MARK RUTTE

Um caixeiro cangalheiro é só um caixeiro cangalheiro

O senhor Mark Rutte é um respeitável cidadão neerlandês. Foi primeiro-ministro e não é conhecido se andava de bicicleta nas ruas que circundam os canais de Amesterdão. Nem se passava pelas ruas onde há mulheres expostas que, de acordo com os bons princípios morais luteranos, um dia serão comidas pelas chamas do inferno depois de serem consumidas pelos seus frequentadores nas zonas red light.

São os bons negócios dos bons burgueses que tranquilamente nas suas moradias cheias de rendinhas nas janelas aguardam a engorda das contas e a chamada final para o Céu dos homens de bem.

Mark Rutte é o Secretário-Geral da OTAN, seu funcionário e corre os quatro cantos do mundo a propagandear o que o patrão da OTAN, os EUA, manda.

Não exerce qualquer cargo cuja representação provenha de uma legitimidade eleitoral. É um cargo para o qual os EUA têm o poder da decisão.

É uma espécie de caixeiro-viajante que vai de Helsínquia a Lisboa e a Istambul a vender gastos em armamento. Como se sabe, a União Europeia não tem capacidade para produzir em grande escala armamento, como se está vendo na guerra da Ucrânia. O senhor Rutte, a mando do senhor Donal Trump, anda de capital em capital a tentar impor a compra aos EUA do armamento que a UE não produz para MAGA( Make America Great Again), ameaçando deixar a UE sem chapéu.

Convém ter presente que em tempos houve um outro neerlandês que descobriu que os portugueses gastavam demais por causa das despesas em copos e mulheres. Esta costela luterana do pecado com as mulheres e copos rescende a pura hipocrisia.

O senhor Rutte chegou a Lisboa no início da semana. Foi recebido pelas mais altas instâncias do Reino onde reina o Presidente Marcelo e o senhor Montenegro. Bom caixeiro logo apontou o dedo aos bombardeiros e aos submarinos russos, coisa que o senhor almirante Melo, quase Presidente, já avistara por baixo da Gronelândia e dera o alarme do que mais importante que os gastos sociais eram os gastos com a compra de armamento.

O senhor Rutte fez-me lembrar a gloriosa luta dos estudantes da Academia de Coimbra em 1969 contra a bruta, cruel e estúpida ditadura fascista. A certa altura os Ministros da Educação e do Interior resolveram divulgar uma nota chamando a atenção para os agitadores estrangeiros que a soldo de Moscovo dirigiam a rebelião…E logo a poderosa imaginação juvenil divulgou os agentes escondidos nas sargetas das ruas a dirigir a rebelião.

Sessenta e cinco anos depois veio a Lisboa o senhor Rutte, bom caixeiro de venda de armas, anunciar a passagem dos bombardeiros e dos submarinos imaginários, nunca os verdadeiros cargueiros com armas para o carniceiro de Gaza, e assim carregar no aumento de compras aos EUA.

Curiosamente Montenegro respondeu ao cangalheiro da indústria da morte que as despesas sociais não poderiam ser cortadas ao contrário do que dissera o senhor almirante. Se for para cumprir, Portugal não se deixará governar por um homem que nada mais é que um alto funcionário da OTAN. Merecendo Montenegro uma chapelada.

OS SORRISOS NO MEIO DA DESGRAÇA EM GAZA

 Um rapto é, em termos políticos, um ato de terror. A ocupação de um território por outro país, contra o direito internacional que reconhece a independência do território é terrorismo de Estado, o mais grave terrorismo.

Desde 1967 que Israel ocupa a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste contra a vontade do povo palestiniano e contra a Resolução 242 das Nações Unidas.

Para manter a ocupação os governos israelitas oprimem e reprimem violentamente todo o povo palestiniano: crianças, mulheres, idosos, homens e jovens. Já assassinaram mais de cinquenta mil palestinianos. Têm nas prisões mais de vinte mil presos. Expulsam os donos das terras e estabelecem novos colonatos contra a lei internacional que os considera ilegais.

