Um novo partido único europeu?

Os media noticiaram que Pedro Espírito Santo, responsável pela campanha eleitoral do PS para o Parlamento europeu e assessor de Marta Temido no Parlamento Europeu, deixou o gabinete da eurodeputada e foi para o do Comissário Europeu das Parcerias Internacionais, o checo Josef Síkela que integra o grupo do P.P.E., da direita, onde estão filiados o PPD e o CDS.

P. Espírito Santo, segundo o jornal Público, mantém-se filiado no PS. Ainda segundo o mesmo jornal, M. Temido não fez comentários sobre a notícia.

O P.P.E. é o maior grupo parlamentar do P.E. Ursula von der Leyen também é deste grupo, assim como Roberta Metsola. Kaja Kallas do grupo Liberal é a Alta Representante para os Negócios Estrangeiros e Política de Segurança. António Costa, Presidente do Conselho Europeu, é do grupo dos socialistas. Ele e Kallas e Marta Kos, Comissária para o Alargamento, inauguraram o seu mandato indo a Kiev reconfirmar o apoio a Zelenski e Cª.

Resulta daqui que na UE os partidos têm uma espécie de base comum – o neoliberalismo, o cimento unificador, sendo a austeridade e o défice de 3% a pedra de toque do edifício desta “União”, assim como o servilismo perante os EUA, consubstanciado num novo belicismo europeu.

Nesta base, o salto com um bom paraquedas de Espírito Santo do PS para o grupo do P.P.E. é normal. São todos muito parecidos e as ideias que contam são as do partido único que está ao comando da UE e é composto pelos grupos dos partidos das várias direitas (mais ou menos clássica), dos socialistas e mais uns tantos relativamente indefinidos, mas definidos no tocante a este tipo de europeísmo. A viagem de Costa a Kiev é um exemplo perfeito da política do partido único no que toca à política de paz e segurança europeias e de defesa da corrida às armas.

A este nível, a política da UE consegue fazer do continente europeu uma terra onde os europeus não contam, sem qualquer rasgo que assegure aos povos e aos países do continente um plano de paz através de negociações que impeça a continuação da guerra, cujo o preço em vidas é pago com o sangue dos ucranianos e em despesas com o dinheiro empregue nos EUA pelos dirigentes deste partido único da UE na compra de armamento e na energia cinco vezes mais cara do que a da Rússia.

Durante décadas as democracias populares do Leste europeu foram atacadas por serem regimes de partido único. Os seus dirigentes respondiam que naqueles países havia muitos outros partidos, o que era verdade, não o sendo, pois eram todos iguais ou parecidos. Na UE também há muitos, mas como se vê até podem trocar de grupo político e manter a filiação que dá tudo igual neste sistema de partido único ou de partidos muito similares.

A notícia diz respeito a Espírito Santo, amanhã será de outro vindo de outro partido para outro. Assim vai a política europeia: saber quem paga melhor ou mais e sempre ao serviço do Grande Partido e dos partidos do outro lado do Atlântico, mesmo quando todos os sinais aconselhavam outra política. A UE é, na versão dos seus dirigentes, um grupo alargado de burocratas com graves distorções oftalmológicas, mas famintos de poder e de rendimentos superlativos.

Zelenski- que las ay, ay

Zelensky já não sabe o que há dizer face ao descalabro em que se encontram as FFAA ucranianas e os seus apoiantes da OTAN.

Pode-se compreender a sua difícil situação. Embarcou no comboio de Biden/Boris Johnson(lembram-se) Stoltenberg/ Ursula von Der Leyen/Macron/Scholtz e tutti quanti.

Trocou os interesses profundos da Ucrânia pelas promessas de um futuro na partilha da Rússia. Foi o que se está a ver.

Vem agora candidamente propor a paz pela adesão da Ucrânia à OTAN. Foi exatamente o projeto de integração na OTAN que levou à guerra. Goste-se ou não de Putin, ele foi sempre claro, afirmando em múltiplas ocasiões que não admitiria a OTAN na soleira da Rússia.

Os EUA, a Ucrânia, a UE e Cª sabiam que a Rússia iria para a guerra. Queriam todos a guerra com objetivos diferentes.

