O triste disco riscado da derrota russa e a paz de que tanto precisamos.

A Rússia tinha de ser derrotada, este era o disco dos dirigentes da NATO dos EUA, da União Europeia e do Ocidente global. E da esmagadora maioria dos opinion-makers, dos comentadores e da intelectualidade ocidental. Todos à uma – “A Rússia tem de ser derrotada”. Quem assim não pensasse era antieuropeu e simpatizante do autoritarismo.

A quem ousasse perguntar como se derrotava uma potência nuclear, diziam que era chantagem russa. E que o regime putinista não aguentaria muito mais tempo. As mais de 17 mil sanções fechariam a Rússia ao mundo, tal forma era o mundo da irrealidade onde navegavam porque na verdade para eles o mundo era o Ocidente, o resto era a selva, como disse sem pestanejar o socialista espanhol Josep Borrel. Agora o mundo não pode ser o caos como disse o MNE de Espanha, o que mostra a distopia que deles emana. Caos contra o jardim?

Zelenski fez aprovar um decreto a proibi-lo de participar em qualquer negociação com Putin, acontecendo agora andar de mão estendida para negociar com quem se proibiu a si próprio de negociar com o Presidente russo.

Era o tempo das manhãs gloriosos dos gloriosos tanques, mísseis, F16 e conselheiros da NATO que foram estrondosamente derrotados na Ucrânia.

Por uma questão de amor à verdade é preciso ter em conta que em Istambul, logo a seguir ao início da guerra, foi encontrado um acordo que consistia na renúncia da Ucrânia a entrar na NATO, na anexação da Crimeia à Rússia e pouco mais.

Foi o Ocidente capitaneado por essa figura de espantalho dos pomares, um tal Boris Johnson, que impediu a assinatura do acordo prometendo à Ucrânia a derrota da Rússia e o apoio como dizia Biden, Von der Leyen e Stoltenberg, Costa e Cª as long as it takes.

O que se seguiu devia envergonhar quem tivesse vergonha. Todos os dias a censura impedia de chegar à UE qualquer notícia de qualquer entidade russa, tal era o medo dos euroburocratas de Bruxelas. Censura. No tempo da guerra fria podia comprar-se qualquer jornal russo em qualquer cidade europeia, pois agora os liberais de Bruxelas proibiram-no.

Arestovitch, do Conselho de Segurança da Ucrânia, ufano, declarava que a NATO dava as armas e os ucranianos o sangue para desmembrar a Rússia.

João Cravinho, ex MNE, tal cabo de esquadro, afirmava de cima do seu poderio militar que Putin seria preso se viesse a Portugal, calando-se quanto a Netanyahu. Uns valentões.

A Rússia resistiu às sanções e a UE que ficou nas covas sem energia barata, passando a ficar dependente do grande aliado, os EUA, que a vende quatro vezes mais cara. Grande negócio.

Quarenta e sete milhões de europeus da UE não têm dinheiro para aquecer as sua casas Por que razão viver em casas frias faz tão mal à saúde? | Pobreza energética | PÚBLICO. E, no entanto, os dirigentes não eleitos da UE continuaram a sua senda de vassalagem aos EUA até que em Washington outro Senhor ( não recomendável)tomou o comando e deixou esta gente sem saber o que fazer e a rosnar às escondidas.

António Costa que repetiu ad nauseam que a Rússia tinha de ser derrotada vem agora dar lições de tática a Trump achando que as concessões ucranianas deveriam ser feitas só depois de começarem as negociações que sempre recusou porque a Rússia tinha de ser derrotada, sem que ele e outros estrategos e alguns adiantados mentais tenham tido arte de nos explicar como se derrotava uma potência nuclear que em muitos aspetos deste armamento tinha ultrapassado os EUA.

Sei, insisto, que não se envergonha quem não tem um pingo de vergonha. Porém, é tempo de fazer uma espécie de balanço sobre a narrativa quase paranoica do que se passava na guerra em que a Rússia estava a ser derrotada todos os dias. Para tanto enviavam para Kiev centenas de milhares de milhões de euros e asseguravam o funcionamento da economia daquele país e não há uma explicação deste erro estratégico porque estes dirigentes cometeram ao insistirem na entrada da Ucrânia para a NATO, colocando os misseis dos EUA a escassas centenas de quilómetros da capital russa, o que os EUA não permitiram a Cuba em 1962.

Dançavam de acordo com a música de Washington. Cegos pela sua incapacidade de verem para além da sua ideologia neoliberal, deram agora conta que a orquestra do Titanic já se afundara e com ela os vassalos de Biden.

A UE contaria se fosse um projeto de coesão social, um espaço de direitos, de paz e de amplas liberdades. Mas deixou de o ser. É um espaço onde reina o ordoliberalismo e no qual uns mandam e enriquecem e outros empobrecem. Esta é a realidade. Aumentam as desigualdades e a pobreza. A Alemanha e a França estão em crise. Não são nada animadoras as perspetivas.

Continua a russofobia. O caixeiro-viajante da NATO, o Sr. Rutte, insiste na sua atividade de representante do Pentágono em vender armamento. Primeiro armas, depois armas e no fim pão e habitação. Esta é a filosofia dos belicistas. Eles não vão combater. Mandam os filhos dos outros morrer nos campos de batalha e, como se vê, na Ucrânia as coisas não correram bem, deixaram um país em ruínas, sem hipóteses tão cedo de voltar a erguer-se, apesar de lhes terem prometido as long as it takes.

Há lições a tirar acerca da narrativa ocidental acerca da guerra. Foi parcial e manipuladora. Tentou justificar a política de adesão da Ucrânia à NATO, sabendo-se que a Rússia nunca o consentiria, tal como os EUA nunca aceitariam que no México ou Canadá houvesse armas nucleares russas. Os dirigentes europeus comportaram-se como agentes dos EUA e em troca foram mal tratados, como é normal acontecer a quem não tem coluna vertebral.

Estas torrentes belicistas de certo modo anestesiaram as populações, mas não as ganharam para o belicismo. Há um atordoamento na consciência dos europeus. É preciso esclarecer mais e mais. Homens da integridade de Agostinho Costa, André Lopes, Mendes Dias e outros, enxovalhados por almas penadas, ajudaram a desmontar o grau de manipulação que esta gente sem alma foi capaz. Aqui fica a minha homenagem.

A Europa precisa de paz. A Rússia está na Europa há muitos séculos. Por acaso foi invadida por franceses e alemães e também invadiu outros no quadro da Pacto de Varsóvia, o que não tem desculpa. É preciso acabar com este ciclo. É preciso uma Carta de Segurança da Europa e mundial onde todos participem e se sintam seguros. Não é com armas. Com armas prepara-se a guerra e não a paz. O império romano justificava a corrida às armas para impor a paz, mas todos sabem que as legiões romanas impunham a lei de Roma. É preciso parar a corrida aos armamentos nos EUA que tem o maior exército do mundo, na Rússia, na China e UE. Em todo o lado. O mundo precisa de paz. É preciso fazer muito mais pela paz. Não podemos deixar a Putin, Trump, Xijiping, Ursula o monopólio da paz. Temos de nos mobilizar contra o belicismo e pela paz.

O TERRITÓRIO DE UM POVO NÃO É IMOBILIÁRIO TRANSACIONÁVEL

Como é do conhecimento geral, a governação no mundo ocidental (e não só) atravessa uma séria crise de confiança pelo facto de os cidadãos terem deixado de confiar nos governantes.  

Um pouco por todo o lado verifica-se a tendência de essa frustração ser transformada em apoio a políticos que se afirmam contra o sistema para dele se apoderarem e se servirem.

Nesta conformidade, líderes da extrema-direita “arrasam” o sistema que os alimentam e hoje participam direta ou indiretamente em muitos governos europeus, talvez a maioria. São contra o sistema até a se guindarem ao poder.  Em Portugal já participam indiretamente no governo regional dos Açores e marcam a agenda em diversas áreas, designadamente na imigração e na segurança interna, no plano nacional.

Nos EUA a crise é visível – nas brutais desigualdades, na pobreza, nos massacres de rua, na criminalidade, na queda da esperança média de vida, no número de presos, na dificuldade (impossibilidade para já) em competir com a China, na queda da produção industrial, no crescente isolamento internacional.

É provável que um homem como Trump com uma ambição desmedida, vivendo num ambiente de gente da mesma estirpe, imagine o mundo à sua imagem e semelhança. Dada a confrangedora ignorância político-cultural, olha para os diferentes países como para as suas Torres na 5ª Avenida de NYC, isto é, oportunidades de negócio.