Todas as tentativas, levadas a cabo pela OLP para resolver por via pacífica o fim da ocupação, resultaram em novas medidas repressivas, não deixando aos palestinianos outra via que não seja a das forças das armas contra as armas dos ocupantes.

A um patriota palestiniano nada mais resta para ver a sua terra livre que pegar em armas para acabar com a ocupação depois de esgotarem todas as ouras vias.

O Hamas, grupo islamista, menos radical do que o grupo que o Ocidente colocou no poder na Síria, é a face da resistência dos palestinianos.

Netanyahu prometeu exterminar o Hamas devido ao ataque de 7 de novembro que levou à morte de cerca de mil e quatrocentos israelitas.

Desde então até hoje mais de 50 000 palestinianos (a maioria crianças, mulheres e idosos) foram mortos pelos bombardeamentos brutais que ultrapassam em termos de explosivos o poder das duas bombas atómicas de Nagasaki e Hiroshima. Gaza está destruída. 90% da população não tem comida, nem habitação, nem cuidados médicos devido à política de terror de Netanyahu.

Hoje foram libertadas mais 4 reféns e 200 presos palestinianos, alguns condenados a prisão perpétuas, outros, crianças, por atirarem pedras aos soldados da ocupação.

Há pouco mais de 2000 anos eram os judeus que se revoltavam contra a ocupação romana da região. Os romanos acabaram por largar a região, não obstante a mais cruel repressão contra os revoltosos. A crucificação de Cristo enquadra-se num cenário mais largo de choque entre os daquele território e os ocupantes, mesmo que, como sempre, os ocupantes recrutassem entre os ocupados quem os apoiasse.

Israel é claramente uma criação ocidental e conta com o seu apoio, sem o qual não podiam manter a ocupação. Os EUA, a União Europeia, mesmo depois da política genocida de Netanyahu continuam a apoiar o seu governo.

Netanyahu prometeu exterminar o Hamas e teve o apoio ocidental, incluindo de António Costa.

O “invencível” exército israelita afinal não foi capaz de exterminar o Hamas que se apresentou ao mundo na libertação dos reféns como uma organização disciplinada, bem equipada e capaz de fazer cumprir os acordos do cessar-fogo, o que muito incomodou a narrativa ocidental quanto à capacidade daquela força de resistência.

O incómodo era tão gritante que não aguentou o sorriso das militares israelitas raptadas e agora libertadas. Segundo os preconceitos da narrativa ocidental, uma espécie de realidade paralela, aquelas mulheres nunca poderiam sorrir, mesmo quando passaram a ver a luz do dia, o que não deviam ver desde 7 de outubro de 2023.

Houve mesmo quem dissesse na elucubração raivosa pelo espetáculo tremendo montado pelo Hamas que elas foram obrigadas a sorrir…  Como? Faria parte do acordo que tinham de sorrir?

Durante séculos as mulheres foram proibidas de rir e os homens não o deviam fazer. Só os tolos se riam. O tolo na Barca do Inferno de Gil Vicente ri perdidamente. A Igreja argumentava que não havia imagens de Cristo a rir. …”o homem medieval tentou evitar juízos de aprovação do riso, pelo que que  risus se converteu em subrisus , que, sendo basicamente rir às escondidas assumiu a forma mais elegante e discreta de acolher e partilhar a alegria – de sonrisar”… (in O Riso , Teorização. Leituras. Realizações, Coord, Elisa Nunes Esteves, Isabel Barros Dias, Margarida Reffóios, pag-38, Caleidoscópio).

Daqui o sorriso, ou seja, o riso discreto. Só no século XX com a descoberta da rádio e da TV as mulheres ganharam o direito ao sorriso e a rir, mesmo com avisos de que se não deviam rir por qualquer coisa.

