Pinto da Costa e o “Azul até ao fim”

Desde que me conheço fui sempre portista. Seguramente por influência de meu pai, portista dos quatro costados. Felizmente, o FCP tem-me dado mais alegrias do que tristezas, mas faz-me sofrer até que assegure a vitória.

Conheci PC nos anos oitenta, quando alguns portistas de Lisboa com ele se encontravam no hotel Altis, onde se hospedava a equipa de futebol do FCP.

Surpreendeu-me pela inteligência, cultura e ironia. Era desconcertante. Confesso que muitos anos mais tarde não gostei nada do corte que o acompanhava. O homem isolara-se dentro dos “indefetíveis” fiéis que o rodeavam na expectativa de serem premiados pela fidelidade ao líder. É assim a natureza humana, se não for contrariada.

Uma coisa é certa: PC deu ao Porto o que ninguém conseguirá dar e só esse facto merece a gratidão de todos os portistas. O resto resolve-se democraticamente. Além disso, o reconhecimento desta realidade não significa toda a realidade. Há sempre na realidade várias realidades. Vamos ao livro.

“Azul até ao fim” é o último livro de Jorge Nuno Pinto da Costa. Lê-se bem. Mérito do autor. Trata-se de um livro de Memórias que se inicia no dia 8 de setembro de 2021 com a comunicação a Pinto da Costa que padece de cancro na próstata.

Ao longo de Diário, o autor vai colocando o leitor nos eixos que moveram a obra publicada: o FCPorto que é o seu destino como lhe prognosticou sua mãe em 1982; a sua religiosidade, designadamente a adoração pela Virgem Maria; a família, incluindo a sua jovem esposa Cláudia Campo; os amigos.

PC conta vários episódios em que sobressai a traços fortes a ideia permanente de se sentir feliz, mesmo no meio da doença ou do cansaço extremo, pelo facto da sua liderança levar a felicidade a dezenas e dezenas de milhares de portistas. Por outro lado, repete que sentia o grande carinho e simpatia que os adeptos que por ele nutriam. São muitos os apontamentos a dar nota deste binómio….” Senti que estou no vosso coração. Quero que saibam que os tenho no meu…”

PC sentiu necessidade de afirmar categoricamente que não se recandidataria e de assim trazer à luz do dia a sua ideia de abandonar a Presidência, nomeadamente em março de 2023. Não explica, em momento algum, a razão que o levou a recandidatar-se, passando por cima dessa decisão..

Na memória do Natal de 2022 abre um pouco o véu da sua nova decisão, invocando um eventual desígnio divino “Deus pensa que a minha missão neste mundo ainda não terminou…Talvez Ele ainda precise de mim para a luta difícil de ajudar os sem-abrigo a encontrar um lugar divino para viver!”

E não dá qualquer justificação para uma derrota tão esmagadora no quadro de uma narrativa em que entre PC e os associados portistas era só carinho e amizade, salvo a casa do Porto de Espinho de alguns funcionários do clube que qualifica de traidores…

PC sugere que a sua derrota resultou de uma certa aliança de Villas-Boas com inimigos do Porto que poderão colocar em causa o sucesso desportivo do clube. É, aliás, a esta luz que analisa a Assembleia-Geral em que para ele os únicos culpados foram os apoiantes de VB e do próprio VB por ter ido à A-G falar acompanhado por um agente da PSP, sportinguista, um tal Dr. Agulhas, o que turvou o espírito dos associado. ”Isto foi considerado uma provocação, até porque o agente da PSP empurrou violentamente um associado que invetivou André Villas-Boas”  Regista, entretanto, que VB foi para Lisboa, não participou na A-G. ”Estava lançado o rastilho” segundo PC.

PC encarnou de tal modo a ideia de que era o único capaz de prosseguir a defesa do sucesso do FCP, que não consegue encaixar e processar a pesadíssima derrota sofrida nas eleições.

A necessidade de se socorrer da forma como era recebido no Dragão, nas casas do Porto, mostram um homem desiludido que inverte o rumo dos factos para se sentir reconfortado.

A religiosidade de PC está presente de princípio ao fim, de tal modo que chega a considerar que o FCP tem a proteção da Virgem Maria e fala de D. António Francisco, ex-Bispo do Porto e do Cardeal Américo Aguiar, Bispo de Setúbal, como testemunhos dos seus predicados religiosos.

