A grande descoberta enquanto bebia a ginjinha

Marcelo Rebelo de Sousa foi beber uma ginjinha ao Barreiro que é uma terra pela qual desde pequenino tem uma grande paixão. Sempre que havia greves no Barreiro ele rejubilava. Antes de ser eleito passou a ir às ginjinhas porque lhe pediram tanto, tanto que não pôde recusar. Claro que os malvados das más intenções disseram que era por outros motivos. Incrível.

No Barreiro fez uma revelação digna de registo e que revela a sua integridade moral, cívica e política – não foi ele que ligou para o Hospital Santa Maria; o filho reuniu com Lacerda Sales porque sabia que pela via do pai não conseguia o que conseguiu.

Ficou por esclarecer se Lacerda Sales sabia que o filho era filho do pai, pois no caso a mãe não conta. E ainda se ele admitiria que Sua Excelência o Sr. Presidente da República rapava do telefone e como quem bebe uma ginjinha toca de falar da preocupação do filho com o Sr. Diretor do hospital. Nem pensar, ele não um desses…ali fia mais fininho. Isso, pelos vistos, é para o Dr. Lacerdas que tem uma porta que é feita para abrir e a dele só se fecha, ficando no ar a ideia de que ele sai pela janela para ninguém o ver naqueles passeios noturnos…”tenho muita pena de não ter sabido há quatro anos e tal…retiro as conclusões de não ter sido dito o que permitiria intervir para não tivesse acontecido o que aconteceu…” Esqueceu-se que tinha dito anteriormente “…o meu filho enviou-me um email em que dizia que um grupo de amigos da família das gémeas estava a tentar que fossem tratadas em Portugal…”Ai se ele tivesse lido o mail do filho para o pai. Não se lembrou porque isso não era para ele, era para o outro, o tal que abre…

Isto cá para nós, se o Sr. Dr. Lacerda Sales fosses daqueles que se sentem depositava na casaca do bebedor de ginjas aquilo que se imagina com toda a propriedade. E na face um daqueles beijões bem repimpados.

Biden e Netanyahu

As long as it takes

O Presidente dos EUA, o supremo protetor de Netanyahu, vetou o cessar-fogo proposto no Conselho de Segurança da ONU.

Veio agora informar que manteve uma conversa telefónica com o primeiro-ministro de Israel a quem lhe pediu para poupar os civis.

Uma de duas: ou Netanyahu mata podendo poupar vidas ou os bombardeamentos são exatamente para aterrorizar e matar a população e obrigá-la a fugir de Gaza para entrarem mais tarde os colonos judeus.

Biden conhece o que Israel está a fazer e sabe que o que pediu apenas vale como postal de hipocrisia em época de Natal.

Os princípios cristãos ocidentais são todos os segundos e minutos enterrados nas bombas israelitas em Gaza.

O Ocidente perdeu a vergonha. As dezenas de milhares de mortos palestinianos vão persegui-los para todo o sempre. Os direitos humanos de Biden, Macron, Scholz, Ursula von der Leyen são apenas um biombo para esconder os seus propósitos de domínio do mundo. Estão a ser desmascarados as long as it takes.

O sublime destino de Marcelo

Marcelo corre de volta da mesa para ver se é capaz de se apanhar a si próprio. Ele sabe que não é, mas o impulso da irrealidade não o admite. Nem um passeio em redor do palácio o tempera.

Viveu sempre de olhos postos nos cumes; em sua volta voava-se e poisava-se nos altos edifícios do Estado Novo.

Talvez tivesse medo de que não olhassem para ele, apesar do brilho. Talvez quisesse vingar o passado. Só ele o saberá.

Esbarrou quase sempre nos propósitos de que se alimentava. Nem o banho no Tejo lhe refrescou a propensão para o desmedido, a ânsia ansiosa.

Até ao dia em que se sentou a comentar num país que vive da e para a televisão.

Depois veio um homem incontido, incapaz de se olhar ao espelho e para quem lá se refletia. Aquele não era o homem que lá estava. Não percebeu que no espelho não estão refletidos o cérebro e o coração. António Damásio ainda não teve tempo para falar com ele sobre o sentimento de si. Não adiantaria, mas…

Marcelo tinha razão, as ginjinhas que bebia apareciam na contagem dos votos, mas não apareciam no espelho; nem na condecoração que não foi entregue a Zelenski, nem no abrigo da guerra, nem no beijo de uma velha ucraniana que quer guardar o bocado da pele como relíquia, nem a viagem para Viseu a fazer de motorista de uma jornalista. Nem, nem. O certo é que o país das televisões aceita tudo desde que lho deem de borla e a horas de ser visto.