Ora bem, as reféns, muito humanamente não puderem conter a alegria de se verem livres e sorriram como é lógico, racional e, a todas as luzes, evidente. Pois, houve quem descobrisse contradição entre a postura corporal e os sorrisos. Há nestes enxames de empregados dos donos pequenos netaniauzinhos que só esperam poder evidenciá-los para se mostrarem dignos do soldo que recebem.

Aqueles sorrisos não eram mais nem menos que a certeza de que a luz que estavam a ver as iluminava e já não padeceriam no escuro, pois elas faziam parte como militares da guerra que opõe o exército de ocupação à lutas dos ocupados.

Ali se libertavam quatro. Noutro lugar 200 palestinianos. Alguns menores por atirarem pedras a tanques.

No entanto, o mundo comunicacional tinha de olhar para um helicóptero que supostamente transportava as reféns. Quase não se falou da ocupação e dos 50 000 mortos palestinianos desde 7 de outubro.

Nas reportagens não havia truque que escondesse esta verdade crua e nua: goste-se ou não o Hamas ao cabo deste tempo de bombardeamentos genocidas ganhou mais força na população. É esse o azedume de muita gente que não quer dar as notícias que são a notícia, a força do Hamas.

ONDE JÁ CHEGOU ANTÓNIO COSTA

António Costa, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal, declarou em 2023/12/11, que defende em relação ao conflito do Médio-Oriente a existência de dois Estados …com o Hamas devidamente exterminado…in “Observador”

Com o recente cessar-fogo e libertação de 3 reféns israelitas e 90 prisioneiros palestinianos, maioritariamente mulheres, crianças e idosos, agora na qualidade de Presidente do Conselho Europeu, António Costa saudou a libertação dos reféns e pediu pausas humanitárias a fim de fazer chegar ajuda humanitária porque a Alemanha se opõe ao termo cessar-fogo.

Voltou a frisar, na esteira da Sra. Úrsula que Israel tem direito a defender-se, o que já causou a morte a cerca de pelo menos 47 000 palestinianos e à imposição de um bloqueio total a Gaza.

António Costa não é um principiante, tem uma rodagem impressionante. Conhece o poder das palavras. Sabe que a palavra devidamente tem uma medida que não deixa margem para dúvida quanto ao extermínio. Os nazis queriam exterminar os judeus. Pelos vistos, Costa acha normal exterminar o Hamas para se encontrar a tal solução.

Só que o Hamas não foi exterminado apesar de todo o horror e dos brutais bombardeamentos a que os palestinianos foram sujeitos. O Hamas, goste-se ou não, representa em Gaza a resistência do povo palestiniano.

Não são os EUA e a UE quem escolhe os representantes palestinianos, nem estes os representantes israelitas.

Costa tem um grande cargo, mas atenção quem vestir um fato que se ajeita ao corpo e se sente bem significa que aquilo que diz e aquilo que faz é o que fica para a História.

E ficará para a História por ter optado pelo lado errado. No Médio-Oriente quem viola a cada segundo o direito internacional é Israel. O ocupante é Israel. As Resoluções da ONU são claras.

Costa saudou e bem a libertação dos reféns, mas não teve uma palavra de saudação para as dezenas de milhar de palestinianos presos por lutarem pela sua pátria livre da ocupação.  Não são os ocupantes que escolhem os “libertadores”. São obra de cada povo.

Dá pena ver A. Costa cumprir este papel. Se calhar ainda não reparou que o cessar-fogo nada tem a ver com a UE, sendo o conflito nas costas da Europa. A UE afunda-se na sua irrelevância. Que tristeza.

NÃO SERÁ MAIS UM SINAL DE DECADÊNCIA?

Quando Trump se sentar na Sala Oval, na Casa Branca, em Washington, terá à sua mesa o homem mais rico do mundo e um conjunto de plutocratas cujas virtudes conhecidas são a habilidade para enriquecer como nunca visto. Só Musk vale1,5 PIB de Portugal.

