CÁUCASO E MÉDIO ORIENTE A ARDER

O Cáucaso, região historicamente altamente cobiçada, palco de tantas guerras, é a ponte entre a Ásia e a Europa por via terreste. A rota da seda atravessou a região.

Foi palco de invasões e conquistas ao longo da História – gregos, romanos, mongóis, árabes, persas, turcos, russos, sós ou aliados tentaram dominar a região.

Nestas guerras de domínio, as religiões estiveram sempre presentes (paganismo, zoroastrismo, sunitas, chiitas, cristão ortodoxos e arménios), sendo o maior confronto entre cristãos e muçulmanos.

As deportações eram banais nos vários impérios que dominaram o Cáucaso e a URSS não ajudou a sarar feridas, nalguns casos juntou-lhe sal, designadamente com Staline e a deportação de um lado para o outro de povos em troca de paz com os contendores de sempre – russos, soviéticos, turcos e iranianos.

A guerra na Ucrânia ainda tornou o Cáucaso mais central na geopolítica – a proposta da nova rota da seda torna inevitável atravessar a região.

A Rússia pela sua situação geográfica e pela sua História não deixa de ter em conta o envolvimento dos EUA/NATO nestas paragens e, por outro lado, tem dificuldade em manobrar pela guerra que conduz na Ucrânia e pelas suas alianças mais ou menos ambíguas, como são exemplos com o Irão e a Turquia.

A implosão da URSS levou à independência por referêndum da Arménia, Geórgia e Azerbaijão, entre outras Repúblicas. Só que no Azerbaijão manteve-se o famoso enclave de Nagorno-Karabah com população arménia, sendo que esta população criou o seu próprio Estado dentro do Azerbaijão (Artsakh), saído da guerra em 1988 e declarando que o enclave fazia parte da Arménia. Ou seja, a ONU reconhecia o Azerbaijão onde se incluía Nagorno-Karabah, mas este enclave era dirigido pelos arménios. Tal facto deveu-se à ajuda da Rússia em 1988 que conduziu à derrota militar dos azerbaijanos – 30.000 mortos.

Entretanto, o Azerbaijão com muito mais recursos (gás e petróleo) e capacidades tecnológicas e mais população, o triplo da Arménia, em setembro passado esmagou a direção político/militar de Nagorno-Karabah onde pontuavam oligarcas e alguns indivíduos sem escrúpulos.

O Azerbaijão concretizou o seu velho sonho de expulsar do seu território os arménios do enclave de Nagorno-Karabag.

Estive nos dois países neste final de setembro e início de outubro e as campanhas belicistas de um lado e outro eram mais que evidentes. Do lado do Azerbaijão as bandeirolas nos prédios e os recibos das compras continham a frase – Karabah é do Azerbaijão; do lado dos vencidos, placas a manifestarem o apoio ao Artsakh.

Parece ser claro que o governo de Pashinyan (1º ministro da Arménio) tinha consciência da sua impossibilidade de fazer frente ao Azerbaijão. Iniciou uma manobra que consistiu em fazer crer que a esperada derrota arménia resultou da falta do empenho da Rússia em defender os arménios (tradicional aliado da Arménia), aproximando-se dos EUA, realizando exercício militares conjuntos, enviando a esposa a Kiev para apoiar Zelenski e fazendo lançar nos media uma campanha contra a falha da Rússia e que teve o apoio do N.Y. Times e outros grandes jornais ocidentais, em países onde a diáspora arménia é muito significativa (EUA e França). Realça-se a impressionante campanha em torno da adesão da Arménia ao TPI, apesar de um quarto dos votos contra no parlamento arménio.

A eventual mudança de aliado da Arménia trocando a Rússia pelos EUA e França, ou a chantagem e manobrismo, veio trazer à região este novo ator de peso e fazer escalar a tensão entre aquelas duas potências.

Na verdade, a Turquia apoiou a investida azerbaijana que teve outro apoio relevante, Israel. O equilíbrio da região reforçou o peso do Azerbaijão e da Turquia. A Rússia conta com uma certa neutralidade turca na guerra da Ucrânia. É evidente a afirmação turca como potência regional, competindo com o Irão e a própria russa a prazo.

A entrada dos EUA na região a partir da Arménia vai agravar a tensão com a Rússia noutra zona crucial do planeta, será por ali que passará a nova Rota da Seda que entusiasma chineses e russos.