Pela primeira vez no dia que foi a Alcoitão quando acordou e se viu ao espelho não era a sua fulgurante imagem que lá se encontrava. Quem lhe sorria era António Costa, o primeiro-ministro. Nos diversos espelhos a imagem dele desaparecera e fora substituída pela de António Costa.

A metamorfose Kafkiana ali estava. Para enganar o feitiço disse o que se conhece, Costa é o político mais capaz da Europa. Está dito.

Há quem auspicie um fim sublime a Marcelo Rebelo de Sousa – estudar os motivos que impediram Ícaro de levantar voo.

AGORA É AGORA, DEPOIS NÃO SE SABE

Desde sempre (salvo raros momentos) que há uma doença que mina a esquerda e da qual custa a libertar-se. Devido à aura que a busca de uma justiça social mais autêntica e igualitária lhe confere, perde muitas vezes a noção da acumulação de forças para lograr as transformações a que se propõe. Referimo-nos naturalmente às esquerdas que se posicionam à esquerda da social-democracia.

No atual contexto mundial há uma acentuada viragem à direita com resultados relevantes para a extrema-direita fascizante que vai do Sul ao Centro e ao Norte da Europa e um pouco por todo o mundo, como recentemente aconteceu na Argentina.

Em Portugal, há um sério perigo da direita se coligar com as forças de extrema-direita, podendo obter uma maioria, sendo uma prioridade democrática forjar condições políticas para que PS, PCP, BE e Livre alcancem uma maioria parlamentar. E não é preciso ir muito longe para averiguar como uma política unitária e reformadora gera maiorias, basta atravessar a fronteira.

É assim uma necessidade que os partidos à esquerda do PS cujos ação política demonstra terem um conjunto interessante de denominadores comuns programáticos façam desses pontos uma batalha contra a direita e a extrema-direita.

 Nesse sentido impunha-se encontrarem-se e apostarem nos denominadores comuns em que convergem e apresentarem assim uma alternativa credível, em vez de ser cada um a puxar para seu lado.

Tal proposta encontraria certamente apoio em todo o povo de esquerda que compreenderia a importância de se mobilizar para derrotar a possibilidade de formação de um governo do PSD com a extrema-direita, precisamente no 50º aniversário da revolução de Abril.

O PS (em campanha eleitoral interna) que em 2015 fez acordos de incidência parlamentar com o PCP e com o BE, e de tal experiência ganhou apoio popular e parlamentar, ao contrário das vezes que se meteu pelo centrão onde não há propriamente distinção entre PS e PSD, como reza a História da nossa democracia.  

Pelo que se vai vendo, nem o real perigo de a extrema-direita chegar ao governo cria no PS um estado de alarme, pretendendo que sozinho está em condições de vencer o desafio, o que não é verosímil e se tem visto pela ação governativa.

Mas à esquerda do PS o panorama é deveras incompreensível, nomeadamente no que concerne à postura do PCP, do BE e do Livre.  

Sabendo da importância de somar votos para condicionar o PS (o PSOE também não se deixava condicionar) em vez de fazer força no que os une e que só o voto naqueles partidos é garantia da defesa de serviços públicos modernos, da Escola Pública, do SNS e do reforço democrático das instituições, enveredam pelo acentuar das diferenças de que é exemplo a entrevista de Mariana Mortágua à CMTV. Já antes Paulo Raimundo por lá tinha passado todo contente com o seu PCP imutável e incapaz de assumir a extraordinária tradição unitária que durante décadas foi marca do partido.

O Livre por muito que o PS lhe pisque o os olhinhos não é como muleta do PS que se a afirmará no panorama partidário de esquerda.

Vivemos um período de sérios riscos quanto ao futuro da democracia em Portugal, tal como ela se consolidou saída da revolução de Abril. Talvez um grande número de portugueses não se tenha ainda dado conta. Não é tarefa para apenas um ou dois atores partidários. Pelos erros praticados por sucessivos governos é trabalho para todos os democratas de Abril.

Não importa a diferença ali ou acolá no plano externo, na eutanásia ou noutras áreas, que não são tão decisivas como os alicerces do regime, onde aí sim tudo se poderá discutir e as diferenças justificarem a existência de cada partido.

As esquerdas têm de abrir as janelas e não olharem apenas para as diferenças ou talvez ainda mais perversamente as acentuar para um ou outro obter mais uns tantos votos. Cada formação de esquerda reflete o universo onde se move e por mais voltas que se deem, qualquer partido de esquerda devia ter como missão, neste momento tão peculiar e perigoso, contribuir para impedir uma maioria de direita e de extrema-direita.