No seu conjunto apostaram muitas centenas de milhões em donativos a Trump. Já recuperaram. Musk, após a vitória de Trump, somou à sua fortuna 120.000 milhões de dólares a qual atinge 450.000 milhões de dólares; Mark Zuckerberg 90.000 milhões e Jeff Bezos 67.000 milhões.

Trump , na Florida, no Mar-a-Largo, estendeu tapetes vermelhos para receber os seus novos governantes, distinguindo-se de entre eles o multibilionário Musk cuja missão é, no plano interno, entregar aos privados o que irá tirar aos serviços públicos e, no plano externo, animar a extrema-direita a roçar o fascismo. Tenta com o seu Himalaia de dinheiro e com os seus donativos replicar Trumps por todo o mundo.  

Os CEO da Goldman Sachs, Ford, General Motors, Ted Sarandos da Netflix, Sam Atman da AI, Tim Cook da Apple o do Tik-Tok por lá passaram a cumprir o seu dever de dar milhões para a grande festa da entronização de Trump e, em troca, receber aquilo a que têm direito nesta nova versão do capitalismo pós crise 2008.

 Michel de Montaigne, nos Ensaios II, na edição E-Primatur/Letras Errantes, pag 24, regista que na Antiguidade …os habitantes de Paros enviados para reformar os Milésios…ao visitarem a ilha, tomaram nota das terras mais bem cultivadas e das casas de campo mais bem geridas; depois de registarem o nome dos seus proprietários nomearam-nos seus governadores e magistrados… Foi um desastre. Quem zela pelos seus assuntos privados não é seguro que o faça pelos assuntos públicos. Pela simples razão da natural contradição entre os interesses privados dos plutocratas e o interesse público de todos os cidadãos.

Trata-se de um governo que visa obter a eliminação de quaisquer entraves a sua atividade predadora. É de prever choques entre o velho capitalismo que sempre esteve ligado aos governos e estes novos capitalistas que no primeiro mandato de Trump se apresentaram fora da sua influência e agora mudaram de campo.

Musk continua a dirigir a Tesla, a SpaceX, a Starlink e a Neuralink e acumula o posto de sanear os serviços da Administração pública, como se não fosse incompatível com os seus interesses nas encomendas do Pentágono e das suas empresas.

Para Trump ser muitíssimo rico é uma marca de excelência e o bastante para lhe entregar importantes setores das atividades estatais desde a saúde a sanitárias, onde Vivek Ramasway, ajudante de Musk no Doge- Departamento de Eficiência governamental, é perito devido à sua fortuna feita nestas áreas.

Nos EUA e talvez pela primeira em toda a História a esmagadora maioria dos novos governantes são escolhidos exclusivamente pelo peso do seu poder económico. Um governo de multibilionários ao seu exclusivo serviço.  Não será mais um sinal de decadência? Não é a democracia o governo do povo, para o povo e pelo povo?

https://www.publico.pt/2025/01/13/opiniao/opiniao/nao-sera-sinal-decadencia-2118628

Peripécias do novo banqueiro Durão Barroso

O novo banqueiro, Presidente Não-Executivo da Goldman Sachs, José Manuel Durão Barroso, veio a público no Expresso de 10/01/2025 opinar sobre o papel da Europa após a eleição de Trump nos EUA.

Em sintonia com o CEO da Goldman Sachs que foi, como muitos outros CEO – General Motors, Ford, Tik-Tok, Apple, Mark Zukerberg, Jeff Bezos- entre tantos outros, a Mar-a-Largo levar as suas doações para a entronização de Trump, o nosso Zé Manel não podia ficar nas encolhas. Se os outros mudaram de campo, pois ala que se faz tarde.

Durão Barroso, cherne de águas profundas e perdigueiro de raça fina, sabe bem o que vale estar alinhado com quem manda.