A família é outro pilar do livro. A invocação do amor aos progenitores com mais incidência no da mãe, aos irmãos, aos filhos, aos netos, ao novo amor Cláudia Campo, depois de tantos falhanços afetivos preenchem um largo número de páginas.

São interessantes as páginas que dá a conhecer o modo como PC conheceu numa agência do Santander, Cláudia Campo, funcionária do banco, e como desenvolveu a simpatia até ao anunciado amor que os levou ao casamento

PC elogia os verdadeiros amigos e a amizade pura. Só que ao seu amigo incondicional Sérgio Conceição aplica farpas das mais violentas deste “Azul até ao fim”, responsabilizando-o pelo seu mau feitio, pelas declarações ingratas no fim do jogo Inter-Porto, pelas desastrosas contratações de José Luís, Nakajima e ainda pela imposição de SC da cláusula de contratação de 5 milhões que o levou Francisco Conceição para o Ajax…Mimos de quem tanto prega amizade e carinho.

A visão que ele tem dele próprio e do amor que lhe têm justifica a lista dos que não quer no seu funeral porque “os que o amam vão sentir-se infelizes” com essa presença. Não é por ele, é pelos que o amam…

Vale a pena meditar o que faz homens e mulheres inteligentes, uma vez no poder, sentirem-se os únicos capazes de defender os interesses da instituição que representam. Mais grave – perdem o pé e reconstroem uma outra realidade.

PC foi indiscutivelmente um dirigente desportivo acima de todos os outros com quem conviveu. Homem culto, inteligente e ladino como pôde transformar-se num homem totalmente fora do sentir dos portistas? O que lhe diziam os que o rodeavam? O que ele queria ouvir?

O livro demonstra claramente que PC é um homem preso na sua solidão, incapaz de compreender que os portistas lhe estão gratos ao que fez pelo clube, mas acham que é preciso outro rumo e, por isso, escolheram democraticamente Villas-Boas. A amargura de Pinto da Costa é mesmo amarga, daí estas Memórias…

Banho de alegria e de simpatia

A grande questão: pode viver-se sem música? Quando os nossos antepassados imitavam os pássaros, o vento, o mar, procuravam algo para além do que lhes dava o quotidiano. Quando zunia na alma a força do trovão e a beleza do crepúsculo e o suspiro do rouxinol ficou escrito que se não podia viver sem música.

 O homo sapiens inventou um complemento para a eternidade. Os gregos talvez tenham sido os primeiros a elevar a música para patamares a roçar o divino.

Tudo muda quando ouvimos música. A alma voa dentro de nós. Dizem que não há quem a apanhe. Tanto no ritmo, quanto na doçura. Tanto no amor, quanto na resistência.

Ein Klein nacht music de Chopin. Quem não ri ou chora por dentro de si? E as cantatas de Bach, quem não gostaria de se transcender para as compreender a cantata,  Ich ruf dir Herr Jesu, que  compôs Bach e nós ouvimo-la como se a vida já fosse um Céu…e é para quem bem ouvir.

A Gulbenkian, entre tantas e tantas virtudes, organiza concertos com músicas do mundo, sempre de elevadíssima qualidade.

No sábado, foi a vez de chegar ao palco uma mulher cuja voz  oi raptada aos deuses da música e desceu à “ Mother Nature” ( como ela canta) para a espalhar pelos humanos. Afinal a voz iguala o fogo no confronto com os deuses.

O calor contagiante, a intensidade do ritmo e da voz, o poder da percussão e da bateria, a magia do baixo elétrico e os teclados a ziguezaguearem atrás da voz e do ritmo fazendo-nos ficar de bem com a vida. O milagre de Angélique Kidjo.

Veio para cantar e a cantar disse-nos que só se é livre se todos formos livres e que todos somos humanos, se bem que nem sempre pareça, acrescento eu.

A poderosa alegria que da garganta de Angélique ressoa é a voz de África e a nossa vontade de sermos livres verdadeiramente. Ouvindo “Sahara” a nossa mente viaja ondulante com as caravanas e bebe a água dos oásis, como num sonho.

Angélique Kidjo cantou com Lura “Carnaval de São Vicente”. E dançamos porque todos se puseram a dançar. E dançámos contra estes tempos de tristeza. Angélique trouxe-nos um banho de alegria.  Bem-haja. A alegria faz sempre falta, mas há alturas que faz mais falta. Ela explicou na letra de Joy.    