Já tinha prometido a Kim Jong Un grandes e maravilhosos investimentos no Mar da Coreia. Agora, chegou a vez de fazer de Gaza uma Riviera no Médio Oriente escorraçando um povo inteiro da sua terra milenar, tal como se vivesse no tempo dos faraós do Egito e bastasse a sua vontade para passar a ser lei contra todas as leis internacionais que no Conselho de Segurança da ONU se debruçaram sobre o assunto. Tal como fizeram os foragidos europeus idos para a América do Norte dizimando os nativos e criando os EUA.

Perdido no seu labirinto de mitómano e saído do mundo dos reallity shows, Trump rodeou-se de um naipe de aventureiros plutocratas parecidos consigo em matéria de desígnio, ou seja, abocanhar o melhor, mesmo à custa de tempestades de pobreza como se está verificando no DOGE encabeçado por Musk para despedir centenas de milhar de funcionários, substituindo-os pela sua IA.

Trump prometeu o fim das guerras e até acabar a guerra na Ucrânia num dia. É o que se vê. Pressionou Netanyahu para fazer um cessar-fogo, talvez para obter a libertação dos reféns e “credibilidade” internacional. Joga com Netanyahu, mas Israel sabe que pode contar com Trump para prosseguir a sua violentíssima ocupação dos territórios palestinianos.

Mas se repararmos bem, o programa de Trump está virado para o passado e daí o Great Again, uma visão que está conforme o seu quadro mental. É a decadência a bater à porta da potência hegemónica que sabe que vai deixar de ser.

Alega que melhor seria o Canadá incorporar-se nos EUA, que a Gronelândia deve fazer parte dos EUA e que o canal do Panamá pode ser tomado pelos EUA. Como se tivesse a função de atribuir nomes aos lugares do Planeta, rebatiza o Golfo do México. Ameaça aliados e, apesar disso, os governantes europeus quase nem pestanejam. Seguem apoiando o regime de Zelenski e a guerra perdida. Anunciou que se vai encontrar com Putin para “entregar” a Ucrânia a si própria (menos os metais raros) e aos europeus. Os vassalos nem resmungam. A Europa do belicismo, ávida de apaziguar o Minotauro de Mar- a -Largo, com a compra de armas ao Pentágono segue o triste destino da irrelevância.

Trump insiste em querer comprar território pertencente aos palestinianos e que não está à venda. Pelo menos 47 000 palestinianos morreram pela sua terra, a Palestina. Em cima de tanto sangue derramado, Trump sonha com negócios. A UE assobia, incapaz de aplicar uma sançãozinha ao carniceiro de Telavive. O Ocidente está assim.

NO CASULO DO TEMPO

De tantos dias foram feitos quarenta e oito anos sob a ditadura, que aqueles que os viveram, talvez pensassem que as suas vidas assim tivessem de ser vividas, e que nada rasgaria o véu da desgraça que cobria Portugal e as colónias.

Foram tantas as esperanças adiadas, ao longo de quase meio século, que parecia nada poder fazer frente com êxito ao poder da ditadura. Milhares e milhares de homens, mulheres e jovens morreram sem terem alguma vez respirado o ar puro da liberdade e sem terem participado na vida política de modo livre, como hoje todos podemos fazer, independentemente de limitações e constrangimentos.

Sempre o adiamento de uma esperança, que se renovava noutra nascente que os persistentes descobriam nos confins dos sonhos a martelar o futuro.

Um país desoladamente cheio de gente pobre com uns quantos senhores no mando e sob vigilância do cruel ditador que se fazia passar por uma espécie de pai da nação e que açulava os cães das várias polícias, sobretudo a da PIDE, a quem ousasse ter voz num país que pretendia castrar a voz e a alma.

O homem de Santa Comba Dão que defendia o esplendor de Portugal do Minho a Timor-Leste, um Império de portugueses, arengava que éramos pobrezinhos, mas alegres e que um copo de vinho e uma casinha caiada de branco bastava para se ser feliz. Tantas terras, tantos mares, tantas riquezas, tantas maravilhas para se ser feliz, condenados a ser pobretes e alegretes como pretendia António Oliveira Salazar, o ditador.

Aliás, numa das lições dos livros da escola primária, salvo erro da terceira classe, o texto dava nota de uma menina, Joaninha, toda contente que abria a porta a um pobrezinho para dar esmola ao coitadinho, e assim como boa cristã, graças aos pobrezinhos, podia praticar a caridade.

No regime sobressaíam os “inhos” numa tentativa de criar um clima irreal de quase sonho entre os portugueses para fazer ocultar toda dureza da vida e da política sustentada na força bruta.

O regime conseguiu fazer passar a ideia de que dada a sua natureza era impossível mudá-lo e, portanto, o caminho era submeterem-se aos desígnios de Salazar, o tal pai da Nação e, como tal, tinha de saber castigar os filhos recalcitrantes a bem da nação. Coitadinho, obrigado a punir…para defender Portugal na União Nacional e do Minho a Timor-Leste.

Os africanos nascidos nas colónias eram portugueses com a bênção da Igreja, mas o cardeal Cerejeira considerava os negros símios no livro que escreveu sobre Nicolau Cleonardo que viajou pelo Alentejo no século XVI e os considerava como raça desprezível e inferior (in Lutas da Miséria, página 183, editora Jornal do Fundão e canto redondo, José Paulo Leitão, advogado). Talvez um filho de Deus como um cardeal fosse filho de outro Deus, diferente dos outros Deuses, mesmo que, segundo a doutrina católica apostólica e romana, haja apenas um único, omnipotente, omnipresente e omnisciente.

As casas em Portugal no início dos anos 70 do século passado 53% não tinham água canalizada, 42% instalações sanitárias, 40% esgotos, 36% eletricidade.

O Ensino Superior era frequentado por cerca de oitenta mil estudantes em todo o país. Em 2023 eram 446.028.

Havia, em todo o país, em 1973, 25,7% de analfabetos e atualmente a taxa é de 3,1% (dados in Portadata)

Nos anos 80 do século passado ainda havia ovelhas a pastar perto do aeroporto de Lisboa.

 Uma viagem de carro do Porto a Lisboa por ocasião do Natal chegava a Leira e entrava numa fila compacta até Lisboa…

Portugal era um país cuja grandeza enaltecida pelo regime ditatorial se referia ao passado, constituindo o presente sob o mando de Salazar o permanente elogio da pobreza honrada, isto é, portugueses pobres, mas honrados.

Nesse longo período, quase meio século, Portugal era um país enclausurado, não só porque o regime era rejeitado na Europa, como no plano mundial.

O colonialismo e mais tarde a guerra colonial isolou Portugal, desprestigiando-o em todos os areópagos internacionais. Portugal era desconhecido, sendo que os motivos pelos quais era conhecido resultavam da emigração, da ditadura de Salazar/Caetano e da guerra colonial. O isolamento era tão grande que as viagens aéreas para Angola ou Moçambique eram obrigadas a contornarem certos países que não permitiam que os aviões portugueses os cruzassem nos seus céus.

Em Portugal vivia-se mal e nas colónias muito pior. A guerra veio acrescentar maior desgraça a toda esta situação.

No início dos anos sessenta, dois fenómenos ocorreram em simultâneo, a migração do interior para a área metropolitana de Lisboa e a emigração de centenas de milhares de portugueses, designadamente para França, Alemanha, Reino Unido e outros países europeus. De Norte a Sul do país em quase todas as famílias havias migrantes e ou emigrantes.

Desde o 25 de Abril acentuou-se a tendência para a deslocação da população do interior para o litoral. Atualmente 83% da população vive no litoral, in Portadata.

Os jovens iam para a guerra; grande número de adultos emigravam. A juventude vivia numa grande aflição, a incorporação militar acarretava três a quatro anos nas Forças Armadas e a incerteza do regresso das três guerras coloniais, Angola, Guiné-Bissau e Moçambique.

A ditadura oprimia e reprimia impondo a todo o país um reino de pobreza, o que era levado a cabo através do medo e do terror, sobretudo da polícia política, a PIDE/DGS que com o seu exército de informadores espalhados no país e nas colónias tentava impedir qualquer movimento democrático de oposição ao regime fascista.

A juventude enfrentava um duplo desafio: ficar e ir para a guerra a milhares de quilómetros em África ou desertar.

A Juventude universitária sentia a situação dramática em que se encontrava e procurava saídas.