A guerra na Ucrânia tem tendência a alargar os seus limites, este é um perigo muito sério a ter em conta.  

Acrescente-se a tudo isto a guerra no Médio-Oriente, iniciada no sábado passado, e que resulta da ocupação dos territórios palestinianos, colocando-se o Ocidente, neste caso, do lado dos ocupantes israelitas. Independentemente das formas de luta do Hamas, há por parte de Israel o incumprimento da Resolução 242 do Conselho de Segurança aprovada em 1967, por unanimidade, e que reconhece o direito à independência da Palestina nos territórios ocupados depois dessa guerra.

https://www.publico.pt/2023/10/10/opiniao/opiniao/caucaso-medio-oriente-arder-2066182

O ruído na política

O ruído está a tomar conta da luta política. Quase só existe o que faz muito ruido e o que os media noticiam.  Nos partidos que governaram o país nos últimos 48 anos, a imagem que pretendem passar é a de uma oposição permanente entre eles, salvo o compromisso de fidelidade à NATO e à U.E.; os interesses portugueses diluem-se nesta fidelidade.

Por outro lado, é interessante verificar que no plano comunicacional essa chinfrineira esconde por exemplo que a maioria das decisões da AR tem os votos favoráveis do PS e do PSD.

 Como a globalização e as diretivas da U.E. limitaram bastante as possibilidades das opções políticas de fundo, torna-se necessário aumentar o volume dos decibéis para que as gritarias apareçam como diferenças. Neste domínio o Chega já descobriu o filão.  

O espaço de intervenção dos atores políticos obrigou-os a acotovelarem-se para ganhar audiência.

PS e PSD empurram-se mutuamente. O PS empurra o rival para a direita. O PSD o PS para a esquerda. Na sua histeria anticomunista Montenegro acusou o PS, a propósito da Lei da Habitação, de ser comunista. Bastou ler algo que contrariava num ou noutro aspeto os interesses dos senhorios (prédios devolutos) para vir em gritaria acusar o PS de práticas bolchevistas.

À esquerda, PCP e BE fazem de conta que o outro não existe para ver se de facto, deixando de existir, permitirá a um deles sentar-se nas cadeiras vazias. Uma verdadeira lição de sectarismo, tendo em atenção os valores que cada um defende.

No plano interno partidário praticamente ninguém vai por militância a reuniões para participar na definição das orientações dos partidos respetivos. Os partidos tornaram-se máquina de mobilização de fidelíssimos militantes, simpatizantes e interessados.

Para os grandes e verdadeiros problemas: pobreza, saúde, educação, habitação, justiça, desertificação e inverno demográfico, constata-se que a luta se trava através de um inumerável rosário de acusações, sem apresentar programas concretos que mostrem onde estão as diferenças. As diferenças assentam mais na modulação do som do que na substância do género – Costa não tem coragem; eu sou fazedor, diz o outro.

O PS e o PSD afirmam defender o SNS, mas o que é para cada um deles o SNS? Um serviço burocratizado, sem inovação, sem investimento, sem qualidade, destinado aos mais pobres, obrigando os restantes a bater à porta dos seguros de saúde num país em que em cada 3, 1 é pobre? Um serviço para servir os privados? Precisamos de ser esclarecidos e não fintados.

Na habitação vale tudo menos a verdade, como se o ruído acerca do que se anuncia há muitos anos fizesse nascer casas. O PS votou contra a Lei Cristas, mas no governo não lhe mexeu.

No plano da Educação é simplesmente um jogo de esconde-esconde. O governo do PSD por ordem da troica congelou totalitariamente parte descontos dos professores de modo a impedi-los de atingir o topo da carreira, opondo-se o PS na altura a tal decisão. Agora o PS no governo não desfaz a injustiça e o PSD clama conta a atitude do PS que não reverte a sua decisão. Brilhante.

Na Justiça, o Estado ganha dinheiro com as custas judiciais elevadíssimas para impedir os cidadãos de ter acesso a Justiça. Revela incapacidade para ter os tribunais a funcionar em tempo decente é uma marca dos últimos quarenta anos. Pode-se viver sem justiça, mas vive-se muito mal.  Até agora estes partidos têm sido incapazes. E os outros que mobilização fazem contra este charco?

Qual é a dificuldade, a não ser por puro fechamento, dos partidos se entenderem para melhorar abonos de família e certas prestações sociais para os portugueses criem condições para aumentar a natalidade?