O Ocidente apontava ao desmembramento da Rússia com o fim do regime de Putin e cortando a Rússia da Europa. As sanções nunca vistas e o sangue ucraniano derrotariam a Rússia, como nos garantiram até à náusea.

A Rússia porque era não só a forma de impedir ficar com uma fronteira com os 32 países da OTAN, mas também porque assumiria um novo papel  no sistema de segurança europeia e mundial, abrindo os portões do multilateralismo e o início do fim da hegemonia de Washington no mundo.

A última proposta de Zelenski é algo, no mínimo absurda, sem sentido. Quando a Rússia se encontra em boa posição para vencer, propor como solução para o conflito o que deu origem à guerra, é de quem já não sabe o que há de dizer. Zelenski já não tem ideia acerca de como sair do labirinto onde se enfiou, acreditando que o Império lhe conferiria um novo poder no Centro e no Leste europeu. Que las ay, ay, pero…

As duas camaradas

Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, felicitada por Roberta Metsola, presidente do Parlamento Europeu Yves Herman / REUTERS

As duas mulheres não escondem o que lhes vai na alma. Não há máscaras. Os semblantes descarregam as emoções do triunfo.

A linguagem corporal das duas damas revela-lhes a natureza da alma. Os sorrisos são idênticos; os quatros braços é como se fossem articulados por um único cérebro.

Os postos a que foram alcandoradas já não lhes fogem, dizem-nos elas. Disso estão seguras. A espera deve ter sido terrível.

  A dona Ursula perdeu a compostura de aristocrata que ordenou a execução do urso que matou um dos seus cavalos. Abraça Metsola com toda a carga sentimental humana que esconde oficialmente, salvo quando cai nos braços de Zelenski.

Ninguém as elegeu. Ocupam os cargos por negociação de bastidores entre famílias políticas que dominam a União Europeia. Como excelentes e pérfidas burocratas receberam o prémio pelo qual tanto pelearam. Ufa, exclamam.

Irmanadas no belicismo europeu, sentem confiança na estrada que escolheram e pela qual se guiam. Distantes da vida dos cidadãos europeus já podem ir para os seus gabinetes congeminar os benefícios da indústria da Defesa em detrimento das políticas sociais. O que lhes vai na alma jorrou e vê-se. A alegria delas é muito provavelmente a tristeza das mulheres dos países da União Europeia. E dos homens. É triste tanta satisfação incontida.

A guerra na Ucrânia e o caminho para a paz negociando

Uma das maiores mentiras da História foi engendrada nos EUA com apoio do Reino Unido, da Espanha e dos mandarins de Lisboa que ofereceram os Açores para a grande vergonha nacional e o embuste mundial.

George W. Bush, republicano, Tony Blair, trabalhista da Internacional Socialista, Aznar, conservador do PP espanhol, Durão barroso e Paulo Portas da defunta AD, agora ressuscitada, mentiram ao mundo, bem sabendo que mentiam. O importante era destruir o Iraque, tirando Saddam Hussein do poder. Ilegalmente. São responsáveis por centenas de milhar de mortos e feridos, mais de 500 000. Se houvesse justiça, já tinham sido julgados. Estes valores ditos ocidentais tresandam a petróleo.

Agora, depois da invasão russa da Ucrânia, os EUA, a OTAN e a UE, em coligação declararam que a única saída era derrotar estrategicamente a Rússia. Nem podiam ouvir falar de negociações. Era para eles como o diabo ouvir falar da cruz. Mais – amaldiçoavam quem falasse de paz. O Papa era difícil amaldiçoá-lo, mas Erdogan, Lula, Ramaposa, Modri, XiJiping, entre outros, foram-no pela Santíssima Trindade capitaneada pelo incapaz Biden, a estrepitosa capitã alemã, Ursula von Der Leyen e o inenarrável Stoltenberg, o jardineiro espanhol e até António Costa.

Nesta senda, houve até um ministro do anterior governo que se prestou ao ridículo de garantir que se Putin viesse de férias a Portugal seria detido.  

Neste tempo de delírio juraram a pés juntos que a Rússia tinha de ser derrotada e sê-lo-ia.