Os pesadelos faziam parte do quotidiano de um jovem estudante universitário.

Era moldado, em geral, para “não dar cabo da vida”, o que significava aceitar que ditadura era “eterna” e que qualquer luta estava condenada ao fracasso exatamente pela força bruta conjugada da opressão e da repressão.

Os media censurados pelo lápis azul controlavam as notícias e o povo só podia ter acesso ao que o regime permitia. Portugal era um país cercado e controlado encostado ao passado e sem vista para a modernidade.

Os pais, na sua maioria, educavam os filhos a serem submissos, pois de nada adiantava ter razão contra um poder tão brutal. “Tens Razão”, mas que vais tu mudar? Essa era a ideia que Salazar conseguiu inculcar na mente dos portugueses. Essa foi a sua vitória, pois morreu sem ser responsabilizado por tantos crimes cometidos no continente e nas colónias. 

Se tivermos em atenção que a Inquisição vigorou em Portugal entre 1536 e 1821 por via da delação e do terror da tortura e da fogueira, o espírito dos portugueses foi também moldado por estas circunstâncias de séculos.

Basta pensar que nos dias dos Autos de Fé em Lisboa a Inquisição tudo fazia para ter milhares de espectadores” …Ávidos por garantir a presença de uma vasta multidão de espectadores e evitar concorrência, os inquisidores de Lisboa emitiam uma declaração pública que proibia os outros clérigos de pregar sermões no mesmo dia. Além disso informaram os habitantes de os “Sumos Pontífices têm concedido muitas graças e indulgências às pessoas que assistem a semelhantes atos…”in A hermafrodita e a Inquisição portuguesa, de François Soyer, Editora Bertrand, pag.188.

Isto durante trezentos anos. Não só incentivando a delação, como promovendo a participação “desfrutando” dos tormentos horríveis dos condenados. Seguramente que esta prática contribuiu para produzir um certo tipo de personalidade.

Nas pequenas cidades e vilas do país, onde a presença dos poderes reais se faziam sentir a vida estava manietada e esperava-se pelo emprego, pela ida à tropa, pelo casamento e pelos filhos, tudo numa sequência sem qualquer chama.

O partido no poder (só era permitido o partido de Salazar, a União Nacional) mandava através das suas múltiplas redes de influência, onde nenhuma decisão era escrutinada. Fizessem o que fizessem a censura impedia que se soubesse.

 Este era o Portugal salazarento, pardacento, pobre e sem futuro que não fosse o da pobreza e o de inculcar nos cidadãos o fazer de conta para não cair nas garras da PIDE. Esta polícia garantia que nada acontecia. Para tanto a repressão tinha de ser exemplar e dissuadir os oposicionistas. 

A convergência do regime com a Igreja oficial constitui um dueto em que sustentou a ditadura durante 48 anos. Salazar e o Cardeal Cerejeira eram os dois rostos mais proeminentes da ditadura.

Salazar e o seu regime conseguiu durante quase cinquenta anos controlar o país oferecendo-lhe ordem e pobreza. Dá que pensar sobre como somos.

COIMBRA- República Ninho dos Matulões

Tanto quanto consegui apurar na aldeia em que nasci, Amorim, concelho da Póvoa de Varzim, só havia notícia de um dos homens mais ricos da freguesia, ter tido dois filhos que foram estudar para a Universidade de Coimbra, um para Letras e outro para Medicina.

Era na altura, anos 60 do século passado, uma aldeia de gente pobre e remediada e duas ou três famílias com mais posses.

A maioria das famílias passava mal, quer em termos de acesso a alimentação, quer em termos de conforto caseiro. Meia dúzia de casas teriam eletricidade, saneamento e acesso a água da rede pública. Havia retretes, poços ou a fonte onde se ia à água e se lavava a roupa.

O chão das casas era térreo. Graças à emigração as coisas foram mudando. Todos tinham familiares em França que iam de assalto, pagando a um ou dois passadores até França. Lembro-me de um vizinho que tinha o contacto com a rede de passadores e de parte dos meus tios terem ido de assalto para França a fim de poderem ter uma vida mais ou menos decente. Um dia veio a PIDE e prendeu o vizinho.

Acontecia a muitos emigrantes mudarem os lençóis duas ou três vezes por ano. Era nos famosos bairros de lata que a maioria dos emigrantes portugueses vivia. A vontade de juntar um pecúlio era tão forte que a fixação era no regresso e poder ter outra vida.

Por sorte, embora o meu pai e a minha mãe não fossem ricos, seriam remediados, o meu pai tinha o sonho de ter um filho ou filha doutor(a), melhor, licenciado, o que num país empacotado em provincianices equivalia a ser doutor(a).

Lá fui eu para a Faculdade de Direito de Coimbra para a República onde tinham estado os acima referidos estudantes universitários. Ficava mais em conta, cerca de quinhentos a seiscentos escudos, dois euros e meio a três na “nossa” moeda atual.

 O meu pai foi levar-me a Coimbra de carro – nessa altura os cento e cinquenta quilómetros levavam 4 horas a percorrer, como se fosse uma longa viagem – e insistiu em três questões fundamentais para eu conseguir acabar o curso de Direito:

– Não me meter em políticas nem discutir política, seria a minha desgraça.

– Não discutir religião, era católico e seria o bastante para ter a proteção divina de que iria precisar.

– Não namorar, pois o namoro impedir-me-ia de concentrar no curso.

E lá fui eu para fora do ninho e para entrar no Ninho dos Matulões, República de estudantes com tradições na Póvoa de Varzim, Leiria, Caldas da Rainha e Alcobaça.

Onde eu entrei…

Em 1967 a Associação Académica de Coimbra estava encerrada pelo governo devido à crise académica de 1965, cujo desfecho levou o governo a impor uma Comissão Administrativa, a qual não era aceite pelos estudantes que entendiam dever serem eles a eleger os corpos gerentes, como é lógico e natural.

Havendo eleições, eram eleitos estudantes que propugnavam a Reforma do Ensino e uma vida democrática dentro da Academia. Isso o governo não permitia.

Para se ter uma ideia do desprezo pela vida democrática na Academia, a lista eleita, só tomava posse se o governo a homologasse. Porém, se a lista eleita não cabia nos parâmetros governamentais, podia não ser homologada e normalmente era imposta uma comissão administrativa, o que sucedeu muitas vezes nos anos 60.

Na República Ninho dos Matulões o conjunto dos repúblicos estava comprometido com a luta pela realização de eleições na AAC e para pôr termo à comissão administrativa imposta pelo governo e a quem os estudantes não reconheciam a mínima legitimidade. 

O Ninho pertencia ao núcleo duro do Secretariado do Conselho das Repúblicas que estava na linha da frente na luta pela realização de eleições para os corpos gerentes da AAC.

Fui encontrar um ambiente marcado por duas características contraditórias – por um lado, a tradição praxista da velha Coimbra universitária vivendo fechada em relação à população e, por outro lado, um movimento que, mesmo dentro da Repúblicas, as guardiãs da praxe, se manifestava contra a praxe, designadamente os seus aspetos mais retrógrados, como por exemplo rapar o cabelo aos caloiros que andassem na rua depois das 20h, algo perfeitamente medieval e abusivo. Pelo andar da carruagem, passados 50 anos ainda se reimplanta tal prática e se instala na vida académica lisboeta que por milagre acordou para a praxe nos idos anos 80/90 do sec.  passado…Falta ouvir o Toni de Matos a cantar Ó tempo volta para trás.

 Foi uma surpresa do tamanho do mundo chegar com as diretivas familiares bem presentes e entrar num antro onde se discutia política a todo o tempo e a religião era tema constante a partir do existencialismo e do marxismo.

Ser estudante universitário, segundo os mais velhos, implicava estudar, mas também compromisso com o país, com o exercício das liberdades de reunião e associação que tinham sido cortadas, tal como no país.

Depois havia a guerra colonial, nada a justificava. Era injusta e apenas servia para destruir vidas, as dos portugueses e as dos guerrilheiros.

Abria-se um novo mundo. Havia muitas reuniões. Umas para recolha de abaixo-assinados para recolha de assinaturas a exigir eleições. Outras para encontrar o candidato para delegado de curso do 1ªano contra o candidato oficial. Outras ainda para organizar a marcha noturna da Tomada da Bastilha que devia ser consagrada à luta por eleições na AAC.

Como em todas as iniciações, os ambientes envolventes têm uma importância e um impacte grande na adesão dos que se aproximam pela primeira vez.