Como aceitar que não haja na AR um grupo de trabalho com deputados de todos os partidos para estudar e propor medidas para o país não cair ao mar e para fixar gente no interior do país, ou seja, num raio de 150 quilómetros em vez de 50? Se aumentar a população no “interior”, em breve diminuirá significativamente o número de incêndios e o impacte no clima far-se-á sentir positivamente. Não dá votos e mesmo os que se dizem não eleitoralistas, na hora da verdade investem onde há gente.

Há guerra na Europa. Que se discute em termos da procura de uma solução que salvaguarde a paz? A gritaria no lado ocidental não se distingue da do outro lado, até na censura. O insuportável ruído favorável à guerra continua.

O ruído na política | Opinião | PÚBLICO (publico.pt)

Que Trio nos Liberais

Marques Mendes, Francisco, Assis e Sérgio Sousa Pinto tiraram o bilhete para ir falar aos 150 jovens liberais reunidos no Estádio Nacional tal era a imponência do acontecimento.

Pelos vistos, partindo do que os media deram notícia, estiveram de acordo que há Estado a mais. Nenhum disse onde havia Estado a mais, o que leva a pensar no estado de espírito que tomou posse destes oradores na plateia juvenil.

Marques Mendes desempoeirado, no meio dos liberais, com todo estrondo descobriu algo que até hoje nenhum pensador tinha atingido – é preciso ambição e coragem (não se sabendo se era o seu inconsciente em luta com o subconsciente no que toca a uma certa eleição).

Na verdade, sem coragem e sem ambição o que pode fazer um político? Talvez dedicar-se ao futebol… Mas isso não era para ali chamado. Marques Mendes acrescentou – agir, decidir, reformar. Extraordinário. Nunca até hoje se aglutinara num só homem tanta sapiência, pela simples razão que até hoje ao cabo destes 50 anos ninguém teve coragem, nem agiu, nem decidiu, nem reformou, nem ele, quando foi Ministro e Presidente do PSD.

Mas as pérolas continuaram num arranque notável de profundidade máxima, o país precisa de crescer. Que se saiba até hoje nunca nenhum político o tinha dito, nem o homem que ele substituiu no comentário aos domingos.

Com estes acometimentos que tinha para dizer o dirigente do PS, Francisco Assis, que lhe desse o relevo que justificasse a sua presença no conclave? O socialismo democrático exige prosperidade como na Suécia. Por cá, escrevo eu, 1 em 3 portugueses é pobre, donde socialismo tem de esperar pela maior concentração de riqueza para daqui a várias décadas, então sim a distribuição começar a fazer-se a sério.

Por acaso, a riqueza e prosperidade da Suécia foi feita também com base num setor público forte a seguir à 2ª guerra mundial e na distribuição de rendimentos a partir da riqueza criada pelo setor privado, público, cooperativo e até misto. Foi essa política que levou os escandinavos a serem hoje os países com melhor nível de vida. É dos cânones social-democratas, ou Olof Palm era bolchevista?

Como se sabe em Portugal a imensa maioria da população empobrece e uma ínfima minoria torna-se cada vez mais rica porque exatamente o Estado lhe proporciona essa possibilidade.

Há cerca de 10 anos os bancos foram ao charco e que fez o Estado? Sacou o dinheiro privado dos cidadãos e entregou-o aos banqueiros que hoje se apresentam como grandes gestores. Louvada seja a coragem de Marques Mendes que em relação ao BES garantiu na tv onde comenta que esse banco estava mais que seguro.

Pelos vistos, não interessa a falta de riqueza para a sacar aos cidadãos e entregá-la singelamente àqueles que todos os meses sobem ufanos a taxas de juros para continuarem a guardar os lucros cheios de ambição e coragem.

Deve ser, por isso, que outra alta figura do PS foi tomar a palavra no Encontro de 150 jovens liberais para clamar contra o excesso de Estado, sem que os media apresentem onde há excesso de Estado, eventualmente porque Sousa Pinto achava que ali o que caía bem era o excesso de Estado.

Que bem andam os nossos socialistas e o nosso social-democrata. Qualquer dia pedem para se considerarem simpatizantes, que é um estatuto com ambição e corajoso, pelo menos ficamos a saber de que é feita a ideologia de cada um.

E não se esquecem, quem realmente distribuiu o pouco que cada um tinha para chegar aos 24.000.000.000 foi o Estado para o entregar aos pobrezinhos e sem que a Isabel Jonet se tenha posto em campo a tempo.