Já assim foi em 2003 aquando da invasão do Iraque. Solenemente jurou que o Iraque tinha armas de destruição massiva, o que ele sabia ser redondamente falso. Mas levar à morte de meio milhão de iraquianos e à destruição do Iraque não é significativo, nem comparável com a ordem internacional com regras onde se aplicam sanções ao funcionários do Tribunal Penal Internacional por considerar criminoso o carniceiro de Telavive, como a recente aprovação do projeto de lei da Câmara dos Representantes, na quinta-feira passada, como dá notícia o New York Times..

Detenhamo-nos no que veio arengar o novo banqueiro, outrora dirigente do MRPP, defensor que o vento Leste haveria de varrer a burguesia e o PCP de Álvaro Barreirinhas Cunhal, graças ao marxismo-leninismo-maoista. Sim, estamos diante de uma personagem que ora se lança para o fundo dos mares, seguindo o cherne, ora voa para onde os ventos do poder sopram como os da águia imperial.

Então, a Europa tem de ir a correr comprar armas aos EUA para fazer frente à Rússia de Putin, sendo ele o fulano que melhor o conhece…Ele não diz exatamente assim, mas é assim que ele diz, pois, ao alegar que temos de fazer frente à Rússia e aumentar as despesas militares para 4 ou 5 % é claro que a Europa não o pode fazer, restando-lhe, como pretende Trump e Cª, que as comprem ao Pentágono. Mais, seguindo os ditames do velho Império romano defende o banqueiro que se queremos paz temos de nos armar…que como se sabe é a fórmula que nos leva direitinhos para a guerra.

O realinhamento do CEO da Golman Sachs com Trump no tapete vermelho na Florida, em Mar-a-Largo propriedade do multibilionário, que se sublevou contra os resultados eleitorais de há quatro anos e que que proclamou nestas eleições que se não ganhasse haveria um mar de sangue, o ora condenado por fraude fiscal, a propósito do serviço de uma prostituta, não deve ter passado desapercebido a Durão Barroso. Toda a sua carreira o comprova. Ele tem o pedigri dos melhores narizes. Ele sabe “parar”. Sabe cheirar, ver e calcular o salto e o que deve fazer em cada momento.

Este é o momento Trump bem rodeado pelos mais ricos e poderosos do mundo. Se é o momento dos homens que teriam de ter milhares de vidas para gastarem o que têm, na sua lógica o seu momento é agora, sempre na vanguarda.

O novo banqueiro nunca falha. Os EUA vão aplicar novas taxas às exportações europeias e até quiçá lançar uma OPA com traços militares sobre a Gronelândia; é preciso comprar armas aos EUA e partir para o desafio, diz o Zé Manel. Bravo. No fundo, bem no fundo, parece que o problema é mesmo o vento que sopra de Leste, designadamente da China. Já não será a faísca a incendiar a pradaria. Apenas a natural mudança no mundo, sim o Atlântico já não chega para conter o Pacífico. Até lá…em Gaza os mortos são mais de setenta mil, a grande maioria crianças e mulheres. Sim! Em nome dos valores liberais. Amen.

Depois do holandês da troica, dos copos e das mulheres, chegou o das guerras

A decadência também se traduz na incapacidade de reconhecer o rumo que levou a essa situação e consequentemente é causa da incapacidade de alterar esse rumo.

A hegemonia dos EUA já não opera como operava. O que faz o sistema? Manter o rumo por outras vias, como se viu na disputa K.Harris, Biden/Trump. Quer Democratas, quer Republicanos apostam na hegemonia mundial e tudo fazem para a conseguir. O rumo é esse, sendo os métodos diferentes.

No velho continente, apesar da recessão da Alemanha e a crise da França, o eixo da UE,  o rumo assente no militarismo é para manter, bem sabendo os dirigentes europeus que se trata de tornar a UE mais dependente, acarretando perigos que se se concretizarem a Europa será dizimada e aniquilada, enquanto os EUA devido à sua extensão sobreviverão.