Espantou-me o grau de seriedade e de conhecimento dos que fui encontrar nas circunstâncias existentes na Academia. Algo que não imaginara. Em todo o “movimento” havia um sentido de responsabilidade, pois era claro que do outro lado estava o implacável regime.

A marcha noturna silenciosa com archotes a reclamar eleições em absoluto silêncio com milhares de estudantes constituiu para mim algo quase transcendental. Um jovem provinciano educado na submissão com a sua capa e batina a desafiar o poder era fascinante.

Aquilo era o que corria no sangue rebelde da juventude. Além do mais, bem organizado, sem palavras de ordem, apenas a afirmação de uma vontade clara e inequívoca que o Conselho das Repúblicas transmitia às autoridades: tem de haver eleições e acabar com o reinado da comissão administrativa.

Numa reunião numa das Repúblicas, salvo erro no Bota – Abaixo, onde era também caloiro o Mário Brasileiro, houve, para minha grande surpresa, quem indicasse o meu nome para candidato a delegado decurso do 1ªano de Direito.

Em pouco mais de um mês, tudo o que constituía o pressuposto do acordo familiar para ir estudar Direito, ia por água abaixo. 

Esta singularidade, de certo modo, é demonstrativa do isolamento do regime fascista. Já não bastavam as “imposições” familiares. O regime estava tão isolado, tão incapaz de responder aos problemas da juventude, agravados com a guerra colonial, que perdia em toda a linha no confronto quotidiano nas Universidades.

O regime mostrava-se incapaz, mesmo com a repressão, de reproduzir os quadros que necessitava para se prolongar. A guerra colonial estava a agudizar de uma forma extrema as contradições dentro do próprio regime com entre o regime e a população.

Seguramente que a maioria dos estudantes pretendia tirar o curso, casar, ter filhos e ser feliz…  Só que. entre o regime e as propostas de ativistas do movimento associativo, a maioria caía para o lado dos dirigentes estudantis, seguindo as suas propostas, mesmo que à custa de certos sacrifícios pessoais ou familiares, como foi o caso da greve aos exames que causou o chumbo a milhares de estudantes em 1969, após ter sido votado em Assembleia-Geral a greve aos exames.

O país virara as costas ao regime. Aguentava-o. Não queria, mas tinha medo, como tantas vezes na História.

Fui eleito para delegado de curso e passei, ipso facto, a pertencer à junta de delegados e o ano 67/68 foi o da preparação das eleições que vieram a ter lugar em 1969, ganhando por uma maioria esmagadora a lista proposta pelo Conselho das Repúblicas.

A vitória desta lista inseria-se no movimento global do fim dos nos sessenta que tivera o seu apogeu no Maio de 68 e nas revoltas estudantis estadunidenses contra a guerra no Vietname.

No caso português, é de salientar, que a revolta estudantil pela liberdade se desenrolava num terreno bem diferente, pois em Portugal o regime não dava qualquer espaço para o exercício das liberdades democráticas e ameaçava com anos de cadeia a quem pusesse em causa a guerra colonial. Visto a esta distância é um verdadeiro contrassenso, mas a verdade é que a loucura brutal do regime foi paga pelos patriotas e democratas portugueses que foram perseguidos, presos, torturados e alguns assassinados.

Quando hoje setores da extrema-direita glorificam o regime salazarento colonial/fascista fazem-no com base numa espécie de amnésia que varre parte da sociedade portuguesa e que tem como objetivo branquear a repressão e o terror do ancient regime derrubado há 50 anos.

 Como explicar a quem não vivenciou que quase todos olhávamos para todos para saber se víamos nesses rostos os informadores/bufos da PIDE?

Toda a vida dos cidadãos que apresentassem sinais de cultura cívica e política era espiolhada pela polícia política.

Andávamos sempre sobressaltados para saber se o fulano que se sentava na mesa ao lado no café era alguém que pretendia ouvir a conversa…

Todos os portugueses que ousassem afirmar-se na defesa das liberdades e da democracia eram invariavelmente seguidos e perseguidos.

Ao referir o que pelo mundo se passava, em termos das revoltas estudantis, vale como uma espécie de termómetro que em certos momentos históricos nos transmitem o sentido da inclinação do ponteiro da História, mesmo que ele só a concretizar-se um pouco mais à frente.

Na Universidade de Coimbra o tempo trazia dentro de si o casulo do novo tempo e daí a adesão dos jovens oriundos da pequena e média burguesia que chegavam para estudar e não se meter em política, acabando por se posicionar voltando as costas à tão desejada submissão secular da maioria das famílias.

Em abril de 1968, a Direção Geral da AAC recém-eleita, em nome dos estudantes da Universidade de Coimbra, pediu a palavra para na inauguração do edifício da nova Faculdade dizer, o que, do seu ponto de vista, era adequado.

O Presidente da Direção pediu a palavra ao Presidente da República que fez um sinal e pouco depois ele e toda a comitiva saíram provavelmente porque os seus ouvidos só podiam ouvir o que constituíam bajulices. Sabiam que iria reclamar a Reforma do Ensino e o direito a participar na vida académica.

Nesse mesmo dia, o Presidente da AAC foi preso e logo instaurados processos disciplinares ao conjunto da Direção. O choque foi tão brutal que se iniciou uma greve às aulas desde o mês de abril e que se estendeu aos exames.

Tudo porque na inauguração de um novo edifício da Faculdade de Ciências, os estudantes quiseram, através do seu representante, usar da palavra nessa cerimónia, tendo a nova construção como destino receber os alunos.

O regime fez tudo o que lhe foi possível para esmagar a rebelião estudantil: processos disciplinares, prisões, expulsões e incorporações compulsivas na tropa. A brutalidade já não era força, antes fraqueza. Esta e outras lutas estudantis e populares muito contribuíram para a sua queda.

Neste percurso cheio de intimidações e violências muitas vezes dava comigo a pensar – valerá a pena?

 A família queria que estudássemos e não nos metêssemos em políticas, deixássemos “isso” para os outro.

Em dois anos vividos ativamente a consciência ditava-me que já não podia fechar os olhos ao que via e sentia. Do fundo dos nossos sentimentos de justiça algo me empurrava.

Fui preso pela PIDE à saída de uma audiência na Reitoria. Um PIDE apontou-me uma pistola e meteu-me num Ford escort vermelho. O mandado de prisão estava no cano da pistola. Era de manhã. Fiquei na sede da Pide em Coimbra e durante a noite transportaram-me a mim e a outros colegas para a prisão de Caxias.

Atravessámos a mata do Estádio Nacional e pouco depois surgiu o forte com um portão enorme e por ele entrámos a caminho do inferno. O que tinha ido para Coimbra estudar e não se meter em política entrava no reino da política do terror.

Tiraram-me o cinto e os atacadores dos sapatos para não me suicidar. Cortaram-me o bigode e o cabelo. O forte estava cheio de presos e ficou-me na memória o silêncio que reinava. O barulho das chaves nos portões. A cela. Não era má. Tinha uma secretária e uma casa de banho com duche. A janela com grades dava para o mar que mal se via. Sentia no nariz o cheiro a iodo. Ali estava. Preso aos 21 anos. Fora eleito para a Direção da AAC, mas o meu nome não fora homologado. Na Torre do Tombo quando consultei os dossiês que sobre mim havia lá descobri que me consideravam um agitador e um terrorista.

Durante a noite ficava acesa uma luz e de x em x horas o carcereiro vinha espreitar para ver se eu lá estava. Confesso que nunca me passou pela cabeça fugir, mas aos guardas isso não lhes passava pela deles.

Uns dias depois, a meio da noite, acordaram-me e mandaram-me vestir e que ia para uma festa. Atravessei parte da cidade e conduziram-me à Rua António Maria Cardoso. A entrada era tenebrosa. Lembro-me de uma escada que podia ser de um filme de terror.