Era o tempo das constantes invenções a preços de tostões. Algumas: Os russos tinham espingardas do tempo da 1ª guerra mundial, mas não tinham botas que chegassem; passavam fome ou comiam carne de cão; iam ficar sem frigoríficos para terem chips para os mísseis; Putin tinha cancro terminal; faltavam-lhe mísseis e drones…

Damas e cavalheiros ufanos desfilavam nos media dando-nos conta que a derrota da Rússia chegaria em breve. Todos os quadrantes ideológicos das direitas, socialistas, social-democratas, conservadores, liberais e outros que tais numa Santa Aliança asseguravam a derrota da Rússia. Até um novo belicismo feminista se criou com as senhoras primeiro-ministro da Dinamarca e da Finlândia, a MNE da Alemanha Annalena Baerbock, a nova Alto Representante para os Negócios Estrangeiros Kaya Kalla, a maltesa Roberta Metsola, Presidente do Parlamento Europeu, e naturalmente a candidata frustrada a Secretário-Geral da NATO, a senhora Ursula.

Junte-se-lhes Nuno Melo e o senhor Almirante Gouveia e Melo que embora almirante se prepara para outros voos e a mistura é de relevo; aliás o senhor almirante andou a ver debaixo do gelo, na Gronelândia, por onde andavam os russos a tiritar de frio..

Às dezenas, nos ecrãs das várias televisões, dia e noite, comentadores com ar sisudo declaravam as estonteantes vitórias da NATO/EUA/UE. Se se recordam, à Ucrânia só faltavam os tanques XPTO, depois os F16, depois os mísseis de longo alcance e depois as minas antipessoais e depois a entrada das botas da NATO na Ucrânia e depois, depois.

Quem não alinhasse nestas verdades indesmentíveis por serem ocidentais e cheiinhas de valores estava ao serviço do grande Diabo de Moscovo.

O Ocidente é o novo Notário dos valores liberais, a quem devemos tudo o que somos e o que não somos. Graças ao Ocidente, Benjamin Netanyahu pode continuar o edificante genocídio dos palestinianos na Faixa de Gaza e depois na Cisjordânia. Já antes a NATO bombardeara a Líbia para se apoderar dos valores do petróleo. Mais tarde contra o direito internacional forjaram a independência do Kosovo para enfraquecer a Sérvia e para tanto levaram a cabo 78 dias de bombardeamentos altamente misericordiosos como são os da NATO com urânio empobrecido.

É este Ocidente que, sem o menor pingo de vergonha, que prega o belicismo como forma de vida. Isto porque vêm aí os russos: eles com um território de17 milhões de quilómetros quadrados desde o Ártico ao Extremo-Oriente com os seus 145 milhões de habitantes não têm território que chegue…Não lhes chega. A Rússia precisa da Finlândia a quem Lenine por referendum reconheceu a independência. E querem chegar a Lisboa e tomar este quadradinho. E a Malta. E a Alemanha. Tudo com 145 milhões…contra mais de 500 milhões…é obra…só o demónio.

E andam as pessoas pelas ruas num estado de inércia, passivas, anestesiadas a olharem os heróis da bola e os famosos, e os governantes a pregarem os cortes sociais para empobrecer as populações e a engordarem os donos das fábricas da morte.

E se repararmos os povos e as próprias elites fecharam-se de tal modo que não há qualquer movimento a defender a paz na Ucrânia. Tudo zombie. A fazer de conta que não é connosco, mas é.

Se repararem a narrativa destrambelhada da derrota da Rússia mantém-se. Quase ninguém fala de paz.  A paz é uma subversão da doutrina oficial ocidental.

E, no entanto, o mundo, o tal resto, move-se e manda o Ocidente às urtigas e compra e vende com a Rússia o que lhe interessa. Até a UE já compra petróleo e gás à Rússia.

As mais de 17 mil sanções aplicadas à Rússia deixaram a Alemanha, o Reino Unido, a França e a UE em recessão e a impor aos povos a inflação e cortes no nível de vida.

Os dirigentes da UE afirmam-se de cócoras diante dos EUA. Já desistiram da Europa. Já abandonaram o sonho de termos na Europa uma política de paz e cooperação dos Urais ao cabo Raso, sem que nenhum país se sinta ameaçado, pois a segurança de todos depende da segurança de cada um.