Mark Rutte, o Secretário-Geral da NATO, afirmou muito recentemente o seguinte – “…devemo-nos preparar para uma mentalidade de guerra…”  E é curioso que uma tal declaração não suscitou grande recriminação.

A Europa caminha cabisbaixa para a irrelevância e talvez a consciência desse facto a faça navegar para o abismo. Como é possível que ninguém acorde e grite que precisamos mais do que nunca de nos preparar para a paz, o bem supremo de todos os povos e países sem distinção.

Como permitimos este rumo? Que decadência é esta que leva a um holandês ao serviço do Império a proclamar numa Europa cansada de tantas guerras que precisamos de mentalidade de guerra? Como? Então Mark Rutte não se importa que os Países Baixos desapareçam? Quem sobreviverá?

Paralelamente o chefe de todos os super-ricos dos EUA, eleito Presidente dos EUA, proclamou urbi et orbe que o Canadá, a Gronelândia, e o canal do Panamá podem ser objeto de conquista e pilhagem dos EUA se não se comportarem como Trump, Musk e Cª determinarem.

A decadência é exatamente isto: a incapacidade de aceitar os outros tal como são num tempo em que o Império apesar de ameaçar, já não tem o poder de outrora, o que não quer dizer que não seja ainda a potência com mais poder.

O Canadá é um vizinho alinhado com Washington e pertence à NATO, tal como a Dinamarca a quem pertence a Gronelândia. O Panamá é um pequeno país da América Central alinhado com os EUA, desde o rapto de Noriega.

Os EUA, com Trump à frente do país, não conhece os aliados. Se é do interesse do Império engolir este ou aquele, e desde que possa, engole.

Como pode este velho continente, tão cheio de coisas maravilhosas e outras brutais, tão carregado de guerras, tão cheio de sonhos, andar a toque de caixa de um desalmado chefe de orquestra de almas famintas de guerras para alimentar os milhar de milhões dos plutocratas?

Como admitimos que nos digam que precisamos da mentalidade de guerra? Razão, muita razão tinha Ettienne de La Boétie no seu “Discurso sobre a servidão voluntária”, só que o livro é do final do século XVI e nós estamos a entrar no último ano do primeiro quarto do século XXI. É triste, mas não nos tira a força para querendo, abrir, mesmo em tempos de mentalidade de guerra, as avenidas da mentalidade de paz. Que nunca se desista.

NO QUE SE VÊ

Se eu estivesse ali sentado

talvez pensasse no que vejo

como não estou

penso igualmente no que vejo

estar de pé ou sentado

não impede que pense no que vejo

porém, no que eu penso não é bem assim

pois o vazio no banco

é mesmo um vazio

um vazio que se vê

e em que eu penso

No centenário de Mário Soares- em contra-corrente

O centenário de nascimento de Mário Soares (MS) vem ocupando grande espaço mediático repleto de grandes encómios.

Na verdade, MS teve um trajeto que fez dele uma das maiores figuras do século XX.  O seu posicionamento antifascista durante a ditadura granjeou-lhe uma posição de grande respeito entre os democratas portugueses.

A personagem permite puxar o lustro e estes dias sucedem-se elogios infindáveis. Até lhe chamam o pai da democracia, como se o regime democrático não tivesse sido obra coletiva dos democratas e do povo portugueses.

MS fundou na Alemanha em 1973 o PS cujo programa era claramente anticapitalista, tendo aderido à Internacional Socialista (IS). O PS apresentou-se como um partido claramente de esquerda. É também para esse lado que o foco tem de se virar porque a política tem a sua coerência, ou melhor, deveria ter.