Levaram-me para uma sala pequena. Uma secretária. Uma cadeira. Uma luz ténue e dois ou três Pides. O mais importante e palavroso era o Chefe Capela. Tinha cara de pardal. Que lhe estava a dar muito trabalho e a tirar horas de sono e para quê? Para nada. Ali ou se falava e confessava ou se saía herói estendido com os pés para a frente. Todos tinham devaneios, mas quando chegava aquela hora, percebiam que tudo esbarrava naquela muralha. Nada havia a fazer. Não pediam que concordasse com o regime, mas para quê meter-se em atividades contra o regime? Ainda por cima sabiam que eu era estudante comunista…loucura. Vida estragada.  Ali ia ficar a pé, sem dormir para avivar a memória. E por ali estive não sei ao certo se três dias e quatro noites ou quatro dias e três noites. Lembro-me perfeitamente que os agentes se revezavam de 4 em 4 horas. Lembro-me de um que fazia de mau e outro de bom, de querer sentar-me na cadeira e o mau não deixar e o bom deixar uns minutos. Lembro-me do horror dos minutos, horas e dias e noites sem fim e sem dormir. E de pensar se seria como eles diziam, se me iam deixar assim até cair ou se dizia o que eles queriam que eu confessasse. É uma luta diabólica contra um ser abandonado, humilhado e violentado por dezenas de horas com a tortura do sono. Era a época de Carnaval. Pela cidade havia festas e a gente divertia-se. E eu ali entre quatro paredes a cair de sono aos trambolhões. O que me passava pela cabeça para acabar com o sofrimento, mas nos piores momentos vinha a força e mais um dia ou mais uma noite.

Tudo o que começa acaba e a tortura acabou. Foi a meio da noite. Veio o Chefe Capela dizer-me que ia para Caxias, mas que eles sabiam que eu não era nenhum anjinho como pensava o padre da minha aldeia, o padre Amorim, que pedia para rezar por mim (soube mais tarde) e isso irritava as autoridades e a PIDE.

Numa das noites de transporte da Caxias para a sede da PIDE passava por gente que se divertia, como seria natural. A verdade era que sentia uma espécie de incómodo que se resumia a isto, eu estava ali nas mãos da PIDE e, no entanto, podia estar, como os outros, a divertir-me.

Os ditadores conhecem o medo paralisante que impõe a violência e o terror. O peso dessa força de “gravidade” submete a maioria. É a normalidade sob a brutalidade. Os juízes dos Tribunais que julgavam os presos políticos sabiam bem o quão injustos e violentas eram as leis que com toda a normalidade aplicavam.

Os cidadãos que viam os oposicionistas serem presos e viravam a cara para o lado ou aceleravam o passo agiam com a normalidade instaurada e imposta.

Nestas circunstâncias a maioria tenderá a aceitar o poder instituído, mas haverá sempre os que se não vergam e com a sua luta levam ao desgaste do poder ditatorial, contribuindo para a o seu fim.

Em Portugal foram uma minoria os militares que se organizaram e deram o primeiro passo para derrubar o regime e logo foram seguidos pela população e pelos restantes militares pelos seus pares, tendo muitos “aderido” por receio das consequências.

A mais bela madrugada da nossa História é bem o exemplo de que ela foi urdida no tempo por todos quantos não desistiram e não se dobraram e quando ela explodiu todos a aplaudiram porque a nova normalidade estava a estabelecer-se ou dada como estabelecida.

 Saído de Caxias, de regresso à vida, com a AAC encerrada, no final desse ano fui expulso por um período de um ano e meio da Universidade de Coimbra. O instrutor do processo foi Lucas Pires, escolhido pelo Diretor da Faculdade de Direito, um homem do regime fascista, Afonso Queiró.  Propôs a minha expulsou por um período de 4 anos para ser decidido no Senado, caso contrário no Conselho da Faculdade talvez não passasse a proposta de expulsão. Porquê? Por ter participado numa reunião para apresentar a lista eleitoral para as eleições para os corpos gerentes da AAC, pois, segundo o Diretor da Faculdade, as reuniões estavam proibidas…mesmo havendo eleições e ser necessário apresentar listas.

Na Póvoa de Varzim, na altura do Verão, depois de jantar, no passeio junto ao mar, na Avenida dos Banhos, formava-se uma longa fila de veraneantes que desfilavam para oriente para o ocidente e vice-versa exibindo roupas e joias e paralelamente a este desfile de gente outro de carros fazia o mesmo percurso olhando-se reciprocamente admirando-se ou não.

Era uma exposição ambulatória da pequena e média burguesia do Norte e de Trás-os-Montes que em agosto descia ao mar e se exibia naquilo que era mais visto: vestuário e carros.

De que nos havíamos de lembrar: de fazer um programa de rádio, a que demos o nome de Lumicu, o nome popular de pirilampo que naquele tempo acendiam e apagavam nas calmas noites das aldeias da nossa cidade poveira.

A nossa ideia, minha, Manel Lopes, Quim Casanova, Zé Rui, e outros que não recordo, era fazer entrevistas a personagens populares da cidade, a primeira foi a um ardina, o Chaguinha, e passar música poveira, popular e do Zeca Afonso.

Na Câmara não viram mal no assunto e montámos na instalação sonora onde dominava o Roberto Carlos com o célebre Calhambeque e a Delilah do Tom Jones.

A entrevista do Chaguinha correu muito bem, com ele a garantir que os “amaricanos” não tinham ido à Lua e que era tudo uma treta, uma montagem. 

O problema foi quando passaram as canções do Zeca Afonso. Não escolhemos as mais abertas contra o regime, apenas as mais suaves, mas passaram muito tempo.

A PIDE não dormia e no dia seguinte foi-nos dito que o programa já não iria para o ar. Apagaram a luz ao Lumicu. Mas aos pirilampos, ninguém os apaga, salvo a poluição.

LISBOA

A Liberdade finalmente

Na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa o ambiente era similar. A certa altura agravou-se com a entrada de um corpo de gorilas para assegurar que não haveria qualquer espécie de reunião. Esse corpo de gorilas era composto por comandos que tinham estado na guerra e que devido ao seu poder físico entravam em confronto com os estudantes que apesar da intimidação se reuniam. Atacavam como se fossemos inimigos. Ainda tentámos uma vez, pressionados pelo grupo do MRRP, um confronto, mas era o terreno da provocação e não voltou a suceder.

Quando a polícia de choque perseguia os estudantes na Universidade Clássica corríamos para a Estrada de Benfica onde nessa altura circulavam elétricos o que permitia com meia dúzia de carros impedir a chegada das carrinhas da polícia de choque e assim distribuir panfletos à população.

Dizia-se então que foi por causa dessa escapatório que o governo mandou retirar os carris e acabar assim com os amarelos que tão bem coloriam a comprida Estrada de Benfica. Dizia-se.

Vivia-se com medo. Respirava-se medo. Dormia-se com medo de que nos batessem à porta durante a noite porque a PIDE também tinha medo da luz do dia. Viviam escondidos. Não se sabia quem eram. Desconfiávamos. O medo gerava a desconfiança e desconfiávamos uns dos outros.

Ao sair de casa olhávamos para todos os lados e para dentro dos carros parados para ver se descobríamos o pide de serviço.

Quando ligávamos o telefone, em certas ocasiões, ouvíamos um ruído estranho que ligávamos às escutas da PIDE.

Quando marcávamos uma reunião de camaradas do partido que não tinha mais de 3 para irmos para o local da reunião apanhávamos três transportes diferentes e seguíamos três direções opostas.

O Portugal de Salazar/Caetano era um país submetido por um regime que se mantinha devido ao medo que impunha.

As suas contradições foram-se tornadas tão agudas com as aspirações populares democráticas, com os povos colonizados que haviam de o fazer explodir.

Creio, a título pessoal, que a partir do momento que ganhei consciência da iniquidade do regime tinha duas formas de reagir. Ou ignorava a sua natureza terrorista. Ou levado pelo impulso generoso juvenil não me desligaria da luta por uma universidade e um país democráticos.

O regime tinha consciência que perdera a juventude universitária. Não quer dizer que a grande maioria estivesse pronta para se levantar, mas estava do lado dos dirigentes estudantis que com a sua determinação punham a nu a própria da natureza do sistema.

 Como tantas vezes na História chega o momento em que as contradições atingem tal nível de agudização que as massas estudantis ou populares confiam nas possibilidades de mudar o quotidiano.

É raro, verdade seja dita. Mas o ser raro não quer dizer que não suceda, como se viu e experimentou nas várias crises académicas e nas lutas políticas que levaram ao 25 de Abril.

São estes os momentos raros que vale a pena vivê-los, pois neles sentimo-nos donos do destino. O peso da gravidade do poder já não é capaz de manter anestesiada a vontade de mudar. Explodiram as faíscas que incendeiam a pradaria na linguagem maoista de então. E, na verdade, os cidadãos ainda não têm a força para sair da sua vidinha, mas estão à espera dos mais corajosos.