Os oligarcas russos muito maus e os ocidentais muito bonzinhos.

No Ocidente inventou-se um “regime” designado – democracia liberal – como sendo a mãe de todas as virtudes, justificativas de todas as guerras e desculpabilizante de todas as maldades por permitir o seu contraditório. As democracias liberais ocidentais vieram para civilizar o mundo, mesmo quando as “obrigam” a impor a sua bondade a ferro e fogo, até o nuclear, como em Hiroshima e Nagasaki. A contragosto…

Segundo os arautos das democracias liberais, uma das características dos regimes autocráticos, designadamente do russo, é ser capturado por oligarcas que vivem em paraísos de luxos sufocantes. Assim se justifica a confiscação dos bens e empregá-los na compra de armamento ao complexo industrial militar ocidental (dominado por outros oligarcas) para financiar a guerra dos bons contra os maus.

Os bons oligarcas ocidentais são “uns mãos largas”. Há um tal Elon Musk que já “deu” 75 milhões de dólares a outro “mãos largas”, um tal Donald Trump que defende a pena de morte para imigrantes que matem cidadãos dos EUA. Harris não fez comentários a esta medida proposta por Donald, não fosse perder votos.

Musk não se fica pelos 75 milhões. Nos últimos 15 dias da campanha entregará um cheque de um milhão de dólares cada dia, a quem se registar para votar em Trump e assinar uma petição para defender a 1ª e a 2ª Emenda Constitucional, que consagra a liberdade e a compra de armas. Tudo bate certo.

Esta liberalidade de Elon Musk é fantástica e mostra as virtudes da democracia made in USA.

Não é só do lado de Trump. Quando o perdido Joe Biden “debatia” com Trump e desligou, os Democratas correram em direção a Kamala Harris e os santos oligarcas chegaram de imediato com 100 milhões de dólares que nunca mais pararam de chegar à sede.

A democracia dos EUA está bem e recomenda-se. A sua saúde assenta em muitas centenas de milhões de dólares para pagar os anúncios democráticos e que são pagas a peso por oligarcas.

A democracia liberal norte-americana começou a campanha com o Joe dorminhoco, segundo Trump; e com o homem dos processos com prostitutas e Cª, segundo Biden e instável, segundo Harris. Nos EUA é o que há. Já não dá para mais. Que linda democracia. Liberal. Oligarcas só na Rússia, ficam a saber.

PONTOS NOS II

Não se sabe ao certo para onde corre o mundo, embora pareça que vá mudar de direção a médio prazo. Talvez ninguém saiba exatamente. Nem o adivinho cego, o velho Tirésias, inventado por Sófocles, muito antes da SIC ter criado o hierofante dos domingos.

Há quem mova mundos e fundos para ocultar a essência das coisas tal como elas são. Uma das técnicas é reduzir a complexidade da realidade e reduzi-la quase infantilmente aos bons e aos maus. Os bons são os nossos. Os outros, os maus.

O que se está a passar no Médio-Oriente é paradigmático. O mundo ocidental abraçou a causa de Israel que designa como sendo a nossa. Esta narrativa esconde a realidade das coisas e tem como fim último impedir que a liberdade de um povo ocupado se liberte da opressão.

A Resolução 1514 da ONU reconhece a todos os povos o direito à independência e condena as ações repressivas contra a liberdade dos povos subjugados e ocupados.

O direito internacional reconhece aos palestinianos o direito à autodeterminação nos territórios ocupados por Israel, designadamente a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste, de acordo com a Resolução 242 da ONU.

O conflito opõe a luta do povo palestiniano contra o ocupante israelita. Há décadas que sucessivos governos israelitas oprimem e reprimem violentamente os direitos nacionais palestinianos. O rosário das violências é longuíssimo– confiscos, expropriações, muros impeditivos de circulação dentro da Cisjordânia, explosões das casas, prisões sem culpa formada, tortura, assassinatos e dezenas de milhares de mortos palestinianos. Esta é a realidade dos factos.

Em Gaza desde sete de outubro de 2023, os bombardeamentos contra a população indefesa superam as noventa mil toneladas de bombas, três vezes o poder destrutivo das bombas atómicas sobre Hiroshima e Nagasaki (cada uma tinha 15 KT de TNT). Até esta data, os palestinianos mortos são mais de quarenta e um mil, sendo dois terços idosos, mulheres e crianças. Gaza foi arrasada, inclusive hospitais, escolas e campos de tendas onde viviam dezenas de milhares de palestinianos.  