A Europa está em decadência. Fecha os olhos ao carniceiro de Telavive e atira fogo para o conflito na Ucrânia. Até a insignificância do Reino Unido se agiganta com um nível de vida a recuar para os anos 50 do século passado, tal o caminho neoliberal dos Tories e dos Trabalhistas. O RU é hoje irrelevante. Vive da City e dos pechisbeques em torno da família real e irreal.

O neoliberalismo precisa de matar a esperança no nosso futuro comum. Tatcher negava a existência das sociedades. Só havia indivíduos, dizia. O narcisismo e a passividade passaram a ser uma estranha forma de vida. Falta a faísca que trará o sentido da vida aos indivíduos e às sociedades onde estamos irmanados. A guerra mata. A paz salva. A guerra dá triliões aos donos da morte. A paz traz cultura e felicidade.  Pela paz é o caminho.

Trump, Musk e as gorduras

Elon Musk, o homem mais rico do mundo, segundo a revista Forbes, recebeu do desinteressado Trump o prémio pelo apoio misericordioso à sua eleição.

Foi agora indicado para promover o corte nas despesas da Administração Pública devido às suas gorduras. Entra no capoeiro o maior negociante de aviários do mundo para ficar com as galinhas só para ele. Desinteressadamente. Musk detesta gorduras, daí a sua conta ser tão magra que está à espera de mais cortes para colonizar Marte a bem da comunidade marciana que o aguarda impaciente.

O seu desinteresse pelo “patriótico” apoio a Trump foi tão grande que as ações da Tesla subiram 50%..

Pelo mundo fora milhões morrem à míngua, mas há quem morra de fartura…o corte nas gorduras pode ser fatal.

EUA, DEMOCRACIA OU PLUTOCRACIA?

As eleições presidenciais ganhas por Donald Trump merecem uma reflexão mais aprofundada do que a ridicularia do alarido a roçar o servilismo em torno da chamada maior democracia do mundo. Horas e dias de emissão, engalanadas com os epítetos descabidos, a propósito do ato eleitoral.

É necessário encontrar as explicações para fazer luz sobre o grau de degenerescência a que chegou o sistema político dos EUA, no sentido de que os candidatos presidenciais revelavam sinais altamente comprometedores da sua idoneidade: Biden, um zombie, perdido entre os seus homens e suas mulheres sem as faculdades mentais exigidas para o cargo, ficando mais claro que existe um piloto automático no governo do país; Trump, um fanfarrão multibilionário que encara a democracia como um negócio imobiliário para dar big money aos donos do money e que, ao que tudo indica, tornou o Partido Republicano num Partido de trumpistas.

Biden, movendo-se numa redoma para esconder a sua incapacidade mental, teve de largar o encargo por total ineptidão. Descobriram uma candidata que era um espelho da Presidência de Biden, sem rasgo e que passou o tempo a responder às provocações de Trump, onde ele é imbatível.

O sistema dos EUA parece ter chegado a um ponto de esgotamento – já só é capaz de reproduzir personagens como Trump/Biden/Kamala. Será que não dá mais? Kamala representava a continuidade de uma política de afastamento da realidade vivida pelas populações. A economia estava bem, mas as pessoas não sentiam, antes pelo contrário, viviam pior.

 Trump é figura de um multimilionário ignorante, boçal, apreciado numa parte da América, a do Big Money. E que soube cativar uma considerável parte dos EUA que nele se aceitam rever, mesmo que a contragosto nalguns setores. Trump foi direto ao assunto, dar melhor vida aos norte-americanos, independentemente da demagogia.

Sem os milhares de milhões dos donativos aos candidatos não haveria a tal “democracia” a encher os ecrãs de todo o mundo à custa de publicidade paga. Voltamos à velha Atenas, ao governo dos plutocratas. Basta atentar que no dia a seguir às eleições Elon Musk aumentou a sua fortuna em 26 500milhões de dólares e os dez mais ricos em 64 000 milhões de acordo como Le Huffpost .

Os EUA são, neste momento, na essência do sistema, uma plutocracia, um governo dos multibilionários que governam para os super-ricos. Aliás, só chega a Presidente quem for imensamente rico e apoiado pelos muito ricos.