O regime já só se aguentava pela força da repressão. Já perdera a força que o mantivera, a estabilidade, a paz corporativa, a autoridade como carta do poder, a ausência da disputa política. A guerra colonial isolou ainda mais o regime.

Era aqui neste tempo de opções que tinha de decidir: ou seguir os mandamentos familiares ou voar nas asas do vento da liberdade democrática.

Confesso que o entusiasmo pela participação política passava à frente, embora estudasse o suficiente para passar.

Face ao modo de viver das várias gerações que se vão sucedendo dou comigo a pensar que a geração dos anos setenta do século passado sentiu que estava a mudar a vida, ao contrário de outras gerações que se empenharam a fundo, mas não sentiram em profundidade que tinham na mão a possibilidade real de fazer acontecer o sonho que viviam e que as outras transportaram até àquele momento histórico.

São momentos únicos. Acumulava-se energia libertadora em todos os cantos do Planeta: Maio 68, Woodstock, movimentos pacifistas nos EUA contra a guerra no Vietnam, recrudescimento dos movimentos de libertação nacional nas colónias, onde a juventude tinha um papel determinante, aggiornamento na Igreja católica, convergência da oposição com a luta dos povos de Angola, Guiné, Cabo Verde e Moçambique. O caldo estava ao lume. A tampa ia voar. Não era difícil encarrilar. A consciência ia de mão dada com o próprio tempo. 

É, no entanto, necessário escrever que naquela altura qualquer licenciado tinha emprego garantido para sempre e com ordenado bem acima da média. As profissões que implicam um curso superior não estavam sequer preenchidas, tal era o pequeno número de licenciados.

Neste contexto, do ponto de vista político, o futuro era muito negativo, mas do ponto de vista profissional, tirando o acesso à Administração Pública (o regime controlava e queria continuar a fazê-lo) os licenciados paradoxalmente tinham possibilidades de emprego e com remunerações razoáveis, bem diferentes das de hoje.

Os militares do quadro, os jovens capitães, os trabalhadores que suportavam uma exploração desenfreada, os jovens estudantes cujo futuro estava marcado a negro com as guerras coloniais, tudo convergiu para derrubar o regime conquistar a liberdade e pôr termos à guerra.

Tinham-me dado a notícia que um preso do setor intelectual do partido teria referido o meu nome e daí o aviso para limpar a casa de panfletos e de coisas comprometedoras. A reunião fora no dia 24 de abril. Durou até às 23 h. Vim para casa a pensar no futuro bem sombrio. Voltar a ser preso, ser condenado e não terminaria o curso naquele ano, pois estava no 5º ano de Direito.

Pelas escadas de serviço levei a papelada comprometedora para o telhado da casa, exatamente ao meio onde batiam os telhados das duas casas. Sem ninguém ver. Nem os colegas de casa. Às escuras, sendo o medo de cair menor que o medo de ser preso com aqueles Avantes e Militantes.

 Quando acabei, fui dormir e acordaram-me, batendo à porta com o punho e não à campainha. Julguei que tinha chegado o momento de me levarem para Caxias. Olhei pelo ralo. Não era a PIDE, era o Valadas. Abri a porta. Ele disse-me – Liga a rádio. Ainda ficamos à espera, a desconfiar. A certa altura aquela era de facto a madrugada libertadora. Quando rompia a luz da manhã nas janelas que se abriam não havia medo, nem desconfiança, apenas um sorriso. Tinha chegado finalmente o dia. Tanto sacrifício de tantas gerações valera a pena.

Na primeira segunda-feira a seguir ao 25 de Abril de 1974 havia aula do Professor Cavaleiro Ferreira, o ministro responsável pela introdução das medidas de segurança após os presos terem cumprido a pena, o que significava que a PIDE considerasse, num juízo de prognose, que uma vez cumprida a pena decretada pelo “tribunal” o cidadão iria muito provavelmente continuar a sua atividade política então era-lhe aplicada por esta via uma nova pena. Levando a que às penas judiciais se juntassem estas, o que fazia com que os presos ficassem presos muito mais anos do que a pena a que tinham sido condenados.

Os meus companheiros escolheram-me para no início da aula levantar-me e argumentar que já não podia dar mais aulas na Faculdade, tendo em conta o famigerado passado que levou dezenas de cidadãos a passar anos e anos na prisão, mesmo após terem cumprido a pena.

Confesso que estava um pouco nervoso, mas, quando o enfrentei, vi que ele estava muito mais. Acabei a intervenção e por mais anos que viva não esqueço que todos se levantaram a gritar, O povo unido jamais será vencido.  O Professor saiu. Foi o primeiro saneamento na Faculdade de Direito. O seu afastamento e do Professor Martinez, Diretor da Faculdade eram justíssimos, pois representava o que de pior tivera o regime, as medidas de segurança e a entrada dos gorilas na Faculdade transformando-a numa verdadeira selva. Mais tarde, até o Martinez regressou pela mão de ex-MRPPês. É a vida.

Mesmo passado anos (hoje já não) ainda olhava, à saída de casa, para um lado e para o outro a ver se descobria o que já não existia.

Saborear a liberdade tem um valor incalculável. Não tem preço. A liberdade, tal como a paz, são valores de uma dimensão quase infinita.

Entretanto, a vaga neoliberal veio varrer todo o sistema e transformar a economia numa imensa Bolsa de Valores. A economia transformou-se num enorme Casino com a roleta viciada. Só há lugar para os multibilionários e seus sacerdotes. Na própria U.E o guião é o mesmo el vai rebentando pouco a pouco com a base em que durante décadas assentou o sistema de coesão social de que a CEE era expressão.

Utilizando sofisticadas técnicas de divisão entre jovens e os mais idosos, o sistema conseguiu em parte responsabilizar os mais velhos pela incapacidade de as gerações mais jovens bem qualificadas não conseguirem ter acesso a vida decente.

Em liberdade e em paz poderemos sempre ter a possibilidade de escolher o futuro por muito complexos difíceis que sejam os problemas.

Foi o 25 de Abril que trouxe a amada liberdade. São muitos, e alguns graves, os problemas que o país atravessa. Há até perda de confiança quanto ao futuro. Há desespero. Há incapacidades governamentais e injustiças agudas. Há portugueses a viver mal. Há descrença a substituir a esperança. Há mal-estar.

Há, no entanto, quem saiba distinguir entre o que está mal e a possibilidade de resolver problemas. E aí está a liberdade. É ela que nos pode devolver a confiança no nosso futuro coletivo. É a liberdade que nos irá permitir transformar as nossas vidas para serem desfrutadas com decência.

Sei que a liberdade pode ser oca, vazia, mas é sempre a liberdade e meio caminho andado para a encher com os direitos modernos, sociais, culturais, económicos e ambientais. Sem ela, os direitos ficam mais longe.  

O que foi, já passou. Mas a memória da força do passado contém energias que a juntar à das lutas por esses direitos dar-nos-ão força de que precisamos para construir um mundo melhor, o velho sonho dos humanos. Venham mais 50 anos.

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MARK RUTTE

Um caixeiro cangalheiro é só um caixeiro cangalheiro

O senhor Mark Rutte é um respeitável cidadão neerlandês. Foi primeiro-ministro e não é conhecido se andava de bicicleta nas ruas que circundam os canais de Amesterdão. Nem se passava pelas ruas onde há mulheres expostas que, de acordo com os bons princípios morais luteranos, um dia serão comidas pelas chamas do inferno depois de serem consumidas pelos seus frequentadores nas zonas red light.

São os bons negócios dos bons burgueses que tranquilamente nas suas moradias cheias de rendinhas nas janelas aguardam a engorda das contas e a chamada final para o Céu dos homens de bem.

Mark Rutte é o Secretário-Geral da OTAN, seu funcionário e corre os quatro cantos do mundo a propagandear o que o patrão da OTAN, os EUA, manda.

Não exerce qualquer cargo cuja representação provenha de uma legitimidade eleitoral. É um cargo para o qual os EUA têm o poder da decisão.

É uma espécie de caixeiro-viajante que vai de Helsínquia a Lisboa e a Istambul a vender gastos em armamento. Como se sabe, a União Europeia não tem capacidade para produzir em grande escala armamento, como se está vendo na guerra da Ucrânia. O senhor Rutte, a mando do senhor Donal Trump, anda de capital em capital a tentar impor a compra aos EUA do armamento que a UE não produz para MAGA( Make America Great Again), ameaçando deixar a UE sem chapéu.