Acrescente-se a esta barbaridade a brutal ideia de que todas estas mortes são uma vitória de Netanyahu. Uma espécie de justificação da carnificina (sim carnificina) pois para certos dirigentes israelitas, como Yoav Gallant, os palestinianos são animais.

Os alvos de Netanyahu são as populações em Gaza, na Cisjordânia e a população libanesa no Líbano. A sua filosofia é aterrorizar as populações para as separar dos combatentes palestinianos ou resistentes à ocupação. Outrora, os donos dos escravos faziam o mesmo a quem se revoltasse contra a escravatura, matavam até se cansarem.

Como se a morte de mais um milhar e meio de israelitas justificasse esta mortandade de palestinianos e libaneses. A inocência dos civis israelitas mortos não pode justificar semelhante mortandade de inocentes palestinianos e libaneses. A desproporção é aterradora. Um país verdadeiramente democrático não age desta maneira. Para reprimir mil e quinhentos mortos não se pode matar a sangue-frio quarenta e um mil palestinianos e arrasar Gaza.

Na Ucrânia, o Ocidente pode continuar a enviar as long as it takes montanhas e montanhas de armas para lutar contra a invasão russa … Na Palestina considera os ataques ao ocupante israelita como sendo terroristas para justificar o envio a cada dia que passa de toneladas de armamento destrutivo para Netanyahu prosseguir o as suas façanhas de guerra contra as populações e assassinando os líderes palestinianos ou do Hezbollah disponíveis para fazer acordos. O nome desta política é o mais cruel terrorismo – o terrorismo de Estado.

O que verdadeiramente está em causa na Palestina não é o Irão, nem o Líbano, nem o Iémen. É a ocupação israelita dos territórios palestinianos. É ainda a ocupação dos Montes Golan da Síria e os permanentes bombardeamentos de Israel aos seus vizinhos.

Até que Israel ponha termo à ocupação dos territórios palestinianos e reconheça a autodeterminação do povo palestiniano não haverá paz.

O mundo vai em sentido contrário ao de Israel e seus apoiantes ocidentais. Nem a Indonésia resistiu aos timorenses. De um lado a opressão nacional, do outro a resistência à ocupação. Quem escreveu o abecedário não foi por acaso que pôs acento nos ii.

https://www.publico.pt/2024/10/15/opiniao/opiniao/pontos-is-2107915

A DITADURA DEMOCRÁTICA E AS DEMOCRACIAS LIBERAIS

 Para fazer de conta que governam, os governos e os partidos oposicionistas criam um clima de permanente tensão, uma espécie de todos contra todos para esconder que, seja quem for que governe, mantém, no essencial, o status quo, o anunciado fim da História.

Quem acredita que Biden governa? É um faz de conta e não tem só a ver com a idade.

A arte para alcançar tal desiderato foi gradualmente transferir o poder político, para o poder económico. Para tanto foi necessário operar importantes transformações quer na superestrutura, quer na infraestrutura.

No chamado Ocidente, o capitalismo da produção de mercadorias foi dando lugar a um capitalismo em que as finanças dominam. Nos EUA e na Europa, a vaga neoliberal mudou muito o fundo da economia. Procedeu-se à substituição das grandes fábricas pelas indústrias do entretenimento (turismo, tecnologias, futebol, desporto em geral, saúde) e também no investimento no complexo militar-industrial

Paralelamente com a implosão da URSS, o capitalismo sentiu-se livre de constrangimentos políticos e desencadeou uma nova política de ataques aos direitos conquistados desde a década de 50 do século XX. Foi assumido pelos diversos poderes que não se podia viver como se tinha vivido. Era preciso “castigar” os que acreditavam que os filhos poderiam viver melhor que os progenitores.

Na U.E. começou o desmantelamento do Estado social com o avanço do federalismo e a implantação da moeda única. A financeirização tomou conta do coração das instituições da U.E. O que a fazia diferente não resistiu e tornou-a uma organização orientada pelo neoliberalismo mais duro que puro.