MS, no fim dos anos sessenta, quis jogar com aquilo que na altura certos liberais portugueses chamavam a primavera marcelista. Marcelo Caetano acenou com algumas migalhas para tentar dar alento ao regime moribundo. Até mudou o nome à PIDE, mas ninguém foi na conversa. Nessa altura o regime repetia as eleições totalmente viciadas e os democratas portugueses através da CDE (Comissão Democrática Eleitoral englobando toda a oposição) denunciavam a fraude. MS em Lisboa e num ou outro distrito separou-se da CDE e criou a CEUD para ver se tinha ganhos por tentar uma certa proximidade à tal primavera que se revelou um inverno dos mais rigorosos. A cartada de MS não teve êxito. Em 1973 recuou e a CDE apresentou-se como única frente eleitoral que se recusou a ir a votos, tal era a fraude.

No período da revolução MS dirigiu o PS para o centro e para a direita, o que levou a um sangramento de muitos socialistas que não se reviram na sua política. Encabeçou a luta contra o PCP e a esquerda militar, justificando tal posição e alianças desde Spínola a Carlucci com a defesa da liberdade contra o alegado totalitarismo para onde resvalaria a revolução.

Enquanto primeiro-ministro depois das primeiras eleições legislativas levou para o governo o CDS e mais tarde criou o bloco central com o PPD, hoje PSD. Os seus governos foram um desastre. Congelou o socialismo do programa do PS e descongelou as portas dos donos disto tudo.

Desprezando a defesa do interesse nacional, quando Angola se declarou independente em 11 de novembro de 1975, MS à frente do governo, foi dos últimos governos a reconhecer a independência daquele país, muito depois de países como o Brasil e a Espanha.

Portador de uma ambição desmedida, sublevou-se contra o candidato do Partido Socialista a Presidente da República, um homem impoluto e seu amigo de décadas, Salgado Zenha. Dirão hoje e já o disseram ontem que só ele estava em condições de derrotar Freitas do Amaral. Trata-se de puras suposições impossíveis de demonstração.

Mais tarde, aquando das eleições presidenciais em que o candidato do PS era Manuel Alegre, seu amigo do coração, e tendo a direita Cavaco como candidato, MS de novo se rebelou contra o PS e o seu amigo, quando era necessário tudo fazer para levar Alegre à 2ª volta. Deu uma ajuda preciosa para colocar na Presidência uma personagem da estirpe de Cavaco que veio a recusar a indigitação de António Costa como primeiro-ministro.

Resolveu concorrer como cabeça de lista ao Parlamento Europeu, depois de tantas trapalhadas, na vã expectativa de poder vir a assumir algum cargo na UE que lhe continuasse a dar o destaque com que queria viver politicamente. Um verdadeiro desastre.

É curioso que um dos seus gestos mais nobres e valiosos foi seguramente a sua frontal oposição à invasão do Iraque, a qual raramente é referida nas exaltações de MS. Percebe-se, muitos dos que hoje o elogiam sentir-se-iam muito mal se o referissem. É que embarcaram e defenderam o monumental embuste da existência de armas de destruição massiva no Iraque e causaram a morte de meio milhão de iraquianos.

Os dirigentes do arco governativo encostam-se à figura de MS, invocando o seu europeísmo num momento em que a UE segue a rota dos EUA, sem dar sinais do mínimo de visão estratégica para a guerra na Ucrânia. Aceitam acefalamente as imposições dos euroburocratas ao serviço do neoliberalismo, com a impetuosa von der Leyen como cabeça de cartaz. Dá-lhes jeito a figura de Mário Soares. Vale a pena notar que tudo se passa entre as gentes do arco governativo. O que vem do europeísmo de Bruxelas são medidas de austeridade em contraste com a loucura dos lucros do setor financeiro. Nas ruas não há entusiasmo. Que diria MS à crise das democracias europeias?

https://www.publico.pt/2024/12/11/opiniao/opiniao/centenario-nascmento-mario-soares-contracorrente-2115237