Aos poucos, as democracias liberais vão deslizando para abraçarem liberalmente formações de extrema-direita e forças fascizantes catapultando-as para os diversos governos. Os sinais são claros e múltiplos. Os cegos que o são realmente não são os mais cegos, os que não querem ver são muito mais.

https://www.publico.pt/2023/12/07/opiniao/opiniao/nao-sabe-2072863

Gaza e a idade tribal de Netanyahu

Os seres humanos criaram os adjetivos para conferir características aos substantivos, para fazer luz acerca do que pretendem transmitir desde o horror ao belo. Quer no amor, quer na beleza, quer no horror acontece, como escrevia o poeta Eugénio de Andrade, que se gastaram as palavras de tanto as usarmos para determinadas situações ou estados. Outro poeta, Paulo Sucena, escreveu um livro de poesia com o título “Amor em adjetivo”.

Na verdade, as palavras não passam de palavras, mas as palavras não deixam de ser o grande meio de comunicação que os humanos se servem para expressarem os sentimentos, os saberes, as interrogações, entre tantos outros problemas e satisfações, que os moldam.

Quando olhamos o que se está a passar em Gaza com a brutalidade dos bombardeamentos israelitas sobre a população totalmente indefesa os nossos sentimentos não encontram palavras que possam descrever, em pleno século XXI, o horror e a malvadez dos homens e das mulheres que ordenam semelhante atrocidade. É como se recuássemos milhares de anos, varrêssemos os progressos civilizacionais e da caverna dos mais poderosos e selváticos ouvíssemos o grito de matar tudo o que aparecer e que não seja do respetivo clan. Como se os outros fossem coisas para destruir e não seres vivos, como se a racionalidade andasse de mãos dadas com a selvajaria. Como se os outros humanos não o fossem.

A equipa dirigente israelita atingiu o grau da pura esquizofrenia ao colocar toda a sua inteligência e capacidade na destruição de um outro povo que nasceu e viveu séculos no mesmo solo. Netanyahu vive na idade das tribos. O seu espírito não evoluiu, cada homem tem dentro si o progresso e as trevas; ele fechou-se na escuridão tribal.

Pois bem, é a este homem que Biden, von Der Leyen, Scholz, Borrel e Cravinho vão prestar solidariedade. O mundo entrou num redemoinho de loucura que nos deixa a todos desamparados, caso não façamos o que temos de fazer.

A Humanidade não pode deixar matar os palestinianos como caça de cerco despejando sobre eles milhares e milhares de explosivos por metro quadrado matando em primeiro lugar crianças, mulheres e idosos. É a própria Humanidade que morre na morte do povo palestiniano.

Os dirigentes ocidentais ao permitirem esta barbárie deixaram de nos representar. Eles não foram eleitos para permitir semelhante brutalidade. Nunca nos disseram que iriam dar o seu acordo à solução final dos palestinianos matando-os ou fazendo-os espantar como o gado para outros países ou para o mar.

As palavras estão gastas, mas os sentimentos não. Não podemos morrer em Gaza. A morte é a morte e precisamos de vida. Levantemos toda a nossa indignação e sejamos solidários com o povo palestiniano.

UM MP/PGR SEM RUMO

O regime democrático português, assente na Constituição da República, enfrenta problemas de grande envergadura, tendo em conta o ponto onde nos encontramos.

Temos de concordar que, em paralelo com as gravíssimas dificuldades mais de um terço dos portugueses enfrenta, há todo um universo composto por empresários e dirigentes políticos que navegam em águas atoladiças de onde extraem avultadíssimos proveitos, sem que até hoje a justiça tenha sido capaz de estabelecer com a comunidade uma relação de confiança quanto a este tão imperioso combate. Parece que a Justiça se contenta em substituir os media pelos tribunais, com gravíssimos prejuízos em todos os azimutes.

À justiça não basta anunciar detenções de altos dirigentes governamentais, municipais ou empresariais. Se se quedar por este arremesso e deixar o tempo corromper e afundar o estardalhaço comunicacional, afunda-se na sociedade a confiança no sistema. 

Não é totalmente verdadeira a frase de António Costa quando José Sócrates foi detido – À justiça o que é da justiça, à política o que é da política – na medida em que a justiça é produto da política governamental, ou seja, a independência dos juízes e a autonomia do MP são pedras basilares do edifício da Justiça, mas a justiça não é só “isso”. A Justiça é o resultado de opções políticas que visam estruturar um sistema de relações económicas, comerciais, criminais, familiares, sociais e outras que asseguram a paz social onde os cidadãos vivam. Sendo humana será sempre imperfeita, mas nunca separadas das condições em que se insere e atua.

Quando um governo é derrubado porque um comunicado da PGR refere num último parágrafo que Costa é referenciado em escutas telefónicas e quando o PR, ilustre professor de Direito Constitucional, o aceita com olímpica naturalidade, estamos perante uma monstruosa aberração jurídica e política.