Germano de Almeida e os bombardeamentos humanitários no Iraque – o modus operandi

Sempre que uma alta figura ocidental viaja a Kiev ( perdão, salvo se for o nosso Marcelo, por causa dos afetos) acontece algo de extraordinário para justificar o anúncio que Blinken fez de um novo pacote de “ajuda” em armamento de mil milhões de dólares.

A Ucrânia acusa a Rússia de ter bombardeado um mercado em Donetsk e de imediato uma caterva de jornalistas assume essa acusação e leva-a para um bombardeamento de cidadãos ucranianos por um míssil russo.

O míssil é um AGM-88-HARM de fabrico norte-americano e empregue contra sistemas antiaéreos e pelo trajeto veio do lado ucraniano, portanto, não se compreende (ou compreende-se a pressa) na atribuição da autoria.

Como o Sr. Germano de Almeida da sua cadeira de Lisboa sabe quem foi, declarou que Putin já não pode sentar-se com mais Chefes de Estado, assim, tal e qual. Germano dixit…

Não é que o que ele diga tenha grande importância, o que pode ser importante é o modus operandi, o que leva à transmissão de um conclusão antes do facto estar apurado quanto à sua origem.

Seja quem for o autor é indiscutível de que se trata de um crime horrível. Mas, nós vivemos neste mundo e apesar desta engrenagem quase selvática de bombardeamentos constantes acerca do bem e do mal, valerá a pena recordar os inúmeros bombardeamentos de mercados, casamentos, hotéis, culminando com o bombardeamento do abrigo antiaéreo de Amiryiah com duas bombas inteligentes guiadas a laser GBU-27 Payveway, e que matou 400 a 1500 iraquianos que ali se abrigavam.

No liberal e democrático Ocidente tudo se desculpou. Donald Rumsfeld considerou aqueles bombardeamentos humanitários. Tudo explicado.

Acha o senhor jornalista Germano de Almeida que Bush tinha condições para se encontrar com outros Chefes de Estado? Acha que Biden tem condições para se sentar com outros Chefes de Estado sem apresentar as desculpas óbvias? E acha que Bush que ordenou a invasão com base numa mentira do tamanho do mundo deve ir a julgamento? Sozinho ou com Blair, Aznar, Durão Barroso e Paulo Portas?

Fale a sua consciência dorida de um lado.

Cristiano Ronaldo, o circo, a falta de pernas e de decoro

Ronaldo quando ganhava bolas de ouro e competia taco a taco com Messi falava pouco e marcava muito.

Quando a idade não perdoou e na Europa as equipas de relevo não o quiseram, pelo ego de Ronaldo não caber no balneário, teve de ir bater a outra Liga, com treinadores no mesmo registo – sem mercado.

Ronaldo está na Arábia Saudita onde o futebol praticado é, se comparado com a Europa, confrangedor. Basta ver um jogo.  Adormece.

Ronaldo encarna uma daquelas personagens que se fixa a um passado e dele fica prisioneiro. No caso é a mania da grandeza que o impede de viver tranquilo dentro de si. Busca o que não voltará por total impossibilidade, a idade não para.

Um português, capitão da seleção nacional, que para justificar a descida de divisão afirma que a liga saudita está acima da liga portuguesa não está bem de cabeça, talvez que tantas cabeçadas vitoriosas o tenham feito perder a racionalidade. Os tentos tiraram-lhe o tento.

Há uns anos tolerava-se a Ronaldo o narcisismo, vindo de onde vinha e sobretudo porque era uma máquina de marcar golos. Agora corre a justificar-se e para tanto precisa de desqualificar o que tem outa qualificação no plano da qualidade.

A inveja dá cabo da cabeça a qualquer um, mesmo a uma cabeça que ficou mais conhecida por marcar muitos golos do que por pensar. Pelos vistos nem os duzentos milhões de euros por ano o deixam tranquilo; a inveja tem destes males. E ainda é tão novo…  

O lado certo da História, 2ª parte

Quando um governo é eleito a partir de uma maioria obtida por sufrágio universal a sua razão de ser e o seu objetivo é a defesa da Constituição, (a lei das leis) do país, do povo e dos interesses nacionais. No fundo aqueles que ninguém mais defenderá a não ser os portugueses e as instituições que têm essa missão, independentemente de darem cumprimento a esse nobre desígnio.