De acordo com um estudo publicado neste jornal Os EUA em números | Infografia | PÚBLICO, vale a pena ter presente que há 36 800 milhões de pobres, 1 808 100 presos(o maior número no mundo), não há serviço nacional de saúde, 1% da população detém 26% da riqueza total, na Defesa gastam mais que os 9 países que se lhe seguem por ordem decrescente. Têm em percentagem menos alunos até ao 12ºano que Portugal. A dívida pública dos EUA é de 34,62 triliões de dólares. É o país mais endividado do mundo.

Os EUA são um país em crise, a qual é escondida através do facto do dólar ser uma moeda de reserva e de pagamento no mundo. No dia em que o deixar de ser entram em bancarrota.

Trump representa para uma parte considerável dos EUA a possibilidade de sair da degradação em que se encontra em termos económicos e sociais. A Administração Biden/Harris foi tão má que os norte-americanos deitaram para trás das costas os quatros anos desastrosos de Trump.  Preferiram eleger um homem com um cadastro tenebroso, que orientou uma sublevação contra vitória de Biden, que se vangloria de ordenar a deportação de milhões de imigrantes e de defender a utilização das FFAA contra o que ele chama de inimigo interno. Sejamos claros: os norte-americanos conheciam Trump e deram-lhe a vitória com uma percentagem maior que há 8 anos.

Trump aparece como escape para a perda de poder de atração do país. Pretende ressuscitar o que está morto e enterrado. Os EUA estão em crise em quase todos os domínios. Que produzem hoje os EUA? Que indústrias lidera? A sua indústria perdeu competitividade. Resta-lhe a Wall Street, o mundo da economia de casino, os multibilionários que são cada vez mais ricos e os trabalhadores e a classe média cada vez mais afundados. Vamos ver se a UE continua a sua submissão aos EUA com um político desta estirpe.

O mundo vai enfrentar um homem a quem os norte-americanos deram um poder invulgar: maioria no voto popular e no Senado. Junte-se-lhe a maioria no Supremo Tribunal Federal, o que dá arrepios. Mas atenção, antes dele, outros, como ele, um pouco por todo o mundo, chegaram ao poder e apesar do sofrimento causado acabaram por ser derrotados. Há sofrimentos que se não desejavam, é verdade, mas há sempre uma parte da Humanidade lúcida. Todos os dias o sol nasce, mesmo com Trump.

https://www.publico.pt/2024/11/13/opiniao/opiniao/eua-democracia-plutocracia-2111626

A minha cadeira e os crepúsculos

Esta cadeira acompanha-me desde Coimbra,1968. Foi raptada no Moçambique, café, cujo dono, o Sr. Fontes, afirmava com a devida autoridade que atribuíra o nome de Moçambique ao café por ser a capital de Angola.

Desde o Bairro Sousa Pinto, na mui nobre e leal República Ninho dos Matulões à Estrada de Benfica nunca mais nos largámos. Tratou-se de um caso sério de amor. Agora acompanha-me em Capelins.

Tem um assento ideal para contemplar a planície e os crepúsculos. Ali fica ela e eu. Só que, entretanto, reparei que não era só eu a olhar e admirar o que via.

António Damásio confirmou nos seus interessantíssimos livros que os animais têm emoções.

Ora eu confirmei que a minha cadeira não sendo um animal, aferra-se aos crepúsculos e já não passa sem eles.

Já não sou só eu que sentado nela vejo o sol ir-se. Ela também. Fica inquieta quando chega a hora e eu não a puxo do lado do forno para a abertura do alpendre. Inquieta, pois. Saltita e encosta-se levemente quando por ela passo.

Pensava eu que os meus crepúsculos, sentado na cadeira eram apenas meus, mas não; são também dela.

 Devo dizer que viveu sempre comigo nos quartos que me calharam enquanto estudante. Depois como os quartos não eram só meus, sei que a magoei, colocando-a numa parte da casa em que diariamente não tínhamos de falar.

Depois veio Capelins e tudo mudou. Hoje foi ela que se arrastou para fora do alpendre para ver o que ela acha a que tem direito – o crepúsculo.

Pinto da Costa e o “Azul até ao fim”

Desde que me conheço fui sempre portista. Seguramente por influência de meu pai, portista dos quatro costados. Felizmente, o FCP tem-me dado mais alegrias do que tristezas, mas faz-me sofrer até que assegure a vitória.