Independentemente do valor probatório de escutas em que os escutados se referem a terceiros invocando proximidades e decisões à la carte, exigem um escrutínio rigoroso sempre e muito mais quando se está perante um primeiro-ministro. Só por  requintada leviandade ou pura perversão se incluiria um parágrafo daquela matriz num comunicado como o da PGR, pois, como se viu, abriu-se uma crise política cujos efeitos são para já desconhecidos e cujas consequências podem ser devastadoras para o regime democrático precisamente muito perto do seu cinquentenário.

Uma investigação criminal nunca pode ser cega e não deve parar diante de quem quer que seja, mas tendo em conta o impacto político, económico e social quando há terceiros que se referem ao primeiro-ministro é imperioso prosseguir e simultaneamente pesar até que ponto o descoberto é suficiente para ser revelado, tendo a consciência de que um passo deste calibre pode ter consequências catastróficas para toda a comunidade e até internacionais.

As meras referências a António Costa ao serem tornadas públicas não podiam deixar de ter um efeito de uma bomba atómica, pois tornaram a ação política do mesmo inviável, quer se demitisse, quer o não fizesse.

Ao assumir o parágrafo assassino a PGR/MP decretou a morte do governo de António Costa suportado por uma maioria absoluta.

O MP não pode ignorar que ao revelar o que noticiou atirou para o limbo político um político que é primeiro-ministro e que, pelo andamento do processo no STJ em conexão com o outro processo dos outros arguidos, passarão anos e anos para se poder saber exatamente se as suspeitas eram fundadas.

Qualquer justificação em falta de meios não faz sentido, pois os Digníssimos Procuradores bem conhecem os meios e, portanto, apesar disso deram o passo para a falta de meios… para o abismo democrático.

Não há independência de qualquer procurador que justifique este grau de irresponsabilidade, pois isto é tudo menos independência, esta exige um elevado grau de responsabilidade na medida em que independência impõe responsabilidade. Trata-se de mero desaforo. Só uma corporação sem rei, nem roque pode atrever-se a semelhante despautério.

E só um Presidente da República norteado por um espírito vingativo e com o tal sonho, que tornou público, de ver um governo de centro/direita, como lhe chamou, pode justificar esta loucura jurídica, bem sabendo todos os que a perfilharam que António Costa e o governo ficavam sem chão e que não tinham como se defender dada a natureza e a envolvência temporal da suspeição.

No meio de santa pobreza intelectual há anos que o PR inventou um novo regime no país, subvertendo o que resulta da CRP. As eleições em Portugal não têm como finalidade escolher um primeiro-ministro, mas sim eleger deputados, que por sua vez estabelecem uma maioria que irá dentro de si escolher o primeiro-ministro independentemente de cada partido em campanha eleitoral indicar, quem do seu partido eleito deputado, poderá ser o primeiro-ministro. Na Europa ocidental muitas aconteceu o primeiro-ministro não ser o do partido mais votado.

Marcelo Rebelo de Sousa com desplante decidiu (em substituição do parlamento) derrubar o governo e convocar eleições, cumprindo um passo do seu sonho.

Não está em causa a investigação, mas o facto de levar à irresponsabilidade de atribuir publicamente a suspeição do primeiro-ministro, sem ter cuidado de investigar se essa suspeita estava ancorada em factos que de modo substancial a tornavam mais ou menos sólida.

 Ao fazê-lo afundou ainda mais a confiança na Justiça, pois seja qual for o resultado da investigação, ela carrega o fardo de ter derrubado um governo com maioria parlamentar absoluta, antes de serem seguros os elementos dessa suspeição.

Ao fazê-lo, deste modo, para uma parte bem significativa da população portuguesa, interveio politicamente para afastar o governo de A.C.

Ao fazê-lo mostrou que, em vez de se conduzir num processo desta envergadura não usou a prudência e bom senso institucionais e enveredou por uma lógica de escandalizar o país ateando-o de chamas bem altas o alarme social.

O futuro que vier a ser escrito ficará para sempre contaminado por esta irresponsabilidade, sem possibilidade de António Costa se defender.

 O imoderado Marcelo e não só

O conflito entre Israel e os palestinianos resulta da violação do direito internacional por parte de Israel, seja negando a possibilidade da edificação do Estado palestiniano incumprindo a Resolução 242, seja quanto a Jerusalém Leste que deve ser a capital do futuro Estado, seja alargando os colonatos com colonos armados, seja pela negação aos palestinianos dos mais elementares e direitos (circulação, propriedade, organização). O facto de em Israel haver eleições (o que é positivo) não o absolve da ocupação ilegal da Palestina e dos crimes para a manter.