O facto de participarmos na U.E., na NATO, ou em qualquer outra estrutura internacional, com mais ou menos parceiros, é absolutamente certo que continuam a existir no contexto internacional interesses próprios e únicos de Portugal e dos portugueses.

Os interesses portugueses podem defender-se melhor ou não nesta ou naquela aliança internacional, mas seguramente não se diluem na aliança ou bloco, tanto mais quanto todas as alianças têm quase sempre um parceiro preponderante, sendo até que no caso da NATO os EUA pretendem através dela impor a sua leadership no mundo, dado até hoje todos os governos estadunidenses desde o século vinte o afirmarem como sendo a sua missão.

O caso da Alemanha dentro da U.E. é também claro, atribui a si própria o papel de locomotiva e, aquando da crise financeira que determinou a vinda da troica ficou claro o papel suserano daquele país e os pesados sacrifícios impostos aos portugueses para salvar os bancos e banqueiros, alguns deles mais tarde descobertos como verdadeiros criminosos.

Quando se fala no Ocidente e nos chamados direitos é preciso que se diga que realmente no Ocidente, principalmente na Europa, foram sendo conquistados direitos que deviam ser património da Humanidade.

Mas a História não é linear e está cheia de contradições – na fundação da NATO entrou uma cruel ditadura que reprimia e oprimia o povo português e os povos das colónias. Aí os valores cederam, como cederam em tantas outras ocasiões, basta recordar a criminosa e brutal guerra colonial na Argélia ou na Indochina ou mais recentemente as invasões do Iraque, Líbia, Síria e os bombardeamentos da Jugoslávia.

Certamente que é necessário ter presente todos os interesses em jogo e as possíveis soluções mais ou menos favoráveis a Portugal, mas os interesses de Portugal são os de Portugal não são os da Austrália ou da França ou de outro país qualquer.

Os seus aliados viraram as costas a Portugal na sua luta pela independência de Timor e apoiaram quase até ao fim a guerra colonial.

No conflito militar que opõe a Ucrânia à invasão russa a nossa posição não tem de ser a da NATO ou da U.E., antes a que melhor defenda os portugueses e Portugal, desde que consentânea com o direto internacional, pois ao contrário do que afirmou o PR das Selfies a fronteira de Portugal é com Espanha e não passa de uma posição bacoca de tão vassala ao Big Brother  que envergonha não só quem a proferiu, como a própria imagem de Portugal. Um país com as Forças Armadas depauperadas e cada vez mais ao serviço dos interesses das grandes potências e das suas missões em África e por todo o mundo devia saber prestigiar-se na arena internacional e entre os povos do mundo.

Ao fazer de galo quando não passa, a esse nível, de um garnisé, dá sinais do seu destrambelhamento e até da total incapacidade para ser capaz de condecorar o homem que rivaliza com MRS no ecrã televisivo, nem que seja por causa dos Panama Papers.

Marcelo não defendeu os interesses portugueses nem Portugal, defendeu, isso sim, os interesses do Big Brother na sua cruzada para combater a Rússia até ao último ucraniano.

Em qualquer aliança que estejamos e sejamos obrigados ipso facto a defender o chefe da aliança não serve a Portugal.

O lado certo da História

Este conceito é utilizado muitas vezes para justificar as posições que os Estados, governos, partidos, instituições e cidadãos tomam em relação a opções, conflitos e ideologias.

Estar do lado certo da História significa amiúde estar contra decisões governamentais e até de alianças político/militares.

Na guerra da Rússia contra a Ucrânia, no plano imediato, a tendência é para estar do lado do invadido porque realmente houve uma invasão. Há, no entanto, um conjunto de elementos a ter em conta e que podem obrigar a olhar para o conflito com outra profundidade.

No quadro da segurança dos EUA o mundo esteve à beira da terceira guerra mundial só porque a URSS instalou uns quantos misseis nucleares em Cuba.

Cuba tinha todo direito de instalar no seu país os misseis que quisesse, como a Ucrânia pode aderir a qualquer bloco militar. O problema é que Cuba e a Ucrânia não estão sós no mundo e situam-se onde estão localizadas.

Tal como os EUA sentiram a sua segurança em risco com misseis soviéticos em Cuba, também os russos se sentem inseguros com a NATO logo atrás do seu quintal.