Convém ter presente que em tempos houve um outro neerlandês que descobriu que os portugueses gastavam demais por causa das despesas em copos e mulheres. Esta costela luterana do pecado com as mulheres e copos rescende a pura hipocrisia.

O senhor Rutte chegou a Lisboa no início da semana. Foi recebido pelas mais altas instâncias do Reino onde reina o Presidente Marcelo e o senhor Montenegro. Bom caixeiro logo apontou o dedo aos bombardeiros e aos submarinos russos, coisa que o senhor almirante Melo, quase Presidente, já avistara por baixo da Gronelândia e dera o alarme do que mais importante que os gastos sociais eram os gastos com a compra de armamento.

O senhor Rutte fez-me lembrar a gloriosa luta dos estudantes da Academia de Coimbra em 1969 contra a bruta, cruel e estúpida ditadura fascista. A certa altura os Ministros da Educação e do Interior resolveram divulgar uma nota chamando a atenção para os agitadores estrangeiros que a soldo de Moscovo dirigiam a rebelião…E logo a poderosa imaginação juvenil divulgou os agentes escondidos nas sargetas das ruas a dirigir a rebelião.

Sessenta e cinco anos depois veio a Lisboa o senhor Rutte, bom caixeiro de venda de armas, anunciar a passagem dos bombardeiros e dos submarinos imaginários, nunca os verdadeiros cargueiros com armas para o carniceiro de Gaza, e assim carregar no aumento de compras aos EUA.

Curiosamente Montenegro respondeu ao cangalheiro da indústria da morte que as despesas sociais não poderiam ser cortadas ao contrário do que dissera o senhor almirante. Se for para cumprir, Portugal não se deixará governar por um homem que nada mais é que um alto funcionário da OTAN. Merecendo Montenegro uma chapelada.

OS SORRISOS NO MEIO DA DESGRAÇA EM GAZA

 Um rapto é, em termos políticos, um ato de terror. A ocupação de um território por outro país, contra o direito internacional que reconhece a independência do território é terrorismo de Estado, o mais grave terrorismo.

Desde 1967 que Israel ocupa a Cisjordânia, a Faixa de Gaza e Jerusalém Leste contra a vontade do povo palestiniano e contra a Resolução 242 das Nações Unidas.

Para manter a ocupação os governos israelitas oprimem e reprimem violentamente todo o povo palestiniano: crianças, mulheres, idosos, homens e jovens. Já assassinaram mais de cinquenta mil palestinianos. Têm nas prisões mais de vinte mil presos. Expulsam os donos das terras e estabelecem novos colonatos contra a lei internacional que os considera ilegais.

Todas as tentativas, levadas a cabo pela OLP para resolver por via pacífica o fim da ocupação, resultaram em novas medidas repressivas, não deixando aos palestinianos outra via que não seja a das forças das armas contra as armas dos ocupantes.

A um patriota palestiniano nada mais resta para ver a sua terra livre que pegar em armas para acabar com a ocupação depois de esgotarem todas as ouras vias.

O Hamas, grupo islamista, menos radical do que o grupo que o Ocidente colocou no poder na Síria, é a face da resistência dos palestinianos.

Netanyahu prometeu exterminar o Hamas devido ao ataque de 7 de novembro que levou à morte de cerca de mil e quatrocentos israelitas.

Desde então até hoje mais de 50 000 palestinianos (a maioria crianças, mulheres e idosos) foram mortos pelos bombardeamentos brutais que ultrapassam em termos de explosivos o poder das duas bombas atómicas de Nagasaki e Hiroshima. Gaza está destruída. 90% da população não tem comida, nem habitação, nem cuidados médicos devido à política de terror de Netanyahu.

Hoje foram libertadas mais 4 reféns e 200 presos palestinianos, alguns condenados a prisão perpétuas, outros, crianças, por atirarem pedras aos soldados da ocupação.

Há pouco mais de 2000 anos eram os judeus que se revoltavam contra a ocupação romana da região. Os romanos acabaram por largar a região, não obstante a mais cruel repressão contra os revoltosos. A crucificação de Cristo enquadra-se num cenário mais largo de choque entre os daquele território e os ocupantes, mesmo que, como sempre, os ocupantes recrutassem entre os ocupados quem os apoiasse.

Israel é claramente uma criação ocidental e conta com o seu apoio, sem o qual não podiam manter a ocupação. Os EUA, a União Europeia, mesmo depois da política genocida de Netanyahu continuam a apoiar o seu governo.

Netanyahu prometeu exterminar o Hamas e teve o apoio ocidental, incluindo de António Costa.

O “invencível” exército israelita afinal não foi capaz de exterminar o Hamas que se apresentou ao mundo na libertação dos reféns como uma organização disciplinada, bem equipada e capaz de fazer cumprir os acordos do cessar-fogo, o que muito incomodou a narrativa ocidental quanto à capacidade daquela força de resistência.

O incómodo era tão gritante que não aguentou o sorriso das militares israelitas raptadas e agora libertadas. Segundo os preconceitos da narrativa ocidental, uma espécie de realidade paralela, aquelas mulheres nunca poderiam sorrir, mesmo quando passaram a ver a luz do dia, o que não deviam ver desde 7 de outubro de 2023.

Houve mesmo quem dissesse na elucubração raivosa pelo espetáculo tremendo montado pelo Hamas que elas foram obrigadas a sorrir…  Como? Faria parte do acordo que tinham de sorrir?

Durante séculos as mulheres foram proibidas de rir e os homens não o deviam fazer. Só os tolos se riam. O tolo na Barca do Inferno de Gil Vicente ri perdidamente. A Igreja argumentava que não havia imagens de Cristo a rir. …”o homem medieval tentou evitar juízos de aprovação do riso, pelo que que  risus se converteu em subrisus , que, sendo basicamente rir às escondidas assumiu a forma mais elegante e discreta de acolher e partilhar a alegria – de sonrisar”… (in O Riso , Teorização. Leituras. Realizações, Coord, Elisa Nunes Esteves, Isabel Barros Dias, Margarida Reffóios, pag-38, Caleidoscópio).

Daqui o sorriso, ou seja, o riso discreto. Só no século XX com a descoberta da rádio e da TV as mulheres ganharam o direito ao sorriso e a rir, mesmo com avisos de que se não deviam rir por qualquer coisa.

Ora bem, as reféns, muito humanamente não puderem conter a alegria de se verem livres e sorriram como é lógico, racional e, a todas as luzes, evidente. Pois, houve quem descobrisse contradição entre a postura corporal e os sorrisos. Há nestes enxames de empregados dos donos pequenos netaniauzinhos que só esperam poder evidenciá-los para se mostrarem dignos do soldo que recebem.

Aqueles sorrisos não eram mais nem menos que a certeza de que a luz que estavam a ver as iluminava e já não padeceriam no escuro, pois elas faziam parte como militares da guerra que opõe o exército de ocupação à lutas dos ocupados.

Ali se libertavam quatro. Noutro lugar 200 palestinianos. Alguns menores por atirarem pedras a tanques.

No entanto, o mundo comunicacional tinha de olhar para um helicóptero que supostamente transportava as reféns. Quase não se falou da ocupação e dos 50 000 mortos palestinianos desde 7 de outubro.

Nas reportagens não havia truque que escondesse esta verdade crua e nua: goste-se ou não o Hamas ao cabo deste tempo de bombardeamentos genocidas ganhou mais força na população. É esse o azedume de muita gente que não quer dar as notícias que são a notícia, a força do Hamas.

ONDE JÁ CHEGOU ANTÓNIO COSTA

António Costa, enquanto Primeiro-Ministro de Portugal, declarou em 2023/12/11, que defende em relação ao conflito do Médio-Oriente a existência de dois Estados …com o Hamas devidamente exterminado…in “Observador”

Com o recente cessar-fogo e libertação de 3 reféns israelitas e 90 prisioneiros palestinianos, maioritariamente mulheres, crianças e idosos, agora na qualidade de Presidente do Conselho Europeu, António Costa saudou a libertação dos reféns e pediu pausas humanitárias a fim de fazer chegar ajuda humanitária porque a Alemanha se opõe ao termo cessar-fogo.

Voltou a frisar, na esteira da Sra. Úrsula que Israel tem direito a defender-se, o que já causou a morte a cerca de pelo menos 47 000 palestinianos e à imposição de um bloqueio total a Gaza.

António Costa não é um principiante, tem uma rodagem impressionante. Conhece o poder das palavras. Sabe que a palavra devidamente tem uma medida que não deixa margem para dúvida quanto ao extermínio. Os nazis queriam exterminar os judeus. Pelos vistos, Costa acha normal exterminar o Hamas para se encontrar a tal solução.