No plano da superestrutura venceram as ideias de que só é pobre quem quer. A pobreza é da exclusiva responsabilidade dos pobres.  A sociedade é uma invenção, o que existe são indivíduos que têm de competir entre si. Ganha o melhor. Chamam a isto meritocracia.

A derrota do comunismo soviético, a mudança de campo da social-democracia (a ponto da Internacional Socialista se encontrar em estado de hibernação) deixou o mundo sem referências que o nortearam durante quase um século.

Este quadro das chamadas democracias liberais orientadas por um único Deus – o Santo Mercado – permite que dentro dele se esbocem e se travem disputas onde ninguém está de acordo com ninguém, salvo no que já referimos como sendo o quadro global dominado pelo capital financeiro, considerado intocável, dado que é o suporte do mercado. O novo Príncipe, alcunharia Maquiavel.

A propósito de medidas que os governantes tomam, em geral, estabelece-se uma verdadeira guerra que não leva a lado nenhum, salvo à erosão do partido no poder que acabará por ser substituído por outro mais ou menos parecido que enfrentará a mesma procissão de oposições e de novo à reentrada no governo do derrotado anteriormente. Todos os anos, seja com o PS, seja com o PSD, o SNS se revela incapaz de servir, devido à aposta na privatização dos serviços de saúde, altamente rentáveis. Só a maior desfaçatez pode justificar que uma grávida percorra mais de cem quilómetros e, às vezes muito mais, para dar à luz.

Há quem chame a estas virtudes liberais o arco da governação, isto é, o campo que vai dos socialistas às várias direitas mais ao centro ou mais à direita da direita um pouco por toda a Europa, já sem linhas vermelhas quanto à extrema-direita, mas vermelhíssimas contra a esquerda quando ganha eleições, como em França.

Naturalmente que para parecer que existe uma verdadeira escolha capaz de na verdade fazer a diferença, o sistema ancorou na velha ideia de Thomas Hobbes de todos se posicionarem contra todos, substituindo o Príncipe ditador pela omnipresente ditadura democrática liberal dos mercados que nunca foi a votos.

A diferença do ensaio “Leviatan” de Hobbes, para a atualidade, reside no facto dos povos poderem votar nos partidos que aceitem que estas regras são intocáveis – sai um e entra outro ao velho estilo do rotativismo liberal do início do século passado, ficando sempre tudo na mesma.

 Os que não aceitam estas regras são excomungados ideologicamente. Se, um dia, quiserem vencer têm de ser capazes de forjar alternativas baseadas em amplas alianças para num primeiro momento estancar a hemorragia neoliberal e depois avançar para transformações com base na unidade democrática, cultural, ecológica e popular. Só a verdadeira diferença pode ressuscitar a esperança e a democracia participativa. Até lá vira o disco, toca o mesmo e cresça a extrema-direita.

https://www.publico.pt/2024/09/11/opiniao/opiniao/ditadura-democratica-democracias-liberais-2103712

Os amigalhaços

Montenegro afirmou ontem que o relatório sobre a privatização da TAP não trazia nada de novo.

Sendo assim, ele já sabia que o novo ministro das infraestruturas ,na altura secretário de Estado, tinha participado com todo o esplendor na maquiavélica e ruinosa privatização da TAP.

Apesar disso, veio defendê- lo. Estão no mesmo barco e a favor da ruína das grandes empresas públicas para depois justificar o abocanhamento pelos grandes “empreendedores” como o Barraqueiro e o tal Nielmann.

Montenegro não se pode livrar de Miguel Pinto Luz porque tinha de se amputar. Quando se aproximar o charco lá terá de o deixar à espera. 

Pode aguardar como a Dra. Maria luís. Os amigos sabem escolher os amigos.

Quanto vale a vida de um palestiniano no mercado dos interesses vitais ?

As manifestações contra Benjamin Netanyahu e a greve geral de segunda-feira passada dão que pensar por um motivo simples. No centro desta explosão está morte de seis reféns por parte do Hamas, segundo o governo israelita. Os manifestantes e os grevistas exigem um acordo de cessar-fogo com o Hamas para evitar a morte de mais reféns israelitas.

O foco desta oposição a Netanyahu compreende-se, os israelitas unem-se na proteção da vida dos seus compatriotas.

Se repararmos bem, neste momento, de um lado, estão pouco mais de uma centena de reféns e, do outro lado, dois milhões e quatrocentos mil palestinianos tratados como gado e abatidos como presas de caça com todo o tipo de bombas made in USA .