Se o Ocidente já assumiu que os Acordos de Minsk foram apenas um instrumento para fortalecer militarmente a Ucrânia e imaginando que este país mais bem armado, melhor atacaria as regiões russófonas, então é de crer que o objetivo de armar a Ucrânia pudesse ter em vista duas saídas.

A primeira era que a Rússia ficasse nas suas fronteiras a assistir aos ataques militares ucranianos contra as populações russófonas.

A segunda era, por essa tática, a Rússia invadir a Ucrânia, a qual já estava mais bem capacitada para enfrentar o invasor.

Seguramente que o Pentágono e as cúpulas da U.E. tinham bem presente este cenário para o qual trabalharam.

A partir da invasão o mundo assistiu, grosso modo, a três posicionamentos a saber: os que defendiam a invasão, os chamados ocidentais que defendem a derrota militar da Rússia e os que defendem uma paz negociada que significará cedências de parte a parte.

Até hoje, apesar de todas as sanções e os milhões de milhões de ajuda à Ucrânia, ou a guerra escala para um patamar global e não haverá vencedores ou será preciso negociar como bem esclareceu o Papa Francisco.

Estar do lado certo da História é impedir a escalada diabólica e como homo sapiens que somos colocar toda a inteligência ao serviço de uma negociação construtiva e inspiradora de confiança. Fazer as pazes com a Alemanha e convidá-la para a construção europeia foi bem mais difícil. Haja coragem.

Marcelo em Kiev, a velhinha, a visita à trincheira e o resto

Marcelo é um caso único desde que a Humanidade conheceu os embriões dos futuros Estados. Seja nas Ilhas Samoa, Tonga, Belize, Barbados, Trinidad e Tobago, seja onde seja, é ponto assente que se ele lá for, alguém lhe sairá ao caminho para o beijar, tal e qual como o fazem as velhinhas da Baixa da Banheira ou dos Canhestros ou da freguesia que ainda não existe.

Já muito Presidente, Rei, Rainha tinha ido a Kiev, certo, só que …Cale-se de Alexandro e de Trajano
A fama das vitórias que tiveram; Que eu canto o peito ilustre Lusitano… E empunhando o Lusíadas El- Rei dom Marcelo foi de imediato abordado por uma velhinha que lhe espetou três beijos ortodoxos que o deixaram desesperadamente de rastos.

O que houvera sido combinado, era outra coisa mais parecida com a ginjinha no dia primeiro de janeiro no Barreiro. Estávamos à distância de um míssil cruzeiro e não fosse algum russo tecê-las, a ordem foi para evacuar e o Presidente, preocupado com a Lei da Habitação coerciva, responsabilizou os russos pelo sucedido, como é óbvio; tanto mais quanto Putin fornece a casa de António Costa por ocasião do Natal de vodka a fim de contrariar a influência do PCP na ginjinha do Barreiro.

Dom Marcelo, sempre bem acompanhado, incluindo pelo homem que há de dar ordem ao polícia que irá prender Putin, seguiu para o teatro de operações e entrou de fato e gravata azul clara (para os russos não o verem) nas trincheiras de Moschun.

Dizem extasiados os jornalistas que desde Nabucodonosor nenhum Presidente/Rei ou similar tinha entrado numa trincheira; só Alexandre o Magno fizera algo parecido pelo seu amante atingido por um inimigo.

Tal bravura deixou os comandantes militares ucranianos em alerta, imaginando que esse facto podia querer significar que Celito viesse a tirar o lugar a Stoltenberg, o Secretário-Geral da NATO. Os Serviços de Segurança ucranianos pediram satisfações à CIA e zero de resposta.

As fontes bielorrusas já informaram Lukashenko do sucedido. Este ligou a Putin que lhe respondeu: não te preocupes, são coisas para safar o Montenegro. Lukashenko, admirado, questionou-o se ia invadir aquele país. Putin sorriu e exclamou:

– Há uma grande diferença entre um país e o Luís, dorme descansado.

As palavras de Francisco- eloquentes, corajosas e cheias de frescura

A Jornada Mundial da Juventude (JMJ) foi um acontecimento com um significado profundo e de caráter universal. Esse facto não apaga que a Igreja católica, liderada pelo Papa Francisco, viva um momento delicado.

A falta de conhecimentos científicos das sociedades que nos precederam criaram as suas divindades como sendo portadoras e geradoras de mistérios que os humanos não atingiam e cujos poderes podiam socorrer os necessitados quando devidamente solicitados.