Só por acédia o Ocidente não o quer ver. Vale a pena recordar que Israel recusava qualquer negociação com a OLP porque esta não reconhecia a existência do Estado de Israel. Em Argel, em 1988, o Conselho Nacional Palestiniano reconheceu a existência de Israel e defendeu a solução para o conflito com a criação de dois Estados, Israel que já existia e a Palestina a criar. Foi assim removido o argumento que Israel usava para se apresentar ao mundo como vítima dos terroristas da OLP.

Apesar do passo certo dado pela OLP muito pouco mudou do lado israelita. É importante que se diga que para Israel era fundamental quebrar a legitimidade da OLP enquanto organização de cariz patriótico, laico e ligado aos países Não Alinhados. Por isso ajudou objetivamente a criar o Hamas, como é conhecido. Para quê? Fazia falta a Israel apresentar os palestinianos como uma organização fundamentalista, ligada a movimentos islamistas que defendem a aplicação da sharia. Neste contexto, arrastaram as negociações com Yasser Arafat para um beco sem saída, criando, face às violências diárias da ocupação, um desespero que o Hamas soube aproveitar.

Quando se realizaram trocas de cartas entre Yasser Arafat e Isac Rabin, reconhecendo a OLP Israel e Israel a OLP, como representante dos palestinianos, um judeu fanático encontrou maneira de assassinar Isac Rabin.

Daí em diante os dirigentes israelitas tudo fizeram para enfraquecer a OLP, sabendo que quem ganharia com a situação seria o Hamas. Na verdade, a política de negociações sem fim à vista e sem concessões minou o apoio francamente maioritário da OLP em Gaza e na Cisjordânia.

 Em Gaza, o Hamas acabou por ganhar as eleições, o que constituiu motivo para Israel bombardear o aeroporto, cercar como se fosse uma prisão a céu aberto o território, e deixar os palestinianos cercados e humilhados na sua própria terra.

Israel precisava de apresentar ao mundo esta falaciosa premissa – ou nós ou a barbárie. Só o Hamas servia este desígnio.

Bastava que Israel abrisse as portas de Gaza, criasse as condições para aquela população desfrutar das mais elementares liberdades e o apoio ao Hamas ir-se-ia esfumando. Apesar de se realizarem eleições em Israel há mais de cinco mil presos palestinianos.

Israel não quer lidar com organizações moderadas e democráticas palestinianas, quer lidar à lei da bomba e, por isso, o Hamas é a organização que lhes serve às mil maravilhas, mesmo quando a criatura ultrapassa todos os limites do criador.

Há quem queira passar por cima desta realidade tentando sem qualquer utilidade fazer dos outros idiotas, defendendo a barbárie necessária contra a barbárie desnecessária. Como se a barbárie de assassinar civis israelitas justificasse a barbárie de lançar o equivalente a duas bombas atómicas como a que explodiu em Hiroshima, ou seja, mais de 25.000 toneladas de explosivos sobre uma população indefesa.

 Até Sua Excelência, o Senhor Presidente da República, resolveu fazer de extremista e pedir moderação com o argumento de Israel está a cometer toda aquela barbaridade porque os palestinianos estavam mesmo a pedi-las e começaram. Cavaco nunca condenou o regime do apartheid, MRS também não condena a barbárie levada a cabo por Netanyahu. Como é possível falar de moderação…70 toneladas de explosivos por quilómetro contra os palestinianos. 4000 mil crianças mortas…Que crueza imoderada.

https://www.publico.pt/2023/11/09/opiniao/opiniao/palestina-imoderado-marcelo-nao-so-2069583

As democracias liberais e as guerras

Circula como verdade suprema a ideia nascida e desenvolvida no Ocidente de que as democracias são contra as guerras, as quais, por sua vez, são apanágio dos regimes autocráticos.

É necessário desfazer este enorme embuste que não resiste à menor investigação. Na verdade, regimes democráticos liberais desencadearam guerras brutais para defender os seus interesses de potências coloniais ou neocoloniais.

  Na Indochina a França colonial deixou as horrendas marcas da guerra colonial contra o Vietname entre 1946 e 1954 com 500.000 vítimas.

Com De Gaule como Presidente da República travou uma guerra para manter a Argélia como colónia francesa (entre 1954 e 1962), sem a qual não sobreviveria, segundo o governo francês. O balanço da guerra foram 300.000 argelinos e 27.500 franceses mortos.

Quantos milhares de mortos causou a democrática Inglaterra na India, Birmânia, Quénia, Rodésia, Chipre para impedir a independência destes países?