Conheci PC nos anos oitenta, quando alguns portistas de Lisboa com ele se encontravam no hotel Altis, onde se hospedava a equipa de futebol do FCP.

Surpreendeu-me pela inteligência, cultura e ironia. Era desconcertante. Confesso que muitos anos mais tarde não gostei nada do corte que o acompanhava. O homem isolara-se dentro dos “indefetíveis” fiéis que o rodeavam na expectativa de serem premiados pela fidelidade ao líder. É assim a natureza humana, se não for contrariada.

Uma coisa é certa: PC deu ao Porto o que ninguém conseguirá dar e só esse facto merece a gratidão de todos os portistas. O resto resolve-se democraticamente. Além disso, o reconhecimento desta realidade não significa toda a realidade. Há sempre na realidade várias realidades. Vamos ao livro.

“Azul até ao fim” é o último livro de Jorge Nuno Pinto da Costa. Lê-se bem. Mérito do autor. Trata-se de um livro de Memórias que se inicia no dia 8 de setembro de 2021 com a comunicação a Pinto da Costa que padece de cancro na próstata.

Ao longo de Diário, o autor vai colocando o leitor nos eixos que moveram a obra publicada: o FCPorto que é o seu destino como lhe prognosticou sua mãe em 1982; a sua religiosidade, designadamente a adoração pela Virgem Maria; a família, incluindo a sua jovem esposa Cláudia Campo; os amigos.

PC conta vários episódios em que sobressai a traços fortes a ideia permanente de se sentir feliz, mesmo no meio da doença ou do cansaço extremo, pelo facto da sua liderança levar a felicidade a dezenas e dezenas de milhares de portistas. Por outro lado, repete que sentia o grande carinho e simpatia que os adeptos que por ele nutriam. São muitos os apontamentos a dar nota deste binómio….” Senti que estou no vosso coração. Quero que saibam que os tenho no meu…”

PC sentiu necessidade de afirmar categoricamente que não se recandidataria e de assim trazer à luz do dia a sua ideia de abandonar a Presidência, nomeadamente em março de 2023. Não explica, em momento algum, a razão que o levou a recandidatar-se, passando por cima dessa decisão..

Na memória do Natal de 2022 abre um pouco o véu da sua nova decisão, invocando um eventual desígnio divino “Deus pensa que a minha missão neste mundo ainda não terminou…Talvez Ele ainda precise de mim para a luta difícil de ajudar os sem-abrigo a encontrar um lugar divino para viver!”

E não dá qualquer justificação para uma derrota tão esmagadora no quadro de uma narrativa em que entre PC e os associados portistas era só carinho e amizade, salvo a casa do Porto de Espinho de alguns funcionários do clube que qualifica de traidores…

PC sugere que a sua derrota resultou de uma certa aliança de Villas-Boas com inimigos do Porto que poderão colocar em causa o sucesso desportivo do clube. É, aliás, a esta luz que analisa a Assembleia-Geral em que para ele os únicos culpados foram os apoiantes de VB e do próprio VB por ter ido à A-G falar acompanhado por um agente da PSP, sportinguista, um tal Dr. Agulhas, o que turvou o espírito dos associado. ”Isto foi considerado uma provocação, até porque o agente da PSP empurrou violentamente um associado que invetivou André Villas-Boas”  Regista, entretanto, que VB foi para Lisboa, não participou na A-G. ”Estava lançado o rastilho” segundo PC.

PC encarnou de tal modo a ideia de que era o único capaz de prosseguir a defesa do sucesso do FCP, que não consegue encaixar e processar a pesadíssima derrota sofrida nas eleições.

A necessidade de se socorrer da forma como era recebido no Dragão, nas casas do Porto, mostram um homem desiludido que inverte o rumo dos factos para se sentir reconfortado.

A religiosidade de PC está presente de princípio ao fim, de tal modo que chega a considerar que o FCP tem a proteção da Virgem Maria e fala de D. António Francisco, ex-Bispo do Porto e do Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, como testemunhos dos seus predicados religiosos.

A família é outro pilar do livro. A invocação do amor aos progenitores com mais incidência no da mãe, aos irmãos, aos filhos, aos netos, ao novo amor Cláudia Campo, depois de tantos falhanços afetivos preenchem um largo número de páginas.