As diversas religiões funcionaram muitas vezes como travões ao despertar e à curiosidade humana.  Lançando um olhar pela estrada do tempo para a Igreja Católica as mulheres não tinham alma, o Sol girava em torno da Terra, a Inquisição purificava pelos tormentos do fogo, a fé impunha-se a golpe de espada no Terceiro Mundo. Hoje a discriminação ainda se mantém em relação ao papel das mulheres e aos homossexuais, apesar de Francisco.

A fé religiosa é muitas vezes uma boia para enfrentar a irracionalidade do mundo; uma procura, mesmo que inconsciente, para dar sustento à razão de ser face ao descalabro do mundo – pobreza, fome, crise climática e guerra na Ucrânia.

A anestesia social, o fechamento aos outros, a exacerbação do individualismo, o sucesso ligado à famigerada meritocracia são pragas deste tempo.

Os poderes dominantes pretendem transformar o ser humano num ser anestesiado, que não suja as mãos no dizer de Francisco, ou até no inimigo de si próprio na desenfreada concorrência para ganhar as graças do Deus Mercado em torno do qual orbitam as sociedades contemporâneas.

 Sendo a religião um ato individual ele contém em si um laço forte que o liga a toda a comunidade, desde os peixes como símbolo dos cristãos sob o jugo romano até à missa, à comunhão e à eucaristia.

No entanto, há dezenas de anos que há uma acentuada diminuição da prática religiosa. Por outro lado, essa prática vem assumindo características muito convencionais (batizado, casamento, funeral).

Francisco, conhecedor profundo do mundo, aponta novos caminhos aos crentes, em primeiro lugar, mas também a outras confissões religiosas e aos não crentes. Ao fazê-lo ganha força dentro da Igreja e fora dela e daí falar para todos, como ele diz, Fratelli  Tutti, o seu último livro em que denuncia a economia que mata.

Ele é também o Chefe de Estado do Vaticano. Tem a coragem de se pronunciar pela abolição das armas nucleares de se empenhar na defesa da paz na Europa, na denuncia as políticas anti-imigração que faz do Mediterrâneo um cemitério de vítimas sem pão para viver.

Perguntou perante os governantes e Corpo Diplomático para onde vai esta Europa que foi capaz de juntar inimigos e agora se separa e se guerreia.

As suas palavras são marcas indeléveis do seu papel e do que ele pretende para a Igreja enquanto instituição e Estado.

Tem consciência que os tempos são difíceis para os católicos se a juventude não arriscar e despertar para as condições em que a imensíssima maioria da população vive.

Há também lastros que vêm do passado e difíceis de se conciliar com a modernidade.

O Parque do Perdão com centenas de confessionários acolheu jovens que foram pedir aos padres perdão pelos pecados cometidos. Como pode um pecador ser absolvido por outro pecador? Claramente neste perdão há dois lados, um homem ou uma mulher e sempre um homem que olha de cima para baixo e lhes concede perdão. E se pretender confessar-se anonimamente fá-lo ajoelhado. Porquê? 

Há sete pecados mortais. Peguemos na gula, temos os médicos a pedir para se comer mais comida saudável, mas nas sociedades ocidentais a obesidade é marca dominante, são doentes ou pecadores ou ambos? Quem morrer gordo vai para o inferno? Vivemos um mundo em que o sistema bancário faz gala de nada perdoar, é a avareza no seu expoente máximo. Os banqueiros quase todos assumidamente praticantes vão para o inferno com as suas muitas condecorações? A ira não é uma marca do tempo? Quem pode ser hoje preguiçoso se quiser ter uma vida para viver, o que exige mais que um emprego.  O mundo mudou muito e rapidamente.

Voltando às palavras de Francisco, eloquentes, cheias de frescura e de erudição. Ele sabe que há um mundo à espera dos que foram à JMJ e dos que a seguiram com atenção. Para quem tem fé e para quem a tem esperança em relação a esta vida. Essa é a estrada. O caminho é para os caminhantes. Vimos do caminho e só temos caminho. Caminhemos, então, cada qual com o seu mundo no meio do mundo. Fratelli Tutti.

https://www.publico.pt/2023/08/15/opiniao/opiniao/palavras-francisco-eloquentes-corajosas-cheias-frescura-2060207

De Hipócrates (460-370 A.C.) ao centrão do poder.