No século XX os EUA quantas guerras de invasão levaram a cabo com milhões de mortos, designadamente no Vietname? E a invasão do Iraque com cerca de 500.000 mortos?

Israel, com eleições de quatro em quatro anos, ocupa militarmente contra Resoluções do Conselho de Segurança da ONU territórios da Palestina, os Monte Golan da Síria, prossegue a ferro e fogo a expulsão dos palestinianos das suas propriedades e tem seis mil presos políticos nas prisões.

A democracia israelita permite aos seus militares assassinarem a sangue-frio mais de três mil crianças, indefesas, desde 7 de outubro na Faixa de Gaza.

A toda a hora as televisões fazem passar este horror e do que mais será preciso Israel fazer ainda para que no interior de cada um de nós, na nossa humanidade, nos faça dar a mão às vítimas desta barbárie?

Os ataques cruéis do Hamas contra civis que nada tinham e têm a ver com a ocupação israelita merecem igualmente a frontal condenação. A luta de resistência contra o ocupante não pode ser cega e não justifica ações terroristas contra inocentes.

Mas (há um mas) a raiz de todos os males reside na ocupação de território. O direito internacional é, a cada segundo, violado por Israel cuja segurança a que tem direito não pode assentar na total insegurança dos palestinianos e dos países vizinhos.

As proclamações de vingança por parte dos dirigentes israelitas transportam-nos ao mundo da linguagem própria da Antiguidade. Entre as proclamações dos fanáticos islamistas e as dos fanáticos sionistas onde está a diferença? A exortação da morte e da violência gratuitas faz os fundamentalismos dos dois lados aproximarem-se e darem a mão contra o humanismo e o respeito por todos os seres humanos e contra a existência de dois Estados, Israel e Palestina, tal como decorre do direito internacional. Talvez este fanatismo explique o assassinato de Isac Rabin às mãos de um judeu fanático.

Como se pode apresentar ao mundo um povo cercado a céu aberto a sofrer bombardeamentos brutais como sendo uma punição coletiva como um direito de defesa coimo fez Biden, Von Leyen, Scolz, Macron, Sunak e outros? Como?

Como pode o Ocidente achar que Israel pode fazer o que está a fazer, confundindo esta barbárie como sendo o Bem contra o Mal?

Netanyahu, o homem que quer escolher os juízes para o julgar e absolver dos crimes de corrupção, aponta a solução para o problema palestiniano que Hitler apontou para os judeus, o extermínio. O ódio aos palestinianos está-lhe impresso em todos os gestos.

Israel pode reduzir Gaza a escombros se deixarem. Quantas mais mortes inocentes Israel provocar para espezinhar a vontade palestiniana de ter o seu Estado independente nos territórios ocupados, maior será o seu próprio sofrimento futuro. Pode parecer ao mundo ocidental que ter bombas nucleares e exércitos poderosos é suficiente para seguir dominando, mas não é.

As democracias liberais derrotadas nas guerras coloniais foram derrotadas em momentos bem mais difíceis para os povos da Indochina e de África.

As barbaridades dos ataques a Gaza farão acordar os adormecidos e os anestesiados. Os seres humanos ainda não estão dominados por forças ou mecanismos que lhe retirem a sua humanidade e os sentimentos de justiça e de equidade.

É inaceitável que em nome de uma guerra de ocupação se entenda a passadeira da democracia para os militaristas a atravessarem como se fossem inocentes. As democracias têm nas suas entranhas crimes violentos, como algumas delas apoiarem o regime brutal do apartheid que manteve Mandela mais de vinte anos preso.

A referência à qualidade do regime não é por si suficiente para o isentar de julgamento e eventual condenação em muitas guerras levadas a cabo por países onde tinham lugar eleições, basta ter em atenção que de um lado e outro das barricadas na primeira guerra mundial estavam países onde havia eleições.

O facto de em Israel terem lugar eleições não apaga de modo nenhum a ocupação que leva a cabo nos territórios palestinianos ocupados depois da guerra de 1967.

Os povos colonizados que lutavam pelos seus direitos nacionais, segundo esta peregrina ideia, nunca poderiam resistir à ocupação porque do outro lado estava um país onde se realizavam eleições. Este absurdo jaz algures no caixote do lixo da História, malgrado os defensores do colonialismo de Israel o ressuscitem. E, em seu nome, ressuscitem proibições das liberdades essenciais como a de cada se poder manifestar de acordo com os seus valores e consciência. É preciso que a coragem dos corajosos volte a fazer valer a força da razão contra a linguagem da violência e da morte, pois a paz é o caminho de toda a esperança.