Só que o Hamas não foi exterminado apesar de todo o horror e dos brutais bombardeamentos a que os palestinianos foram sujeitos. O Hamas, goste-se ou não, representa em Gaza a resistência do povo palestiniano.

Não são os EUA e a UE quem escolhe os representantes palestinianos, nem estes os representantes israelitas.

Costa tem um grande cargo, mas atenção quem vestir um fato que se ajeita ao corpo e se sente bem significa que aquilo que diz e aquilo que faz é o que fica para a História.

E ficará para a História por ter optado pelo lado errado. No Médio-Oriente quem viola a cada segundo o direito internacional é Israel. O ocupante é Israel. As Resoluções da ONU são claras.

Costa saudou e bem a libertação dos reféns, mas não teve uma palavra de saudação para as dezenas de milhar de palestinianos presos por lutarem pela sua pátria livre da ocupação.  Não são os ocupantes que escolhem os “libertadores”. São obra de cada povo.

Dá pena ver A. Costa cumprir este papel. Se calhar ainda não reparou que o cessar-fogo nada tem a ver com a UE, sendo o conflito nas costas da Europa. A UE afunda-se na sua irrelevância. Que tristeza.

NÃO SERÁ MAIS UM SINAL DE DECADÊNCIA?

Quando Trump se sentar na Sala Oval, na Casa Branca, em Washington, terá à sua mesa o homem mais rico do mundo e um conjunto de plutocratas cujas virtudes conhecidas são a habilidade para enriquecer como nunca visto. Só Musk vale1,5 PIB de Portugal.

No seu conjunto apostaram muitas centenas de milhões em donativos a Trump. Já recuperaram. Musk, após a vitória de Trump, somou à sua fortuna 120.000 milhões de dólares a qual atinge 450.000 milhões de dólares; Mark Zuckerberg 90.000 milhões e Jeff Bezos 67.000 milhões.

Trump , na Florida, no Mar-a-Largo, estendeu tapetes vermelhos para receber os seus novos governantes, distinguindo-se de entre eles o multibilionário Musk cuja missão é, no plano interno, entregar aos privados o que irá tirar aos serviços públicos e, no plano externo, animar a extrema-direita a roçar o fascismo. Tenta com o seu Himalaia de dinheiro e com os seus donativos replicar Trumps por todo o mundo.  

Os CEO da Goldman Sachs, Ford, General Motors, Ted Sarandos da Netflix, Sam Atman da AI, Tim Cook da Apple o do Tik-Tok por lá passaram a cumprir o seu dever de dar milhões para a grande festa da entronização de Trump e, em troca, receber aquilo a que têm direito nesta nova versão do capitalismo pós crise 2008.

 Michel de Montaigne, nos Ensaios II, na edição E-Primatur/Letras Errantes, pag 24, regista que na Antiguidade …os habitantes de Paros enviados para reformar os Milésios…ao visitarem a ilha, tomaram nota das terras mais bem cultivadas e das casas de campo mais bem geridas; depois de registarem o nome dos seus proprietários nomearam-nos seus governadores e magistrados… Foi um desastre. Quem zela pelos seus assuntos privados não é seguro que o faça pelos assuntos públicos. Pela simples razão da natural contradição entre os interesses privados dos plutocratas e o interesse público de todos os cidadãos.

Trata-se de um governo que visa obter a eliminação de quaisquer entraves a sua atividade predadora. É de prever choques entre o velho capitalismo que sempre esteve ligado aos governos e estes novos capitalistas que no primeiro mandato de Trump se apresentaram fora da sua influência e agora mudaram de campo.

Musk continua a dirigir a Tesla, a SpaceX, a Starlink e a Neuralink e acumula o posto de sanear os serviços da Administração pública, como se não fosse incompatível com os seus interesses nas encomendas do Pentágono e das suas empresas.

Para Trump ser muitíssimo rico é uma marca de excelência e o bastante para lhe entregar importantes setores das atividades estatais desde a saúde a sanitárias, onde Vivek Ramasway, ajudante de Musk no Doge- Departamento de Eficiência governamental, é perito devido à sua fortuna feita nestas áreas.

Nos EUA e talvez pela primeira em toda a História a esmagadora maioria dos novos governantes são escolhidos exclusivamente pelo peso do seu poder económico. Um governo de multibilionários ao seu exclusivo serviço.  Não será mais um sinal de decadência? Não é a democracia o governo do povo, para o povo e pelo povo?

https://www.publico.pt/2025/01/13/opiniao/opiniao/nao-sera-sinal-decadencia-2118628

Peripécias do novo banqueiro Durão Barroso

O novo banqueiro, Presidente Não-Executivo da Goldman Sachs, José Manuel Durão Barroso, veio a público no Expresso de 10/01/2025 opinar sobre o papel da Europa após a eleição de Trump nos EUA.

Em sintonia com o CEO da Goldman Sachs que foi, como muitos outros CEO – General Motors, Ford, Tik-Tok, Apple, Mark Zukerberg, Jeff Bezos- entre tantos outros, a Mar-a-Largo levar as suas doações para a entronização de Trump, o nosso Zé Manel não podia ficar nas encolhas. Se os outros mudaram de campo, pois ala que se faz tarde.

Durão Barroso, cherne de águas profundas e perdigueiro de raça fina, sabe bem o que vale estar alinhado com quem manda.

Já assim foi em 2003 aquando da invasão do Iraque. Solenemente jurou que o Iraque tinha armas de destruição massiva, o que ele sabia ser redondamente falso. Mas levar à morte de meio milhão de iraquianos e à destruição do Iraque não é significativo, nem comparável com a ordem internacional com regras onde se aplicam sanções ao funcionários do Tribunal Penal Internacional por considerar criminoso o carniceiro de Telavive, como a recente aprovação do projeto de lei da Câmara dos Representantes, na quinta-feira passada, como dá notícia o New York Times..

Detenhamo-nos no que veio arengar o novo banqueiro, outrora dirigente do MRPP, defensor que o vento Leste haveria de varrer a burguesia e o PCP de Álvaro Barreirinhas Cunhal, graças ao marxismo-leninismo-maoista. Sim, estamos diante de uma personagem que ora se lança para o fundo dos mares, seguindo o cherne, ora voa para onde os ventos do poder sopram como os da águia imperial.

Então, a Europa tem de ir a correr comprar armas aos EUA para fazer frente à Rússia de Putin, sendo ele o fulano que melhor o conhece…Ele não diz exatamente assim, mas é assim que ele diz, pois, ao alegar que temos de fazer frente à Rússia e aumentar as despesas militares para 4 ou 5 % é claro que a Europa não o pode fazer, restando-lhe, como pretende Trump e Cª, que as comprem ao Pentágono. Mais, seguindo os ditames do velho Império romano defende o banqueiro que se queremos paz temos de nos armar…que como se sabe é a fórmula que nos leva direitinhos para a guerra.

O realinhamento do CEO da Golman Sachs com Trump no tapete vermelho na Florida, em Mar-a-Largo propriedade do multibilionário, que se sublevou contra os resultados eleitorais de há quatro anos e que que proclamou nestas eleições que se não ganhasse haveria um mar de sangue, o ora condenado por fraude fiscal, a propósito do serviço de uma prostituta, não deve ter passado desapercebido a Durão Barroso. Toda a sua carreira o comprova. Ele tem o pedigri dos melhores narizes. Ele sabe “parar”. Sabe cheirar, ver e calcular o salto e o que deve fazer em cada momento.

Este é o momento Trump bem rodeado pelos mais ricos e poderosos do mundo. Se é o momento dos homens que teriam de ter milhares de vidas para gastarem o que têm, na sua lógica o seu momento é agora, sempre na vanguarda.

O novo banqueiro nunca falha. Os EUA vão aplicar novas taxas às exportações europeias e até quiçá lançar uma OPA com traços militares sobre a Gronelândia; é preciso comprar armas aos EUA e partir para o desafio, diz o Zé Manel. Bravo. No fundo, bem no fundo, parece que o problema é mesmo o vento que sopra de Leste, designadamente da China. Já não será a faísca a incendiar a pradaria. Apenas a natural mudança no mundo, sim o Atlântico já não chega para conter o Pacífico. Até lá…em Gaza os mortos são mais de setenta mil, a grande maioria crianças e mulheres. Sim! Em nome dos valores liberais. Amen.