Apesar de todas as modificações económicas, sociais e políticas ao longo dos últimos milénios, o bicho humano, no seu íntimo, não mudou tanto quanto a realidade que o rodeia, embora tenha sido ele o artífice dessas mudanças; bem mais nítidas no mundo exterior do que na psique.

O mundo é muito melhor do que o de Atenas, Esparta, Roma ou o de todos os reinos medievais ou até o que levou à segunda guerra mundial.

A verdade é que no fundo da alma humana continua a tristeza, a alegria, a maldade, a ambição, a violência, a arrogância, a bondade e tantos outros sentimentos positivos e negativos. Parece que avançamos no maravilhoso mundo novo, mas depois chega a hora e salta de dentro de nós o invisível que vem de muito longe, talvez depois de que deixámos de andar a quatro.

O cristianismo resolveu este problema de um modo fantástico, no Juízo Final fazem-se as contas, portanto vê lá se te portas bem. Mesmo com o tal Juízo Final nem a própria Igreja tem escapado ao rosário de maldades ignominiosas e que são públicas.

Os comunistas defendiam que iam forjar sob a ditadura do proletariado o chamado homem novo e foi o desastre que se viu, até porque o homem é velhinho de mais para ser novo, o que não significa que o ideal não sobreviva reconfigurando-o.

Os neoliberais a começar por Fukuyama anunciaram o Fim da História, confundindo a derrota de um projeto desvirtuado de construção de sociedade com a derrota do ideal.

É, no entanto, verdade, que os humanos foram sistematizando alguns princípios que, não obstante, os milhares de anos decorridos, continuam válidos.

Hipócrates, considerado o pai da medicina (460 e 370 a.C.) foi, a convite do povo e do Senado da cidade de Abdera, chamado a dar consulta e cura a Demócrito, filósofo pré-socrático reconhecido entre os gregos.

Na sua resposta na carta de resposta Hipócrates escreve…”Felizes os povos que sabem que os homens honrados são as melhores armas defensivas e que confiam mais nos conselhos sábios dos homens sábios que nas torres e nas muralhas…” Do riso e da loucura, Padrões Culturais Editora.

Vivemos tempos que ofendem a honradez e os melhores valores da democracia, como se a liberdade servisse para os gananciosos abocanharem o que lhes não pertence até ficarem prisioneiros de tanta ganância.

São constantes as notícias dos escândalos de corrupção ligados sobretudo aos partidos do poder e sujeitos afins. Esta constância ao longo dos últimos anos revela que o recrutamento de quadros dirigentes do PS e PSD (e não só) traz na origem o pecado mortal da política atual que deixou de ser algo que tenha na opção uma vocação para servir o bem público para se tornar na escadaria do enriquecimento, salvas honrosas exceções.

 Revela ainda que o mal é muito mais profundo na medida em que é tolerado em boa medida pela própria sociedade. A não o ser, seguramente já havia motivos mais do que suficientes para mudar de voto para os partidos menos atingidos pela corrupção ou para manifestações de vária ordem de protesto, sem querer fazer dos partidos que não governaram entidades incorruptíveis.

A falta de coragem sobrepõe-se à dignidade. Os cidadãos exprimem entre si o seu desacordo designadamente à mesa do café e olhando para o lado para ver como são sentidas as suas palavras.

De certa forma a corrupção cresceu tanto que levou os cidadãos a pensarem que já não é possível viver sem ela, o que será a maior vitória da corrupção. Conseguiu anestesiar a sociedade. Aos anestesiados pode-se fazer o que se quiser.

 Os corruptos são os principais responsáveis, mas quem abana os ombros e neles vota à espera de algo tem a sua percentagem de responsabilidade.

No romance de Gogol “Almas mortas” Tchitchikov, a personagem principal, compra as almas mortas no esplendor da sua capacidade de enganar e corromper. Hoje estão anestesiadas, ao sabor dos sacerdotes do Santo Mercado.

Voltando ao velho Hipócrates, as mulheres e os homens honrados são sem dúvida as melhores defesas do regime democrático. Procure-se a coragem dentro de cada um e mude-se o caminho. Viver anestesiado não é viver, é renunciar à possibilidade de se ser dono do futuro coletivo e individual. Um anestesiado social é um ser a quem lhe arrancaram a alma, vagueia sem chama de vida.

https://www.publico.pt/2023/07/19/opiniao/opiniao/hipocrates-460370-ac-chamado-centrao-2057246