São interessantes as páginas que dá a conhecer o modo como PC conheceu numa agência do Santander, Cláudia Campo, funcionária do banco, e como desenvolveu a simpatia até ao anunciado amor que os levou ao casamento

PC elogia os verdadeiros amigos e a amizade pura. Só que ao seu amigo incondicional Sérgio Conceição aplica farpas das mais violentas deste “Azul até ao fim”, responsabilizando-o pelo seu mau feitio, pelas declarações ingratas no fim do jogo Inter-Porto, pelas desastrosas contratações de José Luís, Nakajima e ainda pela imposição de SC da cláusula de contratação de 5 milhões que o levou Francisco Conceição para o Ajax…Mimos de quem tanto prega amizade e carinho.

A visão que ele tem dele próprio e do amor que lhe têm justifica a lista dos que não quer no seu funeral porque “os que o amam vão sentir-se infelizes” com essa presença. Não é por ele, é pelos que o amam…

Vale a pena meditar o que faz homens e mulheres inteligentes, uma vez no poder, sentirem-se os únicos capazes de defender os interesses da instituição que representam. Mais grave – perdem o pé e reconstroem uma outra realidade.

PC foi indiscutivelmente um dirigente desportivo acima de todos os outros com quem conviveu. Homem culto, inteligente e ladino como pôde transformar-se num homem totalmente fora do sentir dos portistas? O que lhe diziam os que o rodeavam? O que ele queria ouvir?

O livro demonstra claramente que PC é um homem preso na sua solidão, incapaz de compreender que os portistas lhe estão gratos ao que fez pelo clube, mas acham que é preciso outro rumo e, por isso, escolheram democraticamente Villas-Boas. A amargura de Pinto da Costa é mesmo amarga, daí estas Memórias…

Banho de alegria e de simpatia

A grande questão: pode viver-se sem música? Quando os nossos antepassados imitavam os pássaros, o vento, o mar, procuravam algo para além do que lhes dava o quotidiano. Quando zunia na alma a força do trovão e a beleza do crepúsculo e o suspiro do rouxinol ficou escrito que se não podia viver sem música.

 O homo sapiens inventou um complemento para a eternidade. Os gregos talvez tenham sido os primeiros a elevar a música para patamares a roçar o divino.

Tudo muda quando ouvimos música. A alma voa dentro de nós. Dizem que não há quem a apanhe. Tanto no ritmo, quanto na doçura. Tanto no amor, quanto na resistência.

Ein Klein nacht music de Chopin. Quem não ri ou chora por dentro de si? E as cantatas de Bach, quem não gostaria de se transcender para as compreender a cantata,  Ich ruf dir Herr Jesu, que  compôs Bach e nós ouvimo-la como se a vida já fosse um Céu…e é para quem bem ouvir.

A Gulbenkian, entre tantas e tantas virtudes, organiza concertos com músicas do mundo, sempre de elevadíssima qualidade.

No sábado, foi a vez de chegar ao palco uma mulher cuja voz  oi raptada aos deuses da música e desceu à “ Mother Nature” ( como ela canta) para a espalhar pelos humanos. Afinal a voz iguala o fogo no confronto com os deuses.

O calor contagiante, a intensidade do ritmo e da voz, o poder da percussão e da bateria, a magia do baixo elétrico e os teclados a ziguezaguearem atrás da voz e do ritmo fazendo-nos ficar de bem com a vida. O milagre de Angélique Kidjo.

Veio para cantar e a cantar disse-nos que só se é livre se todos formos livres e que todos somos humanos, se bem que nem sempre pareça, acrescento eu.

A poderosa alegria que da garganta de Angélique ressoa é a voz de África e a nossa vontade de sermos livres verdadeiramente. Ouvindo “Sahara” a nossa mente viaja ondulante com as caravanas e bebe a água dos oásis, como num sonho.

Angélique Kidjo cantou com Lura “Carnaval de São Vicente”. E dançamos porque todos se puseram a dançar. E dançámos contra estes tempos de tristeza. Angélique trouxe-nos um banho de alegria.  Bem-haja. A alegria faz sempre falta, mas há alturas que faz mais falta. Ela explicou na letra de Joy.