A luta emancipatória da Palestina e o terrorismo de Estado de Israel e o do Hamas

Uma das características dos seres humanos é pensarem. Podem agir mediante um pensamento no fim pretendido com essa ação, desde o simples ato de colher uma rosa, enxotar uma mosca até escolher em quem votar para governar e estudar parar obter o grau académico.

Nas sociedades governadas de modo repressivo e opressivo quando essa repressão e opressão atinge níveis difíceis de suportar, como é do conhecimento histórico, os oprimidos revoltam-se.

Bertold Brecht escreveu algo luminoso sobre este fenómeno – Do rio que tudo arrasta se diz que é violento. Mas ninguém diz violentas as margens que o comprimem – e na verdade poder-se-á falar de situações limites de violência extrema verificadas no nosso caminho humano e que desaguaram em ações de uma violência inaudita.  

Se se pudesse simplificar de um modo corriqueiro dir-se-ia que a violência gera violência.

A Faixa de Gaza com cerca de dois milhões e trezentos mil habitantes numa área de trezentos e sessenta e cinco quilómetros quadrados, constitui uma prisão a céu aberto capaz de criar um desespero absolutamente inimaginável e degradante para alguém que na sua terra vive preso e humilhado que a cada dia que passa vê os seus filhos e irmãos serem presos e torturados por terem nascido na sua bem antiga e amada pátria, Falestinia, Palestina em árabe, e que Cristo pisou.

Ademais, o direito internacional, por via das Resoluções do Conselho de Segurança, que implicaram unanimidade, consideraram que Gaza, a Cisjordânia e Jerusalém Leste são os territórios palestinianos onde deve ser instaurada a soberania de um Estado palestiniano.

Acresce que Israel não só não cumpre o determinado nas Resoluções como ocupa os Montes Golan da Síria e parte do Líbano, tendo neste país cometido um dos mais bárbaros massacres de que há memória num campo de refugiados em Sabra e Chatila, situado na periferia de Beirute, perpetrado entre 19 e 20 de setembro de 1982 com cerca de 3.500 vítimas, tendo-se distinguido nesta barbaridade Ariel Sharon, um sionista de primeira gema. Israel é um Estado fora da Lei.

Como não sentir uma mágoa a raiar a revolta aberta por não recordar por parte do Ocidente declarações de apoio à resistência libanesa e palestiniana face a esse massacre? Tudo se passou como se nada se tivesse passado, a vida de um palestiniano não vale uma dor de cabeça. As vidas humanas segundo os cristãos ocidentais que nos governam estão divididas do seguinte: a dos nossos amigos e aliados valem guerras, sanções, noticiários exasperados, consciências doridas, as dos outros não existem. Quantos milhares de vidas palestinianas assassinadas às mãos dos ocupantes israelitas são necessárias para que a diplomacia dos “valores ocidentais” seja capaz de criticar o extremista e prepotente Netanyahu, o corrupto que quer ser ele a escolher os juízes que o hão de julgar?

Quem nos garante que este ataque do Hamas não tem a ver com o seu isolamento em Israel?

Quem se esqueceu que a seguir ao 11 de Setembro Bush invadiu o Afeganistão e o Iraque?

Voltando ao princípio e à nossa capacidade de pensarmos e nessa senda recordaremos que o Hamas (Movimento de Resistência Islâmica, em árabe) foi criado em dezembro de 1987, logo após a 1ª intifada liderada pela OLP, em 09/12/1987.

Na altura fazia parte da Conferência Popular arabo-islâmica, cujo Secretário-GeraL era o famoso islamista Hasan el Tourabi, ex Presidente do Sudão, que introduziu a pena de morte por enforcamento por apostasia para todos os muçulmanos que abandonassem a religião muçulmana.

A sua criação visou contrabalançar o forte apoio da OLP nos territórios ocupados. Teve o apoio de Israel, Jordânia e Arábia Saudita e dos Irmãos Muçulmanos do Egito.

Depois do atentado de um judeu sionista contra Isac Rabin, seguido da vitória eleitoral de Netanyahu reforçando a extrema-direita em Israel, assistiu-se a um reforço constante das posições extremistas e fundamentalistas islâmicas do Hamas.

Os dirigentes israelitas apostaram na violência para conter a revolta palestiniana, o que assimetricamente levou à conquista de apoio por parte do Hamas, exatamente porque a OLP com esta política de Israel ficou sem nada para negociar; até porque Israel preferia ter do outro lado o Hamas, preterindo a OLP.

Israel e o Ocidente “engordaram” os islamistas e impediram a criação de condições para negociar um Estado palestiniano laico, democrático, mesmo limitado na dimensão.

A resistência palestiniana está numa situação tremendamente difícil e ao que parece sem saída. Vejamos.

