A FALTA DO ABRAÇO

A pandemia caiu sobre a Humanidade confinando-a preventivamente nos diversos espaços onde cada indivíduo mora.

Quando a pós-modernidade enaltecia o hedonismo, a supremacia do individualismo, eis o choque para nos fazer regressar à nossa humanidade; sem os outros não nos salvaríamos. Somos seres ligados entre todos, cada vez mais, de Hubei a Nova Iorque, de Milão a Tóquio. Só em comunidade os indivíduos podem sobreviver e viver.

A juventude é a mais poderosa força de renovação humana, a que garante a continuidade da vida humana. Neste momento histórico, em que parecia estar de costas para o mundo, ensimesmada, entretida nas mil aplicações tecnológicas vale a pena reconhecer que o problema é outro.

Não são os mais velhos que são mais solidários. A rebeldia dos jovens das décadas de 60/70 estava marcada por um conjunto de circunstâncias únicas. Qualquer jovem que tivesse frequentado o liceu tinha um emprego; um licenciado era um privilegiado, não lhe faltavam boas saídas profissionais. Dispunham do futuro.

No mundo atual cada jovem para ter acesso a uma vida minimamente digna esmifra-se entre diversos ganchos, o que o favorece a atomização. A Juventude não optou pelo em consciência pelo egoísmo. As circunstâncias são estas. E elas moldam as mentes enquanto os quadros dessa normalidade se reproduzirem.

A vida esbarrou nesta crise. Não dependemos dos mercados para sobreviver. As nossas vidas dependem em última instância dos que trabalham na saúde. Pelo que nos é dado ver os enfermeiros são jovens e têm mais de um emprego para poder viver.

É curioso que, até há muito pouco tempo, muitos dos que hoje aplaudem os médicos e enfermeiros olhavam-nos com desconfiança pelas suas reivindicações. Alguns, poucos, é verdade, insultavam e chegavam a agredir enfermeiros e médicos.

São assim os humanos. Sem as leis da comunidade seriam predadores. Açambarcadores. Bichos.

Este é um tempo para enfrentarmos uma prova de fogo. Estamos todos fechados, novos e velhos, sofrendo, em solidão. Claro que podemos contactar uns com os outros e as novas tecnologias facilitam, mas um post é um post. Um abraço é um abraço. A falta que nos faz. Talvez o vírus venha a contribuir para dar ao simples abraço a sua dimensão original. Dois corpos unidos, quentes.

https://www.publico.pt/2020/04/07/opiniao/opiniao/abraco-falta-faz-1911384

 

 

 

Um pensamento sobre “A FALTA DO ABRAÇO

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