No Ocidente europeu, a  Sra. von der Leyen e a sua equipa de fariseus a pregar o direito de Israel a defender-se…  a U.E. sairá muito mal aos olhos do mundo. Bem pode falar de direitos…ninguém acreditará na sua narrativa contra a evidência dos crimes dos governantes israelitas.

Os mais de quarenta mil mortos palestinianos e de cem mil feridos, os constantes bombardeamentos de todas as infraestruturas – escolas, hospitais, serviços públicos – não fizeram os israelitas saírem à rua para exigir o cessar-fogo. Na verdade, a vida humana nalgumas latitudes tem muito pouco valor.  

Agora que os israelitas estão na rua a exigir um cessar-fogo, os EUA e a U.E. estão a dar o seu apoio ao governo dos carniceiros de Telavive e a remar contra esta maré que varre Israel.

Os palestinianos sustentam as suas pretensões no direito internacional, nomeadamente na Resolução 242 que lhe garante a sua autodeterminação. Mas não tem a força militar.  Enfrentam um poderoso inimigo que ocupa a sua terra. A vida de uns tantos israelitas na mesa das negociações pode salvar a vida a dezenas de milhares de palestinianos e fazer parar a guerra. São as “leis” da guerra. Pelo que vimos as que a população de Israel entende. Abençoadas sejam, se trouxeram o fim de tanta morte e de tantos inocentes.

Josep Borrel, garnizé jardineiro, a fazer de gerifalte

No passado dia 29 Josep Borrel, socialista e jardineiro, declarou, ao lado do MNE da Ucrânia, que os países da NATO deviam levantar a interdição deste país utilizar os misseis de alcance médio dentro da Rússia.

Hoje, logo cedinho, veio matizar a coisa. A UE não está em guerra com a Rússia. Esqueceu-se de esclarecer que são militares profissionais ou mercenários ingleses, franceses e norte-americanos que têm a seu cargo o disparo desses misseis, comandados a partir da Alemanha. E que esses misseis já são disparados contra a Rússia. Apesar disso, os ucranianos só os cheiram. Veem-nos. Não lhes tocam. São os da NATO ou ao seu serviço que os disparam. Talvez seja uma narrativa para explicar a derrota que, em terras lusas, Cravinho e Costa juravam não aceitar.

Mas o interessante deste socialista, cuidador do jardim europeu, é que acrescentou com enfase que a UE estava solidária com a Ucrânia de Zelenski e iria continuar a treinarna Ucrânia, no mínimo, 60.000 militares ucranianos porque a Ucrânia tinha direito a defender-se da ocupação russa.

Não discutindo o fundo da questão coloca-se uma outra similar e noutra latitude: a Palestina está ocupada há mais de 70 anos, tem Resoluções da ONU que lhe reconhecem o direito à autodeterminação, então não se pode defender e atacar o ocupante? Cruzes, cruzes. Mandela também era terrorista e Agostinho Neto e Xanana Gusmão e Machel e o Tiradentes.

Simples: o jardineiro só tem rosas para Netanyahu, mas por amor aos europeus não é possível, já não digo 17.000 e muitas sanções como aplicaram à Rússia do alto do seu poder majestático, mas as mais de quarenta mil mortes, a maioria crianças, mulheres e idosos não vale uma sançãozinha aos governantes israelitas? Não, diz a Sra Ursula e o Sr jardineiro porque Israel tem direito a defender-se. Ora vejam, Israel não leva com sanções e continua a receber milhares de milhões de dólares e euros porque na prática os ocupados não têm direito a defender-se. Só os ocupantes com o apoio dos EUA. Kamala Harris foi absolutamente clara ontem numa entrevista à CNN -os EUA vão continuar a apoiar Israel em todas as circunstâncias. Os serventuários da UE também.

Quando estes senhores e estas senhoras falam de independência dos povos e de direitos humanos são traficantes de palavras. As palavras são biombos para esconder toda a maldade que lhes vai nas entranhas, permitindo a maior vergonha deste século que é o assassinato a frio de uma população inocente e indefesa, apenas pela simples razão de ali ter nascido e ali querer viver. Até na caça aos animais as regras são menos injustas. As rosas do jardineiro são ramos de flores para o carniceiro de Telavive. E bombas assassinas para os palestinianos. A todas as horas de todos os dias.