Primeira questão: é possível obter uma vitória militar sobre Israel? Sinceramente julgamos que não vai ser possível e jogar essa carta é condenar a Palestina a agonizar muitas mais décadas.

Este enfrentamento do Hamas com Israel causou enormes danos ao ocupante, mas é muito mais fácil recompor-se do que os palestinianos que vão sofrer a crueldade dos desmandos israelitas, salvo se os palestinianos de Gaza e Cisjordânia se levantassem e se envolvessem unidos nesse propósito.  Se a assim não acontecer, a luta neste terreno favorece Israel.

Segunda questão: Não sendo por via militar, que via seguir? Quando na India, Gandi enveredou pela resistência pacífica muitos se riram, mas a verdade é que veio a resultar.

Na verdade, só um movimento amplo, democrático, popular englobando todos os palestinianos nas suas diversas convicções políticas e religiosas pode ter sucesso no enfrentamento com Israel.

A experiência da luta palestiniana mostra que as diversas Intifadas não lograram o sucesso pretendido, mas será sempre tanto mais vitoriosa quanto mais ampla for e essa experiência assinalou quebras na unidade que favoreceram o ocupante israelita, designadamente entre a OLP, a Jihad e o Hamas.

Um inimigo tão poderoso quanto o Estado Israelita exigirá do movimento palestiniano uma unidade à prova da independência e de uma solidariedade internacional eficaz.

As ações terroristas do Hamas que não distingam os inimigos dos inocentes dão força aos sionistas e “justificam” a ladainha ocidental de apoio à ocupação.

O terrorismo não constitui nos seus pressupostos um movimento de libertação. O assassinato de inocentes que nada têm a ver com o poder do ocupante é um ato cruel que cava o isolamento de quem o comete e só merece a condenação.

O clássico dos clássicos revolucionários, Ullich Ulianov, teve na família vários combatentes contra o czar, incluindo o irmão mais velho, Alexander Ulianov, que tentou assassinar o czar e foi enforcado. Lenine não seguiu esse caminho.

O terrorismo na sua essência despreza o trabalho em profundidade, próximo das populações que pretende libertar; funda-se em ações que podem ter grande impacto mediático e político, mas desarticuladas da vivência das massas populares absolutamente imprescindíveis para atingir o fim da ocupação.

As ações terroristas palestinianas no passado não deram os frutos desejados, o que não significa (e se rejeita a ideia) que não se use a violência contra os ocupantes, tudo dependerá do modo e das circunstâncias. Outra coisa é programar assassinar inocentes que nada têm a ver com o poder ocupante. Tais ações só fornecem pretextos aos ocupantes para agravar a brutalidade da ocupação.

É à resistência palestiniana que cabe escolher os caminhos, mas os amigos da causa palestiniana que com ela são solidários podem pensar em voz alta. Não está escrito que a resistência tenha de ser exclusivamente de certo modo, por exemplo, através de um enfrentamento armado. Se de lado do ocupante ele dispõe de uma superioridade brutal, provavelmente o caminho por aí está fechado, mas não é o único.

Na África do Sul foi a combinação de várias formas de luta que abriu o caminho do fim do apartheid.

Em Timor-Leste foi mais útil o caminho de mobilização das massas timorenses que o da luta armada, embora a mobilização das populações viesse na sequência da luta nas montanhas de Timor Lorasae .

Combater um inimigo tão poderoso exige muita unidade e inteligência para enfraquecer e isolar os ocupantes que não são todos os israelitas, apenas a minoria que apoia a ocupação.

Exige a denúncia da hipocrisia ocidental que envia quase todo o armamento que tem para a Ucrânia e para a Palestina envia fome para os palestinianos e armas para Netanyahu, que glorifica ataques ao território russo com drones que matam civis e que considera barbaridades os drones do Hamas e promete armas aos ocupantes sionistas.

Este é o mundo em que vivemos. É triste que a vida de um jovem morto pelo Hamas numa rave seja para o Ocidente uma vida de um humano diferente dos milhares de vidas de jovens palestinianos, quando na verdade são vidas de seres humanos.

Arafat e Rabin tiveram a coragem de entregar um ao outro um ramo de oliveira. Os sionistas mataram Rabin. E perdeu-se a oportunidade. Como não acreditamos no Mito de Sísifo esperamos que o povo palestiniano se una como um bloco e enfrente a ocupação corajosamente. Se o fizer estará mais perto da vitória. O terrorismo levará à manutenção da ocupação e ao seu reforço. Nenhuma minoria desligada dos palestinianos resolverá o problema da ocupação. Ações espetaculares desligadas do movimento emancipatória não parece que conduzam à vitória. Que a Palestina conquiste o seu mais elementar e simples direito, ao de existir sem ocupação.