia também veio colocar em cima da mesa com todo o vigor a importância decisiva de serviços públicos robustos para acorrer aos que aqui navegam, e bom seria que a barca não se dirigisse para o inferno de todos contra todos, como é timbre do individualismo.

O SNS é quem está a ser capaz de proteger a nossa comunidade. À entrada dos hospitais não há nenhum segurança a perguntar a quem chega se tem seguro, se é de esquerda ou de direita, se é ateu ou muçulmano, se é cigano ou sírio, de sangue azul ou popular. Entra e é tratado. Esta é a irmandade que o SNS assegura, seja aos que o apoiaram, aos que votaram contra, ou até aos que se esgadanham para o liquidar. Trata-se de um passo gigantesco no nosso caminho civilizacional, o de tratar com dignidade e de acordo com os avanços das ciências médicas.

Nestes dias vidrados de tristeza silenciosa que oprime tudo e todos haja a coragem de reconhecer que não foi a parte da sociedade que vive do lucro e para o lucro (que também faz falta, diga-se) que se colocou ao lado da Humanidade, exceção para as farmacêuticas que apostaram no negócio das vacinas e conseguiram alcançá-las.

O vírus veio mostrar-nos que todos somos seres humanos iguais na nossa humanidade e que viajamos no mesmo barco. Se fizermos a viagem irmanados na justiça, na dignidade, na solidariedade e com amor talvez tenhamos um futuro melhor, novos e velhos. Talvez.

               https://www.publico.pt/2020/12/22/opiniao/cronica/avo-vinha-bicicleta-1943714

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